sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

A (in)eficiência dos transportes colectivos do Estado

No Porto, os STCP, e, em Lisboa, a CARRIS, são monopolistas nos transportes coletivos de passageiros.

Não sei qual é o argumento que atualmente usam para justificar um monopólio nos transportes de passageiros mas, no antigamente, no tempo do Salazar, pensava-se ser uma forma de aumentar a eficiência económica: enquanto um equipamento não tivesse uma utilização de 100%, seria ineficiente permitir que outro entrasse nesse mercado. Era a Lei do Condicionamento Industrial (decreto lei 19354 de 1931) .
Já na altura se sabia que tal teoria estava errada mas, decorridos 85 anos, já se sabe com muito mais certeza que os monopólios são apenas destruidores do progresso e da eficiência e um mal para os consumidores. 

Os autocarros são (pelo menos assim o parece) mais eficientes que os automóveis!
Isto porque um mesmo veículo pode levar até 150 pessoas, o que tem economias de escala.
Mas o que mede a eficiência de uma empresa não é o que nós pensamos ser mas sim a sua capacidade em ter baixo custo de produção do bem ou serviço a que se dedica. Se a empresa A produz uma bicicleta por 50€ e outra empresa produz uma bicicleta funcionalmente idêntica por 100€, então, a empresa A é mais eficiente que a empresa B.

Será que os dependurados também pagam bilhete?

Eu também sou produtor de transportes de passageiros.
Quando eu me movo de um lado para o outro, uso o meu automóvel que me custou, novinho em folha, 9700€ (mais ou menos). Então, o meu custo de produção é de 0,15€/km:
    Amortização =>  0,055€/km (12 anos / 200 mil km, para uma taxa de juro de 2%/ano)
    Combustível => 0,0585€/km (4,5l/100km*1,30€/l)
    Manutenção => 0,0113€/km (10% da amortização + combustível, 188€/ano)
    Seguro => 0,015€/km (250€/ano)
    IUC e outras coisitas => 0,010€/km
Custo total => 0,15€/km
Se o meu carro transportasse a lotação (4 pessoas), o custo de produção ficaria em 0,04€/km com um consumo de gasolina na ordem dos 1,2litros/100km/passageiro.

Em 99% das viagens, ando sozinho.
Como o meu carro tem 4 lugares, a "minha empresa de transportes" tem uma taxa de ocupação de 25% pelo que sou altamente ineficiente.

Se esta menina me pedisse boleia, a viagem ficaria mais eficiente. E o meu carrinho tem a bateria nova.


Pensei então nos STCP e fui ver o relatório de contas de 2014 (ver).
Um autocarro de 57 lugares novo custa 130 mil € (são os preços anunciados na comunicação social relativamente ao caso MAN / TUB - Transportes Urbanos de Braga).

O tamanho médio dos autocarros dos STCP tem 97 lugares (1) pelo que custarão 170mil€ (supondo que o preço cresce proporcionalmente à raiz quadrada do número de lugares).

       Amortização =>  0,22€/km (22 anos / 1,0 milhões km, taxa de juro de 2,5%/ano) (2)
       Combustível => 0,44€/km (40litros/100km*1,10€/l) (3)
       Manutenção => 10% da amortização + do combustível (4)
       Seguro => 10% da amortização + do combustível (4)
       Mão de obra => 0,62€/km (1,7h/h* 100km/15,6km/h/100km) (5)
       Administração => 0,21€/km (15% dos custos anteriores) (4)
   Custo total => 1,63€/km

(1) Dividindo o número de lugares.km pelos km percorridos (Relatório).
(2) Cada autocarro percorre cerca de 45500km/ano e a taxa de juro é de 3,55%/ano (Relatório) a que retiro 1,05%/ano para a taxa futura de aumento do preço dos bilhetes. Considerando 3,55%, o custo operacional aumenta para 1,66€/km.
(3) Calculei a partir das emissões de CO2 (Relatório).
(4) Percentagem usada normalmente em projetos de engenharia com material circulante
(5) Cada hora de autocarro são usadas 1,7 horas de trabalho (Relatório) e, pela referência a trabalho suplementar (Relatório), calculei o preço horário em 5,65€/h, um ordenado de 933€/mês brutos.

Havendo 97 lugares, o autocarro cheio fica por 0,02€/km por passageiro, metade do custo de meu automóvel, e o consumo de gasóleo de 0,41 litros/100km/passageiro, uma terça parte do meu consumo.


Mas fui ver os custos operacionais no Relatório e Contas dos STCP.
O problema é que os autocarros dos STCP andam vazios, com uma taxa de ocupação de 13,7% o que traduz que, num autocarro de 97 passageiros, em média, viajam 12,5 pessoas.
O custo operacional é de 0,19€/km por passageiro (Relatório) que resulta de um custo de 2,37€/km.
Custo Operacional => 2,37€/km


Será que vi bem a taxa de ocupação?
Num autocarro de 97 lugares, em média os STCP transportam 12,5 passageiros mas, perguntando às pessoas que andam nos autocarros, dirão que a ocupação é muito maior, que os autocarros andam sempre lotados.
Mas isto não passa de um erro de perceção.

É o erro do observador observado.

Vamos supor que em 10 autocarros, 1 leva 97 pessoas e 9 levam 3 o que dá uma média de 12,4 pessoas por autocarro.
Vamos agora fazer uma sondagem perguntando aos passageiros. O erro resulta de haver 97 pessoas que vão dizer que o seu autocarro levava 97 pessoas e apenas 27 a dizer que o seu autocarro levava apenas 3 pessoas.
    Média = (97*97 + 27*3)/(97+27) = 76,5 pessoas
Os passageiros diriam que, em média, viajavam 74,5 passageiros (ocupação de 78%) quando a realidade seria de 12,4 passageiros por autocarro (ocupação de 12,8%)
É também por este erro que todos nós achamos que as urgências hospitalares estão altamente congestionadas quando, de facto, não estão (só lá vamos quando a maioria das pessoas também vai).

Para onde vão os 0,75€/km do sobre-custo?
Se o normal seria ter custos operacionais de 1,63€/km e os STCP têm custos operacionais de 2,37€/km, para onde vão os 0,75€/km da diferença? 
É que são 16,3 milhões € por ano!

O custo dos STCP é de 0,19€/km por passageiro.
Por incrível que pareço, fica mais caro transportar um passageiro num autocarro dos STCP que transportar-me no meu carro, sozinhinho.
Tenho um custo de 0,15€/km contra os 0,19€/km dos STCP e o consumo de gasolina é 4,3 litros/100km quando os STCP fazem 3,3 litros / 100 km (fazendo uma equivalência entre gasóleo + gás natural e a minha gasolina).

Dá que pensar.
Ocupação de 13,7% e um sobre-custo de 16,3 milhões € por ano.
Prometo que num próximo poste foi avançar com um projecto futurista para uma rede de transportes colectivos altamente eficiente (em termos de custos de produção).

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