sexta-feira, 1 de agosto de 2014

O número 3577

Um prejuizo de 3577 milhões de euros é uma coisa muito importante. 

Esta soma, imaginando tudo em notas de 5€, corresponde a qualquer coisa como 425 toneladas de notas (uma nota de 5€ pesa 0,6 g). 
Para assaltar um banco e levar esta soma precisaríamos de 17  camiões TIR cheinhos. 
Dividindo este prejuízo por cada um dos 4,5 milhões portugueses que temos empregado, teríamos que pagar 66€/mês, durante um ano. 
Mas, apesar de ser muito grande, isto é apenas uma parte das perdas do Grupo Espírito Santo. Outras perdas vão ser contabilizadas, por exemplo, na Portugal Telecom. 
Estas perdas tiveram um impacto imediato na vida das pessoas que colocaram as suas poupanças em acções dos grupos económicos expostos ao Grupo Espírito Santo. Por exemplo, em 1/1/2014 a cotação do Banco Espírito Santo era de 1,05€/acção e hoje andou nos 0,10€/acção. A cotação da Portugal Telecom era de 3,20€/ acção e hoje está nos 1,60€/acção. 
O BES atingiu uma cotação máxima de 17,32€/acção (Julho 2007). 
Uma pessoa muito rica porque tinha, em Julho de 2007, 10 milhões € em acções do BES, hoje terá 60 mil € (vou-me esquecer dos direitos dos aumentos de capital). Hoje tem 0,5% da riqueza que tinha em Julho de 2007, perdeu 99,5% da sua riqueza.
Se o Grupo Espirito Santo se endividou dando como garantias a sua posição no BES que valia qualquer coisa como 2000 milhões€, hoje só tem 12 milhões e deve, à sua conta, 2000 milhões €.

Já não podemos acreditar que o espírito-santo nos vai salvar

Será que vamos ter que pagar este buraco?
Directamente como pagantes de impostos, não mas a descoberta desta "perda de capital" vai ter impacto na economia, com empresas a falir e a redimensionar as suas operações o que causará redução da receita fiscal que precisaremos de tapar. Também vai causar desemprego. 
Podemos ter a certeza que estas perdas vão ser canalizadas pela economia e acabarão por cair, mais nuns que noutros, em cima de todos nós. 
Apesar de sermos invejosos, teria sido muito melhor que o BES tivesse anunciado lucros em Angola de 3577 milhões de euros. Sempre seriam uns 700 milhões € de IRC a entrar nos cofres do Estado. 

Vamos ver a minha lógica.
Como pessoas pagamos impostos, estou-me a lembrar do IRS, IVA, TSU, IMI, selo, produtos petrolíferos e tabaco. Em troca recebemos serviços de saúde, estradas, segurança, etc., e, quando ficamos necessitados, por exemplo, desempregados ou doentes, recebemos subsídio para não morrermos de fome e de doença. 
Mas as empresas também pagam impostos, só o IRC, imposto que se aplica apenas sobre as empresas, nos últimos 10 anos cerca de 4500 milhões € por ano. 
Sendo assim, quando as empresas estão à rasca, têm direito a serem socorridos com o imposto que ano após anos pagam para financiar o Estado. 
Nos últimos 10 anos as empresas pagaram cerca de 45 mil milhões € de IRC e o BPN custou na ordem dos 5000 milhões€. 

E como fica o Banco Espirito Santo?
O BES tem um activo na ordem do 80 mil milhões €, talvez um pouco menos. E tinha, antes do anúncio do prejuízo colossal, um capital na ordem dos 6000 milhões de €. Então, por cada 100€ de activo tinha 7,50€ de capital próprio e 92,50€ de dívida. 
O capital serve para cobrir os imponderáveis do negócio bancário e um imponderável aconteceu, o que reduziu o capital para menos de metade, 2,5 mil milhões€. Cada 100€ de activo tem agora 3,10€ de capital próprio. 
O capital próprio está bastante baixo, apenas 3% do activo mas, acreditando que os esqueletos foram todos descobertos, ainda é um número que afasta para muito longe a probabilidade de falência.

Mas a capitalização bolsista está bem pior.
O valor contabilistico de cada acção é de cerca de 0,45€ e a cotação actual é de 0,12€.
Isto traduz que o "mercado" está a avaliar os 2500 milhões€ de capital prórpio em apenas 675 milhões €. O mercado indica que anda há 1750 milhões € de prejuixo escondidos nas contas do BES. 
Mas o capital próprio ainda não está a zero!

Será que o BES vai precisar de ajuda pública?
Nas duas últimas semanas de Julho a cotação do BES esteve nos 0,45€/acção o que traduzia que os investidores sabiam que seria anunciado um prejuízo na ordem do apresentado, de 3577 milhões€.
O problema é que hoje a cotação está nos 0,11€/acção o que indicia que novas más notícias estão para ser reveladas. Pode ser apenas uma reacção nervosa do mercado mas o mais certo é serem más notícias, tipo, que a garantia do estado angolano ao BES Angola é inválida. 
Se se concretizar o que o mercado está a dizer, o BES vai precisar de um aumento de capital de pelo menos 5000 milhões € e não acredito que haja quem arrisque meter tanto dinheiro lá. 
Mas uma coisa é ser preciso meter lá 5000 milhões€ e outra coisa é esse dinheiro estar perdido como aconteceu no BPN. 
Vai ser preciso o Estado meter lá dinheiro mas não será nada parecido com o BPN que, antes da nacionalização, já tinha 2000 milhões € de capital negativo. Na pior das situações, o BES ainda tem 600 milhões€ de capital.

O "problema" é que precisamos de empresas.
As empresas, às vezes, dão problemas para a sociedade mas são imprescindíveis à economia. 
As empresas, por serem de responsabilidade limitada, servem para proteger os empreendedores de riscos incontroláveis. 
Se não houvesse empresas, haveria muito menos investimento em actividades de risco o que faria diminuir o crescimento económico. 
O comunismo/socialismo tentou criar uma sociedade sem empresas e sem empresários mas, como vimos na URSS, Cuba, Coreia do Norte, Moçambique, Guiné-Bissau, etc. etc., foi um caminho rápido para o empobrecimento.
As empresas são como o nosso automóvel: nós sabemos que nos pode matar mas não podemos viver sem ele.

É nesta altura que apetece ser um daqueles polícias que, com o povo encostado à parede, fazem a revista à procura de armas sabe-se lá onde. Mas esta imagem era para dizer que, apesar de sabermos que as mulheres nos podem dar cabo da vida, não podemos viver sem elas.

O comissário europeu.
Vem mesmo a propósito, depois de desaparecerem 3577 milhões de euros, o governo indicou para  comissário europeu  o Moedas. 
Bem sei que não devemos fazer piadas com o nome das pessoas mas vem mesmo a calhar.
Já agora, quem terão sido os comissários anteriores?
Ninguém se lembra pelo que ir para lá este ou outro qualquer, excepto para o próprio que passa a receber uma boa maquia livre de IRS, dá tudo no mesmo. 

A batalha de Gaza.
Aquilo está a ficar feio, quando chegar a 1800 mortos teremos uma morte em cada 1000 pessoas que lá vive. 
Para podermos enquadrar estes números noutras guerras, 

Batalha de Gaza (25 dias) => 0,9 morto por cada 1000 habitantes.
Guerra do Iraque (desde 2003) => 5 mortos por cada 1000 habitantes. 
Guerra da Síria (desde 2011) => 8 mortos por cada 1000 habitantes.

Mas comparemos com uma guerra a sério (Segunda Guerra Mundial), 
   Bielorússia  => 253 mortos em cada 1000 habitantes.
   Ucrânia  => 163 mortos em cada 1000 habitantes.
   Polónia  => 165 mortos em cada 1000 habitantes.
   Rússia => 127 mortos em cada 1000 habitantes.
   Timor (Segunda Guerra Mundial) => 120 mortos em cada 1000 habitantes.
   Alemanha (Segunda Guerra Mundial) => 100 mortos em cada 1000 habitantes.

E com matanças a sério (judeus na WWII), 
   Holanda => 915 mortos em cada 1000 habitantes.
   Jugoslávia => 890 mortos em cada 1000 habitantes.
   Lituânia => 880 mortos em cada 1000 habitantes.
   Polónia  => 877 mortos em cada 1000 habitantes.
   Grécia => 863 mortos em cada 1000 habitantes.

Em 1939 viviam na Polónia 3,2 milhões de judeus e hoje vivem lá 3200.
Estes números mostram o que é um verdadeiro genocídio, uma verdadeira "limpeza étnica". 
Por cada 1000 que lá viviam, agora vive lá 1.
Esta guerras da Síria, Iraque ou Gaza são pequenas amostras do que pode atingir a brutalidade de uma guerra.

Será Gaza viável?
Gaza tem 1,8 milhões de habitantes em 360 km2 (rendimento per capita de 800USD, ver) .
Singapura tem 5,3 milhões em 716 km2 (rendimento per capita de 61000USD, ver).
Gaza tem uma densidade de 5000 pessoas por km2 e Singapura tem de 7600 habitantes / km2.
Mesmo implementando uma "zona de segurança" ao longo da fronteira com 3 km de largura, Gaza fica com a mesma densidade de Singapura o que indica que é totalmente viável. 
Não pode ser um país agrícola mas pode ser uma cidade prospera. 
Por exemplo, a cidade de Manila nas Filipinas tem 43 mil habitantes por km2 e nos centros das cidades chegam a haver uma densidade até as 100 mil pessoas por km2. O Gueto de Varzóvia tinha uma densidade de 112 mil pessoas por km2 (380 mil pessoas em 3,4 km2).

A Gaza pode ser uma cidade rica principalmente porque está bem localizada (no Mediterrâneo) e tem acesso a energia barata (gás natural do Egipto). 
O problema é que para se desenvolver precisa de paz. E, apesar de, penso eu, a maior parte da população querer viver em paz, poucos fazem muito prejuízo. 

Não sei bem o que se passa na Líbia.
Quando foi a "Primavera Árabe" eu disse a uma colega minha, a APD, que estava muito entusiasmada com as revoluções comparando-as com o nosso 25-de-abril, que poderia ser o nosso 28-de-maio, altura em que começou a ditadura do Salazar.
Não sei o que irá na cabeça do líbios mas talvez tenha a ver com o petróleo estar no Leste, em Bengazi,  e 1/3 da população e o poder estarem no Ocidente, em Tripoli. 
E a Líbia é importantíssima para a Europa como potencial fornecedor de gás natural mas custa a estabilizar.

Os campos de petróleo líbios estão no deserto, entre Bengazi e Sirte.

São muitas guerras à nossa volta.
É a Ucrânia, o Iraque, a Síria, Israel, Líbia e o BES. 
A Europa está a ficar cercados por guerras.

Pedro Cosme Costa Vieira

1 comentários:

Pedro Alexandre disse...

Caro Professor,

Não entendo o porquê de tanta conversa da esquerda a criticar o atual estado do sistema financeiro em Portugal, tal como o Professor diz, economia e finanças anda tudo ligado.

A seguir a uma crise financeira só pode vir uma crise de financiamento do estado e da própria banca, e lixa-se quem tem mais endividamento externo, mas isto é algo que não existe para os esquerdistas..

Basta perceber um pouco de economia para perceber que finanças e economia é a mesma coisa, mas vista de perspetiva diferente.

Em relação ao GES/BES, eu considero que o estado só deve entrar com capital se de facto não houver outra solução.

Em relação à escolha do comissário, concordo com a escolha, porque para se andar a escolher gente do PS, mais vale é alguém que não percebe nada da Europa mas ao menos apoie Juncker e o respeite.

Eu não sei se ele é competente ou se foi escolha do PSD e CDS, mas já se anda a dizer que Portugal passou do dia para a noite a não ter importância nenhuma na Europa, e como se alguma vez tivesse...

Cumps

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