sexta-feira, 21 de agosto de 2015

As "Guerras" cambiais

Nos últimos dias tem-se falado muito da desvalorização do Yuan.
A China é a maior economia do Mundo (considerado o PIB em termos de Paridade do Poder de Compra, ver), contando 16,5% do PIB mundial.Por isso, quando acontece qualquer coisinha na China, logo nós, a milhares e milhares de quilómetros de distância, pensamos que vamos ser vítimas desse tremorzinho.
Em termos nominais a China está um pouco abaixo dos USA mas, como na China os preços são, em média, mais baixos que nos USA, corrigindo por este efeito, os USA passam para segundo lugar.
Como, nos últimos dias, a moeda da China desvalorizou, já parece que vai começar uma "guerra cambial" de proporções inimagináveis.

Quadro 1 - Lista dos G21 - Países com PIBppc maior que 1E12€ (1 Bilião de Euros)
Ranking País % Média   FMI WB CIA wf
1  China 16,4% 17,8 17,6 18,0 17,6
2  United States 16,1% 17,4 17,4 17,4 17,5
3  India 6,8% 7,3 7,4 7,4 7,3
4  Japan 4,4% 4,7 4,8 4,6 4,8
5  Russia 3,4% 3,6 3,6 3,7 3,6
6  Germany 3,4% 3,7 3,7 3,7 3,6
7  Brazil 3,1% 3,3 3,3 3,3 3,5
8  Indonesia 2,4% 2,6 2,7 2,7 2,6
9  France 2,4% 2,6 2,6 2,6 2,6
10  United Kingdom 2,3% 2,5 2,5 2,5 2,4
11  Italy 2,0% 2,1 2,1 2,1 2,1
12  Mexico 1,9% 2,1 2,1 2,0 2,1
13  South Korea 1,6% 1,8 1,8 1,7 1,8
14  Saudi Arabia 1,5% 1,6 1,6 1,6 1,6
15  Canada 1,5% 1,6 1,6 1,6 1,6
16  Spain 1,4% 1,6 1,6 1,6 1,5
17  Turkey 1,4% 1,5 1,5 1,5 1,5
18  Iran 1,2% 1,3 1,3 1,3 1,3
19  Australia 1,0% 1,1 1,1 1,0 1,1
20  Nigeria 1,0% 1,1 1,0 1,0 1,1
21  Taiwan 1,0% 1,1 1,1 1,1 1,0
EU 16,8% 18,2 18,5 18,4 17,6
World 100,0% 108,0 108,0 108,5 107,5

Mas temos que separar o PIB da capacidade de influência no Mundo.
Apesar de a China ser a maior economia do Mundo, como tem muitas pessoas para alimentar e tem um nível tecnológico relativamente fraco, a sua capacidade de influenciar a economia mundial é relativamente pequena. A minha estimativa é que, em primeiro lugar estão os USA e, a uma distância considerável, estão o Japão, Alemanha, China, Reino Unido e França, por esta ordem.

Fig. 1 - A "guerra cambial" é uma inventona.

A guerra câmbial.
Na ideia romântica das pessoas a "guerra cambial" começa por
  i) é muito bom para um país desvalorizar
  ii) um país desvaloriza
  iii) todos os outros países desvalorizam.
Mas isso é impossível porque a taxa de câmbio sendo entre as moedas não podem desvalorizar todas e a não é um instrumento de política.

A taxa de câmbio é uma variável de mercado.
Assim, existe uma taxa de câmbio de equilíbrio e, havendo desvios relativamente a esse valor, os mecanismos de mercado levam a novo equilíbrio

Como funciona o mercado cambial.
Para compreendermos como funciona o mercado cambial vou considerar uma economia onde circula a moeda Y e todas as transacções com o exterior são em Dólares, $.

1) A economia recebe dólares, USD_Entradas, do exterior pelo pagamento das exportação de bens e serviços, as transferências (dos imigrantes e outras) e ainda tem investimentos e empréstimos dos estrangeiros.

2) A economia também entrega dólares, USD_Saídas, ao exterior para pagar as importação de bens e serviços, as transferências (de emigrantes e outras) e ainda faz investimentos e empréstimos no estrangeiro.

Em cada momento, temos um USD_Saldo = USD_Entradas - USD_Saídas.

Ajustamento em câmbios fixos

O saldo é positivo.
Como a moeda local é o Y, este saldo positivo vai ser trocado junto dos Banco Central por Y o que faz com que as reservas cambiais do BC aumentem (a quantidade de dólares no cofre) e a quantidade de Y em circulação aumente (diminui o valor em stock no BC de Y).
Mais Y em circulação faz com, pela Lei da Oferta e da Procura, que os preços denominados em Y aumentem o que faz com que USD_Entrada diminua (menso exportações) e o USD_Saída aumente (mais importações) o que leva ao equilíbrio da economia face ao exterior num nível de preços mais elevado.

O saldo é negativo.
Observa-se o ajustamento simétrico.
Os agentes económicos vão trocar junto dos Banco Central Y por Dólares o que faz com que as reservas cambiais do BC diminuam (a quantidade de dólares no cofre) e a quantidade de Y em circulação diminua (aumenta o valor em stock no BC de Y).
Menos Y em circulação faz com, pela Lei da Oferta e da Procura, que os preços denominados em Y diminuam o que faz com que USD_Entrada aumenta (mais exportações) e o USD_Saída diminui (menos importações) o que leva ao equilíbrio da economia face ao exterior num nível de preços mais baixo.

Saldo positivo => +Y => +Preços => -exportações e +importações => novamente em equilíbrio
Saldo negativo => -Y => -Preços => +exportações e -importações => novamente em equilíbrio

Ajustamento em câmbios flexíveis
Agora, o banco central vai ter um objectivo para as reservas cambiais (por exemplo, quer ter 10% do PIB em reservas cambiais).
Quando as reservas sobem acima da meta, o BC tem Dólares a mais pelo que vai descer o seu preço (vai valorizar Y).
Por exemplo, quando o BCE tem 11% do PIB, passa a vender os Dólares  a 99Y/Dólar o que traduz uma valorização de Y face ao Dólar.
Quando as reservas descem abaixo da meta, o BC vai aomentar o preço do Dólar (vai desvalorizar Y)
Por exemplo, quando o BCE tem 9% do PIB, passa a vender os Dólares  a 101Y/Dólar o que traduz uma valorização de Y face ao Dólar.

O mercado também vai ajustar.
QUando há uma valorização de Y, passando de 100Y/D para 99Y/D, os bens de exportação ficam mais caros (diminuindo USD_Entradas) e os bens importados mais baratos (aumenta USD_Saídas) pelo que a economia face ao exterior vai ajustar.

O que se passou na China.
As reservas cambiais desceram abaixo da meta do BC.
Sendo assim, em 2 dias a moeda desvalorizou de 6,20Y/USD para 6,40Y/USD, cerca de 3%.
Relativamente a um ano atrás, o Yuan desvalorizou 4%.

Será uma desvalorização de 3% ou 4% uma alteração de monta?
Se compararmos para as oscilações Dólar Americano Vs Euro, desde meados de 2008 já houve 4 episódios de desvalorização cambial do Dólar Americano na ordem dos 20%.
Tendo o Dólar muito mais importância que o Yuan, só posso concluir que esta desvalorização de 3% ou 4% não são nada.

Fig. 2 - Cotação Dólar Americano / Euro

Mas, desvalorizar é mau.
Porque diminuir o poder de compra dos salários.
As pessoas ganham o mesmo (em Y) e os bens importados aumentam de preço pelo que, globalmente, o poder de compra dos salários fica diminuído.
Se, as importações chinesas pesam 20% na economia, uma desvalorização de 3% traduz-se numa diminuição do poder de compra dos salários na ordem dos 0,6%.

Desvaloriza os salários => diminui o desemprego.
Ao baixar o poder de compra dos salários e ao aumentar os preços (em Y) das exportações, o mercado de trabalho vai animar.
Assim, a desvalorização cambial, apesar de partir de um equilíbrio de reservas cambiais, vai ter impacto no mercado de trabalho.
Desta forma, havendo desemprego elevado, a desvalorização vai diminui-lo à custa da diminuição do poder de compra dos salários.

Em câmbios fixos, diminuíam os preços.
As empresas viam-se então obrigadas a descer os salários nominais.
Não podendo descer os salários, o desemprego aumentaria.

Seria mais fácil desvalorizar a moeda 3% ou descer os salários nominais 0,6%?
Existem várias moedas porque é mais fácil desvalorizar que descer os salários nominais.
Por isso é que tem sido tão difícil a Grécia e a Espanha ajustarem o mercado de trabalho em comparação com a Islândia que na segunda metade de 2008, desvalorizou a moeda em 60%.

Fig. 3 - Na Islândia a taxa de desemprego atingiu uma máximo de 9,2% e já está abaixo dos 4%

Fig. 4 - Na Grécia a taxa de desemprego atingiu uma máximo de 27,9% e ainda está nos 25%

Não seria melhor Angola desvalorizar o Kwanza?
Nos anos 2011-2013 Angola vendeu o barril de petróleo a uma média de 110USD e agora está a vender a 46 USD, uma quebra de quase 60%.
Se considerarmos um custo de extracção de 30 USD, em termos de margem, a redução é ainda maior, na ordem dos 80%.
Isto traduz que a quantidade de dólares que entram no Banco Central Angolano reduziu-se drasticamente.

O governo não quer desvalorizar o Kwanza mas vai ter que ser.
A desvalorização faria com que os bens produzidos localmente passassem a ser competitivos face aos bens importados. Assim, em vez de haver razionamento dos bens que podem ser importados, o que é muito vulnerável a corrupção, em função da alteração dos preços, as pessoas decediriam o que valeria a pena importar e o que poderia ser produzido localmente.
Comparando com o mercado negro, há necessidade de desvalorizar o Kunaza na ordem dos 50%.
A taxa de cambio do Kwanza é de 128AK/USD. O Banco Central Angolano anunciava que, no prazo de 90 dias, a taxa de cambio de referencia do Kwanza face ao USD iria passar para 250AK/USD, fazendo  uma desvalorizar de 0,75% por dia.
Claro que os bens importados vão aumentar de preço o que fará aumentar a inflação mas é melhor do que se viver numa situação totalmente artificial.

Fig. 5 - Angola tem mulheres boas.


"Nunca serei primeiro ministro"
Ouvi esta frase hoje na televisão saída da boca do António Costa em entrevista ao Sábado.
Pegando nas sondagens todas que houve até agora e que dão, em termos médios PS = 37,3% e PSD+PP = 35%, a probabilidade de o PS ter maioria absoluta é menor que 1%.
Sendo que o António costa só se vê num bloco central de Portugal for invadido por marciados, o que tem uma probabilidade de acontecer de zero.
Tenho que concluir que o homem disse que tem menos de 1% de vir a ser primeiro ministro.

O Costa gosta muito da Ferreira Leite.
Diz que é uma pessoa moderada!
Mas não foi a Ferreira Leite que defendeu que teríamos que pensar se faria sentido uma pessoa com 80 anos fazer hemodiálise?
Eu parece-me que a ouvi dizer isto.
Moderada? Tem é ódio ao Pedro Passos Coelho.

O petróleo, o Japão e o Irão.
No lado da procura, o consumo de petróleo na China está fracote e veio a notícia de que o Japão religou uma central nuclear e que mais 20 centrais estão em processo de religação. o que traduz que o consumo de petróleo no Japão vai diminuir sensivelmente.
No lado da oferta, o acordo do fim das sanções ao Irão irá aumentar a produção de petróleo deste país em pelo menos 900 mil barris por dia (+ 2% na produção mundial).


Menos consumo (no Japão e na China), mais produção (no Irão) só pode levar à diminuição dos preços do petróleo.
Assim, más notícias para o Brasil, Rússia, Angola e, não menos, para Moçambique que, depois de muita esperança nas enormes reservas de Carvão e no Gás Natural, voltou tudo à estaca zero.
Más notícias para quem está a trabalhar e exporta para Angola, Brasil e Moçambique e para a Galp.
Boas notícias para a nossa economia pois somos (grandes) importadores de energia.
Somando uma coisa à outra, a ligação das centrais nucleares no Japão, o acordo no Irão e a "crise" chinesa são boas notícias para o comum dos portugueses.

Fig. 6 - Uma central nuclear tão bonitinha!

Por falar do acordo com o Irão e no nuclear.
Israel está muito nervoso, tem feito pressão para que o Congresso Americano vote contra.
Mas não tem Israel 100 bombas atómicas e capacidade para fazer mais?
Então, para que é que serve te-las?
Quando acharem que o Irão vai conseguir fazer bombas atómicas para os atacar, atacam eles. 
Para não deixarem rasto do míssil, fazem uma bomba "suja" (com Urânio 235 a 20% que tem uma massa critica de 400 kg) e metem-na num missil terra-terra de curto alcance.
Depois, traficam a bomba como puderem e disparam o míssil a partir de um sítio esquisito, tipo, montanhas da Turquia.
Aquilo ao explodir de forma pouco eficiente dará a ideia de que foi um projecto de um país com tecnologia fraca ou mesmo um acidente. E, mesmo com uma explosão fraquita, vão conseguir distruir a central e bloquear a zona com radioactividade. Anda podem acrescentar um pouco de Cobalto para piorar a coisa.
Depois,  dizem que "Foram os Sunitas, talvez os Turcos ou os Sauditas, nós não temos nada a ver com isso"

Se estão contra o acordo ... 
é porque se acham numa posição de fraqueza. Fraqueza de de força ou de convicção.

Finalmente, a "Crise dos Refugiados"
É sabido que os animais têm comportamento diferente quando estão num colectivo. Por exemplo, o gafanhoto sozinho é muito tímido e fugidio escondendo-se debaixo das folhas mas, quando faz parte de uma massa de milhões, expõe-se sem receio. Digamos que, toma consciência de que, no meio de milhões, é improvável que alguém se lembre de o comer.
Nós seres humanos também somos animais e, por isso, no colectivo temos comportamento diferente de quando estamos sozinhos.
No Bangladesh, India, Pakistão, Afeganistão, Iraque, Sudão, Eritreia, Egipto, Nigéria, etc. há milhares de milhões de pessoas que vivem muito mal e que aspiram a vir viver para a Alemanha ou Inglaterra.
O problema está em fazer o caminho e atravessar as fronteiras.
Se uma pessoa sai do Sudão e tenta chegar à Alemanha, a probabilidade de ter sucesso é zero. Mal sai da sua aldeia, o mais certo é que seja logo morta ou reduzida à escravatura por assaltantes da vizinhança.
Mas se um milhão sai do Sudão, a probabilidade de um individuo ser morto torna-se muito menor.
Depois, chegam à fronteira do Egipto e não há forma de os parar, metem-nos em camionetas e levam-nos para a fronteira da Líbia.
Na líbia fazem o mesmo e por ai adiante até que chegam à Grécia.
A Grécia também não quer saber e leva-os para a fronteira com a Macedónia.
Num mês chegaram 100 mil à Grécia, mas isto é apenas o começo.
Chegando aos países pobres de que as fronteiras estão abertas, este número vai-se multiplicar por 10.

Mas os esquerdistas têm solução para isto.
Não sei qual será pois, como sabem, só vejo duas hipoteses:
  1) Mandar aviões da TAP buscar as pessoas em segurança ou
  2) Afundar os barcos.
O mais certo é pedirem ao Mário Centeno para que faça umas estimativas, não promessas mas estimativas.

Fig. 7 - O Centeninho é o Gasparzinho do PS, folhas de Excel e estimativas. Se calhar, agora vão acusar-me de sermos somos parecidos!

Pedro Cosme  Vieira

2 comentários:

pvnam_2 disse...

Os 'globalization-lovers' que fiquem na sua... desde que respeitem os Direitos dos outros... e vice-versa!
.
Nazismo não é o ser 'alto e louro', bla bla bla,... mas sim... a busca de pretextos com o objectivo de negar o Direito à Sobrevivência de outros!
Existem 'globalization-lovers'... e existem 'globalization-lovers' nazis (estes buscam pretextos para negar o Direito à Sobrevivência das Identidades Autóctones).
.
.
.
P.S.
Todos diferentes, todos iguais!...
Isto é: TODAS as Identidades Autóctones devem possuir o Direito de ter o SEU espaço no planeta!...
{nota: Inclusive as de 'baixo rendimento demográfico' (reprodutivo)!... Inclusive as economicamente pouco rentáveis!...}
-> Uma NAÇÃO é uma comunidade duma mesma matriz racial onde existe partilha laços de sangue, com um património etno-cultural comum.
-> Uma PÁTRIA é a realização de uma Nação num espaço.
.
P.S.2.
Devemos estar preparados para a CONVERSA DO COSTUME dos nazis made-in-USA [nota: estes nazis provocaram holocaustos massivos em Identidades Autóctones]: «a sobrevivência de Identidades Autóctones provoca danos à economia…»
[Nota: é preciso dizer não ao nazismo democrático e sim ao separatismo, isto é: é preciso dizer NÃO àqueles que pretendem determinar/negar democraticamente o Direito à Sobrevivência de outros]
.
P.S.3.
Já há alguns anos que aqui o je vem divulgando Direitos que considera serem importantes:
1- O Direito à Sobrevivência de Identidades Autóctones : ver blog "http://separatismo--50--50.blogspot.com/".
2- O Direito à Monoparentalidade em Sociedades Tradicionalmente Monogâmicas: ver blog "http://tabusexo.blogspot.com/".
3- O Direito ao Veto de quem Paga: ver blog "http://fimcidadaniainfantil.blogspot.pt/".

André Sousa disse...

Professor,
Gostaria de obter, se possível, um comentário seu ao seguinte artigo:
http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=1868

Obrigado.

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