sexta-feira, 8 de julho de 2016

Sanções, défice, Brexit e transportes

OK, Portugal está em défice excessivo há muitos e muitos anos.
Mas porque será que só agora os bruxelenses se preocuparam com isso, agora que estamos quase nos 3%?
Parece que o problema está mo tratado orçamental que foi assinado em finais de 2011 pelo Estado Português e pelo PS e que só tomou efeito em 2012 já nós sob resgate.

O que diz o Tratado Orçamental.
Obriga a que (Art. 3.º) os países da Zona Euro:
A) Deve haver equilíbrio orçamental (e já não défice de 3% do PIB).
B) O défice estrutural não pode ser superior a 0,5% do PIB.

Diz ainda que haverá mecanismos para obrigar os inconseguimentos:
E) Se for constatado um desvio significativo do objetivo de médio prazo ou da respetiva trajetória de ajustamento, é automaticamente acionado um mecanismo de correção. Esse mecanismo compreende a obrigação de a Parte Contratante em causa aplicar medidas para corrigir o desvio dentro de um determinado prazo.

O problema está quando o António Costa afirma "não vamos fazer mais nada" quando está obrigado a "aplicar medidas para corrigir o desvio."

 Lembram-se das palavras do Gasparzinho "será feito o que for preciso fazer"?
Se estivesse lá a Maria Luís, talvez dizendo vamos fazer todos os possíveis", a coisa parasse.
É esta frase que falta ao António Costa. Até, no final, podia a coisa resvalar, mas era preciso pelo menos vontade falsa de fazer alguma coisa, coisa que não existe vontade.

Será que em 2015 inconseguimos apenas 0,2 pp?
Para isso tenho que calcular o défice estrutural e compara-lo com os 0,5% do tratado orçamental que veio substituir a os 3,0% do Tratado de Maastricht.


Quanto terá sido o défice estrutural de 2015?
O défice estrutural é o défice médio ao longo do ciclo económico. Assim, como nos períodos de crise a receita fiscal é menor e a despesa pública maior, quando o PIB contrai, o défice nominal pode ser maior que 0,5%, passando-se o contrário nos períodos de crescimento económico.

Primeiro.
Para calcularmos o défice estrutural começamos por calcular o défice nominal do ano para efeitos do tratado, défice nominal que se obtém retirando do défice nominal em euros as medidas extraordinárias negativas como o BANIF e somando as positivas como privatizações, a dividir pelo PIB. 
Atualmente, existem 3 números encima da mesa para o défice nominal, 2,8%, 3,03% e 3,2%. Vou dar de barato que o valor certo é a média = 3,01% do PIB.

Segundo.
Depois, temos que calcular onde estamos no ciclo económico que passa por calcularmos qual é a taxa de crescimento económico média e o cálculo da diferença para essa média.
Pegando em dados do Banco Mundial, vejo que a taxa de crescimento média (o famoso crescimento estrutural) está em ZERO.
Dito assim, ninguém acredita: a nossa taxa de crescimento económico é zero. O Costa bem pode dizer que os 1,5% de 2015 foram um crescimento débil e que vai conseguir 1,8% em 2016 mas, se conseguir os 0,8% do primeiro trimestre, já se pode dar por contente pois a média está em
ZERO VÍRGULA ZERO POR CENTO POR ANO.
 
 Fig. 1 - Evolução da taxa de crescimento do PIB, 1961-2015, Portugal (dados: Banco Mundial) indica que o futuro é sombrio.

Terceiro.

Agora, obtêm-se o défice estrutural somando ao défice nominal uma percentagem da diferença entre a taxa de crescimento do PIB do ano em estudo e a taxa média de crescimento do PIB.

Vamos então ao cálculo.
Vou considerar como percentagem 60% e usar como crescimento potencial a taxa média nos anos 2000-2015 = 0,42%/ano. Como em 2015 tivemos um crescimento de 1,5%, o défice estrutural de 2015 foi de

Défice Estrutural 2015 = 3,01% + (1,5%-0,42%)*60% =  3,66% do PIB

Tivemos 3,66% e estávamos obrigados a ter um máximo de 0,5%!
Olhando assim, o inconseguimento não foi de 0,2 décimas mas de 31,6 décimas!


Felizmente, ainda estamos sob resgate.
Se não estivéssemos sob resgate, mesmo com um crescimento ténue de 0,8% para 2016, o défice deste ano teria que ser de 0,3% do PIB e não 2,2%(como escreveu o Costa no OE) ou 2,3% (como está a pedir Bruxelas).
         Défice de 2016 = 0,5% - (0,8%-0,42%)*60% =  +0,3%
Permitirem que tenhamos 2,3% do PIB porque tem implícita uma consolidação de 1,3 p.p. entre 2015 e 2016, o que já traduz que estamos a caminho dos 0,5%.

Seria 1,3 pp muito?
Se o défice em 2010 foi de 9,4% (sem BPN) e em 2015 foi de 3,0% (sem BANIF), houve uma melhoria anual de 1,2 pp.
Por isso, passar para 2,3% em 2016 obrigaria a um esforço orçamental semelhante ao que vivemos no período 2011-2015 e não temos vista nada parecido com isso.
Se não temos visto nada parecido com isso, o défice de 2016 não vai ser nada parecido com 2,3% do PIB.

Vou agora falar um bocadinho do Reino Unido.
Todos nos querem fazer crer que o RU vai entrar num período de grande turbulência que vai levar a perdas económicas. Mas eu tenho o mau gosto de ir ver os dados e, o que melhor reflete o que as pessoas informadas pensam sobre o futuro de uma economia é a evolução da taxa de juro das obrigações do tesouro de longo prazo.

Peguei nas obrigações britânicas a 30 anos.
Nos meses janeiro-maio de 2015, a taxa de juro a 30 anos estava em 2,5%/ano e hoje, depois da "turbulência da vitória do Brexit", está em 1,6%/ano.
Uma obrigação a 30 anos que fosse transacionada a 100 libras antes do Brexit, hoje vale 130 libras!

Se 30 anos é pouco tempo, peguei nas a 50 anos!
Nos meses janeiro-maio de 2015, a taxa de juro a 50 anos estava em 2,4%/ano e hoje, depois do referendo, está nos 1,4%/ano. 
Uma obrigação a 50 anos que fosse transacionada a 100 libras antes do Brexit, hoje vale 160 libras!

Afinal ...
as pessoas que têm 1,6 milhões de milhões de libras, 1,9 milhões de milhões de euros, 1900 mil milhoes €, 1900000000000€, emprestados ao RU, têm hoje mais confiança que o RU vá pagar a sua dívida pública daqui a 30 ou 50 anos do que tinham antes do referendo ter sido pela saída.
Se calhar, isso de o RU estar muito arrependido e a caminho da desgraça é um exagero do tipo "come a sopa senão vem ai o lobo mau."

Mas, afinal, há problemas para a UE pela saída do RU.
O Rating do RU diminuiu um nível mas o da UE também!
E o maior problema é que o RU gasta anualmente 56 mil milhões USD com a NATO para a defesa da Europa continental (já que o RU não tem fronteira com a Rússia!).
Em oposição, a Alemanha gasta anualmente 38 mil milhões USD, bastante menos quando está lá encostadinha!

Se o RU decidir cortar a sua participação na NATO, os países da Europa Continental vão ter que entrar com essa massa.
Se somarmos a isso que, se o Trump ganhar, os europeus vão ter que contribuir muito mais para a NATO, estou a ver um grave problema para os do continente.


Finalmente, um bocadinho de transportes.
Em termos económicos, os transportes têm um peso muito grande no PIB, superior ao peso da agricultura.
Em Portugal, os transportes são responsáveis por 4,8% do PIB e a crescer 0,07pp/ano e a agricultura 2,35% e a descer 0,07pp/ano.
O contributo para o PIB português dos transportes é de 7500 milhões € por ano, muita massa.
Mas o problema é endereçamento, termos milhões de pessoas que querem receber encomendas de milhões de pessoas e ser preciso uma forma tecnológica de realizar esses milhões de endereçamentos.
Isso é tão importante que a Amazon está a investir dezenas de milhões de euros em desenvolvimento de  veículos e equipamentos que façam esse endereçamento de forma económica e quem está lá a trabalhar é o meu colega ZFG.

Vamos ao problema do endereçamento.
As redes de telemóveis recebem som de milhões de telemóveis (em pequenos pacotes) que endereçam para outros milhões de telemóveis. isso é conseguido pegando no nosso som, dividindo-o em pequenos pacotes com um endereço e o encaminhamento por uma rede de meios desde a nossa máquina até à máquina do destinatário e volta.

1 - Falo para o microfone que transforma o som numa corrente elétrica
2 - A corrente elétrica é digitalizada ficando uma sequência de 0s e 1s
010010101010101010101010101010101010101
3 - O código digitalizado é cortado em pacotes
010010101010    101010101010    101010101010  etc.

4 - É acrescentado o número de destino à frente
01001010101091123456    10101010101091123456    10101010101091123456  etc.
(o número de destino é condensado para ocupar menos espaço).

5 - O nosso telemóvel emite 100 pacotes por segundo que chegam à antena que tem capacidade para receber 1000 telemóveis em simultâneo (100000 pacotes/segundo).
Chegando um pacote, o torre envia-o por cabo para uma central de endereçamento, que o passa a outra central, etc. etc. até chegar à torre que vai emitir o pacote para o telemóvel de destino.

Fig. 2 - Os pacotes em que uma chamada telefónica é dividada, são reencaminhados muitas vezes entre a origem e o destino

6 - Em cada ponto de reencaminhamento chegam em simultâneo milhões de pacotes (que contêm um bocadinho de uma conversa) que são endereçados para outros pontos de reencaminhamento até que chegam ao telemóvel de destino.

7 - Finalmente, os pacotes chegam ao telemóvel de destino que lhe retira o número do endereço, recompõe a mensagem digital que, no auscultador, transforma em som.
Quando um pacote é perdido, "ouvimos" um corte no som.

Um pacote é equivalente a uma palete (ou um contentor num navio) e um cabo (onde cabem milhar de conversações em simultâneo) é equivalente a um camião (ou um navio no transporte marítimo).

A Internet funciona exactamente da mesma forma e foi a tecnologia da Internet (os pacotes com endereço e as centrais de endereçamento) que permitiram o aparecimento dos telemóveis e mesmo da TV cabo digital.

Mas vamos aos transportes de mercadorias.
Viajam milhares e milhares de camiões que têm cargas misturadas que precisam de ser reencaminhadas.
Imaginemos uma central de reencaminhamento algures no centro da Europa onde chegam 1000 camiões carregados com paletes, 33 mil paletes por hora, que precisam ser descarregadas, armazenadas algum tempo, e metidas noutra camião.
Imaginemos um armazém com um milhão de paletes num armazém com um milhão de m2, com 4 mil monta cargas as trabalhar continuamente a carregar e a descarregar camiões que chegam da auto-estrada e volta, passado uma hora para lá já com a carga recombinada. Para minimizar o tempo de paragens dos camiões, teremos um espaço congestionado em que a distância entre dois monta cargas será menor que 15 metros, haverá um camião a chegar e outro a partir a cada 3,6 segundos, dia e noite, todos os dias do ano.
Mas isto apenas será possível com camiões sem condutores e monta cargas que não passam de robots controlados por um supercomputador que otimiza todas as milhares de movimentações que acontecem ao mesmo tempo, de forma semelhante ao que acontece com os pacotes do telemóvel mas, em vez de serem metidos num cabo de fibra ótica, são metidos num camião. 
Estou a ter uma visão apocalítica de um espaço onde nenhum humano pode entrar sob risco de ser atropelado pelos robots, quase sem luz porque os monta cargas usam localização por GPS.
Estou a imaginar o Exterminador Implacável em que os monstros serão monta cargas e camiões que, de repente, ganham inteligência e começam a dominar o mundo.

Fig. 3 - As máquina vão dominar o mundo e a humanidade será escravizada sendo obrigada a enviar cada vez mais encomendas! Nesse tempo até haverá água enchida em França que vai ser bebida no Japão (vai-se chamar Perrier e terá uma garrafa verde)
 
Fig. 4 - Os robots assassinos não passarão de monta cargas sem cabine


Fig. 5 - Será uma mulher a trabalhar ou um robot? 
O importante é que faça o serviço!

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