sexta-feira, 31 de julho de 2015

A vida custa, Costa - Os dados do desemprego

Já ninguém se lembra mas

em 2013, eu previ que, se o Passos Coelho conseguisse chegar ao fim da legislatura, iria terminar o seu reinado com uma taxa de desemprego nos 25%, um valor semelhante ao que temos hoje na Espanha e na Grécia. Previ ainda que, assim que a taxa de desemprego chegasse aos 20%, o Passos ia-se embora.
Previa eu essa tragédia e todas as demais pessoas desde os esquerdistas desmiolados até ao próprio Aníbal, o Cavaco Silva. dizia toda a gente, até o OF, um colega meu especialistão em Economia Portuguesa, que "sem crescimento acima dos 3%/ano, não há criação de emprego suficiente que fazer a taxa de desemprego diminuir."
Contrariamente, nessa altura, fazendo figura do bombo da festa, do charlatão que anuncia que o seu unguento apesar de arder nos olhos vai curar todas as enfermidades,  o esquecido Gasparzinho afirmava a pés juntos que "é neste mês que chegamos ao ponto de viragem, a partir de agora a taxa de desemprego vai começar a descer." Mas ninguém acreditava nessas previsões, tenho a certeza que nem o próprio.

Fig. 1 - Evolução da taxa de desemprego até princípios de 2013 (a azul, dados: INE) e a minha previsão de evolução (a tracejado).

Isto faz-me lembrar uma história.
Como sabem, existem muitos livros de Pensamento Positivo escritos por vendedores da banha da cobra e que defendem que afirmarmos (mesmo que sem convicção) "Eu sou capaz" tem um efeito positivo na nossa capacidade de fazer coisas. Neste sentido, também ouvirmos dos outros "Tu és capaz" tem efeito positivo.
Eu nunca acreditei nesta teoria pensando que a identificação das fraquezas seria mais produtiva, se penso que a pessoa não é capaz, devo dizer-lhe "desiste".
Mas há coisas que a pessoa não pode desistir, tem mesmo que fazer. 
Nos meus tempos de estudante tive um caso com a Carioca (natural do Estado do Rio de Janeiro) que, por minha pressão, acabou por se naturalizar portuguesas "para poder ir a Espanha sem ter passaporte". Cozinhava muito bem mas era pouco dada a fazer coisas que envolvessem sacrifícios. Por causa disso, depois de termos sido colegas de trabalho durante 8 anos, acabou por ser despedida. Ficou desempregada (e sem rendimentos) mas, mesmo assim, não fazia nada para alterar a sua situação. Então, eu comecei a escrever e a mandar currículos para muitos sítios sendo que um deles deu resultado, há uns 15 anos arranjou emprego num politécnico perto da terra dos pais dela (esqueci-me de dizer que ambos os pais da Carioca  eram portugueses da Beira Alta). Depois, teve que fazer o mestrado que eu orientei a tese (tive que fazer a maior parte da coisa).

Fig. 2 - A Carioca agora já não é nada disto, está muito gasta.

Mas vamos ao que interessa. 
Chegados a 2009, veio um decreto-lei que dizia que, para não ser despedida lá do politécnico, a Carioca teria que fazer o doutoramento até 31 de Julho de 2015 (até exactamente hoje!).
Naturalmente, tendo eu visto o que aconteceu no mestrado, que eu tive que fazer a maior parte da coisa, pensei logo "Isso vai ser impossível" mas disse-lhe exactamente o contrário "Tu és capaz, o que é que as outras pessoas têm a mais do que tu?"
Sempre que fazia uma cadeiras eu pensava "Que milagre" até que, um dia, acabou a última cadeira e teve que começar a fazer a tese. Eu pensei "Não, não vais conseguir, Meu Deus diz à Carioca que está a deitar propinas fora". Mas eu, adoptando a ideia dos "positivistas", repetia sem me cansar "Estás a avançar muito bem, isto está bem encaminhado."
Foi fazendo qualquer coisita com dificuldade e com longos intervalos em que nada fazia. A meio do percurso, o orientador não vendo nada feito, quis abandonar o barco. Eu meti-me no meio, pedi ajuda ao meu amigo e colega de praia PS, reorganizei as coisas e lá foi caminhando muito a manquejar.
Em Janeiro passado começou a dizer "Preciso entregar até 30 de Março senão despedem-me". Eu interrogava-me "Mas entregar o quê? Tu não tens praticamente nada!"
Lá estivemos a reorganizar o (pouco) material que tinha, dar-lhe um novo caminho em termos de aplicação, fez um esforço final e, no dia 30 de Março lá entregou o que tinha.
Desde esse dia eu só pensava "Ai meu Deus que a Carioca vai chumbar, vai apanhar um chumbo maior que a bala de canhão que cortou o Almirante Nelson a meio", até tinha crises de ansiedade mas dizia-lhe sempre, "Não te preocupes que vais passar, tenho a certeza disso."
Nunca menti tanto na minha vida!
  
Isto vem a propósito do Gasparzinho.
O Gasparzinho repetidamente dizia "já atingimos o ponto de viragem, a partir de agora isto vai melhorar" até que, como por milagre, começou mesmo a melhorar.
Depois da taxa de desemprego atingir 17,9% em Janeiro de 2013, em Fevereiro caiu uma décima. Isso não foi nada de relevante porque em Maio e Junho de 2012 também tinha caído para, depois, voltar a subir com toda a força.
Mas depois veio Março, menos 0,2pp, Abril, menos 0,5pp, Maio, menos 0,4pp, Junho, menos 0,6pp, "Mau", pensaram os esquerdistas, "em 5 meses a taxa de desemprego tinha caído de 17,9% para 16,1%! INE só pode estar a manipular os dados".

Em Junho de 2013 eu fui mesmo o primeiro a anunciar o fim da crise.
Teve ali um mesito que subiu uma décima e logo os esquerdistas ficaram cheios de esperança de que a coisa voltasse a subir mas não, retomou a descida vertiginosa até que chegamos a Junho de 2015 com uma taxa de desemprego de 12,0%.

Mas as notícias falaram de 12,4%!
Sim, falaram, mas a taxa de desemprego observada é de 12,0%. O que acontece é que o INE faz umas contas e diz que é preciso acrescentar 0,4 pp ao desemprego de todos os meses de Junho por causa da sazonalidade. É que, normalmente, no Verão há menos desemprego por causa das férias e do turismo.
Acrescentou agora 0,4 mas também aumento 0,4 no Junho de 2011 (do Sócrates)
Mas, efectivamente, em Junho de 2015 a taxa de desemprego é de "apenas" 12,0% da população activa.

Durante o governo esquerdistas do Sócrates, o desemprego aumentou!
No mês em que o grande estadista socialista José Sócrates entrou (Março 2005), herdando uma situação catastrófica deixada pelo populista Santana Lopes, a taxa de desemprego estava nos 8,6% e quando saiu, depois de um governo extraordinário onde se deu prioridade às políticas de crescimento e emprego (Junho 2011), a taxa de desemprego estava nos 11,9% (com a tal correcção da sazonalidade, fica em 12,3%).
E durante esse tempo, Portugal endividou-se face ao exterior em 100 mil milhões de euros.

Durante o governo neo-liberal do PSD+PP, o desemprego diminuiu.
No mês em que os Passos Coelho + Porta tomaram posse, a taxa de desemprego herdada do Sócrates era de 11,9%. Em Junho está nos 12,0% e, prevejo, em Outubro de 2015 estará nos 11,8%.
Daqui até Outubro o desemprego vai diminuir pouco por causa do efeito do fim do Verão.
Não pode ser!
Não pode ser mas é mesmo assim, no tempo do grande estadista socialista José Sócrates o desemprego aumentou e no tempo do Passos, o destruidor da economia, o desemprego diminuiu.
O Sócrates e as suas políticas expansionistas (que o António Costa quer fazer retornar) causaram um aumento do desemprego em 3,3 pontos percentuais e um massivo endividamento.
O Passos Coelho, com a sua austeridade, a destruição da economia e a política neo-liberal, vai chegar a Outubro com uma taxa de desemprego inferior à que existia no mês em que tomou posse (Junho 2011) e sem endividamento.
É notável ver que, desde Janeiro de 2013, o desemprego está a cair 1,8 pontos percentuais por ano enquanto que nos governos do Sócrates aumentou 0,3 pp por ano..

Fig. 3 - Evolução da taxa de desemprego (a azul, dados: INE) e linha de tendência (a tracejado, minha).

A previsão do FMI e da Proposta Eleitoral da Coligação PSD+PP.
Esta semana veio uma notícia de um estudo do FMI (ver, DN) a dizer que apenas daqui a 20 anos é que Portugal vai voltar ao nível da taxa de desemprego que havia "antes da crise".
Mas que crise? Pois é, esta notícia/previsão não indica qual a crise a que se estão a referir, se à Crise Financeira de 2002 (desemprego de 5,2%), à Crise do Sub-prime de 2008 (desemprego de 8,8%) ou à Crise das Dívidas Soberanas de 2010 (desemprego de 11,5%).

Vou olhar para estes 3 valores.
Se olharmos para os dados do INE, já estamos no nível anterior à última crise (a das dívidas suberanas de 2010) e, prevejo eu, vamos atingir o nível anterior à Crise do Sub-prime em meados de 2017 (os tais 8,8%, ver a Fig. 2) e chegaremos mesmo aos 5,5% de 2011 por volta de 2020 (ver, Fig. 4).

Fig. 4 - Evolução da taxa de desemprego (a azul, dados: INE) e a minha previsão até 2020 (a tracejado).

E o governo também faz previsões exageradamente cautelosa.
Desde Janeiro de 2013, i.e., nos últimos dois anos e meio, o desemprego está a cair 1,8 pontos percentuais por ano.
Mas, estranhamente, a coligação PS+PP prevê na sua proposta de governação para 2015-2019 uma queda de apenas 0,5 pontos percentuais por ano. 
A minha previsão, usando a tendência retirada dos dados dos últimos 30 meses (e a minha capacidade de torturar os dados), é muito mais optimistas:
Em 2015, contra 13,7%, prevejo 12,4%.
Em 2016, contra 13,2%, prevejo 10,6%.
Em 2019, contra 11,1%, prevejo 5,2%, o nível de desemprego anterior à Crise de 2002.

Não é dentro de 20 anos, é em 2020!
Deve ter havido um errozito na tradução do tal estudo e onde dizia "no ano 20 do século 21" leram "daqui a 20 anos".
A menos que eu não esteja a ver algo que os outros estão a ver.
...
...
Ahhhhhh, deve ser isso!

As minhas previsões têm um problema. 
É que eu prevejo a vitória do PSD+PP em 4 de Outubro e o FMI deve estar a prever a vitória do PS.
Se tivermos o "privilégio" de voltarmos a ter um governo socratista mas agora chefiado pelo António Costa, a tendência vai voltar aos tempos do engenheiro Sócrates, vamos ter 2 anos de subida de desemprego, nova bancarrota, novo pedido de resgate, novo governo neo-liberal lá para 2017.
Para o FMI (e o Passos Coelho) fazer uma previsão tão pessimista, só pode estar a imaginar o Costa a governar nos próximos anos!
Mas Passos, tens que ter pensamentos positivos, tu mais o Portais vais ganhar as eleições e com maioria absoluta.

Vamos ao corte de 600 milhões na Segurança Social.
No Memorando da Troika estão lá escritos, preto no branco, estes 600 milhões, mais euro, menos euro.
Esta massa foi cortada mas com medidas provisórias (a Contribuição Extraordinária de Solidariedade) que, ultimamente, têm vindo a ser levantadas.
Se as medidas são levantadas, é preciso cortar novamente os 600 milhões de euros e não novos (mais) 600 milhões de euros.
São exactamente os mesmos que o Sócrates se comprometeu a cortar e que só não cortou porque onde está não pode cortar nada.

Mas o Passos + Portas desistiram desse corte!
Não foi bem desistir, foi antes, deixar que as coisas aconteçam por si.
A técnica vai ser (tal como a do PS) deixar que a inflação coma esses 600 milhões.
Sendo as pensões 15,5 mil milhões € por ano (Rel OE 2015), 600 M€ por ano são 3,9%.
Acontece que a inflação dos próximos 4 anos prevista para a Zona Euro pelo BCE (ver) é um total 6,6% (uma média de 1,6%/ano).
Então, mantendo as pensões mais elevadas congeladas e aumentando as mínimas de acordo com a taxa de inflação, vai ser possível diminuir o valor das pensões em pagamento sem necessidade de cortar nominalmente o seu valor.

E tem o "rolamento".
É que todos os anos morrem cerca de 5% dos reformados e entram outros 5% para a reforma.
Como estes novos reformados já têm cortes na formula de calculo da pensão, por este rolamento, também vai haver um corte efectivo na despesa do sistema de pensões.

E ainda falam do plafonamento.
Isso não vai dar em nada.
O CDS-PP quer que se fale disto, que as reformas (e as contribuições) vão ter um valor máximo, por exemplo, 3 IAS (1260€/mês).
Mas não vou descutir isso porque não vai ser implementado.

A esquerda fala que o plafonamento é a privatização do Sistema de Pensões.
Vamos supor que as formulas de cálculo das pensões e as contribuições dos trabalhadores eram defenidas pelo Estado que cobriria o défice do sistema com transferências do Orçamento de Estado, tal qual como agora é, mas que o sistema de PEnsões saia da Segurança Social e passava a ser uma instituição privada.
Qual seria a diferença?
Nenhuma.
Que é que interessa se a electricidade, a água, a recolha de lixo, a reciclagem, etc. etc. são emepresas públicas ou privada se temos o mesmo serviço e pagamos a mesma coisa?
Ia dar tudo no mesmo, a única diferença sendo a forma de gestão.
Poderia ser que houvesse melhorias ao nível não do sistema de pensões em si (o deve e o haver) mas do funcionamento que somam 200 Milhões € (60% da verba Administração do Rel OE 2015).

Fig. 5 - Não precisamos que o cavalo seja nosso, precisamos é que puxe a carroça.

Estão com curiosidade para saber o que se passou com a Carioca?
Passou e por unanimidade!
Afinal, o pensamento positivo dá resultado.
O Desemprego (e a taxa de juro) afinal diminuiram.


Fig. 6 - Vitória!

Pedro Cosme Vieira 

1 comentários:

jorge gaspar disse...

Depois da desistência no corte das pensőes (que será feito através da inflação, do crescimento do pib e de cortes nas futuras pensões) o Passos ganhou as eleições faltando saber apenas por quanto.
Sabe professor, que depois de eu ter andado desde Janeiro a dizer que a Grécia ia sair do euro, naquela última sexta feira antes do acordo cheguei á conclusão que o acordo já era o cenário mais provavel. Bastou me para isso ver a cara do Tsipras nos intervalos das reuniões. Parecia estar com problemas gástricos.
O professor já reparou na cara do Costa naquele meio minuto a seguir ao fim da apresentação do programa da coligação? Já não tem nada a ver com aquela alegria toda com que apunhalava o Seguro. O Costa está nervoso. A estratégia falhou por completo.

Pedro Cosme é engraçado quando nos lembramos de tudo aquilo que aconteceu nestes últimos 4 anos e de todas as previsões erradas de tanta gente. É engraçado também verificar que aquele que foi mais gozado pelas previsões erradas, acabou por ser aquele que conseguiu prever melhor o futuro, o Vitor Gaspar. Que ironia.

Pedro, aqui há 1 ou 2 anos aquando de um chumbo do TC disseste que Passos ia fazer uma jogada política demitindo-se. Eu disse que ele não tinha inteligência política e estratégica para isso mas que essa era a melhor decisão. É também engraçado verificar que Passos depois de tantas críticas acabou por escolher o melhor caminho político possível. No contexto em que isso foi, é um resultado incrível. É pena ainda assim, que acredite nas tretas que o moreira da silva lhe conta, mas até nos melhores panos cai a nódoa, e mesmo nas melhores equipas do Porto havia lá um Secretário ou um Chippo.

Pedro, agr que acaba este ciclo, há que agradecer os excelentes ensinamentos e momentos divertidos que este blog proporcionou. É claramente o blog em que espero ansiosamente por novas postagens, e que me deixa frustado quando o Pedro deixa de escrever por muito tempo. Já cresci muito com este blog. Espero não ter sido o único.
Um abraço

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