sexta-feira, 10 de julho de 2015

O 3.º resgate grego está a ser cozinhado

Há uns meses atrás, avisaram-me de que a Grécia ia bancarrotar. 

Quando, em 2010, a Grécia pediu o 1.º resgate, nas contas públicas, a despesa era muito superior à receita mesmo depois de retirar os juros pagos pela dívida pública. Quer isto dizer que, se nessa altura a Grécia deixasse de pagar os juros e as amortizações da dívida, não tinha direito para pagar toda a despesa pública. Esta situações denomina-se como "défice do saldo primário".
Também em termos de contas com o exterior, o valor dos bens importados era muito superior a tudo o que a Grécia conseguia vender ao exterior incluindo o turismo.
Então, em 2010, a Grécia poderia prometer pagar tudo e mais alguma coisa porque sabia que, no entretanto, o Memorando apenas serviria para receber dinheiro das instituições europeias e do FMI.

Mas afinal o que foi a Austeridade?
A Grécia recebia 100€ e gastava 115€ (e Portugal recebia 100€ e gastava 111€). Se não tivesse havido resgate, de um momento para o outro os gastos teria que ir para 100€, teria que ser um corta na despesa de qualquer coisa como 30 mil milhões €.
O que os esquerdistas chamam Austeridade foi um plano de amortização da queda que, em vez de ser num momento, seria espalhado por vários anos.
Assim, em vez de um dia para o outro ter que cortar 30 mil milhões €, foi dado crédito para que fosse ajustando 6 mil milhões € em cada ano.

  Ano   Sem ajuda   Com ajuda   Ajuda
  2009    115€            115€      
  2010    100€            112€          12€ (Início da ajuda)
  2011    100€            109€          21€
  2012    100€            106€          27€
  2013    100€            103€          30€ (total de ajuda)
  2014    100€              97€          27€ (Início da amortização da ajuda)
  2015    100€              97€          24€
A amortização continua até estar tudo pago

Mas correu um bocadinho mal.
As metas resvalaram um anito ou dois mas a coisa estava a caminhar no sentido do equilíbrio das contas públicas.

Fig. 2 - O Défice grego até está a caminho do equilíbrio (com o sobressalto de 2013)

Chamar terroristas a quem lhes emprestou dinheiro?
Não sei o que o Varofáquis tinha na cabeça mas foi um erro que vai ficar muito caro aos gregos.
É que as pessoas, contribuintes do Norte da Europa, que ajudaram a Grécia emprestando-lhe dinheiro a taxas muito baixas com o risco de o perderem, ficaram com ódio aos gregos pela ingratidão.

Mas, então, o que aconteceu em 2014 de especial?
É que a Grécia atingiu o equilíbrio das saldo primário e das contas com o exterior (a balança corrente).
Quer isto dizer que os esquerdistas pensaram que, se agora a Grécia deixasse de pagar juros e amortizações da dívida, não viria mal nenhum ao mundo porque os impostos já são  suficientes para pagar a despesa pública e as exportações e o turismo capazes de pagar todas as importações.
Então, pensou no Varofáquis, 2015 era o momento para a Grécia mostrar as garras ameaçando com o "não pagamos nada".

Qual foi o seu erro?
O povo grego é cobarde.
Apesar de o povo grego ter votado em 61% a favor do Não, ao mesmo tempo, correu aos bancos para levantar os seus depósitos.
Afinal, o povo grego nunca acreditou na capacidade negocial anunciada pelo governo que eles apoiaram.
Se o povo grego fosse de coragem, continuaria a sua vida normalmente deixando os seus depoósitos nos bancos e a aceitar pagamentos por transferência bancária.
Assim, com a sua cobardia, rebentaram com os bancos e obrigaram o governo a pedir um terceiro resgate.

Como vai ser o 3.º Resgate grego.
Estive a falar com o Junker e com o Schaeuble via Skype e disseram-me que o resgate só pode avançar se não for metido nem mais um euro na Grécia.

Vejamos então as condições dos credores
Parte que compete à Grécia:
1 = A Grécia não vai ver nem um euro tendo que ajustar a sua despesa pública ao valor dos impostos. 
2 = A Grécia vai pagar aos credores 2,5% do PIB (para ir pagando juros e amortizando a dívida).
3 = A dívida pública no balanço do sistema bancário (23 mil milhões €) e actualmente usada como garantia no BCE será desvalorizado a zero e a Grécia vai recapitalizar os bancos aplicando um "hair-cut" aos depósitos. Entre os 10 mil e 100 mil o hair-cut será de 30% e, acima dos 100 mil €, o hair-cut será de 50%.

Parte que compete aos credores:
4 = O BCE vai dar liquidez ao sistema bancário grego depois de este estar recapitalizado e com boas garantias. 
5 = Os credores vão fazer o roll-over da dívida pública que está nos seus balanços que vai sendo paga lentamente (com 2,5% do PIB). Inicialmente a divida pública ainda vai crescer porque os juros são actualmente cerca de 4,5% do PIB, ver,  mas será suficiente para que, a prazo, a divida comece a diminuir (demorará 40 anos a voltar ao 60% do PIB).

Quer então dizer que a Grécia vai manter-se no Euro?
É o único ponto que ainda não está fechado porque a França quer que continue. Mas existe uma probabilidade de 90% da Grécia sair do Euro.
Em termos de contagem de votos, os países que estiveram ocupados pelos soviéticos (Eslováquia, Estónia, Letónia e Lituânia), querem que a Grécia saia da ZE por os Tsipras ter ido falar com o Putin.
Por estarem fartos de serem apelidados de terroristas, a Holanda, Finlândia, Austria, Bélgica também querem que a Grécia saia.
Já dá 8 votos certos a favor da saida e, como 89% dos alemães e todos os deputados da CDU são a favor da saida, podemos contar 9 votos.
Depois há aqueles que nem dizem sim nem não (Portugal, Espanha, Grécia, Eslovénia)
E verdadeiramente a favor está a França, a própria Grécia e mais ninguém.
Se contarmos apenas os votos expressos, temos 9 contra 2 a favor da saida.
Não vai ser fácil a Grécia continuar na Zona Euro.

Porque a Grécia tem que sair do Euro.
Apenas por questões económicas.
Para que a taxa de desemprego desça dos actuais 27% para os normais 6%, os salários gregos têm que descer, em termos reais, 20% e os gregos não estão convencidos disso.
Acreditam mesmo que, para combater o desemprego, os salários têm que subir.

Fig. 3 - A desvalorização do Drakma em 20% vai fazer o desemprego cair rapidamente.

Perguntam onde fui eu buscar os 20%?
Vejamos às minhas contas a ver se concordam.

1 = O peso dos salários no PIB é cerca de 60%. 
2 = Actualmente há 27% de desemprego pelo que trabalha 1-27% = 73% da população activa.
   => Supondo um PIB de 100€, o "salário médio" será de 60€ / 73% = 82,20€.
3 = Nos próximos 3 anos a economia não vai crescer muito. Vamos supor que, em termos acumulados, a economia cresce 4% (uma taxa de crescimento de 1,3%/ano).
    => Daqui a 3 anos o PIB será de 103€, 62,40€ para salários.
4 = Para daqui a 3 anos fazer a taxa de desemprego voltar a ser  6%, como há 62,40€ para distribuir por 92% da população activa, o "salário médio" só poderá ser 66,40€.
   => 66,40€/82,20€ -1 = 20% que traduz a redução no poder de compra dos salários para que possa haver emprego para toda a gente.

Não estou a ver como os esquerdistas gregos se vão convencer disto.

Como vai ser o Grexit.
=> Será recriado o Drakma com a taxa de câmbio de 340,75GRD/€ (cotação actual).
=> A cotação do Drakma irá desvalorizar 20% e, depois, passa a câmbios flexíveis com o Euro.
=> O Banco Central Grego vai ter total liberdade na emissão de Drakmas mantendo assim a solvabilidade nominal do Estado Grego (poderá sempre pagar as Pensões e os salários dos funcionários públicos com Drakmas novos).
=> As instituições europeias vão garantir que os depósitos bancários (depois de aplicado o hair-cut para os recapitular) se vão manter em euros e totalmente garantidos pelo BCE. Para isso, a gestão de risco de créditos dos bancos gregos também será feita pelo BCE.

Mas onde estão os Dracmas?
=> Os salários e as pensões vão ser denominados em Drakmas.
=> Os preços dos bens e serviços irão ser afixados em Drakmas e em Euros.



Mas demora pelo menos 3 meses a imprimir os Drakmas!
Demoraria se alguém quisesse usar essa moeda mas, de facto, não vai ser preciso imprimir uma única nota de Drakmas pois ninguém a vai usar porque vai ser gerida pelo Banco Central Grego em que actualmete nenhum grego confia.
Senão reparemos, hoje já existem duas moedas em circulação na Grécia, o Inside Money (os depósitos bancários garantidos pelo Banco Central Grego) e o Outside Money (as notas de euros garantidas pelo BCE). E prova de que ninguém vai querer receber drakmas é que ninguém aceita actualmente o Inside Money (garantido pelo BCG).

E onde vai ser usado o Drakma?
Em transferências da Segurança Social Grega para os pensionistas e nos salários dos funcionários públicos. Mas estes valor serão convertidos em euros no instante em que entram nas contas bancárias (garantidas pelo BCE) das pessoas pois niguém quererá depósitos em Drakmas.
Também os actuais contratos de trabalho privados (efectivos) vão ter os salários convertidos em Drakmas para que o mercado de trabalho possa ajustar.
As pessoas também poderão pagar os impostos em Drakmas mas ao câmbio do dia pelo que ninguém o irá fazer porque é indiferente a pagar em euros.

Então, a Grécia vai sair do Euro sem sair do Euro!
Exactamente.
Mas, ao fixar os salários e as pensões em Drakmas, a economia vai ajustar rapidamente às possibilidades da Segurança Social, da receita fiscal e da produtividade das empresas.
Se, daqui a um mês ou dois, os comunas decretarem que Salário Mínimo grego aumenta 50%, logo o Drakma desvaloriza e a economia anula essa loucura.
Se se lembrarem de contratar 1 milhão de funcionários públicos, como vão receber em drakmas emitidos pelo BCG, a moeda vai desvalorizar para quase nada e mais ninguém quererá ser funcionário público.
Será como em Cuba em que, fazendo o câmbio, cada funcionário pública ganha pouco mais de 6€/mês.
Exactamente seis euros por mês, não foi engano meu (mais uns quilo de arroz e dois litros de óleo).

Um povo desmiolado precisa de moeda própria.
O modelo que vai ser aplicado à Grécia, depois, poderá ser aplicado a todos os países cujos povos sejam desmiolados.
Assim, o António Costa já pode ganhar com maioria absoluta e, assim, pode subir com facilidade o Salário Mínimo Nacional, as pensões e os salários dos funcionários públicos 50% que não vai ter qualquer problema pois, no dia seguinte, o Escudo desvaloriza e volta tudo ao mesmo.

Fig . 1 -Viva ao António Costa, o Nicolás Maduro Português (a única diferença. é o bigode).

Esta faz-me lembrar uma conversa de café.
Estava um homem com aspecto um pouco embriagado a olhar ostensivamente para outro fazia alguns momentos e a dizer "É igual, não falha nada, só pode ser ela."
Como o outro já se estava a sentir incomodado, perguntou lá do fundo.
- Ouça lá oh homem, o que está ai a dizer?
- É que o Sr. é igualzinho à minha mulher, igual, igual, igual, até pensei que fosse ela mas faz diferença no bigode e no cabanhaque.
- No bigode? - perguntou o outro - mas eu não tenho bigode nem cabanhaque!
- Exactamente, mas tem ela amigo.


Pedro Cosme Costa Vieira

1 comentários:

Portuendes disse...

Mais uma vez, o prof Pedro Cosme apresenta uma hipótese interessante e, melhor ainda, fundamentada com contas relativamente fáceis de perceber. O elogio justifica-se duplamente porque, infelizmente, não há costume na praça dos comentadores conseguirem fazer mais do que bitaites, já que nunca mostram a base dos seus argumentos. Mesmo que as suas ideias se mostrassem erradas deveriam ter um mínimo de suporte em números. O prof. Pedro Cosme parece ser o único (talvez haja mais uns 4 ou 5, no máximo) a fazê-lo...

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