segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

O Draft do OE2016 é um embuste..

Como houve as presidenciais, os comentadores economistas ...
não tiveram tempo para pegar no draft da proposta do Orçamento de Estado 2016 que o Centeno mandou para a Comissão Europeia.(Ver aqui o draft em PDF, Dinheiro vivo).
Este draft é um embuste (estando repleta de astúcia, é usada com o intuito de enganar, ver) que vou desmontar na sua parte mais visível, o enquadramento macroeconómico.
É que, mesmo sem necessidade de olhar para as previsões para a despesa e a receita, a impossibilidade de materialização da previsão alucinada do crescimento do PIB nominal faz com que o défice lá escrito seja de 3,5%.


O Défice público, a dívida pública, o crescimento económico real e a inflação.
A dívida pública mais não é que o somar dos défices públicos dos anos passados. Assim, a igualdade seguinte é por demais evidente (uma equação às diferenças): 
   Dívida no fim em 2016 € = Dívida no fim em 2015 € + Défice em 2016 €      (1)

Como a dívida e o défice são dadas no draft como uma percentagem do PIB, teremos que fazer:

   Dívida 2015 €= PIB 2015 € * Dívida 2015 %    (2)
   Dívida 2016 €= PIB 2016 € * Dívida 2016 %    (3)
   Défice 2016 € = PIB 2016 € * Défice 2016 %   (4)


Substituindo (2, 3 e 4) na expressão (1), obtenho uma igualdade que tem que ser verificada:
   PIB 2016 € * Dívida em 2016 % 
                = PIB 2015 € * Dívida em 2015 % + PIB 2016 € * Défice em 2016 %  (5)

Agora, ainda preciso determinar o PIB 2016 € aplicando a taxa de crescimento real e a taxa de inflação, dados, ao PIB 2015 €:
   PIB 2016 €= PIB 2015 €*(1+ Cresc do PIB) * (1 + Taxa de inflação)   (6)

Penso que não há qualquer dúvida no facto de o modelo às diferenças (1-6) traduzirem a dinâmica de evolução da dívida pública.


Vamos às previsões do Centeno para 2016.
Défice 2016 % = 2,6% do PIB

Dívida pública 2016 % = 126% do PIB
Dívida pública 2015 % = 126% + 2,7%  do PIB (o 126% é irrelevante no cálculo)
Crescimento real 2016 = 2,1%
Inflação medida no PIB = 2,0%
Daqui resulta um crescimento nominal do PIB em 2016 = (1+2,1%)*(2%) - 1 = 4,14%

Mas as contas não batem certo, certo.
Aplicando as previsões do OE2016 à igualdade 5) com 6), há um erro algébrico que se traduz em o crescimento nominal do PIB implícito nas contas (a inflação e o crescimento Real) é 4,3% assumidas na conta maiores que ser apresentada uma estimativa para o crescimento do PIB 3,65% menor que o necessário para que o  défice de 2,6% se traduz numa diminuição da dívida pública em 2,6 pp.
     Crescimento 2016 %= 2,18%
     Inflação medida no PIB = 2,07%
     Crescimento Nominal do PIB € = (1+2,18%)*(2,07%) - 1 = 4,29%
Mas o gato não está aqui, são apenas 0,15 pontos percentuais a mais no crescimento do PIB.

Primeiro gato => A inflação do PIB.
Por um lado, nas contas está prevista uma inflação do PIB de 2,07% mas, por outro lado, está prevista uma inflação no consumidor de 1,4%. Está previsto que a inflação do PIB vai ser maior em 0,67 pp a inflação no consumidor.
O problema é que no período 1999-2014 a taxa de inflação no PIB, 2,260%/ano, foi praticamente igual à taxa de inflação no consumidor, 2,258%/ano.
Assim, não existe nenhuma justificação para avançar com este desvio entre a previsão para a inflação calculada no PIB e no consumidor.

Qual o significado económico da diferença entre estas duas taxas de inflação?
 A inflação no PIB tem a ver com a evolução dos preços dos bens que as nossas empresas produzem e que vendem para Portugal e para o Exterior (exportações), seja para consumo ou para investimento.
A inflação no consumidor tem a ver com os bens que uma família típica consome e que tem a ver com os bens produzidos em Portugal e no Exterior (importações).
Se a inflação no PIB é superior à inflação no consumidor, então, os bens importados têm um aumento menor que os bens produzidos em Portugal.
Supondo que os bens importados pesam 40% no cabaz do consumidor, teremos:
   Inf.PIB *0,6 + Inf.Externa*0,4 = IPC <=>  2,07%*0,6 + Inf.Externa*0,4 =1,4%

Inf.Externa = 0,57%/ano, Inf. do PIB = 2,07%/ano

No draft, a inflação do exterior é prevista como 0,57% e a dos bens produzidos em Portugal é prevista como 2,07% o que traduz que, os bens produzidos em Portugal ficarão mais caros 1,5% relativamente aos bens produzidos no exterior.

Mas isto não bate certo com a balança comercial.
O aumento do preço dos nossos bens relativamente ao exterior leva a um aumento das importações e a uma redução das exportações pelo que a previsão de melhoria da balança comercial só pode ser uma anedota.
Esse aumento dos nossos preços apenas levaria a um melhoria do saldo da balança comercial se os nossos bens, relativamente a 2015, melhorassem em qualidade, o que não vai acontecer. Então, não é possível vir-se a concretizar a previsto aumento de 4,3%  das exportações (quando, em 2015, aumentou 3,9%)!

Segundo gato => A previsão da inflação e do crescimento pelas instituições internacionais.

Como as tabelas de IRS se vão manter constantes e os salários dos funcionários públicos não vão sofrer alterações no índice (a reposição é contabilizada à parte), um aumento do PIB traduz-se num aumento muito significativo da receita fiscal sem haver aumento da despesa por causa da inflação.
A receita pública em 2014 é de 45% do PIB. Vou considerar, de forma conservadora, que o aumento do PIB nominal tem um impacto de 0,50 na redução do défice. Quer isto dizer que o aumento em 1,00€ no PIB nominal causa uma redução em 0,50€ no défice (porque não há actualização de tabelas nem de salários e quem ganha mais, paga mais IRS).
Então, este crescimento previsto no PIB de 4,29% vai facilitar a consolidação orçamental em 2,15 pp. Se o Costa diz que vai consolidar de 3,0% para 2,6%, 0,4 pp., ainda vai ter uma folga de 3070 milhões € para gastar acima do que o Passos Coelho gastou em 2015.
3070 milhões de euros é muita massa, são 300€ por cada português vivo.

Segundo gato => A previsão da inflação e do crescimento pelas instituições internacionais.
Para o crescimento real do PIB, a OCDE prevê a mesma taxa de crescimento de 2015, i.e., 1,7% (ver) o que compara com os 2,1% do Centeno.
Para a inflação, o Banco Central Europeu prevê 0,7% para a inflação de 2016 (ver) o que compara com os 2,07 do Centeno!
Juntando as previsões mais credíveis e internacionalmente aceites para o nosso crescimento nominal do PIB, teremos:
   Crescimento Nominal do PIB € = (1+1,7%)*(1+0,7%) - 1 = 2,41%
E não os 4,29% do Centeno.

É um desvio no crescimento de 1,88pp.
As contas do Centeno quanto ao crescimento estão exageradas em 1,88pp o que, aplicando o multiplicador de consolidação de 0,5, traduz que o défice está martelado em 1,88*0,5 = 0,94% PIB
São, nada mais, nada menos, que uma marretada que vale 1650 milhões €.

Apenas ajustando a previsão para o crescimento nominal do PIB, o défice passa a 3,5%.
Claro que ninguém vai aceitar um desvio de 78% entre a previsão das instituições internacionais e as previsões do Centeno.

 Nem é preciso olhar para mais nada para verificar que a coisa está muito inflacionada

3 comentários:

Abel Lisboa disse...

Eu concordo com as previsões otimistas na balança comercial serem demasiado otimistas e provavelmente erradas, mas, três pormenores:

1 - "não existe nenhuma justificação para avançar com este desvio entre a previsão para a inflação calculada no PIB e no consumidor."

Existe: o deflator do PIB ser 2% é devido ao aumento salarial que nas contas é de 2,1% (noemadamente pelo aumento do salário mínimo e efeitos de arrastamento). A inflação ao consumidor deriva, como diz, corretamente de uma média ponderada. Ora, se a inflação na Europa está próxima do zero e com a queda do preço do petróleo pode ser que as contas batam certo. Existe uma explicação, pode não gostar dela, mas existe.
É a inflação pelos custos.

2 - "Então, não é possível vir-se a concretizar a previsto aumento de 4,3% das exportações (quando, em 2015, aumentou 3,9%)!"

Não, em 2015 as exportações aumentaram 5,9%, logo a desacelaração é coerente. Menos coerente é a desacelaração das importações de 7.6 para 5.9 com a deterioração dos termos de troca.

3 - Segundo gato => A previsão da inflação e do crescimento pelas instituições internacionais.

As previsões das instituições internacionais são feitas tendo em conta que não haverá alterações na política nacional e que estarão em vigor as medidas anteriores. Contudo, desde o aumento ao SMN, a reversão dos cortes salariais (já agora se não concorda pode doar a mesma ao Estado), etc... ...ou seja com uma política de estimulo orçamental (não incorporada ainda nas previsões internacionais pois o orçamento ainda não foi aprovado) é natural haver um desalinhamento.
Mas, as previsões internacionais não são feitas num limbo de académicos. Há muita negociação política por trás das mesmas. Assim, as previsões que as instituições anunciaram são as do tempo do PPC, agora é natural que as próximas sejam diferentes...


Nota1: Repare que tenho bastantes dúvidas na parte do equílibrio externo... ... de resto até podem estar certos.

Nota2: Mas em quem acreditar? O Centeno é doutorado por Harvard, com várias publicações em revistas internacionais de renome, portanto se não perceber nada de Economia e olhando para os sinais (portanto um problema de seleção adversa) em quem tenho de acreditar?
Por outro lado chegando ao governo será que Centeno continuará a ser competente (Risco Moral)?

Jmarvao disse...

ser Doutorado em Harvard e sinonimo de competencia? Conheco varios doutorados que sao uns inuteis e incapazes fora do meio académico da "industria do paper". E ja agora a nivel ético e moral ser Doutorado em Harvard certifica alguma coisa?

Pedro Alexandre disse...

Caro professor,

Este governo de esquerda radical pelos vistos prevê um crescimento de 2,1% (antes era 2,4%) algo que ninguém prevê e algo que pelos vistos já não vai acontecer e mais tarde ou mais cedo vai chegar aos 1 e qq coisa...

Isto já para não falar do OE 2015 que começou a derrapar logo quando este governo chegou ao poder, é um pouco engraçado mas é verdade, mesmo sem fazerem muito conseguiram tal proeza!

Algo que me deixa perplexo é que ainda por cima no meio disto tudo (juntando a nacionalização do Banif) ainda vão devolver salários dos FP e parte da sobretaxa (e + impostos), isto não faz sentido, a receita está a cair e pelos vistos já não há folgas para devolver rendimentos.

Cumps

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