sexta-feira, 20 de março de 2015

A crise do Euro e a Grécia

Eu faço parte 
de um núcleo qualquer de investigação em Politica Monetária.

Nesse grupo estão (deveriam estar) pessoas com aprofundados conhecimentos em politicas monetárias. Mas, estando consolidado na Ciência Económica que o Banco Central apenas tem capacidade para alterar a taxa de inflação, não sei porque insistem em dizer que a intervenção de compra de activos do BCE vai, finalmente, aumentar o crescimento económico e descer o desemprego e a taxa de juro.

Bem sei que parece ter lógica.
Parece ter lógica que, se o Banco Central imprimir camiões e camiões de notas e as emprestar às pessoas, a taxa de juro vai baixar.
A lógica é "pegando na Lei da Oferta e da Procura (se houver um reforço da oferta, o preço desce), havendo mais e mais notas no mercado, o preço das notas vai diminui." Até aqui tudo bem mas agora é que vem o erro:  " e o preço das notas é a taxa de juro que vai baixar".
(É um erro porque o preço do dinheiro não é a taxa de juro)
A partir deste pequeno erro, continuam:
"Baixando a taxa de juro, as empresas aumentam o investimento o que leva ao crescimento económico, ao aumento dos salários e à diminuição do desemprego."
Rematam alegremente "O outro caminho, o caminho do crescimento, do emprego e dos salários dignos, o fim da pobreeza e o reforço do Estado Social, está nas mãos do BCE." 
Esta lógica esquerdista até parece ter lógica mas é apenas uma lógica da batata pensadora (se é que a batata, representante dos esquerdistas, pensa).
E tudo por causa daquele "pequeno" erro de pensar que a taxa de juro é o "preço do dinheiro".

O preço do dinheiro.
A taxa de juro não é o "preço do dinheiro" porque os camiões e camiões de notas não entram no Mercado de Crédito (da poupança e do investimento) onde a taxa de juro (real) é determinada mas apenas no Mercado de Moeda onde a taxa de inflação é determinada.
É que o "preço do dinheiro" não é a taxa de juro mas sim "o inverso do preço das coisas". É a quantidade de bens que eu tenho que me desfazer em troca de uma nota.
Por exemplo, se um kg de arroz custa 0,714€, agora tenho que pensar ao contrário: uma nota de 20€ custará 28kg de arroz.

Confundido?
Vamos então ver o mercado monetário.
Existem notas porque nós precisamos de andar com elas no bolso para podermos fazer as nossas compras. Além disso, as notas dos nossos depósitos bancários estão, parcialmente, guardados no cofre do banco (as reservas).
Se, por exemplo, gastamos 250€/semana e levantamos dinheiro uma vez por semana, teremos em média 125€ na carteira. Acrescentando a hipótese de termos o valor de 12 meses de despesas futuras depositado no banco e de o banco guardar 13% desse valor em notas, teremos mais 1560€ guardados no cofre do banco. Neste caso, teremos 1685€ em notas, parte na carteira e parte (à nossa ordem) no cofre do banco.

A velocidade de circulação da moeda.
Se pegarmos no valor total de compras que fazemos num ano (12000€) e dividirmos pelo valor das nossas notas (1685€) obtemos a "velocidade de circulação da moeda", neste caso, 7,1, que traduz, grosso modo, que cada nota demora 51 dias a percorrer o circuito económico.
A nota está paradinha, guardadinha debaixo do colchão, a dormir, durante 50 dias e, no 51.º dia, é acordada para fazermos o pagamento de uma compra. Depois, fica a dormir no bolso de outra pessoa e, decorridos mais 50 dias, é novamente chamada a trabalhar.

Apliquemos estes conceitos a toda a economia.
Grosso modo, existem em circulação notas no valor de 10% do PIB, 17MM€. Isto traduz que a velocidade de circulação da moeda é cerca de 10 vezes, 36 dias entre transacções.
Como o Banco Central é a única instituição que pode emitir notas ("vender"), haverá notas neste valor que são emprestadas pelo Banco Central.
Vendo noutra perspectiva, as notas são títulos ao portador de coisas que emprestamos ao Banco Central sem juros, kgs de arroz.

E quanto será o volume do mercado de crédito?
Considerando os créditos bancários (porque a generalidade das pessoas pensa que são dinheiro), fui às estatísticas do Banco de Portugal ver que os nossos bancos têm emprestados 256 mil milhões € ("crédito líquido a clientes"). Depois fui ver a capitalização bolsista e são mais 266MM€ (ver).
Somando apenas os activos destes dois mercados (bancários mais mobiliários) ficamos acima dos 310MM€ que comparam com os 17MM€ de notas.
Vamos supor que as notas também são consideradas um activo. Então, temos um total de 330MM€ de activos em que as notas são 5%.

E se houvesse mais notas?
Vamos supor que caiam do Céu outros 17 mil milhões € de notas (duplicando a quantidade de notas em circula), Ficávamos com o dobro de notas mas o total de activos só aumentaria em 5%. Por isso, o efeito na riqueza das pessoas seria marginal. É que a duplicação das notas não faria duplicar os nossos depósitos bancários pois eles não são notas.
Como, a velocidade de circulação da moeda é estável (as pessoas não querem mais de 10% do PIB em notas), não seria possível passar a haver 20% de notas em circulação pelo que o PIB vai ter que duplicar.
Mas o problema é que não vai duplicar em quantidade mas apenas nos preços.
O que aconteceria é que os preços duplicariam de um dia para o outro, mais nada.

Mas o mercado monetário comunica com o mercado de crédito.
Mas no sentido contrário ao da lógica da batata esquerdista.
É que se a quantidade de moeda aumentar, a taxa de juro aumenta (e não diminui).
Os aforradores que vão fazer um empréstimo a 10 anos querem receber um determinado juro em termos reais (por exemplo, 1%/ano, que traduz o aumento do poder de compra) e, para isso, têm que calcular a taxa de juro (nominal que escrevem no contrato) somando-lhe a taxa de inflação esperada nos próximos 10 anos (diz o BCE que será 1,9%/ano). Desta forma, irão escrever no contrato 2,9%/ano.
Mas se a quantidade de moeda aumentar, os preços irão aumentar, isto é, a inflação irá aumentar pelo que os aforradores irão exigir uma taxa de juro nominal maior.
Se a inflação aumentar, por exemplo, para 3%/ano, o mesmo aforrador já vai exigir 4,0%/ano.

A comunicação.
Tem a ver com as expectativas (a previsão do efeito da medida na taxa de juro futura).
Se a intervenção do Banco Central não alterar a previsão de inflação então, faça o que fizer, não afectará as taxas de juro. Se houver um aumento das notas em circulação que faça as pessoas pensar que a inflação vai subir, a taxa de juro nominal irá aumentar.
Parece-me simples mas não é porque quase todos os comentadores da nossa praça pública cometem o erro de pensar que a intervenção do BCE vai fazer alguma coisa pela economia.

A crise da Zona Euro.
Outro problema que tenho com os meus colegas é que eles, porque vivem em Portugal e são esquerdistas, querem dizer que a Zona Euro está a viver uma grave crise.
Vou mostrar o gráfico da evolução da taxa de juro média das obrigações do tesouro a 10 anos (média usando o PIB como ponderador.
Reparemos que os 5 maiores países ponderam quase 84% da economia da Zona euro e que somando todos os países intervencionados pela Troika, dá menos de 6% do PIB da ZE.

Fig. 1 - Peso de cada país na economia na Zona Euro (média 1992-2013, dados: Banco Mundial)

Vejamos então como têm evoluído as taxas de juro a ver se descobrimos alguma crise (ver, Fig. 2). O que se observa é que, entre 2003 e 2012, a taxa de juro esteve em torno dos 4%/ano, nem se vê crise do Sub-Prime (2008) nem da dívida soberana (2010), não há crise nenhuma. Estranhamente, em princípios de 2012 a taxa de juro começou a cair, 1 ponto percentual cada ano.

Fig. 2 - Taxa de juro média nas obrigações a 10 anos da dívida pública da Zona Euro (dados: ECB, "long term interest rates for the criteria of convergence")

O que irá acontecer à Grécia?
Já se sabe que vai sair da Zona euro.
Atentem à conversa da ministra das finanças: "na eventualidade de acontecer algo de grave, não precisaremos ir ao mercado nos próximos tempos para nos financiarmos."
Se a taxa de juro está a descer, para que é a pressa em garantir o financiamento para os próximos 18 meses?
Tem milhares de milhões de euros no cofre a pagar juros para quê?
Não seria melhor esperar pela data das necessidades?
É que a Maria Luís já sabe que a Grécia vai rebentar e que está por dias, no máximo, por semanas, poucas.

Prova disso foi a conversa aos jornalistas do Tsipras e do Junker.
Enquanto o Tsipras dizia "tenho a certeza de que vamos chegar a acordo porque existe vontade política para isso" o Junker abanava com a cabeça a dizer que não para logo rematar "eu não tenho esperança."
Depois temos a evolução da taxa de juro da dívida pública grega a longo prazo (10 anos) que já está bem acima dos 10%/ano.
Atenção que isto não traduz que a Grécia está a pagar 11,6%/ano de taxa de juro mas sim que quem emprestou dinheiro à Grécia está a vender títulos com valor nominal de 100€ por 34€, estão a perder 2/3 do valor.

Fig. 3 - Evolução da taxa de juro Grega a 10 anos (implícita)

Agora tenho que ir.


Fig. 4 - Любовь, прийти к постели

Pedro Cosme Vieira

2 comentários:

Pedro Alexandre disse...

Caro Professor,

Os esquerdistas julgam que o BCE e a política monetária tem como função fazer crescer a economia injetando moeda na economia, basicamente demonstram a sua total ignorância do funcionamento do mesmo.

A inflação é apenas um sinal de crescimento económico e não o contrário, não tem nada a ver com o valor dos bens e serviços e tretas do costume dos Keynesianos.

Mais engraćado é agora ouvir os defensores do QE do BCE (achando que isso vai para o consumo) virem ao mesmo tempo reclamar sobre o atual estado do sistema financeiro e da falência em cascata do capital em Portugal, isto é mesmo de partir o coco a rir!!!!

Cumps

Paulo Sousa disse...

O engraçado é que alguns preços de bens de consumo não aumentaram.
Prova disso são os preços da Garrafeira online WIVINI.
Cup.

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