sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Qual o fundamento do conflito Irão - Arábia Saudita?

A violência é a mãe da nossa inteligência.

Nós humanos somos inteligentes, muito mais inteligentes do que os animais com os quais a nossa espécie co-evoluiu nas selvas e savanas da África Ocidental. Desta forma, não parece que nesse tempo longínquo existisse uma força ambiental contra a qual a nossa inteligência fosse uma vantagem comparativa. 
Mas, se não sabemos como seria a vida dos nossos antepassados, podemos olhar para as sociedades caçadoras/recoletoras que ainda vivem na Idade da Pedra, por exemplo, na ilha Papúa, para tentarmos acender uma luz sobre o passado da nossa espécie.
O que se observa é que a população é formada por clãs, grupos familiares, com entre 25 e 50 indivíduos, que distam cerca de 20 km entre si e que, ao longo do tempo, fazem e desfazem alianças com os clãs seus vizinhos. Entre os aliados existe respeito pelas zonas de caça dos outros mas, quando um clã "precisa" de invadir um território de um clã não aliado, tenta matar todas as pessoas do clã que nele vive que, muitas vezes, comem. Apesar de serem todos humanos, o simples facto de não serem aliados faz com que se tornem presas.

Dois lobos a morderem-se por um bocado de carne
Fig. 1 - Mesmos sendo irmãos, matam-se por um território de caça.

A inteligência veio juntamente com a desumanidade.
A violência, guerra, inveja, ciume que temos é o efeito secundário de sermos inteligentes. Claro que esta afirmação contém um pouco de conformismo relativamente à violência de uns humanos relativamente a outros, de vermos milhares de pessoas a morrer na Síria que, fugindo para Europa dessa mesma violência, trazem para a Europa dentro dos seus corações a semente da violência da qual fogem ...
A Paz e o respeito pelo outro, pela sua liberdade de expressão e de acção é uma construção e que, sei-o por experiência própria, anda está muito longe de, em Portugal, ser conseguida. Mesmo os meus colegas, teoricamente a nata da intelectualidade, são altamente intolerantes. 

Todos vocês que já estudaram vão-me responder a uma pequena pergunta.
Vamos supor que um dia chegava mal disposto a uma aula e era um pouco desagradáveis com um professor qualquer, dizia "Estou farto de perder o meu tempo e de gastar dinheiro com essas coisas que não têm qualquer relevância para mim."  Acha que o professor ia desvalorizar e esquecer essas palavras mais ásperas ou que, na hora de dar a nota, se iria vingar?
A vingança é um sentimento que está profundamente enraizado na nossa mente e que transportamos nos nossos genes desde há milhares e milhares de anos e do qual é muito difícil libertarmo-nos. 
Temos que lutar todos os dias para não sermos tomados pela desumanidade que herdamos nos genes.

O Irão quer o petróleo saudita!
Os sauditas vivem muito bem porque, apesar de viverem num deserto, vendem muito petróleo, 10 milhões de barris por dia. Mas, apesar de a maioria da população saudita viver junto ao mar na parte ocidental da Península Arábica, a produção desse petróleo é numa faixa estreita na parte oriental (cor de rosa mais escuro da Fig. 2), numa formação geológica partilhada com o Irão (zona cor de rosa da Fig. 2).

Mostra o golfo pérsico e a formação geológica do Jurássico onde se extrai o petróleo
Fig. 2 - Distribuição dos campos petrolíferos do Golfo Pérsico

Todo o Golfo Pérsico já pertenceu ao Irão (Império Persa).
Durante 880 anos, entre o ano 247 AC e 633 DC), a zona ocidental de onde os sauditas extraem o petróleo pertenceu ao Império Persa, territórios que perderam na expansão liderada pelo Maomé.

O Islão tem duas principais famílias.
Os Sunitas e os Shiitas. No Irão a maioria da população é Shiita (93%) e na Arábia Saudita é Sunita (85%). Acontece que na parte ocidental saudita a maioria é shiita que acusa os sauditas sunitas de os perseguir e não lhes darem as receitas do petróleo extraído no "seu" território.
A ideia do Irão é reclamar estes territórios juntando o argumento histórico dos 880 anos de pertença com a questão shiita. E para isso, promove a rebelião shiita.

Mapa onde se mostra a distribuição da população por religião
Fig. 3 - Sunitas (verde claro) e Shiitas (verde escuro) na Península Arábica e Pérsia.

Dirão que isto não faz qualquer sentido.
Mas é essa a argumentação da Rússia para justificar a ocupação da Crimeia e da parte oriental da Ucrânia. E também na Transdnistria, Abcásia e Ossétia.
E foi esta a argumentação (ou ainda mais frágil pois a ocupação era holandesa e não indonésia) para a Indonésia invadir e anexar a parte ocidental da Papúa, igual argumento foi usado pelos angolanos de Luanda para justificar a invasão da República de Cabinda. 
Com o precedente e relações de amizade, a Rússia vai apoiar essa pretensão iraniana.

Duas indianas a lutar na lama, uma por cima e outra por baixo, boas
Fig. 4 - Mas shiitas e sunitas, são todas iguais (diz o povo)

O Yémen é apenas um ensaio.
Tal como a Alemanha hitleriana experimentou na Guerra Civil Espanhola as suas técnicas de guerra rápida, também o Irão foi buscar o modelo russo e tentou a sua adaptação local no Yémen. 
O Yémen tem uma área muito menor à da Arábia Saudita mas tem mais ou menos a mesma população, 28 milhões nos quais cerca de 9 milhões são shiitas, concentrados no interior ocidental (ver, Fig. 3).
A ideia é fazer com que surja, primeiro, uma revolta interna na qual a minoria shiita toma controle de uma parte do território. Numa segunda fase, é fornecida "ajuda humanitária" sem controle que, naturalmente, inclui armas e pessoal militar não declarado. Numa terceira fase, organiza-se um referendo local e declara-se a independência. Finalmente, como o "novo país" não é militarmente viável, pede ajuda ao Irão, à Rússia e ao Hezbolá que deslocam combatentes para lá.

A "cooperação estratégica" Irão/USA no Iraque é muito perigosa
No caso de o Irão invadir a parte ocidental da Arábia Saudita, esta não tem capacidade militar para lhe fazer frente pois o Irão tem quase 80 milhões de habitantes, um forte dispositivo militar de fabrico russo e capaz de, rapidamente, atravessar os 200km de um mar calmo que separam o território iraniano da parte ocidental da Arábia Saudita.
Será que os USA têm força política para fazerem um intervenção musculada? Na Ucrânia não fizeram nada e no Iraque e na Síria estão afogados em dúvidas.

E, no entretanto, o petróleo continua a baixar.
Parece estranho que, apesar destas tnesões todas, o preço do petróleo continue a baixar.
Esta descida é motivada por a Arábia Saudita estar com produção recorde exactamente para asfixiar economicamente o Irão e a Rússia. Aqui está mais um argumento para interessar a estes dois parceiros a desestabilização da Arábia Saudita.
Como a produção está acima do consumo, o preço vai caindo à procura de um novo equilíbrio. Até Agosto de 2014 parecia que o equilíbrio seria nos 100USD/b. Depois, houve dúvida se iria estabilizar nos 50USD/b, nos 60USD/b ou nos 45USd/b. Nas últimas 24h os dados mostram uma tendência para a estabilização nos 33USD/b. 

Um gráfico do site Investing onde se vê que o preço do petroleo caiu de 100 dólares para 33 dólares
Fig. 5 - Evolução do preço do petróleo

Vamos olhar para Angola.
Tem uma produção de petróleo na ordem dos 1,8 milhões de barris por dia. 
Vendido em 2014 a 100USD/b, para um custo médio de produção de 11USD/b, a produção angolana de petróleo traduzia-se na entrada de 5000 milhões€ por mês, número que traduz quase metade do PIB angolano.
Vendido agora a 33USD/b, a entrada de divisas reduz-se para 1200 milhões€ por mês, uma queda de 75%.
Já estão a advinhar o que vai acontecer! Aqueles anos de enorme crescimento económico vão dar lugar a anos de enorme contracção da economia.
Os portugueses que estão lá a trabalhar, vão ter que retornar à sua pátria.

Imagem com duas irmãs gémeas do Gana numa pose bastante sexy. Boas
Fig. 6 - "Os p--tos são todos iguais"

E como andam as coisas do Orçamento de Estado?
O Costa anda à rasca.
Como se lembram, ainda há um mês, quando lhe perguntavam "E como é possível dar tudo a todos, reverter os cortes dos neoliberais e, mesmo assim, manter o défice público controlado" repetia como se de uma cassete se tratasse que "As contas estão feitas."
Se "As contas estavam feitas" porque será que o Orçamento de Estado está a ser continuamente adiado?

Ontem perguntei na Secção de Recursos Humanos
-D. fulaninha, já tem lá o dinheiro para transferir para a minha conta? (é que eu vou ser aumentado por causa da reversão dos cortes do Sócrates) - A D. Fulaninha tem umas pernas jeitosas (já lho disse).
-Nada Sr. Professor - há que manter o respeitinho - soubemos disso pelo Diário da República mas não houve reforço de verbas. Por este andar, a função pública vai ficar com salários em atraso.
Espero bem pois aguentar lá o Costa tem que ter uma contrapartida.

Ainda vai acontecer uma chicotada psicológica.
Como não imagino o Costa a demitir-se por, afinal, não ter contas nenhumas, vai haver uma chicotada psicológica. Daqui a unsdias, o Costa entra por lá dentro a gritar 
- Quem é que fez as contas? 
Os Centeno, Cabral e companhia levantam, a medo, o dedinho mais pequeno e logo ouvem ouvem:

Lopetegui com o dedo no ar, dirigido ao Jorge Jesus, num jogo qualquer.
Fig. 7 - Ai foste tu que fizeste as contas? Rua que já vais tarde.
 Nas contas, mais valia ter pedido ajuda ao Guterres.

Pedro Cosme Vieira

2 comentários:

Zephyrus disse...

Caro Professor.

Creio que há também uma guerra étnica. Os persas são um povo indo-europeu. Os árabes são semitas. Conheço algumas pessoas do Irão e acham-se superiores por não serem um povo semita. E não deixa de ser curioso isto. Repare, os povos indo-europeus do Médio Oriente preferem o xiismo ou o cristianismo (ninguém fala do lento desaparecimento dos cristãos ao longo do último século destas paragens do globo). Contudo há uma grande excepção, a Turquia, que tem maioria sunita.

Zephyrus disse...

Pegando na etologia.

Se eu tiver um bando de patos reais e colocar no jardim um casal de patos de outra espécie, o que sucede? Pela minha experiência, os patos-reais, que estão em maioria, vão tentar matar os outros da outra raça.

E se eu tiver gansos brancos, e gansos cinzentos? Os cinzentos preferem acasalar com as fêmeas de cor cinzenta, e vice-versa.

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