sexta-feira, 15 de agosto de 2014

As guerras que nos rodeam

Neste Agosto fresco e regado, vivemos um mês bem quente, com guerras que começam no Ébola e acabam no PS passando pelo Constitucional, por Israel, Iraque e Ucrânia.

A guerra do Ébola está muito difícil. 
Não podemos entrar em pânico sempre que uma doença mata, algures no mundo, 100 ou 200 pessoas. Mas numa doença em que 90% das pessoas morrem, temos sempre que estar atentos. No actual surto de Ébola as coisas estão-se a descontrolar. 

Há que ter pensamento positivo.
Mas não podemos desanimar.
Primeiro, o vírus do Ébola "sabe" que, para sobreviver, não pode matar todas as pessoas. 
Os vírus são como uma chave que tem que encaixar no DNA da sua vítima. Como as pessoas são diferentes (existe diversidade genética), o vírus não consegue encaixar em todas as pessoas. Por isso é que, por exemplo, nem todas as pessoas são infectadas pela gripe e o efeito da doença é maior numas pessoas que noutras. 
No caso do Ébola, os dados passados mostram uma mortalidade de 66% (muito menos que os 90% que eu costumo anunciar) e não sabemos que percentagem das pessoas é imune à doença (que até poderá ser elevada). Os dados também mostram que é possível controlar os surtos. Nos 17 maiores que já aconteceram, só foram contaminadas, em média, 141 pessoas. 
Olhando para os dados passados, podemos ficar descansados (ver, Quadro 1). 

Ano País Casos Mortos
1976  Zaire 318 280
1976  Sudan 284 151
1979  Sudan 34 22
1994  Gabon 52 31
1995  Zaire 315 250
1996  Gabon 37 21
1996  Gabon 60 45
2000  Uganda 425 224
2001  Gabon 122 96
2002  Congo 143 128
2003  Congo 35 29
2004  Sudan 17 7
2007  Zaire* 264 187
2007  Uganda 149 37
2008  Zaire* 32 14
2012  Uganda 24 17
2012  Zaire* 77 36
  Média 140,5 92,6
  Mortalidade   66%
Quadro 1 - Número de contaminados e mortos nas 17 maiores ocorrências de Ébola (ver, *o Zaire chama-se agora RD Congo) 

E no pior dos cenários, termina o "aquecimento global".
Mesmo que aconteça a pior dos cenários (toda a gente ficar contaminada e a mortalidade ser de 90%),  ainda sobreviverão 750 milhões de pessoas que são mais que suficientes para continuar com a nossa espécie para a frente. Assim, não é desta que a humanidade se vai extinguir. E as florestas vão crescer, os oceanos ficarão novamente povoados de bacalhau extra-grandes e as emissões de CO2 vão diminuir drasticamente e as centrais nucleares vão encerrar todas. 

E se fossemos todos iguais?
Já estão a ver o problema da "pureza étnica" preconizada pelo nazismo. É que, quando viesse uma doença destas, morria toda a gente. Uma espécie mesmo que tenha muitos indivíduos, se tiver baixa diversidade genética (ter havido, algures no passado, menos de 100 indivíduos) está condenada à extinção. 

E será que o Ébola está controlado?
O problema agora é que já temos mais de 2000 casos, 15 vezes o valor médio observado no passado, e a mortalidade aproxima-se dos 90%, muito acima da média do passado (ver, Fig. 2).
Para sabermos se o surto está controlado temos que encaixar os dados disponíveis no modelo de difusão que é o aplicável às epidemias.
Neste modelo exponencial o número de casos infectados aumenta a uma taxa que é variável. Na fase inicial, de instalação da doença, a taxa de crescimento é pequena e vai aumentando, depois há um período de crescimento descontrolado (a taxa constante) até que chega ao ponto de inflexão, a partir do qual a doença se considera controlada. Se daqui a 5 anos colocarmos os dados num gráfico em escala logarítmica, iremos ver um S (ver, Fig. 1). A questão que temos que saber é em que parte do gráfico estamos.

Fig. 1 - Modelo de difusão do Ébola

É preciso ajustar o modelo aos dados do Ébola.
Existem dados disponíveis desde o dia 25 de Março 2014 até ao dia ao dia 11 de Agosto 2014 (ver, actualizações). Primeiro, este surto é diferente em magnitude dos verificados no passado porque, houve encobrimento. Sabe-se hoje que o primeiro caso surgiu na Guiné Conacri no dia 9 de Dezembro de 2013 mas só passados 106 dias, no dia 25 de Março de 2014 é que foi tornado público, quando já havia 86 casos e 59 mortes. Assim, em vez de ser preciso conter um foco, foi preciso fazer face a 86 focos. 
Depois, em princípios de Abril foi possível atingir o ponto de inflexão pelo que, em meados de Maio, parecia que o surto estava totalmente dominado com um total de 270 casos. O problema é que foi sol de pouca dura pois, de repente, o Ébola entrou numa nova fase de expansão descontrolada . Olhando agora para os dados, não se vê nenhum ponto de inflexão pelo que há qualquer dúvida de que a doença está descontrolada (ver, Fig. 2). 

Fig. 2 - Número de contaminados com Ébola (ver, actualizações) => está descontrolado.

Quando teremos outro ponto de inflexão?
Muitas pessoas estão a lutar para que seja conseguido o mais rapidamente possível mas nunca se sabe quando o conseguirão. As notícias falam, na melhor dos cenários, que será lá para o fim do ano. 
Entretanto, cada dia, o número de pessoas infectadas aumenta 2,5% o que traduz que, enquanto não se atingir o ponto de inflexão, cada mês mais que duplica o número de contaminados. 

Os especialistas já falam que este surto de Ébola pode matar um milhão de pessoas.
Se não se conseguir inflectir a tendência, no final de 2014 teremos 65 mil contaminados e, em meados de 2015, já teremos 6 milhões de contaminados. E, ainda resulta do modelo de difusão que, depois de atingir o ponto de inflexão, ainda muitas pessoas serão infectadas. 
Se o descontrole continuar até meados de 2015, teremos 10 milhões de mortos, mais que todas as guerras que aconteceram desde 1945.

Mas não é muito trágico.
Em África há cerca de 1000 milhões de pessoas e em 1600 havia 116 milhões. 
Se o Ébora ficar apenas em África, não será muito grave (para nós) pois apenas fará a população africana voltar aos valores da época dos descobrimentos. 
Moçambique voltará aos 2 milhões e Angola aos 1,5 milhões da época dos descobrimentos.
Vamos a ver no que dá. 

Fig. 3 - Vai ser uma pena o Ébola levar-te mas, temos que ter paciência

A guerra do PS.
Dizem os especialista que não se conseguem ganhar guerras com apenas bombardeamento aéreo porque as pessoas escondem-se. Para os tirar dos buracos é preciso ter "cães" no terreno. 
É exactamente isso que se está a passar no PS em que o "cão" do Costa é o Seguro e o "cão" do Seguro é o Costa. 
Cada um obriga o outro a revelar quais são as suas estratégias de governação e, afinal, são um manado de nada.

"Precisamos de austeridade inteligente".
É a frase mais vazia de conteúdo que pode um burro imaginar.
Afinal vão "vamos fazer tudo que o Passos faz mas de forma inteligente".
Ao menos isso, de forma inteligente.

Fig. 4 - A"austeridade inteligente" aplicada pelo socialista Holland à França "apenas" reduziu o crescimento económico a 1/3 do que era no tempo da "austeridade estúpida" do "neo-liberal" Sarkozy.

A guerra do Constitucional.
Em 2011 eu escrevi que era impossível diminuir a despesa pública. Que, na melhor das hipóteses, o Passos Coelho iria mantê-la constante. E parece que vai ser esse o caso. 
Mas também é um bocado de teimosia. 

O Constitucional está como eu.
Tem que haver uma mexida nas pensões que torne mais semelhantes as reformas do passado com as reformas que recebem as pessoas que se reformam hoje. 
Não faz qualquer sentido ter duas pessoas que começaram a trabalhar exactamente no mesmo dia e, porque a pessoa A se aposentado em 2000 e a pessoa B fez o sacrifício de trabalhar mais 14 anos e recebeu menos 14 anos de pensão, a pessoa B ficar a receber uma pensão muito menor que a pessoa A. 
O Constitucional chumbou os cortes nas pensões porque diz que esta diferença tem que ser corrigida. 
Só em 2014 as "novas reformas" levaram um corte de 10% e as outras ficaram na mesma. 

Mas ainda vou falar da guerra em Israel.
Vamos imaginar uma economia onde existe uma grande empresa e várias pequenas em que o custo de produção da empresa grande é 0.45€/u. e a das pequenas é de 0.50€/u.
Em termos de lucro, o óptimo global será que todas cobrem um preço como se fossem monopolistas, vamos imaginar que esse preço é de 1.00€/u.
O problema desta estratégia é que, se uma das pequenas empresas diminuir o preço para 0.99€/u., fica com os clientes (quase) todos. Seremos então levados a pensar que a grande empresa tem que descer o preço para 0.99€/u. e que, continuando a guerra de descontos, vamos acabar com um preço pouco acima dos 0.50€/u, com lucros esmagados.

O que é que isto terá a ver com a guerra?
É que, sempre que uma pequena empresa descer o preço (para 0.99€/u.), a grande empresa faz uma promoção em que desce o seu preço "50% em cartão" (para 0.50€/u.). 
Os clientes sabendo disto, quando veem que uma pequena empresa está a fazer uma promoção, não compra porque sabe que na empresa terá no dia seguinte "50% de desconto em cartão".
A pequena empresa aprende rapidamente que se afixar um preço abaixo do preço de monopolista, não vende nada.

Israel está a explorar esta mesma estratégia.
Em 12 de Julho de 2006 Israel sofreu uma pequena invasão do Hezebola vinda do Líbano que matou 3 militares, feriu 2 e capturou 2. Israel atacou com bombardiamento de artilharia pesada e aéreo as zonas controladas pelo Hezebola. No final, no Líbano morreram 1200 pessoas (e 157 israelitas, uma relação de 7,6 para 1) e houve enorme destruição de infraestruturas.
Desde essa altura, nunca mais houve ataques a partir do Sul do Líbano, importantes, e sempre que é disparado um tiro, Israel retalia com bombardeamento de artilharia.

Na Faixa de Gaza aconteceu o mesmo. 
Em 30 de Junho são encontrados mortos os 3 jovens raptados. 
Começaram aí "pequenas operações" e a serem disparados rockets de Gaza.
No dia 8 de Julho Israel começa os bombardeamentos na Faixa de Gaza.
No final, morreram 2000 pessoas na Faixa de Gaza e 67 israelitas (uma relação de 30 para 1).
Agora, sempre que é disparado um rocket, Israel bombardeia um sítio qualquer.
O mais certo é que não haja mais ataques a partir da Faixa de Gaza.

Iraque e Ucrânia.
Eu defendo que cada povo deve ter o seu país. Defendo que os países devem ser formados por uma grande maioria de pessoas que partilhem a mesma cultura. E se 25% dos países do Mundo têm menos de 1,5 milhões de habitantes, há muitos povos perdidos por esse mundo fora que também deveriam ter um país.
Eu defendo que os 650 mil Yazidis, os 1,5 milhões de cristãos, os 6 milhões de Curdos do norte do Iraque e os 3 milhões da Síria, devem formar um país. 
Depois, quando a Turquia for uma democracia de facto, e o Irão se democratizar, o Curdistão deve unificar-se num país que terá 40 milhões de pessoas.
40 milhões é um povo muito grande que quer ter um país e que não os deixam.
Desapareciam 90% dos problemas da zona.

A Rússia deveria negociar. 
Também acho que a fronteira entre a Ucrânia e a Rússia devia ser ligeiramente alterada. Mas essa alteração deveria ser negociada e não ser um acto de guerra como aconteceu na Crimeia.
Por exemplo, a Ucrânia cedia à Rússia a Crimeia e mais uns terrotoriozitos e a Rússia fornecia à Ucrânia gás natural a um preço baixo durante 50 anos. 
O gás natural russo tem que passar pela Ucrânia para chegar à Europa pelo que é um monopólio bilateral que não tem solução. A Ucrânia precisa de gás.
Resolviam-se vários problemas com uma conversinha.
Pena o Putin sonhar que é chefe de uma superpotência.

Fig. 5 - Os tubos do gás natural russo passam pela Ucrânia porque foram feitos no tempo da URSS e os polacos odeiam os russos.

Pedro Cosme Costa Vieira.

3 comentários:

Pedro Alexandre disse...

Caro Professor,

Não concordo com o Professor quando diz que o TC rejeitou o corte nas pensões, ou melhor rejeitou a contribuição de solidariedade, porque as novas reformas e mais elevadas tiveram cortes de 10%.

O corte das reformas foi para todos, os que recebem há 1, 2 ou 20 anos.

O TC não quer é uma reforma do sistema feita pelo PSD e CDS, e se for feita será chumbada novamente, porque essa gente é xuxa e parcial, e tem uma boa reforma à sua espera...

Eles julgam é que a reforma do sistema de pensões é feita é ideologia, mas é feita porque não há mesmo outra hipótese, parece que a economia não tem como as pagar...

Eu se fosse o Passos Coelho estava igual, não faz sentido um país fazer uma reforma do sistema sem cortes reais nas pensões.

Podem dizer que fere o princípio da confiança, é verdade, mas muitas dessas reformas são do setor público (e dos políticos) e muitas são superiores aos descontos, que nunca foram os descontos reais, mas pronto, isso já é outra conversa que os esquerdistas não falam.

Cumps

Portuendes disse...

Estou com o Pedro Alexandre: o TC não parece ser fiável pois, de cada vez que enuncia um acórdão invoca lógica diferente da anterior (muito vezes totalmente oposta), pelo que o facto de ter, desta vez, atentado às diferenças entre reformados pré e pós 2014, não significa que, se o governo quiser cortar apenas as pré-2014 (ou pré-2008) o TC não recuse tal corte sob o princípio da igualdade e blá-blá-blá... Não adianta tentar contra o TC quando este tem a atitude que tem demonstrado.

Pedro Alexandre disse...

Caro Portuendes,

Sim mas eu expressei-me mal, quando me referi à contribuição de solidariedade queria referir-me à CES, que o PS de Seguro já disse que vai remover (anedota do ano).

A CES de carácter permanente, apesar de tudo é mais justa e menos austera que a anterior contribuição de solidariedade, que o PS fez questão de criar.

Só os xuxas é que acham que a economia cresce com endividamento externo, perda de competitividade e produtividade.

Felizmente o povinho tem cabeça e os xuxas e os seus 15 anos de guterrismo socrático já acabaram, xuxialismo não funciona ponto final parágrafo.

Cumps

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