sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Quais serão as ideia do Costa e do Seguro?

Ontem estive a falar com PM, um esquerdista. 

Claro que a conversa começou com "Isto está tudo de pernas para o ar, o Passos Coelho está a destruir a nossa economia, estamos próximos do fim do mundo." 
- OK, se o Passos nos está a destruir, temos que voltar às "políticas de crescimento" do Guterres e do Sócrates. O problema é que essas políticas que estiveram associadas a um endividamento externo massivo não fizeram com que crescêssemos, antes pelo contrário. Para não ficar preso na discussão "é efeito da crise internacional" ou "foi ajudado pela expansão alemã" vou usar a Holanda, um país da nossa dimensão e que pertence à Zona Euro, para retirar esses efeitos todos. Em 1992, altura em que foi assinado o Tratado de Maastricht, o nosso nível de vida era 48,5% do nível de vida holandês. Quando o guterrismo-socratismo acabou, em 2011, a relação tinha-se reduzido para 44,6% (ver, Fig. 1).
- Não porque nesse tempo o governo socialista já estava preso à política de austeridade de Maastricht. Temos que nos libertar desse espartilho de austeridade imposto pelos países do Norte.
- Então, temos que voltar ao tempo da Ditadura ou do Cavaco pois foi nessas alturas que houve crescimento económico.
- Mas, se a economia esteve estagnada com o Sócrates por culpa das políticas erradas do BCE,  quando o Passos Coelho a economia começou a cair.
- Pelo menos já viste que com o Sócrates a economia esteve estagnada mesmo com elevado endividamento externo mas os dados dizem que a economia começou a cair em 2005, exactamente quando o Sócrates entrou. Em 2004 tínhamos 47,3% do PIB holandês e atingimos em 2007, antes da crise do sub-prime, 45,1%. Logo, o Sócrates endividou-nos e o PIB pc corrigido do efeito externo diminuiu rapidamente. Estranhamente, foi no tempo do Passos Coelho que a queda parou (ver, Fig. 1).
- Não, bem, não, não percebes nada de economia, nem que mas também, és um burro, isto deriva de, não é possível ter-se uma conversa séria contigo. 

Fig. 1 - PIB per capita português em comparação com o holandês, 1960-2013 (dados: Banco Mundial)
Entre 1960 e 2002, convergimos com a Holanda 0.66 pontos percentuais por ano e, a partir de 1992, passamos a divergir 0,19 pontos percentuais por ano. Alguma coisa tem que ser feita de diferente.

Os preços estão a diminuir.
- As economias europeias estão a corrigir os desequilíbrios das contas externas.
- Mas isso é à custa da redução das importações.
- Diminuição das importações e aumento das exportações que, diz a teoria económica, resultam da diminuição dos nossos preços face ao exterior diminuem. Isto vê-se no facto da nossa taxa de inflação estar 1 ponto percentual abaixo da média da zona euro.
- Isso não interessa, isso é um avanço do grande capital e da especulação.
- Mas estão a diminuir, tens que reconhecer este facto.
- Sim, mas sim, os preços estão a diminuir.
- Trata-se de uma desvalorização da nossa taxa de câmbio real o que aumenta as exportações e a entrada de turistas e diminui as importações e a saída de turistas. Isso é o mecanismo de equilíbrio das contas externas. E isso está a acontecer em Portugal e, principalmente, na Grécia face à zona euro. No nosso caso ainda temos a vantagem de os nossos preços já terem caído 5% relativamente aos da Espanha que é o nosso principal parceiro comercial. E em 2014 continuam a cair.
- Não, bem, não, não percebes nada de economia, nem que mas também, és um burro, isto deriva de, não é possível ter-se uma conversa séria contigo.

Fig. 2 - Índice de Preços no Consumidor relativamente à média da Zona Euro, desde a implementação dos câmbios fixos, 1999-2013 (dados: EuroStat)

A nossa economia já não precisa de novo financiamento externo.
- As taxas de juro desceram em todos os países. Não foi só em Portugal que as taxas de juro desceram mas também na Grécia desceram. E isso foi por causa do BCE ter mudado de política.
- Não é verdade que as taxas de juro tenham alguma coisa a ver com a política do BCE porque esta  mantém-se a mesma: procura cumprir o seu mandato que é fazer com que a inflação na Zona Euro seja de 2%/ano. Como a inflação está bastante abaixo deste valor, o BCE tem que fazer alguma coisa para aumentar a quantidade de moeda em circulação pois faz-se inflação com mais moeda. A diminuição das taxas de juro é por, genericamente, os países do Sul já não terem necessidades de novo financiamento externo. No caso Português, entre 1995 e 2011 Portugal endividou-se uma média de 13,4 MM€ por ano, um total de 210MM€. Nos últimos 24 meses, não precisamos de novo endividamento.
- Não, bem, não, não percebes nada de economia, nem que mas também, és um burro, isto deriva de, não é possível ter-se uma conversa séria contigo.

Fig. 3 - Endividamento Externo desde 1/1/1996 (dados: Banco de Portugal)

Mas não se consegue controlar o défice público.
Durante 2013 parecia que Portugal estava condenado ao fracasso porque as taxas de juro tinham estabilizado num nível proibitivamente alto. Por exemplo, a taxa de juro a 10 anos ficou parada nos 6,0%/ano. Nessa altura o discurso oficial era que "se a taxa de juro descer para 4,5 a 5%, já não precisamos de segundo resgate". Acontece que, como por milagre, depois da Mensagem de Natal do Cavaco, os financiadores do nosso país convenceram-se de que nos estamos a esforçar para pagar a dívida pública. Então, o quarto milagre de Fátima aconteceu: as taxas de juro a 10 anos estão em volta dos 3,0%/ano (ver, Fig. 4). Sendo assim, podemos fazer de conta de que em 2014 o défice vai ser de 4,0% do PIB e que em 2015 vai ser de 2,5% do PIB.
Não vai ser mais isso é o que defendem os esquerdistas pelo que devem estar contentes.

Fig. 4 - Evolução da taxa de juro da República a 10 anos (dados: Investing)

Grande parte das "despesas extraordinárias" são recuperáveis
Algumas, como a "regularização" da dívida das empresas públicas não tem mais recuperação mas os 4900M€ que Estado injectou no BES /  Novo Banco vão ser totalmente recuperada mas o BES tinha lá garantias públicas. Vamos ser optimistas.

Vamos agora ao Ébola.
Quando as coisas são terrivelmente terríveis nós temos tendência para não pensar nelas.
O Ébola é um desses casos, ninguém quer pensar nisso mas a coisa vai mesmo chegar cá e não vai demorar nem seis meses.
Os factos são que:
    1 => 90% das pessoas infectadas morrem.
   2 => Hoje contaminam-se 150 pessoas por dia enquanto há um mês, contaminava-se 50.
   3 => A Nigéria teve um caso em 27/Julho e disse que estava tudo perfeitamente preparada mas, em 21Ag já tinha 21.
   4 => O foco no Zaire já leva quase 100 contaminados.
   5 => Nos mais de 2000 mortos, só um é que é branco!

O que devemos fazer?
Daqui a 1 mês haverá 450 novos casos por dia, daqui a dois meses 1500, no Ano Novo 5000 e, daqui a 6 meses, haverá 100000 novos casos por dia.
100000 por dia é uma enormidade. Na Segunda Guerra Mundial morreram 30000 pessoas por dia, daqui a 6 meses a Ébola vai estar a matar o triplo.
O plano de combate não pode passar pelos actuais hospitais pois já estão cheios e ocupados por pessoas doentes que são particularmente vulneráveis ao Ébola.
O governo tem que começar rapidamente a trabalhar na contingência de, no espaço de algumas semanas,  ter que criar uma rede de isolamento com pelo menos 100 mil camas.
Como a chave do sucesso é o isolamento, a melhor solução será, em cada cidade, adaptar os apartamentos de uma zona habitacional para hospital.
Vai mesmo ser preciso cercar essas zonas com contentores de forma a que não entre nem saia ninguém..

Escrevi qualquer coisa que saiu no Diário de Notícias.
A Ana Margarida, que é uma pessoa muito simpática, desafiou-me a escrever qualquer coisa sobre as medidas do BCE e se isso terá algum impacto na nossa economia.
O BCE tem que controlar a inflação "abaixo dos 2,0%/ano mas próximo". Como agora está nos 0,3%/ano, muito abaixo da meta, tem que fazer alguma coisa. Mas, em termos médios, desde que existe Euro, a inflação foi de 1,95%/ano. Não está mal.
Podem ver aqui => Comentário no Dinheiro Vivo sobre a intervenção do BCE

Fig. 5 - Evolução da inflação na Zona Euro e média desde 1/1/1999 (dados: BCE).

Será que me esqueci de referir o que dizem o Costa e o Seguro?.
Não, não me esqueci. É que não dizem nada.
Antes falavam do Holland, de que ele seria o modelo da actuação da nova esquerda.
Agora fazem-me lembrar o meu amigo PM "Não, bem, não, não percebes nada de economia, nem que mas também, és um burro, isto deriva de, não é possível ter-se uma conversa séria contigo."

Fig. 6 - São estes os sapatos que estão a alimentar as nossas exportações.

Pedro Cosme Costa Vieira

2 comentários:

CsA disse...

Se a inflação continuar baixa quais poderão ser os efeitos negativos? Ainda hoje li um artigo de um Nobel defender uma inflação de 5% na zona euro...faz-me confusão como a expansão monetaria (inflação alta) pode ser boa para a economia...

Se o BCE manteve constante a criação de nova moeda como se explica esta baixa inflação? Será só devido ao aumento das exportações?

A baixa de preços não será também devido aos ganhos de produtividade (deflação estrutural)?

Como se explica que entre 1870-1900 os EUA tenham vivido o periodo de maior crescimento da sua história e havia deflação?

Pedro Alexandre disse...

Caro CsA,

A inflação só traz pobreza disfarçada, bolhas de divida e destruição do tecido produtivo de um país.

Quem defende tal política é gente que de economia percebe tanto como qualquer Costa ou Seguro em campanha eleitoral.

Cumps

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