quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Os prejudicados com a globalização

OK, já mostrei que o comércio é positivo. 
Num modelo com 2 setores (pão e salsichas) mostrei os ganhos da especialização no sector em que a região/país tem vantagens comparativas. Agora, vou mostrar porque nem toda a gente é a favor do comércio, isto é, da globalização apresentando um exemplo ilustrativo.

Vamos a Bissau, onde a banana é rainha.
Bissau é hoje uma cidade com 450 mil habitantes, mais do dobro da população da Cidade do Porto (200 mil) e quase a de Lisboa (500 mil). E pensar que em 1970 Bissau tinha 70 mil habitantes e o Porto 300 mil habitantes.
Vou supor que cada bissauano consume 200kg de banana por ano, 0,5kg/dia, ao preço de 0,50€/kg (90 mil ton/ano). 
Vou supor que, se o preço P aumentar, a quantidade consumida diminui segunda a reta:
       Consumo = 90 - 145*(P - 0,5)

Vou supor que custo de produção da banana é 0,20€/kg.
Vou supor que a produtividade é de 12,73 ton/ha/ano.
Vou supor que 10% do território á adequado para a produção de banana.
Vou supor que o custo de transporte é 0,01€/kg/km, CT.
(São apenas números razoáveis para calibrar o modelo)

Talvez por causa da pobreza, trajos carnavalescos em Bissau são reduzidos ao mínimo.


Vamos ao equilíbrio de mercado.
A 0,50€/kg, apenas as pessoas a menos de (0,50-0,20)/0,01 =  30 km é que irão produzir banana, uma área total de 706km2 onde se vão produzir as 90 mil toneladas, 706*100*10%*12,73/1000, consumidas todos os anos. Para um preço genérico P, a produção será dada pela curva ascendente:
   Produção = (pi()*((P-0,20)/CT)^2/4)*100*10%*12,5/1000

O equilíbrio de mercado será conseguido com o preço que iguala a produção ao consumo
   Produção = Consumo

Para um custo de transporte de 0,01€/km/km, o equilíbrio é P = 0,50€/kg e Quantidade = 90 mil ton, produzidas num raio de 30 km de Bissau.
O número de agricultores é 7070 (1ha cada).

Qual o lucro de um agricultor?
Sendo o preço de 0,50€ em Bissau, quem morar a 10km, conseguirá vender as bananas à porta do seu terreno a 0,50 - 0,01*10 = 0,40€/kg pelo que, para um custo de produção de 0,20€/kg, terá um lucro de 0,20€/kg
Quem morar a 27km de Bissau já só terá um lucro de 0,50-0,01*27 -0,20 = 0,03€/kg.
E quem morar a 30km (ou mais) terá lucro zero.

Agora, vou diminuir os custos de transporte para metade.
Vou imaginar que foram abertas estradas ou oferecidos camiões todo-o-terreno que facilitam os transportes de forma a que passam a custar 0,005€/kg/km.
Agora, o equilíbrio de mercado vai resolver a equação seguinte
    (pi()*((0,50-P)/0,005)^2/4)*100*10%*12,5/1000 = 200 - 300*(P - 0,5)

Com a redução para metade do custo de transportes, o preço da banana em Bissau diminuirá para 0,365€/kg e o consumo (e a produção) aumentarão para 110 mil ton.
O número de agricultores aumentará de 

Mais pessoas irão produzir.
Apesar de o preço ser mais barato, haverá mais produção porque os agricultores mais distantes já poderão produzir. Se antes a partir dos 30km não era rentável produzir, agora, essa distancia aumenta para os 33km
      ((0,365-0,20)/0,005) = 33,1 km
Passar de 30km para 33,1km faz com que o número de agricultores aumente de 7070 para 8600.

Qual o lucro de um agricultor na nova situação?
Sendo o preço de 0,365€ em Bissau, os agricultores mais próximos vão ficar pior.
A 10km de Bissau, 0,365 - 0,005*10 - 0,20€, terá um lucro diminuído para 0,12€/kg
A 27km de Bissau, 0,365 - 0,005*27 - 0,20€, terá um lucro igual (de 0,03€/kg)
A 30km de Bissau, 0,365 - 0,005*30 - 0,20€, terá um lucro aumentado para 0,02€/kg


Como vamos resolver o problema dos mais próximos?
Com a diminuição do custo do transporte, as pessoas de Bissau melhoram  porque o preço da banana diminui em 33% e os agricultores mais distantes também porque passam a ter acesso ao mercado de Bissau.
O problema é que os agricultores que moram a menos de 27km de Bissau ficam em pior situação.
Temos, por um lado, 450 mil bissauanos + 28750 agricultores que melhoram e, por outro lado,  temos 57250 agricultores que pioram (supondo, 1 agricultor por ha).

Qual é o problema?
É que  os 57250 agricultores vão bloquear as estradas de acesso a Bissau.
Assim que começarem a ver passar os camiões de longe, cortam as estradas, incendeiam os camiões e matam os motoristas.

O progresso é difícil de entrar.
Eu coloquei-me em Bissau porque os estimados leitores aceitam com maior naturalidade que isto aconteça num país atrasado como é a Guiné Bissau.
Antes da independência era atrasado e, desde então, tem-se mantido atrasado.
Bem sei que o desenvolvimento não tem um caminho fácil, que não depende tanto das pessoas de lá como pensamos pois esses países têm falta de capital, seja físico, seja humano.
Quando dizemos "são países mal governados" estamos a esquecer que o saber-se governar está dependente do "saber fazer" e isso é capital humano não só de quem governa mas principalmente de quem os escolhe.

Mas vamos ao que interessa.
O que eu queria mostrar eram as razões dos nossos agricultores quererem proibir o leite da Galiza, a carne da França ou as maçãs de Marrocos de entrar nos nossos supermercados.
Sempre que alguém quer proibir o comércio, isto é, o avanço da globalização, está a defender os seus interesses à custa dos consumidores e dos produtores que vivem mais longe.
E os custos de transporte também podem ser entendidos como a dificuldade na difusão de novas descobertas. Aqui, os que usam a tecnologia atual vão criar barreiras para que nova tecnologia possa entrar.

Vou fazer uma pequena pergunta.
Quando, em 1961, apareceu a nossa primeira auto-estrada, a velocidade máxima permitida era de 120km/h. O argumento para haver limite era a segurança (ou a falta dela).
Decorridos 55 anos, com os carros muitas vezes mais seguros, o limite de velocidade mantém-se o mesmo.
Não seria já tempo de aumentar o limite para os 160km/h?
Se comparar a segurança de um carro de hoje com um carro de 1960, penso que ainda fica mais seguro conduzir hoje a 160km/h do que era conduzir a 120 em 1960.


O carro típico de 1960
Mas são as barreiras ao progresso.
Lembram-se da ponte aérea Porto-Lisboa e Vigo-Lisboa? Então já ninguém fala disso?

Também termos os incêndios.
Os incêndios têm que se combater com contra-fogo, não é com umas mangueiritas a regar os matos.

É a Lei de Talião.
Apesar de, pensando no Trump, a imprensa interpretar muito mal esta lei concentrando-se no "olho por olho", de facto a Lei de Talião é exatamente ao contrário: a reação deve ser proporcional à ação.
Se alguém me chama FDP e não lhe posso dar um murro tendo antes que lhe chamar outros nomes.
 Se alguém me buzina e não lhe posso passar com o carro por cima mas antes dar também umas buzinadelas.
Se alguém me assalta a casa eu não lhe posso espetar um tiro de caçadeira na cabeça.
Também no fogo, eu não o posso combater com água.

 Mas, se querem continuar a brincar com a mangueirinha, força nisso.

 Por falar no Trump.
Por agora, as sondagens indicam que a coisa está a correr mal para os seus lados. Neste momento está 8,5 pontos abaixo da Clinton.

Média móvel das sondagens para as presidenciais americanas (dados)

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