terça-feira, 23 de agosto de 2016

Porque será que Moçambique está a afundar?

Moçambique é um país muito pobre. 

E sempre assim foi, pelo menos desde há 70 mil anos, (i.e., desde que existe humanidade).
Se voltarmos aos meados do século XX quando a nossa natalidade era elevada, nem os portugueses mais pobres procuravam as terras moçambicanas como forma de fugir da miséria, preferiam o Brasil e, depois, a França. Em 1974 veio a independência, e a coisa só piorou quando os brancos com a 4.a classe foram substituídos pela oligarquia dos antigos combatentes da Frelimo analfabetos que, dada a sua baixa formação em tudo mas principalmente em economia, causaram grandes perdas no nível de vida das populações moçambicanas ao acreditarem que era possível "construir a sociedade sem classes".
Naturalmente, muitas desculpas foram apresentadas para que, nos 10 anos após a independência, o PIB per capita moçambicano tivesse caído mais de 50%. Se em 1974 já era uma miséria, em 1985 a coisa estava reduzida a metade.


Quadro 1 - PIB per capita de Moçambique, 1970:2015

Vão-me perguntar como arranjei os valores para 1970 e 1975!
Peguei nos valores de Ivan Kushnir (2011) que vi Crescêncio Francisco Guiamba (2013) e, comparando com os dados do Banco Mundial para 1980:1990, dividi por 2,001 que é a relação média verificada nos anos em que há sobreposição das séries, e voilá (ver).
O Kushnir (2011) é mais pessimista e refere uma perda de 55% entre 1974 e 1989 (ver, Quadro 2 abaixo) 

Mas isso foi um problema dos moçambicanos.
Não estou a defender, nunca defendi nem nunca defenderei que a descolonização de Moçambique foi um erro e que Portugal seria hoje uma grande potência mundial, com 20 ou 30 medalhas de ouro olímpicas, se se mantivesse unido.
Mesmo que fosse possível manter-se este país como nossa colónia (o que não era por questões legais, militares, económicas e demográficas), seria impossível manter numa mesma democracia um Portugal europeu com 10 milhões de habitantes com um nível razoável de rendimento e 30 milhões num Portugal moçambicano na maior das misérias. Se a Madeira nos dá um terrível prejuízo ...
Portugal Europeu era um barco condenado a ir ao fundo se não cortasse o cabo que o ligava a uma âncora com o triplo do seu peso. Às vezes imagino que, nesse Portugal imperial, o primeiro presidente eleito teria sido o Samora (pois Moçambique tinha mais eleitores do que Portugal europeu).
Por isso, isto que estou aqui a escrever é apenas para tentar dar um pequeno contributo para a melhoria da compreensão da situação dos moçambicanos já que sei que os intelectuais de lá se concentram mais em dizer mal de mim do que a dizer mal da oligarquia que os desgoverna (sim, constou-me que o Mia Couto gastou tempo a dizer mal de mim).

"Os problemas de Moçambique resultam totalmente de haver um professor racista em Portugal" disse o Mia.

Agora, a economia moçambicana está em fusão.
A moeda, o Novo Metical, está a desvalorizar rapidamente o que tem impacto negativo na vida das pessoas comuns via preço das importações. Quem tem os rendimentos em MZN, vê a sua vida andar para trás pois os bens importados aumentam de preço mas quem tem rendimentos em USD fica na mesma (até melhora um pouco pois os bens internos tornam-se mais baratos).

O Novo Metical está a desvaloriza 12,34%/ano face ao USD

A inflação moçambicana já ultrapassou os 20%/ano

Será que os problemas de hoje se devem à colonização (ou à falta dela)?
Quando Portugal decidiu em meados do Séc XIX (depois da independência do Brasil), colonizar territórios em África, não estava a pensar em criar países desenvolvidos mas sim em sugar esses territórios o mais que pudesse. Mas, no dia da independência, Moçambique não estava pior que em meados do Séc. XIX e, comparando as zonas mais intensamente colonizadas (litoral) com as onde praticamente não houve colonização (o interior), as primeiras não estavam pior que as segundas.
O problema esteve nos últimos 40 anos.
Em 1975 a China estava com um PIB per capita de 267USD, a Índia com 391USD e Moçambique com 142USD. Hoje a China está nos 6500USD, a Índia nos 1900USD e Moçambique nos 510USD
Será que se descobriu petróleo, gás natural ou algo caiu do Céu na China ou na Índia que tenha feito com que, de mais pobres, se tenham tornado muito mais ricos que Moçambique?


Evolução do PIB pc de Moçambique, Índia e China relativamente a 1974 
(Dados, WB e adaptados de Kushnir, 2011, em Guiamba, 2013).

Porque será que Novo Metical está a desvalorizar tanto?
É aqui que eu quero chegar.
Em termos económicos, a razão de ser é o enorme défice das contas com o exterior que se agregam na Balança Corrente, problema nascido na barriga da perna do Aires Ali, amamentado no peito do pé do Vaquinha e que, agora, rebentou nas mãos do Rosário que não sabe o que lhe há-de fazer.
Aires Ali + Vaquinha foram o Sócrates e, agora, o Rosário tem que ser o Passos Coelho.
E não estou a ver o Rosário a ser capaz de fazer de Passos Coelho, o mais provável é que vá pelo caminho mais fácil de inventar uma guerra qualquer e dizer que a culpa é da Renamo (falar dos Sul Africanos já não deve dar resultado, mas nunca há como tentar a ver se cola).

 Evolução da Balança Corrente de Moçambique
  
Um défice de 1500 milhões USD por trimestre é muito dinheiro.
Em Portugal seria pouco, no tempo de agonia do Sócrates, chegou aos 7 mil milhões USD mas para Moçambique, é "apenas" 40% do PIB o que traduz que a cada dólar de riqueza criada corresponde um consumo de 1,4 euros.
Como esse défice tem que ser financiado e não há como (a divida soberana em dólares está a exigir juros na casa dos 20%/ano), agora o nível de vida dos moçambicanos vai sofre um ajustamento violento em baixa.
Em Portugal foi preciso ajustar 10% e Moçambique precisa de ajustar 40%!

Evolução das reservas cambiais do Banco de Moçambique

Como não entram divisas emprestadas para financiar o défice com o exterior, as reservas cambias começam a reduzir e isso tem um impacto na evolução da cotação do metical porque o BC tem uma regra de condução da taxa de câmbio

Variação = k * (Reservas observadas - Reservas objetivo)

Se o objetivo é, por exemplo, 3000 M USD, quando as reservas estão acima deste valor o Metical valoriza e quando estão abaixo, desvalorizam cada vez mais depressa na tentativa de não acontecer o fim da convertibilidade.


A ignorância e a repressão são a mãe de todas as pobrezas.
Imaginem um país governado pela Catarina Martins, o Jerónimo de Sousa e o António Costa, assessorados pelos 12 sábios 
Elisa Ferreira, 
Fernando Rocha Andrade, 
Francisca Guedes de Oliveira, 
João Galamba, 
João Leão,  
João Nuno Mendes,  
José Vieira da Silva, 
Manuel Caldeira Cabral, 
Mário Centeno, 
Paulo Trigo Pereira, 
Sérgio Ávila e 
Vítor Escária 
e ainda com o apoio intelectual do Professor Doutor Louçã, eminente professor de economia numa universidade europeia.
Imaginem ainda que nesse país, alguém que diga que não há em lado algum evidência de que o aumento do défice público possa ser o motor do crescimento económico é perseguido pela polícia e leva com um processo disciplinar em cima porque destrói prestigio. 

Se as ideias dos esquerdistas fossem fortes, não teriam medo do contraditório.
Vamos imaginar que os esquerdistas, sejam moçambicanos ou portugueses, estavam certos de que a solução para todos os problemas era gastar mais e bater o pé às instituições internacionais. 
Se assim fosse, não teriam qualquer receio de que alguém dissesse o contrário pois, em resultado das novas políticas anti-austeridade, logo os factos demonstrariam, como elevadas taxas de crescimento, da justeza das políticas esquerdistas.

Se não há espaço para a contestação ...
Os esquerdistas não tendo contestação, conseguem convencer as pessoas que não têm formação na área da economia de coisas sem sentido. Não quero dizer que as suas intenções sejam más mas apenas que não sabem como fazer as coisas bem. 

Lembram-se do raciocínio dos 12 sábios do PS? 
Salários mais elevados => Mais consumo => Mais procura => Mais produção => Mais receita fiscal => Menos défice?
Lembram-se que quem dizia o contrário era apelidado de ignorante, anti-patriota, destruidor do prestígio da instituição onde trabalhava e neoliberal que queria sugar a classe trabalhadora?
Lembram-se que este raciocínio, falso, passou a ser uma verdade inquestionável, como que revelada por Deus? Diziam mesmo as minhas crianças "Mas é o Sr. Professor Doutor Louçã que o afirma e o reitor iminente" (de que já ninguém se lembra! Já sei, era o Nódoa! Que é que esse iminente reitor tem a dizer sobre a nossa economia estagnada que ele dizia ser causada pelo neoliberal Passos Coelho? Lembrei-me que ele é professor primário sabe-se lá como).

Se houver espaço para contestar ...
Se a comunicação social apresentar os argumentos da oposição, por um lado, quem manda terá que ter mais cuidado com o que diz e, por outro lado, tendo a oposição ideias fortes, acabarão por convencer os eleitores quando quem manda estiver errado, evitando o abismo.
Vejamos a Venezuela onde o chavismo é o grande exemplo de democracia para o nosso Bloco de Esquerda e onde o funcionário público que tenha metido o nome no pedido de referendo de destituição do motorista de autocarro foi despedido.
Vejamos também o Trump que, olhando para a comunicação social americana, o presidente Obama e todas as pessoas que têm mais de 1 neurónio na cabeça, dizem que o Trump é a encarnação do Diabo na figura de um touro enraivecido e a Clinton é a Virgem Maria que voltou à Terra.
Mas o homem tem a possibilidade de apresentar as suas ideias. No final, como só pode ganhar um, pode ser que perca ou ganhe mas está lá para dizer o que pensa.

Eu gostava que o Trump ganhasse.
Pois não gostei de ver o Obama, à moda de um país do terceiro mundo, a fazer campanha eleitoral pela seu indicado, numa visita de estado. Parecia os déspotas que indicam quem os deve suceder e, todos os outros, são indignos. Penso que deve ser por ser filho de queniano!
Está a recuperar nas sondagens mas está difícil.

O que pode agora fazer Moçambique.
Não é fácil fugir ao embate que ai vem por causa da necessidade de corrigir as contas externas, uma austeridade violenta apoiada com a ajuda do FMI, talvez um período de ajustamento de 2 anos, com um "empréstimo" de 6 mil milhões USD para que a queda não seja muito violenta.
E nesse período cai ter que seguir à risca e com convicção o que o FMI e o Banco Mundial aconselhar.
Há que aceitar que o caminho passa pela liberalização da economia.

E deixar de querer matar o Dlakama.
Bem sei que o Dlakama matou muita gente, ainda me lembro daquelas razias no comboio que liga Maputo à Africa do Sul. À escala ocidental, o homem é um criminoso de enorme dimensão mas também depois da Segunda Guerra Mundial muitos cirminosos foram reabilitados.
Deixem lá o homem em paz e concentrem-se em construir a paz e a prosperidade.

Temos que deixar de ser invejosos.
Custa muito ver outros a correr mais do que nós mas faz parte da natureza humana.
Também custa ver pessoas terem mais sucesso económico do que nós mas essas pessoas são a chave do desenvolvimento económico.
Há que aceitar que quem investe à procura do lucro é positivo para a sociedade e que deve ser acarinhado.
Há que aceitar que quem cria postos de trabalho, além do lucro, é um benfeitor do colectivo.

Mas estou pessimistas.
Se em Portugal, tantas e tantas pessoas acreditam em ilusões, quanto mais em Moçambique, onde a escolaridade média está nos 2 anos.
Vejo na minha bola de cristal um Moçambique pobre e subdesenvolvido muitos e muitos anos para o futuro.
Moçambique foi, é e ainda será pobre por muito muitos e muitos anos.

Uma pequena nota estatística sobre as medalhas olímpicas.
Não foram um bom resultado porque a Rússia estava muito desfalcada. Mas também é difícil, muito muito difícil, ser um dos 3 melhores do mundo.
Vou então agregar as medalhas dos últimos 40 anos num número e ver como se compara 2016 com as estatísticas. No cálculo dos pontos atribui 3^2 ao ouro, 3^1 à prata e 3^0 ao bronze (a análise não se altera se alterarmos a base).

  Ano Medalhas Pontos
  1976 0+2+0 = 6
  1980 0+0+0 = 0
  1984 1+0+2 = 11
  1988 1+0+0 = 9
  1992 0+0+0 = 0
  1996 1+0+1 = 10
  2000 0+0+2 = 2
  2004 0+2+2 = 8
  2008 1+1+0 = 12
  2012 0+1+0 = 3
  2016 0+0+1 = 1
Média de 5,64 pontos com desvio padrão de 4,59 pontos.

Então, obter 1 ponto em 2016 não é muito fora do aceitável, estando no limite inferior do intervalo central (5,64-4,59).
E, se há a borla dos russos, também há o problema da diminuição da natalidade (hoje há menos por onde escolher do que havia nos anos 1980).
Agora só temos que esperar que, para 2020, venham outros Obikwelu da Nigéria e Nelson Évora de Cabo Verde ou mulheres de fibra (e de bigode) como a Vanessa Fernandes ou a Rosa Mota.
Amigo Venceslau, vê lá se convences a Vanessa a ir a Tóquio buscar uma medalhita.


Vanessinha, já sabías que, se fosse um concurso de beleza, nunca trarias a medalhita.


Boa sorte Rafael.

Quadro 2 - Serie adaptada de Kushnir (2011) e Banco Mundial para o PIB per capita moçambicano 1970:2015 em USD de 2011


 Ano Kushnir(2011) WB Série
 1970 317 158
 1971 352 175
 1972 385 192
 1973 445 222
 1974 454 226
 1975 452 225
 1976 403 201
 1977 401 200
 1978 408 203
 1979 414 206
 1980 395 189 189
 1981 378 194 194
 1982 385 176 176
 1983 346 146 146
 1984 386 134 134
 1985 360 134 134
 1986 374 130 130
 1987 217 150 150
 1988 187 162 162
 1989 202 172 172
 1990 221 171 171
 1991 175 175
 1992 160 160
 1993 168 168
 1994 171 171
 1995 169 169
 1996 208 208
 1997 224 224
 1998 244 244
 1999 256 256
 2000 254 254
 2001 278 278
 2002 294 294
 2003 304 304
 2004 318 318
 2005 336 336
 2006 359 359
 2007 374 374
 2008 389 389
 2009 402 402
 2010 418 418
 2011 435 435
 2012 453 453
 2013 472 472
 2014 493 493
 2015 510 510

0 comentários:

Twitter Delicious Facebook Digg Stumbleupon Favorites More

 
Design by Free WordPress Themes | Bloggerized by Lasantha - Premium Blogger Themes | Best Hostgator Coupon Code