sábado, 27 de junho de 2015

O Grexit e o futuro do Euro

Toda a gente diz que ninguém sabe o que irá acontecer. 

Mas eu sei. 

Vamos ao câmbio fixo.
O regime de câmbios fixos existe o país A,tem a sua moeda fixa relativamente à moeda do país B. 
Por exemplo, o Peso Argentino teve câmbio fixo (1 para 1) com o Dólar Americano entre 1991 e 2001.
Se no país A a política de salários e preços for expansionista relativamente ao país B, as contas de A com B começam a desequilibrar-se (a Balança Corrente fica deficitária) e o endividamento externo começa a aumentar. Este desequilíbrio também leva ao aumento da taxa de desemprego em A, a diminuição do desemprego em B e a emigração de A para B.

Com o tempo
Se o povo da país A pensar que a economia se baseia no consumo e não na produção e que o salário é um direito e não uma contra-partida pelo que se produz (e o país B não quiser aumentar a sua inflação ) então, a economia de A vai contraindo e o endividamento externo vai-se tornando crescente o que faz aparecer o risco do país A ter que abandonar o câmbio fixo e desvalorizar a sua moeda.
Este risco cambial é uma força altamente destruidora das relações de câmbio fixo. Por esta razão, a evidência empírica indica que todas as relações de câmbio fizo do passado acabaram por fracassar.

Fig. 1 - A nova nota Grega em primeira mão.

Será a Zona Euro um regime de câmbios fixos?
Os especialistas dizem que sim e, se o for, também está condenada ao fracasso, demore muito ou demore pouco, vai acabar por acabar. 
Mas, de facto, não é um regime de câmbios fixos.
"Não é?" - o estimado leitor está agora a perguntar - "Deve haver nessa cabecinha um engano qualquer porque o nosso Escudo tem câmbio fixo com o Euro, 200$482 = 1,00€." vai pensar.
Mas não é um verdadeiro regime de câmbios fixos porque o nosso velhinho Escudo não está fixo relativamente à moeda de nenhum país mas sim a um cabaz com, além do escudo, 20 moedas e 20 economias.
Está outra vez a pensar "Portugal mais 20 economias dá 21 e a Zona Euro só tem 19 países, o fulano está a meter os pés pelas mãos."
Não, não, é que ainda existe a Kosova (os kosovares dizem que o nome é feminino) e Cabo Verde.
Assim, o Euro é um instrumento supra-nacional mais parecido com o Ouro que com um papel moeda.
O Euro é gerido pelo BCE como uma entidade supra-nacional que tem que manter a inflação de 2,0%/ano na média dos países que usam o Euro como moeda.
Em teoria o Euro pode subsistir mesmo que nenhum país o use como moeda transformando-se na média de uma cabaz das moedas de todos os países da União Europeia.

E se o país A tiver uma inflação superior a 2,0%/ano?
Tendo ambos Euros, para o país A ter inflação acima dos 2%/ano, o país B irá ter uma inflação abaixo dos 2%/ano. Esta diferença nas taxas de inflação vão fazer actuar as forças económicas.
1) Os bens do país A ficam mais caros que os do país B o que faz com que as empresas do país A não consigam vender as suas produções.
2) As empresas do país A começam a ajustar descendo os salários (os custos diminuem o que leva à queda da inflação).
3) Se os salários não poderem descer (por ser inconstitucional)começam os despedimentos. 
4) Se os despedimentos forem inconstitucionais, as emrpesas começam a falir.
5) O Estado vai pagar subsídios de desemprego, tomar conta das emrpesas falidas e contratar funcionários públicos o que aumenta a despesa pública que tem que ser financiada com endividamento  externo crescente.
5) Se a economia não ajustar pelos salários, como não é possível um endividamento eterno, as pessoas vão ter que emigrar para o país B (onde a inflação sendo menor, a economia reage em sentido contrário).

Será que isto já aconteceu em algum lado?
Aconteceu e está a acontecer repetidamente em Portugal e um pouco por todo o Mundo. 
Por exemplo, entre 1960 e 2015 a população portuguesa aumentou 17% mas a população de Mértola diminuiu 75%. Em 1960 Mértola tinha 26026 habitantes e hoje tem 6750.
É que as pessoas em Mértola não estavam disponíveis para ter salários mais baixos que em Lisboa.

Fig. 2 - Mértola é muito bonita mas nunca lá estive.

Com a saída da Grécia não vai acontecer nada ao Euro.
Vai acontecer o mesmo que aconteceria se um país qualquer entrasse no Euro, nada.
Quando em 2001 a Argentina "quebrou" a associação com o Dólar Americano o que é que aconteceu ao Dólar? Será que o Dólar Americano acabou? Não me consta.
Vai passar a haver o risco de qualquer país sair do Euro mas esse risco é de cada país individual e não do Euro enquanto moeda. Esse risco de saída do Euro vai-se materializar em diferenças na taxa de juro de longo prazo, o que já acontece. Por exemplo, a dívida pública espanhola e Italiana a 10 anos paga  1,8% de taxa de juro e a dívida alemã paga 0,6%/ano (média de Maio 2015).

E poderá a Grécia continuar a usar o Euro?
Concerteza como Mértola sempre usou a mesma moeda que o resto de Portugal.
Se o BCE decidir manter a liquidez, nos próximos dias o sistema bancário vai acalmar passando a funcionar normalmente.
O governo poderá fazer mais despesa e contratar mais funcionários públicos (alegadamente pagos em Euros) desde que consigam cobrar impostos ou quem lhe empreste Euros. Como os gregos não vão aumentar os impostos (seria a tal Austeridade) e ninguém vai lhes vai emprestar Euros de forma voluntária, começarão a ser introduzidos "títulos de dívida convertíveis", TDC, para pagar parte da despesa pública, por exemplo, o salário é de 1000€/mês, a pessoa recebe 500€/mês mais 500€/mês em TDC que começará a ser utilizada como uma moeda local com câmbio flexível com o Euro.
Uma despesa pública que em condições normais custaria 1000€ vai custar 1500€ pois o governo vai pagar 750€ em notas e outros 750€ em TDC (supondo um câmbio no mercado negro de 1TDC = 0,33€).
Lentamente, a TDC entrará em circulação como moeda local havendo um mercado de câmbio. Se o governo teimar em aumentar a despesa pública e diminuir a receita fiscal, mais e mais TDCs terão que ser emitidos pelo que o câmbio com o Euro será cada vez menor. Assim, os salários vão descendo pois a metade em TDCs valerá cada vez menos.

Fig. 3 - És boa e eu queria dar uma volta nisso mas imagino que não aceites TDCs.

O TDC vai ganhar vida e, a prazo, haverá notas e moedas a dizer TDC.
Se o país A (a Grécia) não quiser resolver o problema dos salários em euros elevados, a prazo vai ficar sem a população que vai ter que emigrar para a Alemanha.
Se o país A (a Grécia) não quiser resolver o problema do défice público, terá que emitir mais e mais TDC e pagar uma percentagem dos salários nesta nova moeda o que, desvalorizando, fará diminuir os salários reais.
Mas, como observamos a crise em Mértola que já dura há mais de 50 anos, também veremos esse fenómeno no pais A.

O que é a democracia na óptica dos esquerdistas?
É o Syriza, com 2,25 milhões de votos, ter legitimidade democrática para desgovernar a Zona Euro que tem 334,57 milhões de pessoas.
Porque o Syriza foi eleito com votos correspondentes a 0,67% da população da Zona Euro, tem legitimidade democratica para dizer como deve ser governada a Zona Euro.
Bem, o Staline foi eleito com menos votos.
Que mandem lá na zonazinha deles.

E como estamos de pre----lhada.
Eu tenho observado coisas muito interessante.
1) Ainda não ouvi ninguém dizer que Portugal tem que receber os tais 3,52% dos imigrantes que chegam à Grécia, Itália e Hungria. Estão a chegar cerca de 2000 por dia pelo que deveríamos receber 70 por dia, 25 mil por ano.
2) Nenhum dos entrevistados diz "Eu atravessei o Mediterrâneo porque o meu sonho de sempre foi viver na Itália" nem "Eu atravessei o Mediterrâneo porque o meu sonho de sempre foi viver na Grécia" e muito menos "Eu atravessei o Mediterrâneo porque o meu sonho de sempre foi viver em Mértola."

Estão a ver onde eu quero chegar?
Eu estive a perguntar à minha empregada ex-ucraniana porque veio para Portugal. 
Porque, em 2001, constava que se viajasse para Portugal com visto de turista, se, uma vez chegando cá, conseguisse nos 30 dias arranjar emprego tinha logo um visto de residência. 
E assim foi. Em 2004 veio ela e o filho (com visto de turista).
Mas queria ir para Inglaterra mas não conseguiu visto.
Por mais refugiados que entrem na Europa, tendo liberdade de circulação, nem um quererá vir para Portugal.
Se não nos pomos a pau (literalmente) e "obrigamos" as portuguesas a ter filhos à força toda, quando eu passar a centenário (daqui a 50 anos), Portugal estará reduzido a 1 milhão de habitantes (e Mértola a 2 ou 3 velhotes).

Pedro Cosme Vieira.

7 comentários:

Fernando Gonçalves disse...

Caro Cosme,o que a Europa está a fazer à Grécia é inqualificável.E quem é o diz é nada mais nada menos que Paul Krugman.Joseph Stiglitz tb é bastante crítico.E ambos são bastante liberais.Tb jornais americanos assumidamente liberais estão críticos da Europa.Na opinião publica raramente vejo alguém ter uma posição tão radical como o professor.Até a China já veio dizer que queria ajudar,claro que por interesse político estratégico,mas claro,ao menos tem mais juízo que a Europa.Essa de "este país é pequeno,não pode impor nada,aquele tb é,idem aspas,...",então nesse caso estamos a dizer que a Europa é a Alemanha,já que são muitos milhões(mas mesmo assim nem todos os Alemães votaram no partido do governo,daí essa comparação de números não ter muita lógica),e mais a França e mais um ou 2 países grandes,só esses é que podem impor as suas vontades na Europa.Isso é que é democracia na sua óptica,interessante,uma instituição que não foi eleita democraticamente por ninguém querer se sobrepor num país à vontade da maioria dum povo,que tenham sido 1 milhão,2 milhões,5,10 ou 20 milhões,elegeram um governo. É esta Europa que temos e que o professor tanto defende,a Europa que dizia que tudo ia fazer e mais não sei quê,e agora está a fazer este teatro todo a insistir numa receita que já tirou 1/4 da riqueza dum país.E o governo português,armado em o bom aluno,esforçadinho para chamar a atenção dos bons alunos da frente,triste figura.

Económico-Financeiro disse...

FF,
Exactamente, a União Europeia, tirando a Grécia, é um clube de mal feitores.
Por isso, tal como as meninas de bem não frequentam casas de putas, a Grécia só tem que sair desse clube de bandalhos no qual Portugal é um deles.
E esses americanos, Krugman, Stiglitz, Obama, que convidem a Grécia a ser um 52.º estado americano. Que o referendo grego de Domingo seja a perguntar se o povinho quer passar a ser Americanos e a usar o Dólar e não da União Europeia e a usar o Euro porque nós somos uma cambada de chupadores de sangue grego, queremos viver todos, alemães incluidos, à custa do que os gregos produzem.
Um abraço,
pc

RIC disse...

caro professor a liberdade de expressao e mesmo uma dadiva (cada um defeca pela boca como bem entende) qd entrei em contacto consigo pela primeira vez inspirado pelo titulo do seu livro disse.lhe que nao me surprrendia que a festa tivesse acabado se bem se recorda.o certo e que a economia tem uma historia suficiente para saber como disse o soros acerca do projecto europeu que uma zona monetaria com politicas fiscais distintas ia dar merda e deu .quer se assuma quer nao a responsabilidade e de todos (credores devedores )pq acho um piadao ao facto de na crise so subprime a culpa era dos bancos mas aqui e dos governos- fizessem-se cumprir os tratados orçamentais e nada disto teria acontecido(ironicamente corrija-me se estiver enganado a alemanha foi a 1 a falhar as regras do tratado de mastricht) vivemos num periodo de de colonizaçao disfarçada em que se compra empresas e terrenos e em breve portugal e outros paises ja sao tem nome .uma coisa que nao me larga a cabeça neste projecto europeu e como diz o warren buffett "uma coisa e o valor outra coisa é o preço).eu o que se passa na grecia e uma novela decadente de parte a parte .queria que visse um video e que o comentasse
https://www.youtube.com/watch?v=froTxqKSqc4

Tiro ao Alvo disse...

RIC, o primeiro país a falhar o limite do défice (3%) foi Portugal, sendo que a Alemanha também o cometeu o mesmo pecado pouco tempo depois. Todavia, a Alemanha tomou de imediato medidas para evitar a repetição o erro, reduzindo a despesa pública e fazendo a contensão de salários, ao contrário de Portugal que apostou nas receitas extraordinárias e no "crescimento" (com mais despesa pública) e deu no deu.

Chilavert disse...

Sobre a Grécia que seja a democracia pura a decidir(as pessoas).
Não concordo é que se diabolize o Syriza por dar a voz ao povo e que os incompetentes/sem idoneadade que levaram a Grecia ao desiquilibrio passem incolumes.
Mesmo que a Grécia saia do Euro ( se os gregos estão decididos a enfrentar o desconhecido estão no seu direito) concerteza que o Euro e o financiamento será repensado.
Aliás todo o projecto europeu como o conhecemos terá de ser toda repensada.

Gonçalo disse...

Por aquilo que o professor Cosme diz, a China, que está em expansão e tem maior inflacção, devia estar deficitária em relação aos EUA.

Afinal, não é verdade que a China mantém a sua moeda mais ou menos indexada com o Dólar?

No entanto, aquilo que se observa não é precisamente o oposto?

Económico-Financeiro disse...

Gonçalo,
A moeda da China, o Yuan, teve cêmbio fixo com o Dólar entre 1995 e 2005 (nos 0,12USD/Y) mas, desde então, tem câmbio flexível (com todas as moedas convertíveis) e já valorizou para 0,16USD/Y.
Neste momento as chinesas contas com o exterior (a balança corrente) tem um saldo positivo mas de apenas 2,1% do PIB que é na ordem de grandeza do nosso! e 1/3 do alemão, 1/4 do holandes e 1/5 do de Taiwan.
Por isso, a situação chinesa está equilibrada com o exterior não havendo pressões para a valorização nem desvalorização do Yuan.
1ab,
pc

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