segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

E ao 7.º dia, o BANIF caiu

No dia 13 de Dezembro, a TVI ... 
anunciou que o BANIF iria ser "resolvido".
Na segunda-feira seguinte não o foi, houve desmentidos de toda a parte, todo o mundo gritou que "a TVI enganou-se" e, por parte do BANIF, até veio a ameaça de que iria demandar judicialmente a TVI pelos "prejuízos causados".
Não foi no dia 13 mas, mesmo com desmentidos vigorosos, só aguentou mais uma semanita. No dia 20 de Dezembro, caiu com um estrondo de milhares de milhões de euros.

Porque será que o BANIF, BES, BPN, BPP caíram?
O mais simples é pensar que foram geridos por malfeitores que apenas queriam causar prejuízo aos contribuintes. E ainda mais simplista ainda é concluir que a banca tem que estar nas mãos do Estado.
A razão é simples mas não tem nada a ver com isso: os bancos assumiram riscos que não conseguiram cobrir nem transmitir aos clientes. No final, esses riscos rebentaram com os seus balanços.

Vejamos como funciona um banco comercial.
Os aforradores, sejam pessoas ou empresas, metem lá dinheiro na forma de depósitos e de obrigações ficando garantido que receberão de volta as importâncias entregues acrescidas de um juro, por exemplo, 1%/ano.
Depois, o banqueiro pega no dinheiro recolhido e vai emprestá-lo a outras pessoas e empresas, a um juro mais elevado, por exemplo, a 3%/ano, mas com o risco de os devedores não pagarem o combinado.
A diferença entre a taxa de juro a que são remunerados os aforradores e a taxa de juro a que o banqueiro empresta esses recursos tem que cobrir os custos de funcionamento do banco e o risco de algum devedor fugir sem pagar.
Para que o banco nunca vá à falência, o banqueiro tem que fazer uma gestão criteriosa das taxas de juro e dos riscos assumidos. Em termos de "regulador", para nunca haver perdas para os aforradores, o banqueiro tem que meter do seu bolso 10% do dinheiro que empresta (a "core tier 1"). Se, por exemplo, o banco emprestar um total de 1000 milhões €, o banqueiro terá que meter 100 milhões€ do seu bolso (é o capital mínimo do banco) a que acrescem 900 milhões € de depósitos e obrigações dos aforradores.


Vejamos como funciona um banco de investimento.
O banco de investimento não assume risco porque o transmite integralmente aos seus "depositantes". Assim, funciona como um intermediário quase idêntico a uma bolsa de valores.
Por exemplo, um aforrador entrega 100 mil € ao banco e o banqueiro diz-lhe que vai emprestar 10 mil € a uma empresa, 20 mil € a outra empresa, etc. (que identifica), a determinada taxa de juro com o aviso de que, se as empresas não pagarem, é o cliente que perde o dinheiro. O aforrador terá que dar o seu OK ao negócio.
O banco apenas cobra uma comissão pela intermediação do negócio.
Por causa de ser apenas intermediário, o banco de investimento nunca pode falir e, por isso, não existe necessidade de ter um capital mínimo.
O problema das falências não foi, como dizem os esquerdistas, o "banco de investimento" estar misturado com "o banco comercial" mas sim os bancos comerciais assumirem risco exagerado que um banco de investimento nunca assumiria.
Um exemplo de risco exagerado são os fundos de capital garantido.

Vejamos como funciona a gestão do risco.
Pensemos num cliente, o Sr. João, que vai pedir 100 mil € de crédito a um banco, a 30 anos, para comprar uma casa.
Vamos supor que a taxa de juro acordada é a EURIBOR a 6 meses mais 1 ponto percentual.
Se o banco se conseguir financiar à taxa EURIBOR a 6 meses, este crédito terá para o banco uma margem de cerca de 15% (esta conta não é trivial).
Em função do valor da casa, do rendimento mensal, estado civil, idade, número de filhos, rendimento da mulher e outras variáveis, o banco calcula o risco do João não pagar, por exemplo, pensa ser de 3% a probabilidade de o João não pagar o crédito.
Estes 3% de taxa de incumprimento vão-se concretizar (ou não) na perda total dos 100 mil € mais os juros.
Se o Banco tiver 1000 clientes iguais ao João e nenhum pagar os seus créditos, o banco irá à falência.
O que pensa o banco é que, como uns pagarão e outros não, em média, a perda será de 3% pelo que o risco apenas se irá traduzir na redução da margem do negócio que passa de 15% para 12%
     = 1,15 * (1-3%) -1
Para corrigir esta perda de margem, seria apenas necessário aumentar o spread um poucochinho.


O problema é que, desde 2008, muitos deixaram de pagar.
Muitas e muitas pessoas, não só particulares como também empresas, falharam os pagamentos. Afinal, aqueles 3% estavam subavaliados e, por outro lado, concretizaram-se todos ao mesmo tempo.
Milhares e milhares de pessoas deixaram de pagar as suas hipotecas e pacotes de empresas de construção faliram.

E de quem foi a culpa?
De muita gente.
Dos governos que pressionaram os banqueiros a "emprestar dinheiro à economia".
Dos banqueiros que não souberam resistir à pressão política.
Já tenho dúvidas quanto à responsabilidade dos regulados  (Banco de Portugal e CMVM) porque mais não foram que pressionados pelo poder político. Estes problemas não surgiram com o Carlos Costa sendo algo que se arrasta desde o tempo do Vítor Constâncio. Imaginem que há 10 anos o Vítor Constâncio impunha que o crédito à habitação apenas poderia ser concedido até 75% do valor do imóvel e que a prestação teria que ser menor que 25% do rendimento líquido do agregado familiar. Seria esfolado vivo.

Os nossos bancos ficaram muito expostos ao sector imobiliário.

Os bancos assumiram muito risco no crédito imobiliário, emprestaram a prazos longos e a taxas de juro muito baixas porque pensavam que conseguiriam aceder a crédito à taxa EURIBOR.
Concederam mais de 100 mil milhões € o que pondera 40% nos seus balanços. Como a EURIBOR está bastante abaixo da taxa média a que os nossos bancos se conseguem financiar, para uma diferença de 1,5 pontos percentuais, este problema tem um impacto negativo no balanço dos nossos bancos em 25 mil milhões €.

Crédito à habitação com prazo superior a 5 anos, em milhões € (dados, Banco de Portugal).

Como poderia este problema ser resolvido sem custos para os contribuintes.
O Sócrates primeiro, o Passos Coelho depois e o Costa agora, deveriam ter força política para, por decreto, fixar o indexante dos créditos à habitação na EURIBOR média de 2009 (1,52%/ano para EURIBOR a 6 meses).
Claro que isto iria ter um custo para as famílias endividadas (a prestação hoje seria 15% mais elevada do que está), mas livraria os bancos de grande parte dos seus problemas. Em vez de todos os contribuintes pagarem as falências dos bancos, estes ficariam equilibrados à custa de quem se endividou.
Os banqueiros erraram no calculo do spread das taxas de juro mas, agora, os contribuintes não estão a financiar os bancos mas sim os devedores que conseguem uma taxa de juro inferior ao que seria indicado.

Será a solução do BANIF melhor que a aplicada ao BES?
A solução para o BANIF é intermédia entre a nacionalização do BPN e a resolução do BES.
No BPN o Estado assumiu todas as perdas.
No BES serão os "outros bancos" a assumir as perdas.
No BANIF, o Estado assume 80% das perdas e os "outros bancos" 20%.
Qualquer destas soluções tem vantagens e desvantagens.

A solução BPN.
Nas pessoas que se relacionavam com o BPN, os accionistas perderam dinheiro mas mais ninguém. Depositantes, obrigacionistas, e demais credores receberam todo o seu dinheiro e quem ficou com o prejuízo foram os contribuintes (talvez 500€/pessoa).

A solução BES.
Muita gente perdeu dinheiro, milhões e milhões de euros, os "outros bancos" estão com um problema de pelo menos 3000 milhões € mas os contribuintes estão protegidos em termos directos.
 
Por exemplo, vejamos o caso da Goldman Sachs no BES.
Duas ou três semanas antes do colapso, a Goldman Sachs fez um depósito de emergência no BES de 752,5 milhões €, dinheiro que veio do veículo Oak Finance.
Acontece que o BES tinha pedido outro empréstimo ao Nomura dando acções como penhor. E, no dia 14 de Julho de 2014, o banco japonês Nomura executou o penhor ficando com 4,99% do BES (talvez a 0,47€/acção). Talvez no dia seguinte, o Nomura vendeu cerca de metade da posição ao Goldman Sachs que passou a ter uma participação qualificada (mais de 2% do BES).
No dia 23 de Julho o Goldman Sachs vendeu parte da sua posição (talvez a 0,46€) ficando com menos de 2% do capital do BES (ver fonte).
A 3 de Agosto, o BES acaba, é resolvido, e o depósito da Goldman Sachs é metido no Banco Mau com o argumento de que a GS era accionista institucional.
Alguém achará razoável que uma instituição que foi accionista minoritário do BES durante uma semana,  entre os dias 15 de Julho e 23 de Julho, tenha, por isso, perdido o direito ao depósito bancário de 7252,5 milhões€?
O GS nem chegou a ter tempo para registar os seus direitos de voto quanto mais a ter responsabildiades na gestão.
Está em tribunal em Londres e tenho a certeza que alguém vai ter que pagar isto e mais coisitas.


A solução BANIF.
Se tivesse havido uma resolução, não seriam os contribuintes a perder o dinheiro mas sim os restantes bancos do sistema financeiro e obrigacionistas.
Agora, com o BCP cotado a 0,05€/acção, o Montepio esganado e a CGD nas lonas, acrescentar aos 3000 milhões do BES mas 1750 milhões € de perdas do BANIF, o sistema não seria capaz de absorver tamanhas perdas.
Por isso, não vejo que o Costa pudesse fazer algo de substancialmente diferente.

Terá o Passos Coelho culpas por ter adiado o problema?
A solução BANIF não foi invenção do Passos Coelho mas a aplicação de um modelo usado nos países com mais experiência a resgatar bancos, a Inglaterra.
Pensam os ingleses, que têm dos maiores bancos do mundo, que gerir um banco compete aos banqueiros e não ao Estado. Então, na crise de 2008, resolveram os bancos que faliram mas mantendo os accionistas antigos, com 30% do capital, a gerir o banco.


Vamos aplicar o modelo ao BES.

O Estado metia 5000 milhões € e ficava com 70% das acções. As restantes acções iriam para os accionistas privados de então, a Família Espírito Santo (com 6%), o Credit Agricole (4,4%) e os pequenos accionistas (19,6%) que continuariam a gerir o banco (dizem os ingleses que o Credit Agricole e o José Maria Ricciardi teriam conseguido melhores resultados que os conseguidos pelos Vítor Banco e pelos gestores da CGD).
O BES continuaria com essa estrutura accionista (70/30) até que os accionistas privados conseguissem comprar a posição do Estado.

Mesmo no caso do BPN deveria ter sido usado este modelo.
Bem sei que o nosso espírito latino vingativo não aceita que "quem mandou o banco à falência" continue a ter uma palavra a dizer na sua gestão. Mas, diz a evidência, é a melhor forma de reduzir os prejuízos finais.
Ninguém aceitaria que o BPN tivesse um impacto de 5000 milhões € nos contribuintes continuando a ser gerido pelos antigos donos.



Quando deveria ter sido "resolvido" o BANIF?
O BANIF estava falido desde 2008 mas continuou a operar. Se as empresas falidas fechassem todas, paravam metade das empresas, desde o Metro do Porto, à TAP passando pela MartinFer e pela Soares da Costa.
A coisa foi continuando e, enquanto não levantasse problemas, assim deveria continuar.
Acontece que Portugal está dentro de um mercado único onde não podem operar empresas que recebam subsídios do Estado. Assim sendo, as instituições europeias obrigaram a que o BANIF desaparecesse.

É uma amostra do futuro da TAP.
A TAP a tornar-se novamente pública não pode voar em rotas onde operem empresas privadas pois tal traduzirá um ataque à concorrência porque uma empresa subsidiada está a vender o seu produto abaixo do preço de custo.

Será que o Passos ter adiado da resolução fez o BANIF perder valor?
Não há nada de substancial que a administração do BANIF tenha feito nos últimos 3 anos que indique que o banco perdeu valor ou que, há 3 anos, fosse conseguido um preço maior.
O que está de tóxico no balanço (os créditos imobiliários) já lá estavam há 3 anos e a administração não realizou qualquer operação de monta.
O banco estava falido e continuou falido até que, esta semana, caiu.
Se o imobiliário tivesse recuperado, se o BES não tivesse falido, se a PT não tivesse desaparecido, se muita coisa acontecesse que não aconteceu e outra que aconteceu não tivesse acontecido, o BANIF continuaria e, talvez daqui a 20 anos, o problema se resolvesse por si.
Mas não aconteceu e foi preciso liquidar a coisa de urgência.

Também ninguém aceitaria que o Passos Coelho metesse 2000 milhões € no BANIF!
Numas coisas, dizem que foi além da troika, que fez coisas que não deveria ter feito pois estava em fim de mandato ou em gestão. Noutras coisas, já deveria ter feito e não fez.
Privatizar a TAP em gestão foi crime mas privatizar o BANIF já seria bom.
Será que os esquerdistas vão reverter a privatização dos Estaleiros Navais de Viana do Castelo?
Lembram-se como berrabam nesse tempo?



Quando o Passos Coelho se foi despedir do Costa.
O Passo Coelho disse-lhe:
- Amigo António, entrego-te estas duas cartas em respeito ao Sócrates que também me entregou duas cartas que tanto me ajudaram. Quando tiveres um problema grave, abres esta primeira carta e, quando tiveres outro problema grave, abres a segunda carta. Vê só que abri ontem a segunda carta.
- Mas o que é que dizem as cartas?
- Não sejas curioso e quando precisares delas, abre-as.
O tempo foi passando e no passado domingo, o Costa abriu a primeira carta que dizia:
"Amigo Costa, estou a ver que estás com o teu primeiro problema grave. Agora, o conselho que te dou é que ponhas as culpas para o anterior governo, põe as culpas para mim e tudo se resolverá."

Talvez amanhã o Costa tenha que abrir a segunda carta.
Se amanhã o PCP votar contra o orçamento retificativo e o Passos Coelho e o Portas cumprirem a promessa de que serão oposição à geringonça governativa, o Costa vai ter que abrir a segunda carta que diz:
"Amigo Costa, estou a ver que estás com o teu segundo problema grave. Agora, o conselho que te dou é que escrevas as tuas duas cartas!"

Cartas destas queria eu duas!
Pedro Cosme Vieira

1 comentários:

ll disse...

Boa tarde Prof.
Sigo atentamente o seu blog e, apesar de não fazer comentários, hoje abro uma excepção para lhe dizer que presta um serviço cívico no esclarecimento de matérias pertinentes a muitos de nós leigos nestes assuntos.
A comunicação social, por falta de jornalistas especializados, não consegue esclarecer devidamente os seus leitores pelo que os artigos de opinião acabam por ser meros exercícios de especulação e desinformação.
Este post sobre o BANIF é um óptimo exemplo do que quero dizer.
Queria a sua opinião sobre a solução que ocorreria a 1 de Janeiro de 2016 (bail-in), tal como escreve Luís Aguiar Conraria no Observador, em que o resgate do banco seria feito por todas as instituições bancárias europeias sem custos para os contribuintes. Porque não optou o governo da geringonça por tal solução, deixando cair os obrigacionistas seniores e os depositantes com mais de 100000 euros? Umas festas felizes e um bem haja. P.S. Só faltou a boazuda da Mary Christmas, se bem que a boazona das cartas compensou!

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