sexta-feira, 10 de junho de 2016

Será Trump o futuro presidente dos USA?

Toda a gente diz que o Trump é maluco. 
Por isso, a minha missão de provar que o Trump diz coisas com sentido económico e que tem fortes probabilidades de vir a ser o futuro presidente dos USA parece votada ao fracasso.
Mas não há como tentar.

Vamos ao que diz o Trump.
Diz que vai rever os termos do comercio com o exterior, sendo a China e o México os bobos da festa.
Diz ele que todos os anos os estrangeiros estão a sugar milhares de milhões de dólares aos americanos.
Será que isto faz sentido?

O comércio é bom para todos.
Os países ou regiões ao estarem abertos ao comércio ganham porque os seus agentes económicos podem-se especializar a produzir bens e serviços para os quais têm vantagens comparativas que, depois, exportam para pagar a importação dos bens e serviços que deixaram de produzir.
Por exemplo, transformamos um campo agrícola (que produzia bens agrícolas) num campo de golf que capta turistas  do Norte da Europa e, depois, importamos desses países os bens agrícolas que deixamos de produzir com ganho para ambos pois nós vamos receber do golf mais do que produzíamos e os turistas do Norte da Europa dão mais valor ao Golf que aos bens agrícolas que nos vendem em troca.

Fig. 1 - I'll fuck Chinese people, fuck, fuck, fuck them and they will even pay my time and the condom


O modelo de desenvolvimento da China baseia-se no comércio internacional.
 A China decidiu em meados de 1970 que o seu desenvolvimento passava pela exportação de bens industriais de baixa tecnologia e a importação de energia, matérias primas e bens de elevada tecnologia onde se incluiam as máquinas e ferramentas.
Naturalmente, os EUA, por serem um país com muito menos barreiras ao comérico que os países europeus, foi eleito pelo partido comunista chinês como o mercado de eleição.

O problema está na repartição do ganho do comérico.
Vamos supor que dois país, A e B, têm cada um PIB de 1T€/ano,  2T€/ano no total, e que, por causa do comércio, o PIB total vai aumentar para 3T€/ano. O problema é que tanto pode ser à custa de o país A passar a ter 1,9T€/ano e o país B passar ter 1,1T€/ano ou o simétrico.
Esta repartição do ganho tem que ser negociada entre os países sendo que apenas a ameaça de imposição ao comérico é capaz de moderar a outra parte. Por exemplo, no curto prazo não é lucrativo o país B levantar barreiras ao comércio porque o PIB diminuirá de 1,1T€/ano para 1,0T€/ano mas tem que o fazer para, no longo prazo, poder ficar 1,5T€/ano (a divisão do ganho do comérico em duas partes iguais).

É o que se passa com os países do Sul da Europa.
A Zona Euro trás ganhos para a globalidade dos países mas os países do Sul da Europa querem-se apropriar de todo esse ganho.

Vejamos os números do PIB em T€/ano
Em termos de aumento do PIB, os números do México estão semelhantes aos dos USA mas os da China são muito mais impressionantes e, nos últimos 10 anos, os ganhos absolutos da China foram maiores que os dos USA. Assim, há a necessidade de fazer pressão nos termos de troca dos USA com a China o que tem que passar, obrigatóriamente, por falar grosso e fazer ameaças credíveis. 
Nada melhor para ser credível que um louco que nada perceber do assunto. Pensarão os chineses que, como é maluco, talvez vá mesmo levantar barreiras alfandegárias às suas exportações.

                 1980     1990    2000    2010/2014      Ganho
China       0,35       0,90      2,30        4,57            + 4,22 (+ 469%)
México    0,50       0.65      0,86        1,02           + 0,52 (+ 79%)
USA         6,85       9.38    12,77      14,16           + 7,31 (+ 78%)
Quadro 1 - PIB a preços de 2005 em E12USD (dados, WB)

Fig. 2 - Se não ganhar as presidenciais, compro a Playboy Mansion West e substituio o Hefner que, com 90 anos, já não pode.

Não é fácil mas o Trump pode ganhar.
A eleição do presidente americano é indirecta no sentido que são, primeiro, eleitos Representantes de cada estado da união e, depois, os representantes elegem o "presidente da união". Por comparação com a nossa política, seria como se a Assembleia da República (cujos deputados são eleitos nos distritos) elegesse o Marcelo.
A diferença maior é que na América os representantes de cada estado são todos do partido que tiver mais vottos, nem que seja por apenas um. Isso faz com que a maioria dos estados nunca mudem de partido.
e também é por esta razão que só há 2 partidos com representantes eleitos.

Vejamos os estados fixos.
Que são os estados que nas últimas 4 eleições não mudaram de partido e que elegem cerca de 80% dos representantes. São maioritariamente a favor dos democratas, 179 para o Trump e 242 para a Clinton.

Vejamos os estados "do meio" que mudam.
Dos 10 estados que mudaram nas últimas 4 eleições, 6 estão mais ou menos fixos.
Nevada, Iowa, New Hampshire e New Mexico é muito provável que votem Clinton enquanto que Indiana e North Carolina é muito provável que votem Trump, ficando 203 para Trump e 261 para Clinton, uma diferença de 28 a favor da Clinton.

Vai ser tudo decidido em 4 estados.
Vamos esquecer o resto da América porque a eleição presidencial vai-se decidir na Florida (29 representantes) e em mais 3 estado que são  Virginia (13), Colorado (9) e Ohio (18).
Estes 4 estados deram duas votórias para cada lado nos últimos 16 anos. Já foram fundamentais nas vitórias de Bush em 2000 e 2004 e nas vitorias do Obama em 2008 e 2012.
O Trump tem que investir tudo para ganhar na Florida (que é o estado mais fácil porque o Obama ganhou lá em 2012 com uma margem de apenas 0,9 pp) e, depois, tem ainda que ganhar mais 2 estados. 
 
Não vai ser fácil o Trump ganhar mas não seria fácil para nenhum candidato republicano.
É que, em termos socio-políticos, as minorias afro-americanos e os latino-americanos são maioritariamente a favor dos democratas e, em termos de dinâmica populacional, estão em crescimento.
Até diria que o Trump é o candidato republicano perfeito porque é muito à esquerda. Recordo para os mais desatentos que o Trump foi filiado do partido democrata até 2009, sim, há apenas 7 anos era democrata, e que apenas é republicano (desde 2009 com uma interrupção em 2011 porque se esqueceu de pagar as cotas!) porque, depois da eleição do Obama em 2008 e a Clinton a vice, viu que não tinha hipoteses de em 2016 ser candidato pelos democratas.
Até há quem diga que o Trump é uma toupeira democrática mandada para facilitar a eleição da Clinton e, pelo meio, destruir mesmo os republicanos (ver que não sou eu quem o diz mas a BBC).

Fig. 3 - A parte mais dificil de ser professor é quando queremos que as notas sejam justas.


3 comentários:

Sousa Falcão disse...

Boa tarde,
gostava de saber o que acha do livro "As Consequências Económicas da Paz" de Keynes. Tanta gente diz que é uma análise fantástica do problema alemão, mas tendo em conta que era Keynes, não sei se posso acreditar cegamente. O que tem a dizer? Há algum livro bom que possa ler sobre isso (tendo em conta que não percebo muito de economia?) Gostava de entrar mais neste assunto, mas não sei o que ler.
E acerca do plano Marshall? Algum dos livro? Alguma análise? Gostava de me inteirar destes assuntos.
Cumprimentos e parabéns pelo blog!

Sousa Falcão disse...

Professor,
não sei se não se lembrou de ver o comentário anterior a este, por isso envio-lhe este novo.
Se se lembrou e simplesmente não teve disponibilidade para responder, peço desculpa o assédio!

Económico-Financeiro disse...

Olá Falcão,
Não tenho tido tempo!

Twitter Delicious Facebook Digg Stumbleupon Favorites More

 
Design by Free WordPress Themes | Bloggerized by Lasantha - Premium Blogger Themes | Best Hostgator Coupon Code