sexta-feira, 9 de outubro de 2015

O porquê da Ana Gomes ter ficado chocada com a derrota do PS

A derrota do PS não deveria ser surpresa para ninguém.

Se olhássemos para as sondagens telefónicas aleatórias (da Católica e da Intercampos), o PSD estava bastante à frente do PS. Se no dia 3 de Outubro a sondagem das sondagens previa 38,8% para o PSD (materializou-se em 38,6%) e 33,3% para o PS (materializou-se em 32,4%), só acreditando num milagre de última hora é que alguém poderia imaginar que, às 20h do dia 4 de Outubro, o PS poderia ser anunciado nas TV's como o vencedor das Legislativas de 2015.
Atendendo às sondagens e ao facto das pessoas do PS não terem fé no divino (tirando o Guterres...), porque será que as pessoas do PS, de que a Ana Gomes foi a cara mais visível, ficaram chocadas com a derrota?

Será que?
Acreditavam mesmo naquela conversa de que os dados positivos da economia observados desde Março de 2013, fosse a redução do desemprego, o aumento do emprego, o crescimento do PIB, o aumento das exportações ou o saldo positivo das contas com o exterior estavam deturpadas pela máquina propagandística do governo?
Se acreditavam nisso, também poderiam acreditar que a deturpação se estendia às sondagens da Católica e da Intercampus.
Realmente, na minha escuta que tenho na sede do PS, a Ana Gomes não se cansava de repetir naquela voz de megafone "Ninguém acredite nas sondagens pois isso tem a mão do Ali Há Latas".

Vejamos então às razões do Choque.
Interessante que na Sexta-feira, toda a gente sabia as razões de o Passos Coelho ir perder e o Costa ganhar.
No domingo à noite as mesmas pessoas já sabiam as razões de o Costa ter perdido e o Passos Coelho ganho.

1) O António Costa foi criado e protegido para ser um trunfo na manga.
Nos últimos 20 anos, o Costa preparou-se para ser a arma nuclear secreta. 
Os governos do PS, apesar de extraordinários (na óptica deles), por vezes não são compreendidos pelo povo. Sendo que é inevitável que os governos PS cheguem um dia ao fim, a estratégia dos camaradas é haver uma alternância entre governo de longa duração do PS com governos curta duração da Direita.
Durante um governo prepara-se a pessoa que, durante a travessia do deserto, vai ser o trunfo da eleição seguinte.
Reparemos que, depois do governo do Cavaco Silva, o Guterres (PS) esteve lá 7 anos a que se seguiram 3 anos da Direita (PSD+PP) e mais 6 anos do Sócrates (PS).
Assim que a previsão económica é no sentido de virem tempos difíceis, de elevada taxa de desemprego e de contracção do PIB, o PS manda-se abaixo (foi o que aconteceu com o Guterres e com o Sócrates), deixa o PSD ganhar e governar nos tempos difíceis e, passados 2 ou 3 anitos, o PS volta a ganhar.

O Costa era o homem perfeito.
Foi Secretário de Estado e Ministro (dos Assuntos Parlamentares e da Justiça) nos governos do Guterres (1995-2002).
Nos governos do PSD (Durão e Santana Lopes) aproveitou para ser presidente do Grupo Parlamentar do PS (2002 a 2004), deputado europeu e vice-presidente no Parlamento Europeu (2004 e 2005).
Voltou à governação como número 2 do primeiro governo do Sócrates (entre 12 de Março de 2005 e 17 de Março de 2007) que abandonou para ser Presidente da Câmara de Lisboa.
Apesar de estar metido até ao pescoço nos "governos bancarroteiros", ao estar na Câmara de Lisboa, conseguiu desligar-se desse passado.
Em meados de Junho de 2015, o costa estava com uma vantagem de 21,9 pontos relativamente ao Passos Coelho (+17,2 pontos contra -4,7 pontos, Expresso)!

O Costa era o ás de trunfo guardado na manga para derrubar o Passos Coelho.


Era preciso identificar o ponto de viragem.
Nos primeiros tempos do governos PSD+PP, nunca o PS pediu a demissão do governo porque ainda era preciso sujar as mãos na austeridade. Os estrategas do PS teriam que identificar quando acontecia a inversão nas tendências. Em Março de 2013, quando a taxa de desemprego estava nos 18% e a economia a contrair a grande velocidade, teriam que identificar que era hora de atacar. 

Evolução da taxa de desemprego 2005:2015 (dados: INE.pt)

Será que falharam na identificação do ponto de viragem?
Em parte sim. 
Quando houve a manifestação "Abaixo a Troika" de 2 de Março 2013 e, posteriormente, o Gasparzinho e o Porta se demitiram,, o Costa mostrou vontade de avançar mas os estrategas do PS disseram-lhe que ainda não era tempo.
O Seguro tentou avançar (para um acordo que marcasse as eleições o quanto antes) mas o Costa não deixou.
Em parte, não tiveram hipóteses. 
O Passos aguentou firme, o Cavaco deixou a teoria da "espiral recessiva" e decidiu segurar o governo e, talvez o mais importante, o povo identificou que se estava num ponto de viragem.
Assim que o PS começou a pedir que o governo se demitisse, deixou de haver manifestações e greves.
Foi nesse ponto que eu me convenci que o Passos iria ganhar como veio a ganhar.


2) O governo Passos+Portas aplicou medidas fortemente impopulares.
Um colossal aumentos de impostos e cortes na despesa do Estado que se traduziu numa degradação da qualidade de vida das pessoas.
Também aconteceu um aumento massivo do desemprego sem haver possibilidade de garantir apoios sociais a todos.
Um imprensa muito negativa e agressiva para com o governo, alimentada por vozes discordantes dentro do próprio PSD (Rui Rio, Ferreira Leite, Pacheco Pereira, Alberto João, Capucho, Marcelo, Santana Lopes, etc.)

3) Tinham um estudo que dava corpo "sólido" ao programa do governo.


Já não me lembro quem são os "12 sábios do PS" mas sei que, além do João Galamba que é do Syrisa, tem lá académicos reputados. 
Fizeram o melhor que sabiam e, em oposição, o PSD+PP não apresentou nada de detalhado mas apenas "Vamos cumprir o Tratado Orçamental que o PS também assinou"
E o que é o Tratado Orçamental?
Fazer o necessário para que o défice das contas do Estado vá para zero e a dívida pública volte aos 60% do PIB.

4) Investiram em imagem.


Apesar de o PS estar falido, investiram muito dinheiro em outdoors (que se revelaram estúpidos) e tinham a comunicação social do seu lado.
Os estudos de opinião mostravam sistematicamente que o Costa tinha uma imagem muito mais positiva que o Passos Coelho.

Se, nestas condições perfeitas, o PS perdeu, em que condições poderá ganhar?
É este o choque da Ana Gomes e dos seus camaradas.
Quando é que o PS vai arranjar um candidato assim tão querido pelo povo?


Se perderam com um bom candidato, um bom programa de governo, uma oposição que tomou medidas fortemente impopulares, forte investimento em propaganda então, nunca mais irão ganhar. 
"Se quero festejar uma vitória, a única hipótese será fazer como o Freitas do Amaral mas ao contrário, mudar do PS para o CDS/PP" pensou a Aninha.
Se o PS perdeu contra uma tartaruga, nunca mais ganha.

Vejamos o que vai acontecer agora.
A Assembleia da República não pode ser dissolvida nos seis meses posteriores à sua eleição (Art. 172.º da Constituição Portuguesa). Como foi eleita no dia 4 de Outubro, só pode ser dissolvida depois do dia 4 de Abril de 2016.
As eleições para o novo Presidente da República vão ser em finais de Janeiro de 2016 (em 2011 foram no dia 23 de Janeiro) e, não havendo segunda volta, a tomada de posse será em princípios de Março (em 2011 foi no dia 9 de Março).

O que vai acontecer enquanto lá estiver o Cavaco.
O governo está demissionário (art. 195-1 da CP) estando, por isso, limitado nos seus poderes (art. 186-5 da CP). No caso de o programa do novo governo ser chumbado, esse governo continuará igualmente em funções mas com poderes limitados (art. 186-5 da CP).
O Cava é que tem que nomear o novo governo mas não está prevista qualquer data para a tomada de posse do novo governo. Então, se o PS anunciar que vai chumbar o programa do governo PSD+PP porque quer formar um governo esquerdista, o Cavaco vai deixar a coisa em banho maria.
Vai repetir até à exaustão que "O Presidente da República já pensou em todos os cenários" mas não vai fazer nada.
Nunca jamais o Cavaco dará posse a um governo esquerdista e eu "Nunca me engano e raramente tenho dúvidas" (Sr. Silva).

O Cavaco não convidou ninguém.
Naõ está prevista na nossa Constituição o mecanismo que medeia entre as eleições e a nomeação do Primeiro Ministro. Nada é dito quanto ao Presidente da República convidar ou indigitar um potencial Primeiro Ministro mas apenas que, e sem prazo, compete ao Presidente nomeias o Primeiro Ministro (art. 187 da CP).

O Cavaco pode ser mauzinho.
O PSD+PP deve vir a ter 107 deputados (com 3 da emigração) e não será difícil arranjar o apoio do deputado do PAN.
Depois, só são precisas 14 abstenções para o programa do governo passar, um em cada 6 deputados do PS.
E se o Cavaco chamar os deputados do PS um a um?
Será que vai conseguir que 1 em cada 6 se abstenha em discordância com o mando do Costa?
Penso que talvez.

Quando vier o novo presidente da República.
Vamos supor que as sondagens se concretizam e que é o Prof Marcelo.
Será que vai dar posse a um governo do PS apoiado pelo BE e pela CDU?
Nessa altura já só vai faltar um mês para o parlamento poder ser dissolvido.
Se as sondagens derem o PSD+PP a subir, o PS vai recuar.

Será que o novo governo Passos+Portas vai durar?
Na noite das eleições, depois do anúncio do Costa de que iria viabilizar o governo, fiquei com confiança de que duraria pelo menos 2 anos. Agora, estou mais pessimista. Talvez tenhamos novas eleições legislativas lá para fins de Maio de 2016.

Mas está tudo calmo.
Quando as sondagens começaram a dar o PS a perder, as taxas de juro da dívida pública foram diminuindo (desceram 0,20 ponto percentuais). Depois das eleições caíram um poucochinho mais (0,06 pontos percentuais) mas voltaram a subir esse poucochinho por causa da situação não se ter clarificado.
Vamos aguardar com serenidade.

Evolução da taxa de juro da dívida pública a 10 anos dos últimos 10 dias (29 Set- 9 Out)

Pedro Cosme Vieira

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