sábado, 2 de maio de 2015

Mais pretalhada => mais desemprego?

O Fernando Gonçalves escreveu um comentário muito interessante.

Relativamente à solução proposta por mim de se construir um "país" com 50 milhões de habitantes algures dentro de Portugal para receber a pretalhada desse mundo fora, o FG faz uma ligação entre haver mais pessoas (estrangeiros pouco qualificadas) e o desemprego dos nossos (pouco qualificados).
Esta relação parece ter lógica, é senso comum, e por isso é que a grande maioria da população a pensa como verdadeira. Mas, de facto, está errada e vou explicar porquê.
Está errada porque o importante (para os de cá) é que i) os estrangeiros tenham um ordenado menor que o incremento de produção que o seu trabalho induz ii) possa haver alteração estrutural (especialização dos portugueses em actividades com maior valor acrescentado).

A minha micro-economia.
Vou precisar estilizar uma economia dando-lhe interpretação física. Vou considerar que o capital são "oliveiras" (um total de 1000 oliveiras) e que existe um apanhador de azeitonas português (que ganha 5€/h e que sustenta a mulher que não trabalha) cujo emprego é ameaçado por 100 estrangeiros que dão à costa num barco.


A questão da produção e da distribuição.
Para vivermos bem tem que haver produção e isso é independente da distribuição. São duas coisas completamente diferentes. Por exemplo, em Portugal apenas 4 em cada 10 habitantes trabalha e não vemos ninguém a morrer de fome (por não trabalhar). Depois, a produção é distribuída pelas pessoas (com intermediação da Segurança Social, pela solidariedade/caridade ou pelas relações familiares).
Não pode haver distribuição sem produção.

Vou considerar que do valor da produção, aproximadamente 2/3 vai para remunerar o trabalho e 1/3 vai para remunerar o dono das oliveiras (o capital). Esta proporção é mais ou menos o que se observa nas economias. 
O trabalhador vai ganhar 5€/hora de trabalho mas, porque trabalhar é desagradável, ele preferia ficar em casa se o Estado lhe desse um subsídio de 2,5€/hora.
Na minha micro-economia o português vai trabalhar 1856h/ano, sendo o seu salário médio diário ao longo do ano de 26€/dia (dando metade à mulher) enquanto que o dono das oliveiras vai receber outros 13€/dia (de renda, juros e lucros). 
O Estado cobra um imposto de 10% sobre o rendimento (um total de 3,90€/dia) que dá ao apanhador português. Assim, o apanhador português passará a ter cerca de 27€/dia de rendimento do seu trabalho, menos o imposto pago mas a transferência do Estado.

De repente, 100 dão à costa num barco.
Como no país de onde vem é uma grande miséria, estes desgraçados trabalha todo contentes com um ordenado de 1,00€/h. 
O dono das oliveiras vai agora dar emprego a estes 100 desgraçados e o português, naturalmente, vai perder o seu emprego.

O salário horário vai descer.
Com o mesmo nível de capital (não é preciso haver novo investimento, i.e., plantar mas oliveiras) a economia consegue absorver mais trabalhadores mas a produtividade média por trabalhador (e, consequentemente, o salário horário) vai descer (ver, Fig. 2, simulação até 10 imigrantes).

Fig. 2 - Evolução do salário horário dos trabalhadores pouco qualificados em função do número de imigrantes que entram na economia (cálculos do autor)

Mas a produção vai aumentar mais do que os salários pagos aos imigrantes pelo que os 3 portugueses (trabalhador, mulher e dono das oliveiras) ficarão a viver melhor (com transferências, lucros, rendas e juros).

Fig. 3 - Evolução do rendimento dos portugueses (cálculos do autor)

E que vai ser do português?
Como com os 100 desgraçados a trabalhar a produção aumenta muito mais do que os salários pagos (no caso, aumenta 20 vezes, 100^2/3), os 10% de imposto usados para subsidiar os português aumentam de 3,9€/dia para 78€/dia.
Agora, o Estado pode dar um subsídio de desemprego ao português que ficará todo contente porque o Estado, recebendo agora 77€/dia, até lhe pode pagar um valor superior ao que ele tinha de ordenado, o dono das oliveiras ficará muito contente porque o seu lucro, renda e juros aumentou de 13€/dia para 272€/dia e os desgraçados também ficam contentes porque na terra deles ganhavam 0,50€/dia e aqui ganham 1,00€/dia.

E o Português ainda pode mudar de vida.
Se o sonho do português era estudar e ser médico, vai ter essa oportunidade (porque o Estado tem dinheiro para lhe pagar os estudos) e, depois, terá um emprego como médico dos 100 estrangeiros desgraçados.
(Na minha micro-economia usei a função produção agregada Y= 9,55328*N^(1/3)*K^(1/3), custo de capital de 5€/oliveira e preço de venda de 1€/u. Este Y faz o lucro ser zero quando o salário são 5€/h)

As ciências são precisas.
Porque a realidade não é óbvia.
Se eu acreditasse na minha minha mãe ("Caminhar faz mal à saúde porque rompe as articulações, basta ver como os kilometros rompem as peças dos automóveis.) não saia do sofá. 
O funcionamento da Economia também é bastante contra-intuitivo e, por isso, temos que ir ver aos livros o que diz a Ciência Económica.
Esta é para os esquerdistas e demais ignorantes que pensam que, com o senso comum, vão encontrar o outro caminho, o caminho do fim da guerra e da fome no Mundo.

Um abraço que já vou tarde para o almoço,

Só uma notazinha depois do almoço.
Hoje o Prof. Teixeira dos Santos escreve no JN que é mau para Portugal que os nossos jovens emigrem (e que isso é bom para os países que os acolhem). Esto é o discurso da esquerda que, a ser verdade, por simetria, é bom recebermos os jovens que queiram vir trabalhar para Portugal (e mau para os países deles).

Se fosse verdade que mais pessoas causam o aumento do desemprego, os países grandes (com mais pessoas) teriam maior desemprego, o que não tem lógica nem se observa.

Pedro Cosme Vieira

5 comentários:

Rodolfo disse...

Um exemplo é Hong Kong. Tem metade da área dos Açores, tem 7 milhões de habitantes e 3% de desemprego.

Económico-Financeiro disse...

Obrigado Rodolfo pela ajuda.
E em Hong Kong, todos os dias, 365 dias por ano, entram 250 novos imigrantes vindos do continente (da China), 91250 novas pessoas por ano.
Um abraço,
pc

Económico-Financeiro disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Pedro disse...

Hummm.

Comentários apagados, publicação só com visto prévio do dono do blog.

Porque é que os neoliberais estão sempre a falar em liberdade e depois é sempre isto ?

A vossa ideologia fanática só pode ser imposta calando o contraditório ?

E no entanto permitem-se a si próprios todos os excessos "para chamar a atenção ".

Então o mesmo tratamento aplicado a vocês já não tem tanta graça ?

As vossas aldrabices tornam-se logo evidentes assim que houver o mínimo debate ?

Tantas artes marciais para tanto medo de um simples contraditório.

António Pires disse...

Deixo aqui o meu pequeno contributo para a defesa da racionalidade todos os dias ameaçada pelos "bons" selvagens que querem dar cabo disto tudo:

Portugueses,

Sou um cidadão português que não pode ficar indiferente perante a pobreza e a fome para que foram atiradas milhares e milhares de famílias pelo governo de Portas e Coelho, assumindo, aqui e agora, este compromisso de cidadania plena que é a minha candidatura à Presidência da República, pedindo a todos o apoio moral indispensável, mas também que sejam pródigos no financiamento da minha campanha eleitoral.
O documento com os detalhes de todas as minhas propostas para o desenvolvimento socioeconómico e cultural de Portugal estará disponível neste mesmo blogue, onde agora vos escrevo, a partir de 1 de julho de 2015, para consulta livre e pública, porém aproveito este ensejo para lançar na blogosfera meia dúzia de grandes ideias do meu programa político para uma década, dando assim oportunidade aos meus primeiros apoiantes de se adiantarem no estudo, que se quer profundo e refletido, do meu pensamento republicano.
No campo da instrução pública, tudo farei para que a partir de 1 de janeiro de 2017 a percentagem de população adulta possuidora de habilitações académicas de grau igual ou superior a Doutoramento ultrapasse a fasquia dos 99 %.
Os conteúdos, as competências, os objetivos, as metas e as aprendizagens oferecidas pelas escolas C + S e profissionais serão, por força de lei ordinária, de uma facilidade atroz, abandonando-se a escala de avaliações abrilista, de 1 a 5, que pretendia nivelar por baixo, e restaurando-se a escala napoleónica, de 0 a 20, com a ressalva de serem proibidas classificações inferiores a 17 valores, promovendo-se assim um nivelamento por cima.
Para quem votar em mim, a problemática da sustentabilidade do sistema de reformas e pensões da segurança social passará a ser uma falsa questão. Se o dinheiro algum dia faltar no sistema, prometo que vou buscá-lo, em nome do povo, ao Orçamento Geral do Estado, e, se algum burocrata me fizer frente, não hesitarei um segundo antes de mandar avançar os tanques de guerra, puxando dos meus galões de Chefe Supremo das Forças Armadas.
É inconcebível para mim, que sou uma pessoa humana, que um só dos meus concidadãos passe fome em Portugal neste primeiro quartel do século XXI! Darei ordens ao governo para que se institua um rendimento mínimo garantido per capita nunca inferior a 2 500 euros por mês. Os padeiros e os grandes capitalistas dos hipermercados poderão ser penalizados com termo de identidade e residência se, sem justa causa, recusarem, a um qualquer vulgar cidadão com fome e sem dinheiro, o prazer de saborear o pão acabado de cozer em forno de lenha.
Todos os emigrantes, sejam os que abandonaram o país porque lhes apeteceu, sejam os que partiram porque eram pobres, sejam os perseguidos pelo fascismo ou pela santa inquisição, serão incentivados a regressarem a este cantinho à beira-mar espraiado com um subsídio estatal de 10 milhões de euros por família, para que possam refazer com tranquilidade os negócios de que se viram brutalmente esbulhados pelos esbirros da monarquia anacrónica ou pelos lacaios da ditadura salazarista, que nada mais tinham para dar ao povo do que frutos silvestres, raízes e caules subterrâneos!

Abaixo a Troika!

Diz não ao Empobrecimento!

Vota António Pires!

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