sexta-feira, 13 de março de 2015

O caminho do Brasil

Os países são como os músculos. 
Para termos boa musculatura temos que trabalhar.

Todos os dias, em vez de ficarmos a ver televisão e a ler bloggues parvos como este, temos que pegar num peso de 1kg em cada mão e amarrar outro nos tornozelos e ir caminhar em passo acelerado durante uma horita, fazer pelo menos uns 6 km.
Se fizermos isso, lentamente (e com muito sacrifício), a gordura irá desaparecer e o músculo crescer.

Também, para podermos ter um emprego seguro e bem remunerado, em vez de gastarmos o nosso tempo e dinheiro em mulherido, jantares e noitadas, poupamo-los e investimo-los em estudo, livros e aulas o que, lentamente (e com muito sacrifício), nos vai tornar mais capazes de produzir mais valor, o que é a chave do sucesso no emprego. 

Os países também ganham músculo e são capazes de produzir mais se houver poupança que é a fonte de financiamento do investimento produtivo.  Desta forma, ano após ano, a quantidade de capital aumenta o que (com muito sacrifício) faz com que o PIB aumente.

Fig. 1 - Está a crescer

Mas o que acontece quando paramos de nos esforçar?
Os músculos tornam-se mais volumosos. Porque os músculos ganham gordura (que não vemos), ficamos com a sensação de que estão a crescer, cada vez mais fortes.

O trabalhador torna-se mais produtivo. Como já não perde tempo a estudar, tem mais tempo disponível e está podendo assim tornar-se mais produtivos. 

A economia do país, que deixa de poupar e encaminha todo o rendimento para o consumo, cresce. Porque mais pessoas querem consumir, os estabelecimentos vão precisar de contratar mais horas de trabalho.

Mas isto é uma realidade de curto prazo, pois, mais dia menos dia, a falta de esforço, seja musculação, estudo ou poupança, encaminha-nos para o abismo.

Há um exemplo muito interessante de crescimento económico.
O crescimento acontece por haver inovação em alguma das milhares de actividades que compõem a economia. Uma de cada vez, encontra formas mais eficientes de produzir e o mecanismo (de mercado) que coordena as actividades (os preços) vai difundir esse inovação a toda a economia. O problema é que, no curto prazo, a inovação vai parecer que caminha a economia para o fracasso. Pro isso é que tantas pessoas são contra as inovações.

Vamos imaginar 
Uma economia com 99 pessoas a trabalhar em padarias, salsicharias e rolotes de cachorros quentes (que usam os pães e as salsichas).
Como as pessoas apenas dão valor aos cachorros quentes (ninguém come pão ou salsicha simples), vão gastar todo o rendimento em cachorros quentes.

Sendo o preço dos cachorros quentes normalizado a 0,99€/u (será a unidade de valor) e a produtividade de cada trabalhadores é 6 (pães, salsichas e cachorros, respectivamente), a economia caminha para o equilíbrio seguinte:

Sector.............. Padaria .......Salsicharia.......Rolote
Trabalhadores .....33 .................33 ................33
Produtividade .......6....................6...................6
Preço.................0,33€/u.........0,33€/u.........0,99€/u.
VA....................65,34€..........65,34€..........65,34€
...........................(33%)...........(33%)...........(33%)
Salário...............0,99€.............0,99€............0,99€
Consumo..............2...................2....................2

Esta economia está em equilíbrio de pleno emprego (todas as 99 pessoas têm emprego, o salário é igual à produção e a produção é igual ao rendimento).

Mas dá-se uma inovação tecnológica.
Nas padarias descobrem um novo processo produtivo em que cada padeiro passa a produzir 30 pães por dia. Aparentemente isto será bom para as padarias (e para os padeiros) e que os outros sectores ficarão diminuídos. Mas, veremos que não, que vai ser exactamente ao contrário.
A economia vai evoluir no sentido de um novo equilíbrio. Supor que já passou o tempo de ajustamento, a economia estará num novo equilíbrio em que todas as pessoas estão melhor (os preços do cachorro quente mantém-se nos 0,99€/u que é a unidade de valor):

Sector.............. Padaria .......Salsicharia.......Rolote
Trabalhadores ......9 .................45 ................45
Produtividade ......30.................3...................3
Preço.................0,09€/u.........0,45€/u.........0,99€/u.
VA....................24,30€.........121,50€........121,50€
...........................(9%)...........(45%)...........(45%)
Salário................2,70€...........2,70€............2,70€
Consumo............2,73.............2,73..............2,73

No novo equilíbrio, todas as pessoas ficaram melhor (e não apenas os padeiros). O preço do pão desce e o preço da salsichas sobe (e a margem da rolote também sobe de 0,33 para 0,99 - 0,45 - 0,09 = 0,45).
Mas o sector de padaria, onde houve a inovação, diminui o peso na economia de 33% para apenas 9%.

Isto acontece todos os dias.
Por exemplo, a crise na Agricultura deve-se aos grandes ganhos de produtividade. Hoje um agricultor consegue produzir mais de 1000x o que produzia um agricultor em 1950.
Pelo contrário, os sectores que vão ganhando peso, por exemplo, o ensino e a saúde, deve-se ao facto de os ganhos de produtividade serem pequenos. ensinar hoje um aluno não é muito diferente do que era há 2500 anos atrás.

Mas o que é que isto tem a ver com o Brasil?
É que este gigantesco país pensou, com o Lula da Silva, que o combate à pobreza poderia ser a estratégia de crescimento económico que levaria o Brasil a ser uma superpotência mundial. Esta política de redistribuição fez-se pela diminuição da poupança (aumento do consumo financiado com crédito que deveria ir para investimento).
Se até 1990 a poupança líquida do Brasil (poupança interna bruta menos a depreciação de capital em percentagem do PIB) estava acima dos 10% e acima da alemã, desde então caiu para um valor próximo de zero.

Fig. 2 - Evolução da poupança líquida, 1970-2013 (dados: BM)

E, entre 200 e 2010, a redistribuição fez a economia crescer, passada uma década, a falta de poupança meteu-lhe um travão. Se o PIB per capita brasileiro relativamente ao alemão (que é a comparação europeia) recuperou 3 pontos, mantém-se há vários anos nos 24%, a mesma relação que existia em 1971-1972.

Fig. 3 - Relação entre o PIB per capita brasileiro e alemão, 1970.2013 (dados: BM)

E onde nos leva a questão da inovação?
É que o Brasil tem uma regra automática que aumenta os salários (salário mínimo e dos funcionários públicos) para corrigir a inflação e acrescentar poder de compra.
Mas, por um lado, este mecanismo ao se aplicar a toda a economia evita que a economia ajuste em função da inovação que vai acontecendo. Por um lado, transmite para os sectores onde não há inovação (e que não têm ganhos de produtividade) aumentos de salário que não deveriam existir prejudicando o ajustamento da economia ao longo do tempo.

Agora vou um bocadinho à Grécia.
Vão cada vez mais a caminho da parede pensando que a encornadura é rija o suficiente para deitar o juro abaixo.
O certo é que a nossa taxa de juro (da dívida pública) a 5 anos está nos 0,85%/ano enquanto que a grega está nos 15%/ano.
Parece que quem tem uma dívida massiva (como nós e a Grécia), se disser "Não podemos pagar as nossas dívidas", a taxa de juro sobe de tal maneira que a dívida fica mesmo impossível de pagar mas se disser "Vamos pagar tudo até ao último cêntimo" a taxa de juro desce de tal maneira que se torna mesmo possível pagar essa dívida.
Portugal (o Passos Coelho e não a brigada de caloteiros esquerdistas) disse, mesmo sem ser possível na altura, que íamos pagar tudo e a taxa de juro desceu. Pelo contrário, os gregos disseram nas mesmas circunstâncias que iam bancarrotar, e vão mesmo bancarrotar.

Pedro Cosme Vieira

3 comentários:

Newton Pessoa disse...

Professor, é sempre muito bom ler as suas análises sobre o Brasil pois a sua visão faz-me refletir e inserir novas linhas de pensamento sobre a situação econômica do meu país.

Obrigado por perder um pouco do seu precioso tempo conosco, leitores do seu blog.

Pedro Renner disse...

"If economists want to be understood, let them use plainer words, and address those words less to politicians and more to everybody else. Politicians care about what voters think, especially voters in blocks, and not a shred about what economists think. Talking to politicians about economics is therefore a waste of time. The only way to make governments behave as if they were economically literate is to confront them with electorates that are." Prólogo do livro "A Beginner's Guide to the World Economy", que por sua vez o extraiu da revista "The Economist".

O prof. Pedro Cosme anda aqui a fazer uma favorzão à malta, para a tornar um pouco mais "economically literate".

Bom trabalho.

aacvieira disse...

http://entrepreneurscommunicate.pbworks.com/f/Merton.%2BSelf%2BFulfilling%2BProfecy.pdf

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