sexta-feira, 22 de abril de 2016

O PEC 6 e o xico-espertismo da BIAL

Vou começar pela BIAL. 
Vamos supor que o estimado leitor não tem uma inteligência nem é nenhum génio ao nível do Dr. Luís Portela (presidente da BIAL). Mesmo assim, terei lhe colocar uma questão.

Enunciado.
Há uma molécula sobre a qual vai ser feito em 6 humanos um primeiro teste clínico.
Como é o primeiro teste, terá naturalmente que haver um cuidado especial quanto à toxicidade da molécula.
1) São feitos testes médicos rigorosos aos 6 humanos e resulta que são perfeitamente saudáveis.
2) Começa o teste e os 6 humanos adoecem quase imediatamente e em simultâneo gravemente tendo um deles morrido.
3) O teste é interrompido e os 5 humanos vivos sobrantes recuperam rapidamente a sua saúde.
4) Enquanto o teste clínico foi realizado, mais ninguém no hospital sofreu sintomas parecidos com o que sofreram os 6 que realizaram o teste. Nunca na Historia da Humanidade foi descrita nenhuma doença com os sintomas observados nos 6 humanos.

O que terá causado o adoecimento dos 6 humanos? (Só uma das opções está correcta)
A - À semelhança da extinção dos dinausauros, foi a queda de um meteorito.
B - À semelhança do que aconteceu ao Alexander Litvinenko, o Putin envenenou-os com Polónio 210.
C - Foi o Passos Coelho que os esfaqueou com a adaga neo-liberal.
D - Foi o Carlos Costa que negociou isso com o BCE sem ter dado conhecimento ao Sem-teno.
E - Teve a ver com o ensaio clínico.

O Portela teve dúvidas ente A e C e acabou por responder B!
Diz que respondeu que foi o Putin mas não tem a certeza a 100%. A única coisa que tem a certeza é que não foi o Carlos Costa nem o ensaio clínico. 
Disse ele "Em termos estatísticos, morrem 57 milhões de pessoa por dia, pelo que nada podemos concluir a partir da informação de que no dia do ensaio morreram 57 milhões e uma pessoas, um aumento de 0,0000018% na mortalidade."
O Dr. Portela não tem a certeza a 100% de que a Isabel Figueiras seja uma mulher.

Agora o PEC 6.
Está bem no sentido de que a geringonça diz que o défice vai passar dos 2,2%do PIB de 2016 para 1,4% do PIB de 2017.
Está bem no sentido de isto acontecer tendo eu recebido em Abril de 2016 mais 86,25€ do que recebi em Abril de 2015 e estando previsto que venha a receber em Dezembro de 2016 mais 172,50€ do que recebi em Dezembro de 2016.
Está bem no sentido de isto acontecer com redução do horário de trabalho dos funcionários públicos para as 35h/semana.
Está bem no sentido que isso acontecer sem diminuição dos salários nem das pensões, não havendo aumento de impostos sobre as famílias nem sobre as empresas. 


O problema é que isso tudo é apenas conversa.


Esta minha semana foi muito complicada.
A minha mãe é muito doente. Além de ser diabética, fazer hemodiálise, ter cancro da mama, o cotovelo com uma ferida que resulta de uma cirurgia feita há 3 meses e que não cicatriza mais, está acamada, sofre de demência ligeira e grita de noite. Acontece que, foi hospitalizada faz hoje uma semana para que fosse investigada a razão de, ultimamente, o estado de confusão ter piorado bastante e rapidamente sem razão aparente.
Acontece que, na quarta feira, fui visita-la e estava muito pior, tinha as pernas muito inchadas, vermelhas e com derrames pretos por dentro, com feridas e estava mesmo a deitar um pouco de sangue pela boca. Fiquei muito, muito preocupado (pensei logo que ia perder a pensão).

Mas eu sou muito acanhado.
Desde pequenininho, a minha mãe até me mandava perguntar as horas às pessoas a ver se eu desenvolvia (confessou-o há uns anos).
Por isso, pensei não ser necessário perguntar nada a ninguém, que seria normal.  Mas, mesmo assim, perguntei a uma auxiliar que me pareceu nervosa "tem que perguntar ao Sr. Enfermeiro"
O que achei estranho foi eu te-la levado para o hospital com as pernas impecáveis e, passados apenas 5 dias, estarem em estado lastimoso.
Como mandei umas mensagens pelo telemóvel da minha mãe aos meus irmãos, a minha irmã do meio disse "a Mamã vai morrer esta semana porque, como está com cancro terminal, tiveram que interromper os tratamentos."
"Mas de onde retiraste esta conclusão?"
"Bem, há um relatório que diz isso a que a Tuxa teve acesso!" (a minha irmã mais velha)
Ora a minha mãe vive em minha casa já faz 23 anos, sou eu que a acompanho às consultas, o médico oncologista disse-me "não se preocupe com o cancro que estava no estadio zero (não tem acento!) que ficou resolvido com a cirurgia," como podem agora as minhas irmãs concluir que é cancro em estado terminal?


Ter filhas para quê!
Eu tinha uma empregada russa, a Marina, que um dia me disse indignada "compete às filhas tratar das mães", deu-me a chave e foi-se embora para não mais voltar.
No meu julgamento, a minha irmã do meio induziu a equipa médica em erro dizendo~lhe que a minha mãe estava com cancro terminal e que, sofrendo muito, queria morrer. Disse-me que estava na hora de "acabar com o seu sofrimento." E isto tudo porque eu lhe disse, porque ela achou que a mãe não estava a ser convenientemente tratada por mim, eu lhe disse "Em minha casa mando eu. Se queres mandar, leva a tua mãe para tua casa."
Mas lhe valia a mãe morta e enterrada.

Há frases que são piores do que adagadas neo-liberais. 
Quando eu perguntei à minha mãe "Quer fazer os tratamentos" e ela me respondeu "Claro que eu quero melhorar, quero fazer os tratamentos a menos que já não tenha dinheiro."
A vulnerabilidade de se conformar com a morte para não sobrecarregar os filhos que criou, de ter a sua vida na mão de uma filha que pariu e criou da melhor forma que pôde para, na hora da verdade, ser traída.


Por agora, o problema está resolvido mas vou fazer uma procuração.
Em Portugal as procurações são válidas até ser declarado o óbito ou a interdição ou inabilitação em consequência de anomalia psíquica (processo judicial). Pela Lei n.º 25/2012, de 16 de Julho foi criado a Procuração de cuidados de saúde que, implicitamente, é válida mesmo quando a pessoa está incapaz.
Vou então, assim que a minha mãe vier do hospital, fazer uma procuração. 

Lei n.º 25/2012, de 16 de Julho
Procurador e procuração de cuidados de saúde
  Artigo 11.º
Procurador de cuidados de saúde
1 - Qualquer pessoa pode nomear um procurador de cuidados de saúde, atribuindo-lhe poderes representativos para decidir sobre os cuidados de saúde a receber, ou a não receber, pelo outorgante, quando este se encontre incapaz de expressar a sua vontade pessoal e autonomamente. 
2 - Só podem nomear e ser nomeadas procurador de cuidados de saúde as pessoas que preencham os requisitos do artigo 4.º, com exceção dos casos previstos no número seguinte. 
3 - Não podem ser nomeados procurador de cuidados de saúde: 
a) Os funcionários do Registo previsto no artigo 1.º e os do cartório notarial que intervenham nos atos regulados pela presente lei; 
b) Os proprietários e os gestores de entidades que administram ou prestam cuidados de saúde. 
4 - Excetuam-se da alínea b) do número anterior as pessoas que tenham uma relação familiar com o outorgante. 
5 - O outorgante pode nomear um segundo procurador de cuidados de saúde, para o caso de impedimento do indicado.




  Artigo 12.º
Procuração de cuidados de saúde
1 - A procuração de cuidados de saúde é o documento pelo qual se atribui a uma pessoa, voluntariamente e de forma gratuita, poderes representativos em matéria de cuidados de saúde, para que aquela os exerça no caso de o outorgante se encontrar incapaz de expressar de forma pessoal e autónoma a sua vontade. 
2 - É aplicável, com as necessárias adaptações, o disposto nos artigos 262.º, 264.º e nos n.os 1 e 2 do artigo 265.º do Código Civil.



  Artigo 13.º
Efeitos da representação
1 - As decisões tomadas pelo procurador de cuidados de saúde, dentro dos limites dos poderes representativos que lhe competem, devem ser respeitadas pelos profissionais que prestam cuidados de saúde ao outorgante, nos termos da presente lei. 
2 - Em caso de conflito entre as disposições formuladas no documento de diretivas antecipadas de vontade e a vontade do procurador de cuidados de saúde, prevalece a vontade do outorgante expressa naquele documento.






4 comentários:

Miguel Matos disse...

A questão da BIAL é um pouco mais complexa. 198 fizeram parte do ensaio clínico, tendo 90 tomado o medicamento, 6 desenvolveram sintomas levando à morte de 1. É preciso saber-se onde se falhou: se no ensaio pré-clínico (testes de toxicologia), etc... (http://www.dn.pt/sociedade/interior/relatorio-final-morte-de-voluntario-em-ensaio-clinico-da-biotrial-deveu-se-a-molecula-testada-5133885.html)

Económico-Financeiro disse...

Pois Miguel,
Primeiro, o presidente da BIAL deveria dizer sem margem para qualquer dúvida que a morte resultou do teste clínico e, só depois, dizer que ainda não sabem o que falhou.
Vendo que morreu uma pessoa que era saudável, sendo que não lhe caiu um piano na cabeça, o presidente tem que dizer com certeza absoluta que no teste clínico alguma coisa falhou e que a responsabilidade disso é a BIAL que assume todas as consequencias do sucedido.
Só depois é que a BIAL tem a obrigação ética de identificar onde falhou mas não para se desresponsabilizar mas apenas para que nunca mais se repita esta falha.
Mais um pouco, veremos o Dr. Portela a dizer que foi culpa do morto porque "já sabia ao que ia e não avisou que era alérgico à molecula" e que, por isso, vai processar a família do defunto por danos reputacionais da empresa.

Ricardo Esteves disse...

Não concordo com o "xico-espertismo" pelas razões invocadas, porque:
1-A Bial é das poucas empresas farmaceuticas em Portugal com tecnologia para desenvolver novos medicamentos. A sua investigação é meritória.
2-A fase inicial dos ensaios humanos envolve sempre riscos imprevistos, por muito bons que tenham sido os ensaios prévios com cobaias.
3- A dificuldade de Luís Portela perante o sucedido é compreensível. A Bial tem uma responsabilidade muito grande não apenas pelo ensaio que foi realizado mas também pelos empregos qualificados que garante.
"Xico-espertismo" é outra coisa: é ganhar dinheiro fácil por golpe ou por engano dos outros, por formas desonestas.

Miguel Matos disse...

Caro Pedro,
A questão é que o ensaio clínico foi levado a cabo em França por outra empresa. A BIAL só desenvolveu o fármaco. Por isso é que era necessário esperar pelo relatório para se perceber se o problema estava no fármaco, ou então o ensaio não foi devidamente planeado (dosagem, forma de aplicação, etc), ou até mesmo se a seleção de candidatos não foi a mais correta. Quero eu dizer que há toda uma cadeia de eventos que envolvem diferentes pessoas e empresas. Não é tão linear.

p.s. não trabalho na área dos ensaios clínicos, tenho apenas seguido as notícias por eu próprio trabalhar na área das ciências da vida.

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