sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Os migrantes, a concorrência e o comércio

A Europa está a sofrer uma invasão. 

Todos os dias ouvimos nas notícias que milhares de pessoas se metem em barcos sem qualquer capacidade de navegação e fazem-se à Europa. Naturalmente, centenas delas acabam afogadas.
Também vemos imagens de centenas de pessoas a tentar saltar o muro que bordeja Ceuta (que já foi nossa).
Mas porque será que isto está a acontecer?

A explicação parece simples.
É que há países onde o saldo populacional (diferença entre nascimentos e mortes) é muito elevado e, em simultâneo, o nível de vida é muito baixo. Pegando apenas em 10 países que nos estão mais próximos, cada ano nascem mais 11 milhões de pessoas do que as que morrem e o nível médio de vida é de apenas 1/4 do português (Ver, fig. 1). 

Mas em Lisboa não se consegue viver bem com 4800€/mês.
Considerando apenas a Etiópia e a Eritreia, há um "excesso" anual de 2,5 milhões de pessoas que, no seu país, têm um rendimento médio de apenas 4,5% do rendimento português. Quer isto dizer que, se em Portugal vivemos com um salário médio nas ordem dos 900€/mês, nestes países têm que viver com um salário médio na ordem dos 40€/mês, já corrigido das diferenças de preços (em termos de Paridade do Poder de Compra). 
Bem sei que um burguês disfarçado de comuna (o Marinho e Pinto) diz que para viver bem em Lisboa são precisos mais de 4800€/mês líquidos. Com esta honestidade, este homem ainda vai chegar a primeiro-ministro antes do António Costa e pelo PCP. 

Fig. 1 - Comparação do nível de vida português com o de alguns países próximos (Dados: Banco Mundial, médias de 2010-2012)

 Mas não há barcos a caminho do Golfo Pérsico.
A Arábia Saudita, Kuwait, Qatar, Emirados Árabes Unidos têm um nível de vida superior ao europeu e, mesmo assim, não há barcos cheios de desgraçados a tentar desembarcar nas suas costas. E a Etiópia está muito mais próximo do Golfo que da Europa.
Se calhar, não é a diferença nos níveis de vida per si que justifica haver tantas pessoas a morrer no Mediterrâneo. Deve ser outra coisa qualquer.

A razão não está no rendimento mas na estado social e no salário minimo.
Os países mais pobres são mais pobres porque as pessoas produzem menos.
E produzem menos porque têm baixas qualificações, biaxo nível tecnológico e não existe capital.
Vamos supor que, de repente, nós investíamos na Etíopia. Claro que esse investimento iria induzir um aumento na produção de cada etíope mas, como o nosso capital precisava ser remunerado, o rendimento do etíopes não aumentaria significativamente. 
Se a tecnologia e o capital forem remunerados de acordo com o seu contributo para a produção, um etíope terá sensivelmente o mesmo salário na Europa que tem na Etiópia.
O problema é pagarmos mais que o salário de equilíbrio além de o nosso "estado social" subsidiar os que conseguem chegar cá mas não se importa com os que ficam lá. 

Um colega meu estudou este assunto (o Américo).
Construiu um modelo em que deu ao capital o nome de Terra, à remuneração do capital a Renda e o Salário  a diferença entre a produção e a renda.
Vamos imaginar uma situação em que há uma quantidade fixa de terra, 10 arrendatários e que a renda da terra é de 10% do que produzem. Vamos ainda imaginar que existem etíopes disponíveis, tantos quantos quisermos desde que o salário se«ja maior que  30 €/mês.
O aumento do número de pessoas faz aumentar a produção e a renda (em precentagem e em valor) mas faz baixar o salário até que atinge o valor de reserva dos etíopes (de 30€/mês). 
Agora vamos imaginar que as 10 pessoas iniciais são trabalhadores portugueses. Como o seu salário baixa, é preciso cobrar um imposto aos donos da terra para compensar essa perda. Se inicialmente a entrada dos emigrantes vai reduzir a renda líquida da terra, quando entram muitas pessoas (mais de 15 e menos de 39) já ficam todos melhor, incluindo os trabalhadores e os etíopes.

Fig. 2 - A entrada de imigrantes aumenta a produção e a remuneração do capital mas baixa os salários (das actividades em concorrência mas aumenta o das complementares)

No Golfo Pérsico.
Nesses países existem os nacionais que estão protegidos pelo "estado social" e os estrangeiros que são   mão-de-obra contratada no mercado internacional ao preço de concorrência. 
Vamos supor um empreiteiro que precisa de 5000 trabalhadores para construir uma estação de liquifação de gás natural. Primeiro, faz prova de que é um tipo de trabalho que não se adequa aos sauditas. Depois, vai à India, ao Nepal, ao Bangladesh, à Etiópia, à Eritreia, ao Egipto ou ao Sudão e contrata 5000 trabalhadores ao  salário de mercado. É tudo uma questão de oferta e de procura. 
Apesar de um saudita ganhar 5000€/mês, o empreiteiro vai conseguir contratar trabalhadores por um salário de 150€/mês.

Mas isso é uma exploração!
Os esquerdistas dizem que pagar aos imigantes um salário na ordem dos 150€/mês quando pagam 5000€/mÊs aos nacionais é uma exploração. Mas  não se preocupam nada que essas mesmas pessoas estejam a ganhar nos seus países ainda menos. 
As opções morais têm sempre que ser tomadas tendo em consideração as alternativas. 
Primeiro, os etíopes e eritreus vão voluntariamente para a Arábia e podem ir embora quando bem o entenderem. Então, temos que comparar duas situações:
     H1 => Um saudita ganha 4000€/mês e um etíope (a trabalhar na Etiópia) ganha 40€/mês.
     H2 => Um saudita ganha 5000€/mês e um etíope (a trabalhar na Arábia) ganha 150€/mês.

O que será melhor para os etíopes?
Concerteza que é H2 e por isso é que vão voluntariamente para lá. 
No fundo, o discurso esquerdista é um discurso hipócrita. Se for lá longe, lá na terra deles, até podem morrer de fome mas aqui, perto de nós, não os queremos explorar.

Nós podíamos receber um milhão de imigrantes.
Estes imigrantes seriam o motor não só de uma agricultura de mão de obra intensiva mas também iriam dar mais musculo à nossa industria tradicional. Claro que as pessoas estão a pensar que os nossos sectores tradicionais como o textil, o vestuário, o calçado, o mobiliário, estão aperder postos de trabalho. Mas se inundassemos esses sectores com salários de 150€/mês, passaríam a ser muito mais competitivos e, desta forma, ganharíam rapidamente cota de mercado nos países europeus. 
No final poderíamos ter ocupação para a nossa mão de obra cada vez mais escolarizada e preparada e ajudar esses países menos desenvolvidos. 

E acabávamos com os afogamentos.
1 => Permitir a permanência na Europa dependente do contrato de trabalho. 
O empregador procurava por esse mundo fora um trabalhador e assim que o contratasse ele poderia entrar em Portugal. O empregador teria que prestar uma caução com o valor da totalidade dos salários mais a viagem de volta. 

2 => O imigrante teria que manter a ligação à comunidade de origem.
Uma forma de garantir esta condição seria adoptar o exemplo da Suíça, limitar a duração do contrato a um máximo de 9 meses em cada ano. 

3 => O salário, horário de trabalho e demais condições de trabalho seriam livremente negociados entre as partes, em concorrência com o resto do mundo.
Também se poderiam-se impor condições mas pouco exigentes, por exemplo, um salário mínimo de 1,00€/hora e, no máximo, a pessoa poder trabalhar 100h/semana.

As migrações e o comércio internacional.
Se o salário pago traduzisse o contributo do trabalhador para a produção, a pressão demográfica diminuiria porque o salário de um trabalhador particular seria quase igual nos diversos países do mundo. 
Neste caso, o comercio internacional substitui o movimento das populações. 
Em vez de a Alemanha ter lá portugueses a produzir carros, é melhor trazer as fábricas de carros para Portugal e importar os carros.
Se abrirmos as fronteiras ao comercio, haverá muito menos pressão para que as populações se movam. 
Pensemos nos romenos. Antes de entrarem na UE pensava-se que nos iriam invadir. Realmente nos primeiros anos esse fenómeno aconteceu um pouco mas, com a liberdade de comercio, as pessoas ficaram lá.

Faltam os não transaccionáveis.
Há bens que não se podem transportar e que, por isso, não podem ser produzidos nos países pobres.

A venda do Novo Banco não terá perdas.
O Horta Osório afirmou que a venda do Novo Banco vai ter perdas para os bancos a operar em Portugal mas não vai haver.

Vejamos porquê.
Vamos supor hipoteticamente que o Novo Banco vale 900 milhões € e que, tal como o BIC comprou o BPN, aparece alguém que oferece esses 900M€.
Neste caso, os bancos a operar em Portugal terão que assumir um prejuizo de 4000M€. Então, é melhor oferecerem os 4900M€ que é um preço imbatível e digerirem em si o Novo Banco (liquidarem). Apesar de terem, de facto, prejuízo, a prazo têm menos prejuízo que no caso de deixarem que o Nova Banco seja vendido porque retiram um concorrente do mercado.

Fig. 3 - Tínhamos a nossa roupa toda depositada no Novo Banco

Na Ébola, infelizmente, começam a dar-me razão.
Em Portugal existem muitas pessoas que acreditam em maus olhados, bruxedos e outras crendices.
Não há pessoas que acreditam que foram os americanos que mataram o Hugo Chaves com cancro? 
Agora imaginemos as pessoas africanas. Muita gente de lá muita gente pensa que são os Médicos sem Fronteira que andam a matar as pessoas. 
Com uma evolução que considero optimista (fim da doença em 31 de Março de 2015), vamos chegar ao fim do ano com 50 mil casos e teremos um total de 100 mil casos até ao controle total. 

Fig. 4 - Evolução da taxa de crescimento dos casos da Ébola e possível evolução (optimista)

Mas não estou nada optimista. 
Nem eu nem a ONU que declarou ontem a Ébola como uma ameaça à paz e à segurança mundial (ver).
Cada 3 semanas, duplica o número de casos.
Se demorar um ano a controlar a doença, teremos 1 milhão de casos.

Pedro Cosme Costa Vieira

9 comentários:

Fernando Gonçalves disse...

Lá está o Pedro com as suas ideias num

perfeito mundo neoliberal,já o vejo a imaginar

ter uma empregada de limpeza por tuta e

meia,mas também era útil que imaginasse que

junto do seu prédio burgues se amontoariam

barracos com os novos imigrantes,pois o salario

que teriam não daria para mais.Claro que

ninguém vive com 100/200 ou 300 eur num país

desenvolvido,já com 500 eur as pessoas vêm-se

"negras",mas nos países onde se têm esses

rendimentos as pessoas vivem em barracos,não

pagando assim renda,energia e água.Além disso

trocam serviços entre si de modo informal,ou

seja adoptam toda uma série de mecanismos de

sobrevivência impensáveis num mundo

desenvolvido.Ninguém quer transpor uma etiópia

ou eritreia para o seu país,não por

hipocrisia,mas por temerem a segurança no

país.Além disso,para o turismo havia de
ser muito interessante,verem toda uma

miséria,enfim.

Económico-Financeiro disse...

Estimado Fernando,
Era exactamente isso: as pessoas viveriam no nosso país exactamente como vivem actualmente no país deles, em barracas, e, se quizessem, continuando a trocar entre si serviços que produzissem.
É assim que se vive no Rio de Janeiro em que uma imensidão de pobres vive em barracas nas favelas e, mesmo assim, é a "cidade maravilhosa" e as favelas têm cada vez mais turistas!
OS paises do golfo pérsico resolvem o problema da segurança aplicando penas de expulsão.
No fim ficariamos todos a ganhar, nós com mão-de-obra barata e os etíopes com um salário mais elevado que o actual.
Se todos ficariam melhor, não sei o porquê de os esquerdistas terem reservas quanto a esta visão do mundo.
Um abraço,
pc

Fernando Gonçalves disse...

A questão é que nem toda a gente fica melhor.Os portugueses que estão na base do mercado de trabalho(empregadas domésticas e de limpeza,seguranças,porteiros,
trabalhadores não qualificados da industria e construção,
trabalhadores não qualificados da restauração),ficariam sujeitos a uma concorrência pelo preço do trabalho,e seriam obrigados a descer o preço do seu trabalho no limite até ao preço dos imigrantes,ou seja,não seria possível separar 2 mundos no mesmo espaço,como afirma.Se no final os preços ficassem digamos 10% mais baixos em média,para muita gente a quebra nominal de salários seria muito superior a isso.Como em Portugal a escolaridade ainda é muito baixa,sobretudo para quem tem mais de 40 anos,muitas pessoas não teriam capacidade para serem absorvidas por setores mais qualificados.O seu modelo só seria viável se a taxa de desemprego fosse muito baixa e em vastos setores não qualificados ainda houvesse falta de mão-de-obra,realidade que em Portugal muito dificilmente voltará a acontecer.

Fernando Gonçalves disse...

Como se vive em Portugal com o salário mínimo?

Apresentamos-lhe dois casos diferentes. Em ambos as despesas se limitam ao essencial e só resultam porque a família ajuda

Por: | 16 de Abril de 2013 às 10:52

o que é isto?!

Antonio Cristovao disse...

A formação e contratação nos paises de origem deveria ser a politica há muito devida por este Bruxelenses emproados e barrigudos, mas como diz o MP são gente burocrata que pensa no umbigo.
Agora no registo do post :
Estava a ler um descrição dos escravos da galès com os escravos das minas; quando podiam escolher todos queriam ir para as galés = nas minas duravam muito menos anos(devido a contaminação metalica)

Fábio Silva disse...

Boas, caro Pedro. Antes de mais, permita-me felicitá-lo pelo blog e respectivos posts. Contudo, e uma vez que, no seu âmago, estes espaços são- ou deviam ser, em princípio- espaços de discussão e debate, encontro alguns pontos da sua análise em que tenho, necessariamente, de discordar. Se um trabalhador, natural de um dos países que referiu, se deslocasse a Portugal, com contrato e condições laborais pré-estabelecidas, como referiu, para auferir, apenas, 100 euros, então receio que a situação seria, mais ou menos, homóloga a colocar "a rã" no tacho e, de forma gradual, aumentar a temperatura. Todos sabemos dos riscos inerentes ao Estado Social(demonstrados, perfeitamente, no caso francês), tal como estamos cientes da questão do salário mínimo, subsídio de desemprego e seu impacto, num país com uma elevada taxa de desemprego, nas finanças públicas e défice nacional. Contudo, o senso-comum deve imperar e não ser descrito como um argumento "esquerdista" ou de natureza socialista. O salário destes trabalhadores seria, de facto, superior em termos comparativos mas, no entanto, devemos ter em conta, para uma análise justa, que também os seus gastos o seriam. Seriam significativamente maiores porque o nível de vida é distinto, impossibilitando, assim, uma comparação como a que fez. Uma vez que um indivíduo se encontra em risco de pobreza com rendimentos inferiores a 60% do rendimento medíano de um país, 100 euros seríam, e perdoe-me as palavras, um valor absolutamente risório e uma exploração no verdadeiro sentido da palavra.

Fábio Silva disse...

Além do mais, não nos podemos esquecer que a Economia, enquanto ciência, não trata, meramente, da produção de um país, nem somente com a flexibilidade e qualificações do seu mercado de trabalho, a sua Balança Comercial e os seus níveis de défice e dívida pública... os fenómenos demográficos não podem ser esquecidos. Numa sociedade que apresenta Saldo Natural negativo e níveis- e previsões- de envelhecimento preocupantes, com uma clara tendência de diminuição da população activa, ameaçam fazer ruir os alicerces sobre os quais assenta o Estado Providência como hoje o conhecemos. Não precisamos, única e exclusivamente, de impedir a saída dos nossos jovens e mão-de-obra qualificada... Precisamos, igualmente, de imigrantes. E não será, de forma alguma, a definir distinções claras entre "os que são de dentro" e "os que não o são" que o vamos conseguir. E tal deve ser reconhecido, independentemente de nos identificarmos como esquerdistas, de centro ou, mesmo, nos encontrarmos mais à direita no espectro político

Gonçalo disse...

Todo o texto é bonito num mundo industrial, mas conversas de "muscúlo" são conversas do passado. O valor vem agora do conhecimento. Podemos usar escravos para fabricar sapatos, mas se não o soubermos fazer com design, qualidade, se não os soubermos distribuír e promover, se os financiadores não souberem onde encontrar capital, então nada feito.

Afinal, quando vai ao cabeleireiro prefere pagar 1 euro por um péssimo corte, 5 euros por um mau corte ou 10 euros por um bom corte?
Substítua cabeleireiro por restaurante e corte por jantar.

O que interessa é a relação preço/qualidade.

O mundo agora é o do conhecimento. O valor vem do software, não do hardware. É o mundo da Microsoft, não da Microhard.

E, não muito longe, virá o mundo da autoprodução, quando a impressão 3D se tornar acessível. Nessa altura será o software, o desenho da peça, o principal valor.

Sérgio Lau disse...

http://www.nytimes.com/2014/09/24/health/ebola-cases-could-reach-14-million-in-4-months-cdc-estimates.html?_r=0


Ebola Cases Could Reach 1.4 Million Within Four Months, C.D.C. Estimates

Twitter Delicious Facebook Digg Stumbleupon Favorites More

 
Design by Free WordPress Themes | Bloggerized by Lasantha - Premium Blogger Themes | Best Hostgator Coupon Code