quinta-feira, 25 de junho de 2015

Estará mesmo o desemprego abaixo do de Abril de 2011?

Esta semana estalou uma pequena polémica.

O Ministro Mota Soares, depois de um longo desaparecimento, veio dizer que hoje temos um número de desempregados inferior ao número que existia no dia em que o PS assinou o Memorando de Entendimento com a Troika (17 de Abril de 2011).
Foi objectivamente isto que o homem disse depois de ter passado uns longos meses escondido no mesmo lugar em que está o António Costa (está a pensar o que há-de dizer sobre a Grécia).
Claro que os esquerdistas do PS e mais vieram dizer que isso não passava de uma fábula.
 
Fábula?
Mas, sendo a fábula uma histórias em que as personagens são animais, então, os esquerdistas acham que o desempregados são animais!
Mas confesso que o meu primeiro pensamento foi "É impossível que depois de 4 anos de espiral recessiva, de destruição neoliberal, de empobrecimento e de austeridade pouco inteligente haja menos desempregados que em Abril de 2011, no fim de um período de 6 anos em que os esquerdistas do PS aplicaram as políticas de emprego e crescimento que dizem vir a ser, se vierem a ganhar as eleições de Outubro de 2015, o outro caminho que nos vai levar ao enriquecimento e à prosperidade (para o qual o Sócrates precisou de um massivo endividamento público e externo!).
 
Fig. 1 - O Mota Soares é o Varofáquis português mas em ponto pequenino (numa lambretazita).

Esta semana senti-me derrotado.
Tenho passado dias de grande angústia pois não quero aceitar que o Mota Soares meteu o pés pelas mãos (faltou à verdade) e os esquerdistas aproveitaram para, pela primeira vez na vida, dizer algo de verdadeiro.
Dei voltas e voltas na cama a tentar racionalizar o comportamento do Mota Soares. Será que o homem anda na lambreta sem capacete e, naquele dia, estava com a cabecinha sobre-aquecida por causa do Sol?
 
Hoje fui sem esperança, ver as estatístricas ao www.ine.pt.
Pensei que seria a minha derrota final.
Diz lá no INE que em Abril de 2011 havia 658,7 mil desempregados mas não tem dados para Junho de 2013. Os últimos dados que tem são 669,8 mil desempregados em Abril 2015, próximo do valor de 2011 mas acima.
Mas o Mota Soares falou em Junho de 2015 pelo que tive que espetacular como terá evoluído o desemprego em maio e em Junho para os quais não tenho dados.
 
A Ciência nunca diz "não sou capaz de dizer nada".
Para estimar o número de desempregados em Junho de 2015 peguei na série desde o valor máximo do desemprego ( 1 T 2013) e calculei a variação média mensal. Obtive -1,22%/mês.
  
Fig. 2 - Número de pessoas desempregadas (dados: INE)
 
Afinal, hoje há mesmo menos pessoas desempregadas do que havia em 2011.
Aplicando esta taxa de variação aos valores de Abril de 2013 obtenho 653,2 mil como o valor médio do número de pessoas desempregadas para Junho de 2015 (661,6 mil para Maio).
Se em Abril de 2011 havia 658,7 mil desempregados, hoje há menos  5,5 mil desempregados.
E, pensando que a saída do Euro da Grécia não vai ter impacto no nosso país, em Setembro de 2015, na véspera das eleições, haverá 630 mil desempregados, menos 23,2 mil desempregados que no dia da assinatura do Memorando.
 
Mas é uma "estatística rápida".
Então é preciso calcular uma medida do erro do estimador e, a partir dai, o grau de confiaça da estimativa.
Aplicando o estimador aos meses desde Abril de 2013 até Abril 2015, calculo que o erro padrão é de 18,5 mil. Este número indica que a probabilidade do INE vir dizer que o desemprego em Junho 2015 é inferior ao valor de Abril de 2011 é de 60%.
Vamos ver que já só faltam 2 meses para sair a estatística.
 
Não pode ser mas é.
Depois de 4 anos de austeridade, de espiral recessiva, de agenda neoliberal destruidora, posso afirmar com confiança de 60% que hoje há menos desempregados do que havia em Abril de 2011, no fim de um período de 6 anos de crescimento e glória em que os esquerdistas do PS tiveram a oportunidade e mão livre  para aplicar as políticas do "outro caminho" alavancadas no endividamento público e externo massivo, políticas que o Passos Coelho, no entretanto destruiu.

Mas a taxa de desemprego ainda está superior.
A minha "estatística rápida" aponta para 12,7% em Junho 2015 quando em Abril de 2011 era de 12,3%.
ainda são 4 décimas a mais mas em Setembro a coisa, em termos de taxa, já vai estar abaixo.
A diferença entre a evolução da taxa de do valor deve-se à diminuição da população activa em 200 mil pessoas (de 5355 mil para 5152 mil).
 
E como ficará a Grécia?
Vai borda fora.
Quando no dia 27 de Janeiro de 2015 a Grécia bloqueou o aprofundamento das sanções à Rússia por causa da invasão do Leste da Ucrânia, a Alemanha (em sociedade com a Polónia e o apoio do Reino Unido e de todos os demais países europeus que estiveram ocupado pela URSS) decidiram que a Grécia não tinha mais lugar dentro da União Europeia.
Agora vai borda fora da Zona Euro e, daqui a um anito, borda fora da União Europeia.
O Varufáquis e o Tsipras não compreenderam que tinham tocado o bicho alemão com uma vara demasiado curta.

Queriam 6 meses.
No dia 25 de Janeiro os esquerdistas gregos disseram que em 6 meses arrumavam a casa.
Que iam subir impostos e fazer as coisas necessárias mas de forma inteligente para equilibrarem as contas públicas e re-iniciarem o crescimento e o emprego de uma vez por todas.
E o que fizeram passados 5 meses?
Aumentaram a despesa pública e reduziram a receita fiscal.
E o que vão fazer nos próximos 3 anos e 7 meses?
Prometer uma coisa e fazer exactamente o seu contrário.

Agora, se se quizerem mesmo manter na Zona Euro. 
Têm que fazer aquilo que os comunas acusaram o Gasparzinho de fazer: só lhes sobra "ir para além da Troika" e falar com os "funcionários" da troika muito de mansinho.
Têm que se deixar dessa ilusão da renegociação, voltar a pegar no Memorando de Entendimento de 2012 (o segundo resgate grego) e dar-lhe cumprimento a 110%.

Mas será a dívida pública grega pagável?
Os esquerdistas dizem que não, dizem que 175% do PIB não se pode pagar.
Mas o Japão tem uma dívida pública de 238% do PIB e ninguém diz que não é pagável.
Em 1820 e em 1945 o Reino Unido tinha uma dívida pública na ordem dos 250% do PIB e conseguiu paga-la.
Se a Grécia tiver um superávite primário de 2,0% do PIB, o que não é nada da especial, poderá pagar toda a sua dívida pública em menos de 70 anos. O que é preciso é ter a vontade que parece que nunca tiveram.

Fig. 3 - Evolução futura da divida pública grega com um superávite primário de 2% do PIB e crescimento do PIB de 2%/ano

Mas isso de pouco interessa?
Alguém se lembra da dívida de guerra da URSS?
Depois a invasão alemã da URSS, os americanos forneceram pelo Corredor Persa, Ártico e Vladivostok bens no valor de milhares de milhões de dólares. Não só alimentos como camiões, aviões e todo o tipo de equipamento num total de 16,3 milhões de toneladas.
A URSS usou esse armamento não só para derrotar os nazis como para invadir a europa de Leste.
Alguma vez os soviéticos disseram que não pagavam?
Alguma vez os americanos mandaram a factura à URSS?
Alguma vez os soviéticos pagaram?
Nunca, nem um cêntimo.
E hoje ninguém fala disso.

Fig. 4 -  Não tires já que ainda tenho 150 trabalhos e 250 testes de GInf para ver.

Pedro Cosme Vieira

3 comentários:

Fernando Gonçalves disse...

A recuperação portuguesa é ilusória,se não fosse a emigração o desemprego era muito maior,so fazia sentido comparar os números como medida de desempenho económico num cenário em que pudéssemos neutralizar os movimentos migratórios.Não vale dizer,ah mas estamos a falar em taxa de desemprego,não numero de desempregados.Certo,mas a maioria dos que emigraram estariam cá desempregados,ou a ocupar o emprego de alguém que cá ficou e que assim ocupou essa pessoa o lugar de quem emigrou.Só quem quer à força defender este governo recusa-se a aceitar isso.Estamos a comparar o desemprego em momentos diferentes,pelo meio as pessoas vão emigrando,elas não emigram instantaneamente mal se sentem desaproveitadas,demora tempo.Mas a recuperação é mesmo muito frágil,os salários são baixo,os riscos são muitos,o défice ainda está alto,há muitas convulsões sociais,muitas contestações.Infelizmente,isto vai dar para o torto,esteja quem lá estiver no governo.Porque o problema não é cortar mais ou menos,repor mais rápido ou menos rápido,o problema é que apesar desta crise o pais mudou muito pouco estruturalmente,e à 1ª tempestade vai de vela.Enquanto não houver uma verdadeira europa que não seja para defender os interesses dos países ricos,que define metas irrealistas para os meios que disponibiliza aos paises,isto não vai lá.Quanto à grecia,manter 1 ou 2% de superavit primário nunca a vai tirar da crise.Talvez seja mesmo melhor a grecia não aceitar as condições que lhe querem impor,e nã pague a divida,talvez a europa goste mais disso,pois não se vê vontade nenhuma em ajuda-la.

deathandtaxes disse...

Caro Fernando Gonçalves
Quanto aos números dos empregados/desempregados/emigrados não vou contestar nenhuma das suas conclusões, pois deve estar municiado de informação privilegiada que nem eu nem o Prof Pedro Cosme temos à nossa disposição.
Alguém que eu sei, disse na TV que as sondagens não representavam a "Verdadeira" vontade do povo, que era ele o preferido dos indecisos (os indecisos provavelmente ainda não o sabem), que até ia ganhar as eleições( e com maioria absoluta) pois estamos fartos de austeridade PDS/PP.
No outro dia em conversa com um grupo de pessoas de diversos níveis de rendimento, descobri algo curioso: Embora as pessoas que têm um baixo nível salarial (até uma delas com o Ordenado mínimo Nacional) se estivessem a queixar da "nossa" situação que estávamos todos a sofrer imenso com as medidas deste governo, perguntei aos presentes, quantos deles estão pior do que em 2011 final do Principado Sócrates?
A resposta não tardou... Nenhum deles está pior. Parece que quando vão ao café ao final da tarde, "toda a gente" se queixa que está tudo muito mal...bla bla, bla... e depois recebem uma chamada nos seus Smartphones topo de gama e vão embora nos seus carros novos(podem ser usados), acabadinhos de comprar.
Devemos estar mesmo muito mal. É o que se ouve... deve mesmo ser verdade!

Quanto à situação da Grécia, essa merece resposta.
Os gregos são mentirosos natos. Tsipras mentiu para ganhar as eleições e prometeu tudo a todos.
Agora, promete que vai fazer mundos e fundos, quando na verdade quer sobreviver apenas mais uns meses...

Quanto ao Socialismo... acaba-se quando acaba o dinheiro dos outros (neste caso concreto,trata-se do dinheiro Português, Espanhol, Italiano, Irlandês, Alemão, etc.).
No fundo, os Gregos querem continuar a gastar como gastaram até agora, mas com o também "Meu"( também o do Prof Pedro e muito provavelmente "o Seu") dinheiro!
apenas para dizer daqui a 3 ou 4 meses que a austeridade não resulta, e que me querem tirar mais dinheiro.

Chega. Está na hora de lhes cassar o cartão MB, e dar-lhes um "Monopoly". Depois podem brincar co o Dracma à vontade.

Fernando Gonçalves disse...

Caro deathandtaxes,

As pessoas estão piores,o que fala não corresponde à realidade.Quando se recebe menos pelos feriados,pelas horas extras,as empresas fixam objetivos mais ambiciosos nos comissionamentos,paga-se mais IRS,mais IVA,mais IMI,assim como todos aqueles cortes cirúrgicos nos suplementos salariais na função pública,então os trabalhadores em geral estão pior.Mesmo que ganha o salário mínimo esteve uma serie de anos sem aumento que o ultimo aumento que teve nem repôs a inflação acumulada.Mais os cortes nos apoios sociais:no desemprego,no complemento solidário de idosos,nos abonos de família.Ficaram piores os trabalhadores e os pensionistas,e os desempregados.Toda a gente com carros novos e telemóveis topo de gama?So se os seus amigos vivem bem,só pode,eu só vejo pobreza,dívidas,pessoas a mexer no lixo como nunca vi.A sua observação é interessante,mas é como entrar num restaurante de luxo e dizer-se hipocritamente,onde está a crise?Quanto á grecia a ajuda que tem sido dada apenas tem por base a salvação do sistema financeiro,as medidas que querem impor aquele povo já na miséria,que são draconianas,deviam envergonhar qualquer europeu do século XXI.Quanto a dinheiro que fala,ora bem,se cada um der em função das suas capacidades,porque não,isso é o que devia ser a Europa,não uma Europa que quer mais salvar os bancos que os países,no sentido das suas pessoas.Está muito preocupado com o seu dinheiro,devia-se preocupar com as formas mais macabras como o nosso governo lhe vai ao bolso,para o transferir para o grande capital.Nisso,já deve axar normal,até diz "é o sistema,tem que ser,temos que trabalhar para ele".

Twitter Delicious Facebook Digg Stumbleupon Favorites More

 
Design by Free WordPress Themes | Bloggerized by Lasantha - Premium Blogger Themes | Best Hostgator Coupon Code