segunda-feira, 27 de julho de 2015

O problema do fim das cotas leiteiras

Os esquerdistas (e os agricultores) são contra as cotas. 
Dizem eles que "estão-nos a proibir de produzir."
Agora que acabaram as cotas leiteiras, deveria estar toda a gente contente, mas não.
Os esquerdistas (e os agricultores) já falam outra vez da necessidade de haver cotas.

Para que servem as cotas leiteiras?
Servem para aumentar o preço, aproximando-o do valor de monopólio.
Quando existe apenas um vendedor no mercado (o monopolista), a sua estratégia para maximizar o lucro é diminuir a produção até o lucro ser máximo.
Como para vender maior quantidade é necessário diminuir o preço, ao haver muita produção, o lucro do produtor diminui.
No sistema de cotas, uma entidade centralizada determina a quantidade que maximizaria o lucro se houvesse apenas um produtor e, depois, distribui essa quantidade total pelos produtores.

No caso do leite, quanto menor for a produção, maior será o lucro dos agricultores (ver, Fig. 1), o problema é que, como já muitos produtores, é quase impossível manter o sistema de cotas estável pelo que o nível de produção vai aumentar até o preço de venda igualar o custo de produção (equilíbrio de concorrência perfeita). 

Fig. 1 - Relação entre a produção e o preço de venda: o aumento da produção em 1% faz o preço cair 0,935% o que traduz que quanto menor for a produção, menor é o lucro (Dados: Nunes, 2009, p. 40 e INE)

Na generalidade dos sectores, a prática das cotas é ilegal.
Porque é uma política anti-concorrência mas, no caso da agricultura era legal porque quando se formou a União Europeia, os agricultores franceses tinham muita capacidade de pressão.

O fim do sistema de cotas é positivo para quase todos.
Em termos individuais, cada agricultor quer furar o sistema de cotas porque o preço a que vai conseguir vender a sua produção acrescida é maior que o aumento nos custos. O problema é que, apesar de todos quererem aumentar a produção, no fim, os produtores ficam pior 
Mas ganham os consumidores pois o preço desce até ao preço de custo. Por exemplo, entre 1980 e 2015 o preço desceu quase 50% (de 0,95€/litro para 0,49€/litro, cálculos a partir de Nunes, 2009, p. 40).
Também ganham as regiões e as unidades produtoras mais competitivas.

O Leite no produtor está com um preço de concorrência perfeita.
Verificando que o lucro das explorações é nulo e que o preço pago no Brasil (entre 0,28 €/kg e 0,30/kg) é igual ao pago na União Europeia (em França e em Portugal são pagos 0,30€/kg) então, temos que concluir que o mercado está em concorrência perfeito.

Mas o problema não serão as importações vindas da Roménia?
Não, nem pensar, o preço do leite não permite o transporte a tão grande distância.
O custo do transporte mais barato que existe é em camião TIR e custa cerca de 1€/km para transportar 25000 litros. Mesmo que houvesse uma diferença nos custos de produção de 0,10€/litro (que não há), apenas seria competitivo transportar o leite para Portugal de locais a menos de 2500 km. E a Roménia está a 2800 km de Portugal!
E ainda existe outro problema, é que nunca seria rentável atravessar os Pirenéus porque na França o leite no produtor está a 0,30€/litro, o mesmo preço que cá.
O "problema" do leite português é a concorrência entre os produtores portugueses estarem a empurrar o preço para o valor de lucro nulo (concorrência perfeita).

E agora o que vai acontecer aos nossos produtores leiteiros?
Apenas os produtores mais eficientes é que vão sobreviver e isso passa pela separação da propriedade dos terrenos da actividade de agricultor e ainda a separação da actividade de agricultor da actividade de  pecuarista.

A tecnologia leiteira.
O gado está estabulado e come ração seca cuja base é o bagaço de soja e milho (importado das Américas) e ração verde que é a planta do milho triturada e ensilada (produzida nos nossos campos).
A silagem verde é uma parte muito pequena do custo de produção do lei, calculo que entre 10% e 15%.
Foi herdado da Política Agrícola Comum que a capacidade de produzir ração verde determine o número de animais mas, em termos económicos, isso é errado porque obriga a que as instalações pecuárias sejam de pequena dimensão e, portanto, com custos de produção elevados e sem capacidade de tratamento dos efluentes.
O que vamos observar é, por um lado, a separação da agricultura (que produz silagem verde) da pecuária (que consume silagem verde e produz leite). Também vamos assistir à separação da propriedade da terra da actividade de agricultor.

A bolsa da silagem.
Os agricultores terão que se especializar na produção de silagem que vão vender a quem lhes oferecer  o melhor preço. Será mais uma bolsa de matérias primas como as de soja ou de milho.
A produção de silagem verde de milho é de cerca de 50 toneladas por ha por ano e tem um custo de produção à volta dos 0,03€/kg (ver, dados do Brasil).
O agricultor vai vender a silagem a quem lhe der mais dentro de um mercado potencial com 50 km de raio (dado o baixo valor da silagem verde, não será economicamente viável fazer viagens maiores).
Como a silagem verde exige pouca mão de obra, a generalidade dos actuais agricultores produtores leiteiros vai desaparecer (para ocupar profissões mais produtivas) e vai arrendar os seus campos a algumas poucas pessoas que ficarão nas aldeias e que vão cultivar todos os campos.

A pecuária.
Os pecuaristas vão comprar a silagem verde no mercado podendo assim passar a haver milhares de animais num mesmo local.
Dentro de 10 anos, onde hoje há milhares de produtores (como, por exemplo, no Entre o Vouga e Douro), teremos menos de 10 produtores de leite.

Fig. 2 - Vai haver 3 mercados, o do arrendamento de terra, o da silagem e o do leite (não representado). 

É o progresso.
Nos anos 1960, 1/3 das nossas pessoas trabalhavam na agricultura e hoje já são menos de 10%. 
Mas, olhando para os USA (que é um grande produtor agrícola) são pouco mais de 1%, temos que aceitar que, nos próximos 10 anos, em cada 10 agricultores actuais, só haverá uns 2 ou 3 é que se manterá na agricultura.
Mas também que de nós quereria meter virar produtor de leite?
Vocês sabem que lidar com vacas entranha nas pessoas um cheiro a merda que não sai mais?
Lembro-me quando era pequeno e vivia na aldeia desse cheiro horrível que parecia que se colava às pessoas. Tinha que se tirar a roupa à porta de casa para não empestar o seu interior.

A minha mãe tem pessoa amigas na aldeia.
Quando a vêm visitar, meu Deus, a minha casa fica a cheira a merda de vaca durante pelo menos uma semana. Agora imaginem como é em casa dessas pessoas.
Aquilo não sai nem com lixívia.
"Mau por mau" - diz o alentejano - "prefiro o cheiro a ovelha."

Fig. 3 - A menina até é bem feitinha mas tem cá um cheiro! meu Deus!

Pedro Cosme Vieira

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