terça-feira, 14 de julho de 2015

A Grécia vai ter que se ajudar a si própria

Naturalmente, tenho que falar sobre o acordo do 3.º resgate grego. 

Mas que acordo? É que ainda não houve qualquer acordo sobre o pedido de resgate grego.
O que saiu ao fim de 17 horas de negociação entre quem é a favor que a Grécia saia do Euro e a França foi que a Grécia vai implementar medidas no "bom sentido".
Principalmente a Alemanha, Holanda, Finlândia, Eslováquia e os três países bálticos, são a favor de que a Grécia saia da Zona Euro (e mesmo da União Europeia) por ter ameaçado aliar-se ao Grande Satan Putin.
Agora, depois dos 5 meses de varofacadas, se e só se a Grécia der os passos que a França garantiu que iriam ser dados é que a Alemanha e companhia ficarão disponíveis para, depois, estudar um plano de apoio aos gregos.
Agora, a Grécia tem que "ir para além da Troika" (onde é que eu já ouvi isto?).

Fig. 1 - Venha lá o Passos Coelho que, por a ideia do acordo ter sido dele, nós as espartanas vamos lhe dar um forte abraço.

O problema é que os gregos não se querem ajudar.
Um país pequeno viver dentro de uma Zona Monetária de grande dimensão altera a forma como se pode conduzir a Política de Rendimentos e Preços. Como a  inflação não depende desse governozeco (nem, consequentemente, a taxa de câmbio) quando há um desajustamento na economia relativamente aos seus parceiros da zona monetária, não pode ser usada a desvalorização nominal da moeda para corrigir a situação.

Exemplo de ajustamento em câmbios flexíveis.
Vamos supor que uma renda de casa são 100 contos/mês e um salário são 150 contos/mês. Para um câmbio de 0,2 contos/€, teremos uma renda de 500€/mês e um salário de 750€/mês. Se for preciso ajustar a economia, com uma desvalorização para 0,25contos/€, a renda diminui para 400€/mês e o salário para 600€/mês sem haver necessidade de mexer nos valores nominais.

Exemplo do mesmo ajustamento dentro da Zona Euro.
Tendo acontecido uma crise que afectou alguns países periféricos (os PIIGS) e não os restantes parceiros da ZE, foi preciso diminuir as rendas (de 500€/mês para 400€/mês) e os salários (de 750€/mês para 600€/mês) e isso não é tão fácil de fazer como a desvalorização da moeda (que é feita automaticamente pelo "mercado"). Isto desgasta politicamente.
No caso português, é mesmo legalmente impossível os trabalhadores aceitarem uma redução no seu salário para um valor abaixo do previsto no Contrato Colectivo de Trabalho.

Mas quando há uma crise, naturalmente, as pessoas ficam a viver pior.
Isto é uma verdade a la Palice e, por isso, todos nós concordamos que Crise é sinónimo de tempos maus.
Como os salários são 2/3 do que se produz numa economia (se retirarmos do PIB a amortização do capital), naturalmente que terão que ser os trabalhadores a impactar a fatia de leão da crise.
Com os nossos escudos, desvalorizava-se a moeda e automaticamente os salários dos trabalhadores ficavam com menor poder de compra. Dentro da Zona Euro, a única forma de fazer face a uma crise é diminuindo os salários relativamente aos parceiros da ZE (que não estão em crise) para os preços poderem, depois, diminuir.

Mas vai dar tudo ao mesmo.
Desvalorizar o Escudo é exactamente igual a diminuir os salários nominais em euros pelo que a Grécia re-introduzir o Dracma não alteraria o facto de que o poder de compra dos salários ter que diminuir.
Isto é claro como a água, que durante uma crise, 2/3 da economia não pode ficar fora da crise.
Mas os esquerdistas (gregos e de cá) acreditam que não, que Crise é apenas uma palavra para encher manchetes de jornal não tendo qualquer impacto na vida dos trabalhadores.

E se os salários não diminuirem?
Esta é outra verdade económica, se um mercado não ajusta pelo preço, vai ajustar pelas quantidades e vai meter pressão noutros mercados.
No caso do Mercado de Trabalho o preço é o salário pelo que se o salário não diminui, aumenta o desemprego (e a taxa de juro).
A questão da taxa de juro é indirecta pois é o preço que ajusta o Mercado da Poupança. Se o salário está elevado, as empresas vão-se endividar para pagar salários e, aumentando o desemprego, o Estado vai-se endividar para pagar subsídios de desemprego. Mais endividamento implica um aumento da taxa de juro que passa a funcionar como "segunda variável" de ajustamento do mercado de trabalho.

Nos últimos anos as coisas nem têm corrido mal.
Os salários gregos em euros cairam 20% e os preços cairam realtivamente à média da ZE cerca de 8% e uma descida maior no sector do turismo e restauração (que é o principal sector "exportador" grego).

Os parceiros da ZE não querem o mal da Grécia.
Querem apenas que adopte as políticas económicas que são as mais correctas para a redução do desemprego e para o aumento do crescimento económico.
E como há muito desemprego, essas políticas passam pela diminuicão dos custos do trabalho (dos salários) para que as empresas possam ser mais competitivas e que, assim, possam baixar os preços de venda aumentando as exportações e a entrada de turistas.
Ganhando as empresas competitividade, será lucrativo que contratem mais trabalhadores.
É que em cada 4 trabalhadores existentes, as empresas têm que encontrar necessidade de contratar mais um trabalhador.
Havendo mais pessoas a trabalhar, a economia cresce.

E as privatizações têm que avançar.
A Grécia também tem que reduzir o peso do Estado na economia em 10 pontos (relativamente a 2012) porque um Estado dilatado cria ineficiencias por diversos canais (e Portugal 5 pontos).
1) Destroi as empresas privadas porque vende abaixo do preço de custo (vende com prejuizo) e cria monopólios.
2) O clientelismo político levar à contratação de trabalhadores e gestores incompetentes
3) Não existem objectivo claros para a avaliação da performance das empresas públicas.
 
O Tsipras teve uma grande vitória.
Porque vai, a "conselho dos socialistas europeus" (foi o António Costa que o disse), fazer o que é preciso para que a economia grega possa melhorar.
Claro que teve que meter o esquerdismo na gaveta mas isso já aconteceu em Portugal em 1982 quando o Mário Soares, porque não tinha massa, foi obrigado a "meter o socialismo na gaveta".
Há uns meses largos eu também defendi que apenas um governo esquerdista teria condições para que certas reformas (como a da Segurança Social) passassem no crivo do Tribunal Constitucional.
Em 2013 o TC disse que não era possível cortar pensões em pagamento mas, havendo um dia um governo do Partido Socialista, a mesma lei com a mesma constituição e com os mesmos juizes já vai passar.
Na Grécia este pacote de ajustamento nunca passaria se o governo não fosse da "esquerda radical".

Quantas pessoas se têm manifestado contra o plano?
Tenho visto na  EuroNews as manifestações na Praça Sintagma contra a Austeridade e estão lá meia dúzia de pessoas e todas caladas.
Dizem as pessoas: "Αν κοινότητες του ΣΥΡΙΖΑ δέχθηκε, είναι επειδή είναι το καλύτερο που θα μπορούσε να πάρει" = "Se os comunas do Syriza aceitaram isto, é porque é o melhor que era possível arranjar".
Fig. 2 - Em 19-10-2011 as manifestações contra a austeridade do Papandreu (socialista) eram com casa cheia e agora não têm ninguém.
  
E há um perdão da dívida grega de 10%.
Esta parte fica transvestida de fundos comunitários no valor de 35 mil milhões€, "... the Commission will ... mobilise up to EUR 35bn ... to fund investment and economic activity..." (p.7), que são 10% do actual stock de dívida pública.
 
Nós credores também tivemos a nossa vitória.
A Grécia deve muito dinheiro a Portugal, cerca de 8 mil milhões €, em empréstimos bilaterais e através de garantias que Portugal deu junto das instituições europeias que financiaram os doi anteriores resgates gregos. Por isso, o que o Tsipras assinou, "The Greek authorities reiterate their unequivocal commitment to honour their financial obligations to all their creditors fully and in a timely manner" (p.6), é muito bom para nós.
Vão receber mais ajudas estruturais do que nós mas safamos esta massa.
Globalmente, vamos ter um prejuizo de 800 milhôes€ (10% da massa).

Diz o Tsipras que vai pagar tudo, a todos e a horas.
Para poder pagar, compromete-se a uma meta Zero para o défice público, "...to implement the zero deficit clause ..." (p.3), o que implica que vai pagar os juros da dívida e esperar que a inflação e o crescimento económico façam o stock da dívida diminuir.
Como a Grécia está a pagar cerca de 2,5%/ano de taxa de juro sobre a sua dívida pública (ver), o défice zero implicará um superávite primário de 4,5% do PIB, 8,5MM de €.


Fig 3 - A taxa de juro grega a 10 anos estar hoje nos 12,5%/ano prova que ainda não há acordo. Esta taxa traduz que a probabilidade de bancarrota grega com perda total é de 2/3.
 
Serão 4,5% muito?
É muito mas estão a ser considerados alguns desvios pelo que o plano é haver um superávite médio de 3,5% do PIB. Com os juros tão baixos, os 3,5% reduzirão e, 30 anos a divida pública grega de volta aos 60% do PIB previstos no Tratado de Maastrichet.
E não vai custar assim tanto chegar a 3,5% de superávit primário porque (dizem as agências estatísticas) em 2014 a Grécia já teve um superávite primário de 2,7% do PIB. Assim, já só falta aos gregos cortar 1,5MM€ no défice, nos próximos 3 anos, 500 milhões por ano.

Tudo é possível desde que haja boa vontade.
Os 4,5% são apenas indicativos e uma motivação para cortar parcelas na despesa pública e acrescentar parcelas na receita fiscal. É que, como diz o Cavaco, o défice não é um instrumento de política mas uma coisa que acontece, podendo resvalar.
Como as varofacadas e as tsiprastadas quebram a confiança das pessoas da Europa do Norte, nestes próximos meses "a Grécia terá que implementar medidadas muito para além da Troika."
Se o objectivo é conseguir 3,5%, vão ter que apontar para 4,5%.

E como fica os nosso António Costa nisto tudo?
Sempre disse, diz e continuará a dizer que é contra a austeridade e a favor da renegociação da dívida.
Depois, a Grécia abraçou a austeridade e o que é que o Costa vem dizer?
"Só houve acordo por causa dos socialistas europeus."
Então, isto traduz que, afinal, os socialistas europeus são a favor deste plano de austeridade.
Quem quiser ver o programa de um eventual governo socialista, basta-lhe ir ver o pré-acordado entre o Tsipras e os parceiros europeus.
  => Cortar reformas futuras e em pagamento,
  => Aumentar a idade de reforma,
  => Privatizar energia, transportes, tudo e mais alguma coisa,
  => Cortar despesa pública,
  => Ter défice público zero,
  => Ter superávite primário de 4,5% do PIB,
  => Pagar a dívida pública até ao último centavo.

Força Costa que Portugal conta contigo.

Fig. 4 - A taxa de juro portuguesa a 10 anos está nos 2,75%/ano (a grega está nos 12,50%/ano) e a 3 anos está nos 0,50%/ano (a grega está nos 27,5%/ano).

Pedro Cosme Vieira

10 comentários:

jorge gaspar disse...

Essa de Portugal ter de cortar 5 pontos no peso do estado na economia é que não percebi.
O Pedro Cosme acha que o estado Português deve representar cerca de 40 a 45 % de toda a economia nacional?

Económico-Financeiro disse...

Estimado Gaspar,
É uma das minhas contas simples.
Em 2014 Portugal tem a despesa pública nos 49% do PIB e a Alemanha tem nos 44%.
1ab, pc

Chilavert disse...

Professor apesar de não concordar com algumas das suas ideias(demasiado tecnocratas e não tomando em conta o factor humano) reconheço que a Grécia tem muita responsabilidade no seu estado actual.
Tendo em conta que quase metade da riqueza produzida foge ao sistema fiscal(inadmissivel num país que se quer desenvolvido)é a principal demonstração de fragilidade estrutural.
Mexer nas pensões e salários é sempre complicadissimo porque como o professor sabe são 2 dos principais factores de coesão de uma sociedade.
A Grécia tem de se reformar estruturalmente mas antes disso terá de ter uma reforma de mentalidade e isso não tem a ver com ideologia politica mas sim com educação.

Por outro lado a posição da UE foi anormalmente punitiva para a Grécia(mesmo com o famigerado relatório do FMI na mão).
Insistir numa formula que já se sabe que não funciona(austeridade) e altamente castigadora para os povos toma contornos que abalam as próprias fundações da UE e do que a mesma representa.
A intransigencia de alguns paises(com a Alemanha a liderar como sempre) mina o projecto europeu e adensa a desconfiança de vários paises sobre a viabilidade desta associação económica.

Só um reparo 2/3 da riqueza não são para salários.
Em termos absolutos o ESTADO fica com 58% da riqueza produzida(em forma de impostos de todo o tipo) os salários 20% e o capital 22%

jorge gaspar disse...

Em Singapura pagam-se poucos impostos e não me parece que façam filas nos multibancos ou precisem de pedinchar.
Pedro Cosme nós temos de ter a mesma despesa pública que a Alemanha em % do pib?
A questão que lhe coloquei foi simples. O Pedro Cosme acha que a despesa pública portuguesa deve ser 40 a 45% do pib? Acha que isso seria o ideal?
Eu gostaria de pensar que é possível em Portugal diminuir o peso do estado, mas se até o professor defende um estado tão grande, então não vale a pena ter grandes ilusões.
um abc.

Agata Cristie disse...

Eslováquia, um país fabuloso que tenho o prazer de ter conhecido por 2 anos, não faz parte do grupo dos países Bálticos. Bem haja!

Económico-Financeiro disse...

Agata,
Obrigado pelo comentário.
Até fui reler o poste pois poderia ter-me enganado (como acontece muitas vezes) mas da frase que lá escrevi "a Alemanha, Holanda, Finlândia, Eslováquia e os três países bálticos" não se pode dizer que eu afirmo que a Eslováquia é um país báltico.
A Eslováquia é um pais pertencente à Europa Central equivalente a metade de Portugal (em área, população e PIB) e sem acesso ao mar.

1ab,
pc

Económico-Financeiro disse...

Amigo J Gaspar,
O peso do Estado na Economia tem bastantes subtilezas contabilisticas.
Se, por exemplo, o sistema de pensões da Segurança Social fosse privado (que representa 8,9% do PIB) financiado pela TSU (7,7% do PIB) e também fosse criado um fundo privado que financiasse a educação e o ensino (3,8% do PIB) que depois as pessoas amortizariam ao longo da vida em vez de pagar impostos, a despesa pública reduziria 12 pontos (para 37% do PIB) sem haver alteração extrutural da economia.
Um abraço,
pc

divine comedy disse...

Boa tarde professor, tendo os salários na Grécia descido 20% em termos nominais e se, como afirma num post anterior, os salários correspondem a cerca de 60% do PIB porque temos na Grécia uma descida de preços inferior ao que seria expectável (cerca de 12%)? Quer isto também dizer que o peso dos salários no PIB grego subiu com o ajustamento?

Económico-Financeiro disse...

Estimada DC,
Os preços na Grécia estão a cair, desde Jun2011 (em que atingiram o valor mais alto) os preços gregos já cairam 6,3% relativamente à média da Zona Euro e por isso é que, em 2014, as contas externas gregas já ficaram ligeiramente positivas (que vinham de -15%).
Agora, já não se coloca a queda dos salários como variável de equilibro das contas com o exterior mas sim para diminuir o desemprego (podendo assim a economia gerar emprego para as pessoas com menor produtividade).
1ab,
pc

Portuendes disse...

É de mim ou o acordo finalmente aprovado não é nada de especial? Sim, tem-se dito "humilhação, capitulação, Versalhes, invasão, golpe de estado", etc. mas as medidas são assim tão desastrosas? Aumentar para 23% do IVA (Portugal aumentou a eletricidade, componente enorme das despesas familiares, para 23% sem qq manifestação)? Aumentar as pensões mais elevadas - ainda não se sabe quais, mas esta medida era óbvia para um país que ainda gasta bem mais do que nós nas pensões - não vai deixar ninguém a passar fome! Aumentar a idade da reforma para 67, qual o problema? Algum de nós acha que se vai reformar antes (a não ser que vá para o desemprego)? Baixar as elevadíssimas despesas militares? Isso é desastroso? O mal é o elevado desemprego e a melhor forma de o combater é melhorar as condições de investimento - privatizar, liberalizar, flexibilizar. E se fizerem as coisas bem, a dívida (principalmente uma cujo serviço é tão bonificado) acaba por se ir pagando (pelo menos uma grande parte, que é o que eu - como credor - estou interessado). Os comentadores da TV, se quiserem, que perdoem a parte deles.

Twitter Delicious Facebook Digg Stumbleupon Favorites More

 
Design by Free WordPress Themes | Bloggerized by Lasantha - Premium Blogger Themes | Best Hostgator Coupon Code