sexta-feira, 3 de julho de 2015

Perguntei ao vento que passa, novas da Grécia.

Pronto, a Grécia está sem sistema bancário mas isso não é o principal problema.

O problema é que a economia tem desequilíbrios e os governantes (i.e., o povo grego pois é ele quem elege os governantes) por ignorância não aceitam que esses desequilíbrios sejam corrigidos.
A questão nem é a falta de dinheiro pois a economia grega tinha em Abril de 2015 notas em circulação no valor de 26,2 mil milhões € enquanto que Portugal tinha 24,1 MM€. E até acontece que hoje, depois de nas últimas semanas de injecções pelo BCE de notas, deve haver muitas mais notas na mão dos gregos que em Portugal pelo que não podemos dizer que os gregos tenham falta de notas.

Mas o descrédito nos bancos causa problemas de liquidez.
É que as contas bancarias à ordem, auxiliadas pelos cartões multibanco, ajudam a aumentar os meios de pagamento. O problema na Grécia não é as contas não terem saldo ou o multibanco não fazer pagamentos e transferências mas é as pessoas não aceitarem como credíveis os saldos bancários.
Quando alguém faz uma compra e quer pagar com multibanco, o vendedor não aceita porque não acredita que alguma vez vá ver o dinheiro que tem conta dos bancos gregos.
Na cabeça dos gregos, a Grécia já não está na Zona Euro, os bancos estão totalmente falidos e a única coisa que os mantêm ligados à Zona Euro são as notas emitidas pelo BCE.
Por isso, o sistema bancário grego morreu e, na próxima segunda feira, vai morrer por completo pois , porque os stocks de notas dos bancos se estão a esgotar e o BCE não empresta mais, os levantamentos  vão reduzir ainda mais, talvez para 20€/dia, senão acabarem de todo.
Mas este fenómeno é um sintoma de uma doença e não a doença em si.

A doença é o nível de salários estar demasiado alto e não diminuir. 
Podemos ver que, em termos económicos, Portugal está numa situação muito semelhante à grega tendo mesmo um défice público (em 2014) superior. O problema está no Mercado de Trabalho onde os salários gregos estão 20% superiores aos nossos e a Taxa de Desemprego está (em 2014) 12 pontos percentuais acima da nossa. Além disso, a taxa de juro está muito mais elevada. Estas coisas devem estar relacionadas.

......................................Portugal.......Grécia
....Balança Corrente............+0.6...........+0.9% .......(2014)
....Divida Externa.............413MM€.....419MM€.......(Dez 2014)
....Défice público...............-4,5%.........-3,5% ....... (2014)
....PIBpc................... ......16643€.......16343€ .......(2014, alterei pois estava em USD2005)
....Cresc. PIBpc...............+1,47%.........+1,42% .....(2014)
....Salário médio bruto.......1245€/mês...1729€/mês ..(Eurostat, 3/2015)
....Desemprego ................14,9%..........26,6% .......(2014)
....Taxa de juro (10 anos)...3,0%/ano.....15,0%/ano ..(3 Julho 2015)

Vamos ver como funciona o sistema de ajustamento da economia.

O problema dos gregos são as "variável de equilíbrio" da economia.
Uma economia funciona com três "balanços".
   1) A Conta Corrente que traduz o balanço do país face ao exterior.
   2) A taxa de desemprego que traduz o balanço entre a oferta e a procura de trabalho.
   3) O défice público que traduz o balanço entre os impostos cobrados e a despesa pública paga.

Quando acontece um desequilíbrio causado por uma crise qualquer, se a economia for deixada às "forças de mercado", as variáveis macroeconómicas (a taxa de câmbio, a taxa de juro, o nível de salários) vão evoluir de forma a que a economia se volte a equilibrar.


Fig. 1 - Em termos dinâmicos, a economia funciona como 3 bonecos "sempre em pé".

As inter-comunicações.
Apesar de, em termos pedagógicos, ensinarmos que cada balanço é equilibrado por uma variável macroeconómica, de facto, cada variável tem impacto nos 3 balanços em simultâneo.

A Conta Corrente.
Na óptica dos credores externos, é a Conta Corrente que tem que ser controlada (positiva) pois é aqui que são gerados os recursos necessários para amortizar a dívida externa.

A Conta Corrente soma todas as exportações, subtrai todas as importações, acrescenta o saldo do turismo e dos outros serviços, o saldo das transferências dos emigrantes/imigrantes e das instituições europeias e ainda o saldo dos juros e dos dividendos do capital  estrangeiro. Quando a Conta Corrente tem défice (a CC é negativa) é necessário o país endividar-se face ao exterior.
Se a CC for positiva, mesmo que o saldo das contas públicas esteja negativo, não terá problema para os credores exteriores porque o financiamento do Estado será feito à custa dos aforradores internos.

A variável com mais força para equilibrar a CC é a Taxa de Câmbio.
Quando a CC é negativa, a moeda local (no passado tínhamos o Escudo) vai desvalorizar.
A desvalorização equilibra a CC porque faz com que os bens portugueses e o Turismo fiquem mais baratos para os estrangeiros e que os salários dos emigrantes fiquem maiores o que faz com que as vendas ao exterior aumentem e as remessas dos emigrantes também (a emigração aumenta). Também faz com que os bens importados e as estadias no estrangeiro fiquem mais caras (menos importações e menos saídas de turistas portugueses) e os salários dos imigrantes menores (a imigração diminui). A desvalorização tem um efeito imediato nos preços pelo que o equilíbrio acontece rapidamente.

Começa a crise.
CC negativa => Moeda desvaloriza => Preços diminuem face ao exterior => Mais "exportações" e menos "importações" => CC equilibra
Volta tudo ao normal.

Mas nós não temos Taxa de Câmbio.
Mas temos, não em termos nominais mas em termos reais.
Quero com isto dizer que nós não podemos alterar a cotação da nossa moeda face à moeda dos nossos principais parceiros comerciais (Espanha, França, Alemanha) porque eles usam a mesma moeda que nós mas podemos diminuir os nossos preços face aos deles.
A diminuição do nível de preços face ao exterior traduz uma desvalorização da Taxa de Câmbio Real.
Mas, como a descida dos preços precisa de uma descida dos salários e a Lei não permite que se alterarem os termos dos contrato de trabalho, a desvalorização real dentro da Zona Euro é um processo complicado e com impacto doloroso.
Vejamos os mecanismos que levam ao novo equilíbrio.

1.º - A taxa de juro aumenta.
Se tivermos a nossa CC negativa, o endividamento externo vai aumentar ao longo dos meses. Então, com o aumento do endividamento, o risco do país bancarrotar vai aumentando pelo que, de dia para dia, os aforradores passarão a exigir uma Taxa de Juro mais elevada. Desta forma, o crédito externo reduz-se o que leva ao equilíbrio da CC (sem crédito, as "importações" não poderão ser superiores às "exportações").
A taxa de juro elevada é muito destrutiva induzindo o ajustamento na CC atacando outras variáveis económicas (o emprego e o PIB).

2.º - O aumento da taxa de juro faz aumentar o desemprego.
Ao aumentar a taxa de juro, o investimento das empresas diminui o que faz com que a economia pare de crescer por falta de investimento. Por outro lado, o aumento da taxa de juro aumenta os custos financeiros o que diminui o lucro das empresas. Estes dois mecanismos obrigam umas empresas a falir e outras a diminuir o número de trabalhadores o que faz aumentar a taxa de desemprego (e faz diminuir o PIB).

3 - O aumento da taxa de desemprego faz pressão para que os salários diminuam.
Como há muitas pessoas a procurar emprego, no equilíbrio entre a Oferta e a Procura, o nível de salários vai descer.
Aqui é que está o busílis da questão pois ninguém quer ver o seu salário diminuído.
Nuns países essa descida é mais rápida e noutros é mais lenta.

4 - A descida dos salários permite a descida nos preços dos bens e serviços.
Ao descerem os salários, os custos de produção diminuem o que faz com que as empresas baixem os seus preços de venda. Os preços dos bens e serviços tornam-se mais baixos o que, em termos económicos, é equivalente a uma desvalorização da moeda.
Acontece  a "desvalorização da taxa de câmbio real."

5 - A queda dos preços dos bens e serviços permite exportar mais.
Ao descerem os preços dos bens e serviços, apesar de o consumo interno poder estar deprimido, as empresas tornam-se mais competitivas aumentando as exportações e substituindo as importações o que, finalmente, equilibra a Conta Corrente que passa mesmo a positiva (pois a taxa de juro está elevada).
Estas exportações fazem com que o desemprego comece a diminuir para o nível inicial.

6 - Os juros descem para o seu nível inicial.
Com a Conta Corrente positiva, o endividamento externo começa a diminuir o que faz diminuir o risco de bancarrota do país havendo uma descida da taxa de juro.

7 - Volta tudo ao normal
A taxa de juro desce o que faz o investimento aumentar, o desemprego diminuir e o PIB recuperar.

Começa a crise.
CC negativa => Juros maiores => desemprego maior =>  Salários menores

Salários menores => Preços menores => Mais "exportações" e menos "importações" => CC equilibra

CC equilibra => Taxa de juro mais baixa
Volta tudo ao normal.

A queda do salários será parcialmente compensada pela queda dos preços.
O salários pesam cerca de 60% no PIB. Então, se os salários cairem 20%, os custos e os preços caiem 12% pelo que o poder de compra de cada salário só diminui 8%.

Quanto mais dificil for diminuir os salários.
O ajustamento de uma economia dentro da Zona Euro está dependente da velocidade com que os salários diminuem em resposta ao aumento do desemprego.
Quanto mais difícil for descer os salários, mais elevada vai ser a taxa de desemprego, maior vai ser a queda do PIB e mais tempo vai vai demorar a economia a recuperar.

Começa a crise.
CC negativa => Juros maiores => desemprego maior =>  Salários mantêm-se

Salários mantêm-se => Preços mantêm-se => "exportações" e investimento menores => CC equilibra
Mas não volta tudo ao normal (a taxa de juro e o desemprego mantêm-se altos).

A diferença entre a forma como o Portugal encarou a crise e a forma como a Grécia o fez é que faz com que hoje, mesmo com indicadores muito semelhantes, nós estejamos numa situação muito mais confortável que a Grécia.
Digamos que quem tomar o medicamento certinho, a doença é menos grave, os sintomas são menores e fica bom mais rapidamente.
Até entrarmos na UE o PIBpc grego era 50% superior ao português. (No 25 de abril melhoramos relativamente aos gregos porque em 1974 eles tiveram problemas gordos: o fim da ditadura dos coronéis).
Se a entrada na UE foi boa para Portugal (ganhamos-lhes 40 pontos), a entrada no Euro foi boa para a Grécia (ganhou-nos 25 pontos) mas a crise foi muito pior para a Grécia (ganhamos-lhes 25 pontos). 
Digamos que estes 25 pontos os devemos ao Passos Coelho e à sua energia para que o programa de ajustamento português acabasse sem sobressaltos, retórica ou teoria dos jogos.

É notável termos ganho 25 pontos à Grécia em tão poucos anos.

Fig. 2 - Evolução do racio entre o PIB per capita Grego e o Português (dados: World Bank).

Eu faço campanha pelo Não grego.
Eu quero que o Não ganhe na Grécia pois aquele povo precisa ter câmbios flexíveis.
Os povos que julgam as variáveis nominais importantes, que dão muito valor a subidas regulares e generosas dos salários e das pensões, a promessas eleitorais irrealistas e a viver em constante conflito com as instituições externas têm que ter uma moeda própria e viver em câmbios flexíveis com os seus parceiros comerciais.
O Maduro da Venezuela prometeu que, ganhando as eleições, aumentaria o salário Mínimo em 45% e assim o fez. Ainda neste último Natal, o Maduro decretou mais um aumento de 30%.
Depois, vem a desvalorização e a inflação e aquilo é logo tudo comido.
Mas, como o povo fica todo contente com o aumento, força com aquilo.

Fig. 3 - Cada povo tem direito a viver no seu Icebergue. 

Poderá na segunda-feira a Grécia continuar na Zona Euro?
O poder pode mas não vai ser fácil.
E isto, ganhe o Sim ou ganhe o Não.

Pedro Cosme Vieira

3 comentários:

Rodolfo disse...

Mas um ajustamento pela inflação não é o mesmo que um ajustamento real. A inflação é como se uns aliens viessem aqui a Portugal e levassem uma série de recursos para o planeta deles. Num ambiente com inflação, existem agentes económicos que reclamam recursos sem terem inserido valor na sociedade.

E mais.. é pior do que a cobrança de impostos, por exemplo. Porque ao contrário dos impostos em que as pessoas sabem antes de iniciarem um empreendimento que serão taxadas a determinada percentagem (e podem avaliar se o empreendimento ainda assim é produtivo), com a inflação não sabem. Só depois de acabarem o empreendimento e forem ao mercado para adquirir bens de consumo é que notam que afinal, investiram mais recursos do que os que obtiveram. Assim, apesar de terem avaliado bem as condições de mercado e esse empreendimento, são punidas pela inflação.
Ou seja, a inflação é bastante destrutiva economicamente.
Não é assim, professor?

Fernando Gonçalves disse...



Quando os bancos emprestam dinheiro a um Estado exigem uma dada taxa de juro em função do risco do empréstimo.Ora se emprestaram sabendo ou devendo saber em que condições a Grécia estava então devem arcar com as consequências do risco que assumiram,tal como se alguém investe em ações tb se arrisca a perder dinheiro.Os empréstimo à Grécia serviram para pagar à banca ao arrepio daquilo que são as regras do mercado(e que os próprios tratados da Europa afinal contemplam),que o professor tanto defende,curioso.Hoje é um dia histórico para a Grécia.Venceu a Democracia.A Europa terá de vergar ou as consequências serão imprevisíveis.

Pedro Alexandre disse...

Caro Rodolfo,

A inflação é má para quem poupa e má para quem quer produzir ou seja é mau para o crescimento económico, o que se passa na Grecia neste momento é inflação sem emissão de moeda, basicamente a perda de poder de compra dos gregros vai ser igual ou pior quando a Grécia sair do euro.

E depois vão vir os esquerdistas reclamar quando o PIB real grego cair mais uns 25% com a divida que vao ter de pagar a quem lhes emprestou dinheiro como Portugal porque eu quero os 1800 milhoes de euros que emprestámos mais juros.

Cumps

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