sexta-feira, 29 de julho de 2016

You are fired

Esta é a frase que imortalizou o Trump. 

O Joe Biden, vice presidente dos USA, fez uma pequena rábula em volta da frase "You are fired" que o Trump usava no seu programa televisivo "O aprendiz." Até tentou imitar a sua voz e expressão facial.
Segundo o Biden, o pior que pode acontecer a uma pessoa é ouvir esta frase, muito mais que "A tua mulher anda-te a encornar" e que, por isso, o seu autor, o Trump, não pode representar os trabalhadores.
Esta rabula é muito importante porque traduz a seguinte questão de investigação.

H0: Quando uma pessoas arranja um emprego, no melhor do seu interesse e da sociedade, deve lá ficar até morrer.
H1: É bom para o trabalhador e para a sociedade haver flexibilidade no mercado de trabalho (i.e., facilidade em despedir).

A resposta a esta questão já deu vários Prémios Nobel da Economia mas vou-me concentrar em apenas dois, o Robert Lucas jnr (propôs que é necessário haver ajustamento entre o trabalhador e posto de trabalho) e o Guerry Becker (propôe que o conhecimento é imperfeito)
Vejamos a sua argumentação contra H0 e a favor de H1 (pela existência dos despedimentos).

Agarram-me que, se chego a presidente, os franceses não entram mais nos USA e a Califórnia vai voltar a fazer Port Wine.


Vamos assumir uma economia simples.
 A Ciência avança com recriações, modelos, da realidade que devem ser o mais simples possível para ser fácil compreendermos como a realidade funciona. Para coisas complexas, já basta a própria realidade.

Esta parte é do Lucas:
A1) A economia é um pomar onde existem muitas macieiras e muitos apanhadores de maçãs.

A2) As árvores e os apanhadores têm altura heterogénea, uns são altos e outros baixos.

A3) Um apanhador alto é mais produtivo se tiver uma árvore alta e um apanhador baixo é mais produtivo se tiver uma árvore baixa. Além disso, também é pior para o trabalhador ter uma árvore inadequada (dores de costas nos altos com árvores baixas e pescoço esticado nos baixos com árvores altas).

A4) A empresa paga de salário 90% da produtividade média sendo os restantes 10% o seu lucro.

A5) Para simplificar as contas, um bom ajustamento P(Alto, Alta) e P(Baixo, Baixa) tem produtividade 1 e um mau ajustamento P(Alto, Baixa) e P(Baixo, Alta) tem produtividade 0.
Chamemos P à produtividade.

A6) Existem 50% de cada altura pelo que é possível o ajustamento perfeito de todos os trabalhadores.

Um trabalhador alto que trabalhe numa árvore pequena produz pouco e fica com dores de costas


Nesta economia existem incentivos para o ajustamento ser perfeito.
Como, por um lado, o lucro da empresa é maior se os trabalhadores forem mais produtivos,  interessará à empresa contratar trabalhadores com uma altura adequada às suas árvores.
Como, por outro lado, a empresa só pode pagar como salário a produtividade média dos seus trabalhadores menos a margem de lucro, ao trabalhador também interessa escolher uma empresa que contrate trabalhadores ajustados à altura das árvores.
Como as alturas são medíveis e é no interesse desde o princípio que a afetação seja boa, quando alguém arranja um emprego, o mesmo será para toda a vida.

A informação imperfeita.
O pressuposto de que as alturas (e, consequentemente, a produtividade do trabalhador) é observável é uma simplificação inadequada para explicar a existência de despedimentos.  Então, é preciso estudar a implicação de relaxarmos esta restrição.

Esta parte é do Becker:
A7) A altura das árvores e dos apanhadores não é observável. Esta "relaxação" chama-se na literatura como "Informação imperfeita".

A8) Sabendo-se a produtividade do trabalhador, sabemos se o ajustamento é bem feito mas existe dificuldade, erro, na medição da produtividade individual.
Vou supor que a produtividade individual medida vem dada por:
    Bom ajustamento = P(Alto,Alta) = P(Baixo, Baixa) = 1 + erro
    Mau ajustamento = P(Alto,Baixa) = P(Baixo, Alta) = 0 + erro
   erro ~ N(0, 1), o erro de medida da produtividade tem distribuição normal com média zero e desvio padrão 1, não correlacionado entre trabalhadores e em termos temporais.

A9) A empresa paga a todos os trabalhador o mesmo salário, 0,8.

Agora vamos às contas.
Num ajustamento aleatório, a produtividade média de um individuo é 0,5 pois temos a média de 4 casos:
    Pmédio = (P(Alto, Alta) + P(Baixo, Baixa) + P(Alto, Baixa) + P(Baixo, Alta))/4
    Pmédio = (1 + N(0, 1) + 1 + N(0, 1) + 0 + N(0, 1)+ 0 + N(0, 1))/4
O que dá
    Pmédio = 0,5 + N(0, 0,5)
Se a empresa tiver muitos trabalhadores, N, ficará
    Pmédio = 0,5 + N(0, 1/N^0,5)

Quando uma empresa contrata um trabalhador, vai-lhe pagar 0,8 quando, em média, este só vai produzir 0,5. Assim, o novo trabalhador vai dar um prejuízo médio de 0,3.
Mas, sendo a produtividade medida semana após semana, por causa do concelamento estatístico dos erros, o desvio padrão vai-se reduzindo à velocidade da raiz quadrada do número de semanas.
Vamos supor que, durante 12 semanas, a produtividade de dois trabalhadores, Trab1 e Trab2, foram as seguinte:

       Trab1     Média1       Trab2     Média2
0,7 0,7 2,5 2,5
-0,3 0,2 0,1 1,3
1,2 0,5 -0,9 0,6
2,3 1,0 -0,8 0,2
2,2 1,2 -0,8 0,0
2,7 1,5 0,1 0,0
-1,2 1,1 0,2 0,1
0,8 1,1 -1,7 -0,2
2,1 1,2 -0,5 -0,2
-0,1 1,0 0 -0,2
0,3 1,0 0,3 -0,1

Olhando para as primeiras duas semanas, o trabalhador 1 parece um mau ajustamento e o trabalhador 2 um bom ajustamento mas, com o passar das semanas, vai-se começando a ver que o trabalhador 2 é ele o mau ajustamento.
Também o Trabalhador 1, nas primeiras semanas tem esforço no posto de trabalho mas, depois, adapta-se bem, acontecendo o contrário com o trabalhador 2.


You are fired.
Ao fim das 12 semanas, não há dúvida que o trabalhador 2 é um mau ajustamento pelo que terá que ser despedido. E isto será para o bem da empresa (pois este diminui o lucro da empresa) e para o bem dos restantes trabalhadores onde se inclui o Trabalhador 1 (porque, sem o trabalhador 2, a empresa fica  capaz de pagar um salário mais próximo de 1).
O trabalhador 1 vai ficar triste porque ganha 0,8 e sabe que, noutro emprego, um ajustamento aleatório só lhe permitirá um salário médio de 0,45. Mas, a prazo, será uma oportunidade para conseguir um bom ajustamento e um salário até maior que 0,8 e com menos esforço.

Afinal, o Biden não percebe nada de economia do trabalho.
Não percebe ele, não percebe a Clinton e não percebem os nossos esquerdistas porque o despedimento dos menos ajustados aumenta a produtividade e os salários e a diminuição do esforço dos trabalhadores que ficam e, a prazo, os despedidos também encontrarão um emprego onde se ajuste melhor.
Pode custar muito mas o que faz os homens não deixarem crescer a barriga e serem, portanto, mais saudáveis, é haver o risco da mulher fugir para os braços do amante. Por isso é que um homem que case com uma mulher bonita é mais saudável!


Custa ser despedido.
Custa ser despedido em Portugal porque as oportunidades são poucas.
Mas numa economia em que todas as pessoas estão sujeitas à medição da produtividade, existem muitas oportunidades para arranjar um novo emprego onde é possível um ajustamento mais próximo da perfeição.
Se eu estou no desemprego mas jogo muito à bola, chegando ao Barcelona e mostrando a minha habilidade, eles encostam logo o Messi e metem-me no lugar dele.
O problema é que no mercado de trabalho português (especialmente na função pública), o mais importante é lamber botas ao chefe e dizer sempre amém.

Evolução do ajustamento médio.
Em termos médios, um ajustamento aleatório permite uma produtividade de 0,5. Então, com tentativa e erro, o ajustamento vai, em termos médios, aproximando-se da perfeição:
  N.Empregos   Um       Dois        Três        Quatro    Cinco
  %                 50,0%    25,0%    12,5%    6,25%    3,125%
  Pmédia         0,50      0,75        0,88       0,94        0,97

Agora, apliquemos o modelo à realidade.
Por uma lado, olhando para o candidato ao emprego, vendo os seus estudos e fazendo uma entrevista, parte do ajustamento pode ser observado antes de contratar o trabalhador pelo que nunca existem ajustamentos verdadeiramente em que a produtividade é zero.
Mas, por outro lado, existem, em vez de duas alturas, milhares de postos de trabalhos diferentes e milhares de competências diferentes pelo que o ajustamento perfeito precisa de várias tentativas.


Por causa da flexibilidade do mercado de trabalho.
É que a economia dos USA é tão dinâmica, recuperando das crises muito mais rapidamente que a União europeia e tendo uma taxa de desemprego mais baixa.
Evolução da taxa de desemprego, 1T2007-2T2016, USA e UE28 desde a crise do sub-prime.


"O teu blog permitiu que a minha cunhada melhorasse muito a sua vida."
Um amigo meu do Judo (onde estou a estudar já para o exame para cinto castanho!), tem uma cunhada que tinha um minimercado. Ia todos os dias às 6 da manhã comprar verduras e peixe frescos, abria o minimercado às 8 horas e estava lá até às 8 horas da noite, seis dias por semana, um total de 84 h de trabalho por semana. Naturalmente, se ganhasse o SMN (5,00€/h), teria que receber ao fim do mês qualquer coisa próxima dos 1800€ mas nem os 300€ ganhava.
"Eu ganhei coragem, ao ler o teu blog, para a convencer a fechar o minimercado e a procurar uma outra atividade."
E a senhora assim o fez. Fechou com muito choro e ranho e foi-se inscrever no Centro de Desemprego.
Para seu espanto, e porque tinha dito que tinha experiência a tratar do pai quando esteve acamado, passados apenas alguns dias teve uma proposta de emprego num lar da 3.a idade a ganhar 505€/mês (ainda não tinha havido o aumento).

Agora, a cunhada está muito mais feliz.
Dorme descansada, trabalha apenas 40 horas por semana, e ganha mais do que quando tinha o minimercado e está numa atividade que gosta mais. Estar no minimercado a olhar para as moscas e a ver a verdura a secar sem clientes e o peixe a estragar-se estava-lhe a destruir a saúde mental.
Além disso, faz horas extraordinárias pelo que tem ganhado sempre mais do dobro do que ganhava no minimercado trabalhando menos.
Talvez por o Trump, no meio de tanta asneirada, dizer coisas com sentido é que, nas sondagens, tendo uma desvantagem de mais de 10 pontos no princípio de Abril, está agora taco a taco com a Clinton.



Sondagens americanas, 1/Jan/2016 até 27/Jul/2016 (realpolitics)


Maria Clara

0 comentários:

Twitter Delicious Facebook Digg Stumbleupon Favorites More

 
Design by Free WordPress Themes | Bloggerized by Lasantha - Premium Blogger Themes | Best Hostgator Coupon Code