sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Umas respostas a umas perguntas

O Ricardo Mendes costuma-me fazer "off-line" umas perguntas interessantes para partilhar com os demais amigos que seguem o meu blogg.
Algures nas centenas de posts que eu já escrevi, sei que já falei nisto mas nunca é demais repetir estes assuntos porque existe uma confusão nos media sobre estas coisas.

Mas primeiro, vamos à grande verdade: "se pegássemos em todos os economistas do mundo e ligássemos cabeça de cada um aos pés de outro numa fila bicha, não iam parar a lado nenhum".
Mas temos que reconhecer que hoje se vive muito melhor do que se vivia há 50 anos atrás e isso resulta do conhecimento, seja da engenharia, da medicina, da enfermagem, da história ou da economia.

1 Para que servem os bancos comercias?
Servem, principalmente, para intermediar entre poupadores e gastadores. 

As pessoas poupam para 1) pretendem comprar no futuro um bem valioso; 2) têm medo de, no futuro, terem um necessidade ou uma quebra de rendimento; 3) quando formos velhinhos o nosso rendimento vai ser melhor.

As pessoas pedem emprestado porque 1) pretendem comprar agora um bem valioso para o qual não têm dinheiro; 2) aconteceu um imprevisto de que resultou uma necessidade ou uma quebra de rendimento; 3) são jovens e precisam de dinheiro para estudar; 4) um empreendedor tem uma ideia que precisa de financiar.

Agora vêm os bancos comerciais.
Se eu preciso poupar, ao emprestar a uma pessoa concreta passo a viver o risco de nunca vir a receber esse dinheiro. 
Os bancos comerciais, por terem muitos devedores, conseguem compensar os que bancarrotam com os que pagam bem. Vamos supor que 1% das pessoas não paga o crédito. Então, basta uma diferença de 1% entre a taxa de juro que paga aos depositantes e a taxa de juro que cobra aos devedores para que esse risco seja anulado.

Vamos aos automóveis
O Ricardo é mecânico de automóveis. Os bancos "era como se existisse um intermediario entre mim e o meu cliente ... [que cobraria] uma comissão." 
Vamos imaginar, como acontece nos empréstimos, que o orçamento do carro era sempre o mesmo valor, por exemplo, 10% do valor de mercado. Agora, um mecânico particular com apenas alguns concertos por mês para fazer, passaria a correr um rico muito grande de ir à falência. Tal como fazem os seguros (contra a quebra de vidros ou reboque), mediante um pequeno pagamento, o intermediário compensaria os prejuízos com os lucros, retirando o risco aos pequenos mecânicos.

Porque o Estado americano interveio na GM?
Primeiro, os governantes são eleitos pelos votos dos eleitores. Se as sondagens disserem que a maioria da população quer uma intervenção, os governantes podendo, são "obrigados" a fazer essa intervenção.
Segundo, normalmente, a taxa de juro a que os estados se consegue financiar é muito menor que a taxa de juro que as empresas conseguem. Então, há negócios que são viável com intervenção pública e não o são se forem deixados à sua sorte.
Terceiro, há empresas que têm um impacto positivo na sociedade que, pelo menos no curto prazo, são dificeis de substituir. 
Mas a regra que leva, no longo prazo, a crescimento económico e melhoria das condições divida das pessoas, é deixar falir as empresas que não financiar-se no mercado. Mas todos os países têm que adoptar esta regras pois, caso contrário, haverá problemas.

 Para que serve a taxa de referencia do banco central?
O banco central tem como única função controlar o nível de liquidez na economia (a quantidade de notas em circulação) o que é conseguido observando a taxa de inflação. 
Se a taxa de inflação for baixa, é preciso aumentar a liquidez e, caso contrário, diminuir a liquidez.
A principal forma de aumentar a liquidez é imprimir notas e entrega-las ao governo para que gaste esse dinheiro (o governo passará a cobrar menos impostos que a despesa). Para diminuir a liquidez é rpeciso que o governo entregue notas ao BC que as distroi (o governo passará a cobrar mais impostos que a despesa).
Mas o BC tem outros instrumentos para actuar no curto prazo.
A taxa de desconto é uma forma de actuação de curto prazo: se a taxa diminuir, passará a haver mais notas em circulação e, se aumentar, passará a haver menos notas.
O lucro do BC com a emissão de novas notas e as taxas de juro que cobra são entregues ao governo como "dividendos" (Portugal recebe cerca de 850 M€ por ano do BCE).
Há muitas reuniões porque é muito dificil controlar a inflação. Porque o sistema monetário interfere com a Economia e com as transacções com o resto do mundo, a inflação é muito dificl de controlar.

Porquê 2%/ano de inflação?
Já foram experimentados os valores 0%/ano (e.g., China 1998-2003), 1%/ano, 2%/ano, 2,5%/ano e mais taxas e nenhum deles é melhor que o outro.
Acontece que isto é como o lado em que os carros andam na estrada, com o passar dos anos, os principais países foram introduzindo o valor de 2%/ano como meta para que a taxa de cambio entre as moedas não tenha alterações nominais (se a China tinha 0%/ano o Reino Unido 2,5%/ano então, em média a moeda chinesa valorizaria 2,5%/ano relativamente à libra).

Porque nao adoptamos a postura da islandia?
A Islândia tem moeda própria que pode valorizar e desvalorizar relativamente às outras moedas. Este regime chama-se de "câmbios flexíveis". Nós temos "cambio fixo" relativamente aos outros parceiros da Zona Euro.
Existem opiniões a favor dos câmbios flexíveis (ajustamento mais rápido) e câmbios fixos (custos de transacção). É quase como haver benfiquistas e portistas, ninguém chega a conclusão de quem é o melhor.
Quanto à falência do país, não houve necessidade. Para os devedores, deixar de pagar é bom mas também temos que ver o lado dos credores que andaram a poupar dinheiro.
Uma falência descontrolada pode por em causa as relações entre os estados. Por exemplo, a Espanha poderia passar a desviar a água do Rio Tejo e do Rio Douro para o Sul (rasgando os contratos feitos entre o Franco e o Salazar) alegando que não tinhamos cumpridos os nossos contratos relativamene à divida pública.

2 - A nossa capacidade de pagar a divida nao é uma anedota?
Em termos totais, a dívida pública portuguesa é muito grande mas, em termos individuais, os valores são relativamente pequenos. 
Cada português deve cerca de 20 mil €. Se pensarmos que uma pessoa concluir o ensino obrigatório (12.º ano) custa ao Estado 60 mil €, vemos que a dívida é relativamente pequena.
Corresponde a que uma pessoa, durante os 50 anos de actividade o Estado conseguir cortar ou aumentar os impostos em 30£/mês. 
O pagamento da nossa divida em 50 anos implica apenas reservar 2% da despesa pública para juros e amortizações.
A nossa dívida pública é 130% do PIB e a do Japão é 230% do PIB e ninguém diz que o Japão está na bancarrota.

3 Porquê cortar salários e pensões.
Quando em 2008 chegou a crise do sub-prime, o problema não eram os salários públicos, pensões, subsídios de desemprego, etc. necessários de pagar 2008 mas das regras vertidas na lei que introduziam mecanismos automáticos de aumento da despesa pública. 
Cada 3 anos, os funcionários mudavam de escalão, estando desemrpegado com mais de 52 anos, iam para a reforma, se o marido e a mulher estivessem desempregados, recebiam um complemento e podiam estar não sei quantos anos a receber.
Tudo isso era explosivo e fez com que logo em 2009 o défice saltasse para 10% do PIB.
Os cortes, de facto, não existem pois o total de salários públicos e de pensões que o Estado paga hoje é ainda maior que o que pagou em 2011.
Os governantes (que, diga-se a verdade, teve a sua semente no tempo do Cavaco Silva) prometeu no passado o que sabiam que não podiam dar mas "quem vier que feche a porta". 

4- E quando as máquinas fizerem tudo?
AS máquinas nunca farão tudo. As máquinas permitem que sejam feitas coisas que de outra forma não seria preciso fazer.
Seria possível cortar uma árvore sem haver machados?
Seria possível fazer tábuas sem haver serras?
Seria possível haver Multibanco se não houvesse computadores?
Seria possível voar se não houvesse aviões?
Seria possível alimentar 7125 milhões de pessoas se não houvesse tractores?

"Quando inventarem uma máquina para lavar roupa, outra para lavar a louça e houver restaurantes a cada esquina, a mulher não vai servir para nada" (desconhecido do sec. XIX)

Enquanto pessoas não precisamos de trabalho mas sim de bens e serviços para consumir. 
Daqui a 100 ou 200 anos, se no entretanto o Ébola não nos matar a quase todos, as pessoas vão passar 6 meses de férias a viajar um pouco pelo mundo em bons hoteis e em bons aviões e, nos restantes 6 meses, 70% das pessoas vai trabalhar no sector do turismo.
Hoje uma pessoa compra um carro novo por 10000€ que corresponde a 12 meses de salário médio.
Em 1960, um carro muito pior custava 50 contos que correspondia a 60 meses de salário médio.
E porquê? Por causa das máquinas. E hoje trabalham muito mais pessoas a fazer automóveis que havia em 1960. Mais de 10 vezes.

Pedro Cosme Costa Vieira

4 comentários:

Portuendes disse...

Já que este post foi feito para responder a perguntas, lanço uma, muito aleatória: sabendo nós que os anos de trabalho e os anos de reforma devem conformar-se com a esperança média de vida (entre outros factores, claro está), haverá algum dia em que a separação óbvia entre homem e mulher será realizada? Estou a falar na diferença significativa na esperança média de vida do homem e da mulher que anda por perto de 10 anos? Porque terá o homem de subsidiar a pensão da mulher? Eu sei que é muito politicamente incorrecto, mas...

Pedro Alexandre disse...

Caro professor,

Esses mecanismos automáticos do estado, que desconhecia, são uma completa barbaridade económica, um disparate Keynesiano sem igual.

Cumps

Vasco Pereira disse...

"1% das pessoas não paga o crédito. Então, basta uma diferença de 1% entre a taxa de juro que paga aos depositantes e a taxa de juro que cobra aos devedores para que esse risco seja anulado"

Não percebi.
Se emprestar 10000€ por 100 pessoas (imaginando que o banco só guarda o dinheiro dos depositantes, i. é, não paga juro), cobrando 1%, recebe 101 por empréstimo. Se uma pessoa deixar de pagar: 99*101€=9999€, ou seja o banco perde 1€. Creio que tem de cobrar mais de 1% para cobrir o risco de 1%.
Falhei o raciocínio?

Económico-Financeiro disse...

Vasco,
Perfeito.
O banco tem que cobrar 1/0.99-1 = 1.0101%.
Eu dizer 1% é uma aproximação.
Um abraço,
pc

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