sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Com ou sem acordo, a Grécia não tem futuro risonho

Parece que chegaram a um acordo qualquer.

Mas o problema da Grécia de pouco crescimento económico não resulta do endividamento público e externo e que se possa resolver com um acordo qualquer porque já dura há 40 anos.
Exactamente, se olharmos para a evolução do PIB per capita grego, medida que quantifica o nível de vida dos países, desde 1973 até 2014, a taxa de crescimento grego foi de apenas 0,70%/ano, tendo o crescimento de 3,50%/ano de 1995-2007 sido um bolha de crédito (não sustentado) pois, havendo necessidade de corrigir em 2009-2013, esse crescimento desapareceu totalmente (ver, Fig. 1).

Fig. 1 - PIBpc grego onde se vê que, retirando a bolha de crédito (a amarelo), desde 1973 o crescimento é de apenas 0,7%/ano (dados: Banco Mundial)

E como nos comportamos?
Em 1973-1975 Portugal tremeu um bocadinho mas recuperou. O nosso problema foi, uma vez na Zona Euro, os governos socialistas terem-se esquecido que uma política de rendimentos e preços generosa levaria ao desemprego e ao endividamento externo. Assim, foram induzidos aumentos nos salários que levaram ao aumento dos preços o que tornou os nossos bens menos competitivos. Por outro lado, a politica de "Estado Social" levaram ao desequilíbrio das contas públicas.

Fig. 2 - PIBpc português onde se vê que, desde 1960 até à entrada no Euro, o crescimento foi robusto, de 3,9%/ano (dados: Banco Mundial)

Comparando Portugal com a Grécia.
Para a comparação ficar mais visíveis vou meter as duas séries num só gráfico.
Vemos que, em 1973, o PIB per capita da Grécia era 50% superior ao nosso e, quando entramos na Zona Euro, já estávamos taco a taco (ver, Fig. 3).

Fig. 3 - PIBpc grego (laranja) e português (verde) onde se vê que, desde 1973, temos crescido bastante mais do que a Grécia excepto na bolha de crédito grega de 1995-2007 (dados: Banco Mundial)

A nossa economia tem tido bom desempenho.
Nós temos a mania de dizer que somos uns desgraçadinhos quando, de facto, não o somos.
Temos uma taxa de crescimento do PIB per capital mais forte que o grego e mesmo maior que o alemão.

Este acordo tem um grande risco para a Zona Euro.
É que o sentimento contra o Euro pode crescer na Alemanha a ponto de começar a ser posta a hipótese da Alemanha sair do Euro.

E há o facto Ucrânia. 
A Alemanha tem uma muito forte ligação á Polónia e a Polónia à Ucrânia.
Depois da WWII, 13 milhões de alemães tiveram que sair do território que é hoje a Polónia pelo que muitos alemães ainda veem a Polónia como a sua terra natal.
A Polónia, durante mais de 200 anos, formou uma união com a Ucrânia a Lituânia (entre 1569 e 1795).
Vamos supor que a Grécia passa a alinhar pelo lado russo na guerra Rússia-Ucrânia bloqueando a Alemanha na sua política externa.
Vai ser um problema.

Há quem diga que a queda do PIB na Grécia.
Nunca foi observada em nenhum país em tempos de paz.
Claro que isto é tudo mentira.
A Ucrânia teve, entre 1990 e 1997 um queda no PIB de 60%. Em média, a economia ucraniana caiu 12%/ano e estavam em Paz. 
E isto aconteceu em muitos mais países da Ex-URSS mesmo em paz.
Hoje a Ucrânia tem um PIB per capita que é menos de 1/3 do PIB per capita grego (e nosso) e a Moldávia é menos de 1/6.

Fig. 4 - a Grécia tem um PIB pc de 81% da média europeia e 1 em cada 3 europeus vive em países com um PIBpc menor (dados: Banco Mundial).

Vamos ver no que dá mas, além de estar triste por a Grécia não ter rebentado já,  não estou nada optimista como o que resultará disto.

Pedro Cosme Vieira

6 comentários:

Chilavert disse...

Professor em relação à suposta aliança da Russia com a Grécia devido á proximidade religiosa(são ambos de maioria ortodoxa) parece me inviavel que Russia tenha musculo financeiro para "ajudar" a Grecia se a desvalorização do rublo e a queda do preço do petroleo tem castigado muito a população russa.
Acho que iremos assistir a uma aproximação da Grecia aos EUA(a quem dá muito jeito a situação geoestrategica).
A possivel saida da Alemanha seria uma benção para a UE(minha opinião)

Pedro Alexandre disse...

Caro Chilavert,

A saída da Alemanha da UE era o fim da UE e o inicio do ajustamento que os esquerdistas tanto queriam para o país e por muito anos...

Os esquerdistas que julgam que houve um acordo que vai mudar a Europa e agora vamos passar todos a viver a vida faustosa e regada que os gregos levaram para depois acabarmos como a Grécia daqui a uns aninhos...

Só tenho de concordar com o Professor, porque de facto ver os gregos a queixarem-se quando andaram a endividar-se como andaram, não aplicaram os programas de ajustamento como deviam e ainda têm condições que países como nós e praticamente toda a Europa não tem, só mereciam sair do euro!

Cumps

Chilavert disse...

Pedro Alexandre olhe que talvez não...
O BENELUX continua a ser uma boa força motriz e a recuperação da Inglaterra daria um impulso.
Já para não falar para a Austria que é em termos socioeconomicos um pilar fortissimo.
Há capacidade nos paises da UE para criar valor apesar da Alemanha ser o actual "motor".
A saida da Alemanha baixaria o cambio do Euro tornando mais competitivo e mais atraente a investimento privado.
Não resolveria diretamente o problema dos defices mas lançaria as bases para crescimento.
Eu pessoalmente acho que o objectivo dos programas de ajustamento a longo prazo(20/25 anos) deveria ser defice 0!
Este sistema de perpetuar os defices(mesmo que inferiores a 3%) potencia uma dependencia excessiva do sector financeiro( e um dominio do mesmo) altamente nefasto para os paises e especialmente para as pessoas

Artur Amorim disse...

"Eu pessoalmente acho que o objectivo dos programas de ajustamento a longo prazo(20/25 anos) deveria ser defice 0!
Este sistema de perpetuar os defices(mesmo que inferiores a 3%) potencia uma dependencia excessiva do sector financeiro( e um dominio do mesmo) altamente nefasto para os paises e especialmente para as pessoas"

Completamente de acordo Chilavert. Não podemos defender metas flexíveis do défice e depois queixar-mo-nos que somos reféns dos mercados financeiros! Gostaria era que este tipo de raciocínios fosse mais divulgado nos meios de comunicação social para a população em geral ter conhecimento do problema que está em causa. Como todos nós temos budgets limitados toda a gente perceberia o que se está a dizer.

Digo isto, porque tendo em conta aquilo que vejo nos comentários de muitas notícias, acho que as pessoas não têm noção do porquê de termos chegado a este ponto e do porquê da necessidade de equilibrar as contas públicas. Pessoalmente acredito que mesmo que a Grécia entre em bancarrota as pessoas vão continuar a acreditar no "outro caminho, o do crescimento". BE, PCP e amigos já têm o discurso feito caso isso suceda : "A Grécia foi vitima da ganância dos mercados financeiros, eles estavam a recuperar, mas uma conspiração internacional deitou por terra os sonhos do povo grego! Abaixo o capitalismo, abaixo o grande capital! Se o governo português não fosse um vassalo de Berlim nada disso aconteceria".

Mas como tudo na vida, vamos esperar para ver.

Cumprimentos,

Artur Amorim

Pedro Alexandre disse...

Caro Chilavert,

A força motriz da UE, na minha opinião é resultado da Alemanha, um dos países que mais investe no mundo é a Alemanha.

Mas o problema de países como Portugal ou a Grécia não são de falta de endividamento, ou falta de dinheiro, é falta de poupança Interna que só cria mais endividamento para no futuro termos uma economia sem investimento, como nos aconteceu.

E é preciso perceber que a competitividade não se faz desvalorizando a moeda, isso só empobrece o país e traz incerteza aos investidores, uma moeda forte traz muitas vantagens, o importante é ter salários ajustados à produtividade, uma economia mais aberta e flexível e um estado mínimo.

Cumps

Chilavert disse...

Pedro Alexandre mas a poupança tem de ser aplicada ou utilizada como investimento(preferencialmente privado).
Em relação á moeda tá a ver numa perspectiva pouco redutora.
Essa perspectiva é a da Alemanha que se de facto desvalorizar moeda perde valor mas existe um sem numero de paises(os deficitários) que desvalorizar a moeda(através de impressão de dinheiro) seria a melhor coisa que poderia acontecer.
Portanto uma moeda forte trás vantagens a quem produz riqueza consentanea mas prejudica de sobremaneira quem tem menos estrutura e menos recursos.
Em relação a salarios ajustados á produtividade estamos de acordo, a economia precisa de ser de facto mais aberta e melhor a condição concorrencial.
O Estado não tem de ser minimo tem de ser suficientemente capaz(que por razões mais que debatidas não tem sido).
As politicas da UE tem de ser mais uniformes e menos polarizadas.

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