sexta-feira, 7 de abril de 2017

O processo

Tenho que dizer alguma coisa sobre o meu processo.
Mas não o vou fazer porque me sinto cheio de raiva, de sentimento de injustiça ou pensando que, com isto, vou desmascarar seja quem for. 
É que, enquanto individuo, não penso ter sofrido qualquer dano, antes pelo contrário (como demonstrarei).
Faço-o apenas porque outras pessoas sofrem todos os dias o mesmo e não conseguem ter a liberdade de espírito para tomar a vacina de forma a deixar a forças malignas trabalhar à vontade.

De que terei sido acusado?
Um dia recebi um email de um advogado dizendo que eu escrevi neste blogg barbaridades em meu nome e da faculdade de economia do porto.
Vi logo que já estava condenado fosse do que fosse porque nunca jamais escrevi nada em nome de quem quer que fosse pois nunca fui para isso mandatado.
Bem, minto porque já escrevi "livros de termos" com as notas dos meus alunos, mas foi a única coisa que já fiz em nome dos meus patrões.
além do mais, desde o outro processo que sofri há 10 anos, condenado com o mesmo argumento, faço o mínimo possível em nome da minha entidade patronal (i.e., trabalho o mínimo possível), tendencialmente, zero.

Os escritos foram à comissão de ética.
Estes, tal qual o santo ofício, declararam que eu causava desprestigio à instituição.
Não cometi nenhum crime punido com 3 anos de cadeia (como prevê a Lei para coisas feitas fora do trabalho) mas apenas, o santo ofício, disse, cometeu um pecado que nos diminuiu o prestigio.
Isto sem nenhum perito em prestígio nem nenhuma fundamentação quanto à minha obrigação enquanto trabalhador de uma instituição de manter o seu prestígio.
Eu até perguntei a uma pessoa "E se eu andar nu num centro comercial, será que a comissão de ética se vai pronunciar"?
Pelos vistos sim, se for eu.

A pena disciplinar é o próprio processo.
O processo disciplinar é uma espécie de rede de aranha em que o visado, o inseto, se debate até perder as suas forças. Quanto, por um lado, mais injusto e estúpido for o processo e, por outro lado, mais forte for o inseto, mais se vai debater e maior vai ser o dano que vai sofrer.
É que, por um lado, quem acusa é pago à hora com dinheiros públicos tendo, por isso, um incentivo a distrair-se a inventar coisas para o seu patrão que quer o inseto condenado. Por outro lado, o inseto tem que pagar do seu bolso a defesa.
Assim, porque já sei como isto funciona, recusei-me sempre a receber qualquer carta ou a consultar qualquer peça processual.
Assim, não sei do que sou acusado, nem nunca o saberia pois seria qualquer coisa como "violação do dever de zelo" nem quero saber.
Se, por acaso, alguém o quiser saber, terá que o pedir a alguém, talvez ao reitor da universidade do porto.

O que será o dever de zelo?
Lá existe uma definição "O dever de zelo consiste em conhecer e aplicar as normas legais e regulamentares e as ordens e instruções dos superiores hierárquicos, bem como exercer as funções de acordo com os objectivos que tenham sido fixados e utilizando as competências que tenham sido consideradas adequadas."
Mas nunca ninguém diz quais são as normas legais e regulamentares, diz que ordens e instruções dos superiores hierárquicos foram violadas, apresentam os objetivos fixados e em que medida as funções se desviaram deles.
Fica lá apenas escrito "violou o dever de zelo"
Não será exatamente isto que vemos quando Joshef K. à sua afirmação "Estou inocente" ouve o acusador perguntar "Mas está inocente de quê?"
Como pode alguém dizer que está inocente de ter violado o dever de zelo se nunca lhe é dito o que é que violou?

No final, tive 30 dias de férias.
Estes 30 dias devem-me custar 1500€. Claro que eu ganho 3760€/mês mas, como não pago IRS e outros descontos, em termos líquidos vai ficar nos 1500€ de prejuízo (sim, eu estou no escalão mais elevado do IRS e ainda pago sobre-taxa).
Mas não dei 21 horas de aulas que correspondem a 10% do meu trabalho letivo anual.
Por isso, deixei de trabalhar 10% do meu tempo e cortaram-me 5% do meu rendimento.
Acho que foi um bom negócio, só tenho pena que não seja assim todos os semestres: depois de uma semanita de aulas, 30 dias de férias.
Se quiserem assim, assino logo por baixo.

Venham mais destas.
Não penso fazer lógica nenhuma uma pena como a que eu sofri. 
Se fizesse lógica, eu faltar ao trabalho seria positivamente visto pela minha entidade patronal (com o correspondente não pagamento) mas não, metem-me logo outro processo disciplinar.
Por isso, o processo disciplinar não passa de espírito de porco em que se tem que fazer o que se imagina que o inseto não quer que se faça.
Por isso, a pena que vamos sofrer é o próprio processo, vermo-nos acusados de nada, com a condenação mais do que certa por causa de coisas que não fazem qualquer sentido.

Quanto a mim, já estou imune a palhaçadas.

O meu conselho para todos os perseguidos.
Mentalizem-se que, façam o que fizerem, já estão condenados. Por isso, não façam nada.
Não recebam cartas, intimações nem leiam nada que diga respeito ao vosso processo.
Eu, já faz 10 anos, que não vou levantar o meu correio ao cacifo. Até já ninhos de rato lá deve haver.

Depois, metalizem-se que ter um processo é bom.
Esta aprendi com um amigo meu italiano.
É bom sinal não gostarem de nós no emprego porque isso traduz que o nosso salário está acima do valor das coisas que produzimos.
Quanto menos gostarem de nós, mais nos quiserem ver pelas costas, mais felizes devemos estar porque mais ganhamos acima das nossas possibilidades.
Mau sinal é quando gostam muito de nós: estamos a ser explorados.

Outra coisa é que, depois, temos mais um argumento para não fazermos nada: "Não vale a pena esforçar-me porque, faça eu o que fizer, já sei que não vão gostar de mim, eu sou um coitado de um perseguido".

Cumprimentem sempre os algozes e façam de conta que são uns desgraçados tontos.
Seja forte e faça-se fraco.
Seja inteligente e faça-se burro.
Odeie e faça-se amigo.
Troque-lhes as voltas que os coitados até vão começar a dizer, por vergonha, de terem feito tamanha maldade a um desgraçado imbecil "Não fui eu que fiz o processo, foi o reitor."

Tomem a vacina contra processos.
Deixem fluir, chato é ter dores de reumático mas até isso se ataca com umas pastilhas de Naproxeno.
Deixem fluir essas energias negativas, conversar muito e trabalhar pouco, pegar num lápis e dizer que vai fumar e, se mesmo assim a coisa não funcionar, vão ao médico de família e peçam 15 dias de baixa médica porque "Não consigo dormir e tenho ataques de pânico e já não consigo levantar o abono de família."

Por falar nisso.
Estou com tensão arterial alta e os meus dentes estão a caminhar para a frente o que, diz o meu médico, é devido ao stress.
Se não estivesse aqui a ucranianazinha (que quer ir às minhas aulas), já teria metido uns 15 dias a ver se a coisa melhorava.
E se 15 dias não chegarem, voltem lá que ele dá-vos mais 145 dias.
O meu falecido pai, entre baixas e dias na biblioteca sem fazer nada, esteve apenas 9 anos seguidos, desde os 61 até se reformar por limite de idade já passava dos 70.

Um abraço camaradas.


4 comentários:

Seriuskiller disse...

Boa sorte e paz de espírito! A humanidade é estupida e temos de viver bela...

Henrique Silva disse...

Viva Professor:

Seja bem vindo e continue com as suas brilhantes análises.
Os cães ladram, mas a caravana passa.

Um abraço

Fernando Gonçalves disse...

é mesmo um favorecido pelo sistema,trabalho mais horas num mes que o pedro num ano,isso das horas letivas nas faculdades é realmente ridiculo,que exemplo que dao aos alunos que entre horas de aulas e tempo de estudo trabalham muito mais de fato,dificial é chegar la,não é?

daibaron disse...

Como sempre, admiro a sua capacidade de racionalizar todas as situações. Boa sorte e paz de espírito.

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