sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Relatório da Comissão Independente sobre a falta de água em Viseu

O Parlamento gosta de fazer comissões de inquérito. 

Estas comissões não servem para investigar seja o que for mas apenas para meter água fria, abafar, retirar da discussão do momento assunto embaraçosos.
Talvez as comissões mais interessantes sejam as dúzias de Comissões de Investigação ao Crime de Camarate. 

Fig. 1 - Feliz Natal (borrego a 7,15€/kg no Continente)

Mas vamos ao que interessa.
No dia 10 de Novembro de 2017, a albufeira de Fagilde que abastece o sistema de água de Viseu+Mangualde+Nelas desceu abaixo dos 10%de capacidade, ficando com reservas para apenas 15 dias. 
Como o risco de rotura do abastecimento alarmou as populações, decidi criar uma Comissão Independente.

Questões.
A comissão teve como objecto responder a 3 questões:
Q1) O que falhou em Novembro de 2017?
Q2) Pode-se responsabilizar alguém pelas falhas?
Q3) O que fazer para que tal problema não se venha a repetir?

Resposta à Questão 1)
Com os dados que foi possível obter, período 2004-2011, a albufeira esteve abaixo de 10% em 90% dos anos e esteve abaixo dos 5% em 70% dos anos (ver, quadro 1).

Quadro 1 - Volume mínimo e máximo armazenado na albufeira de Fagilde (dados: snirh.apambiente.pt)
Ano Mínimo Máximo
1994 8% 95%
1995 5% 95%
1996 4% 95%
1997 4% 98%
1998 4% 95%
1999 4% 98%
2000 4% 95%
2001 4% 33%
2002 2% 105%
2003 2% 146%
2004 4% 105%
2005 4% 105%
2006 2% 133%
2007 4% 132%
2008 31% 126%
2009 1% 129%
2010 3% 113%
2011 4% 160%
2012 24% 130%
2014 6% 101%
2015 10% 131%
2016 6% 139%
2017 7% 127%

Os meses mais problemáticos foram Dezembro, Janeiro e Fevereiro (probabilidade maior que 50% de o volume estar abaixo de 50%).

A partir de 2005, o gestor da albufeira tentou evitar a sistemática falta de água usando a "margem de segurança" da barragem. Como era normal nos anos anteriores, no dia 3 de Junho de 2017 o nível estava a 127%.
Depois, nos 3 meses seguintes, o gestor não foi previdente.
  No dia 3 de Julho a albufeira atingiu 100% (perda de 1050 m3/hora, 290 l/s), 
  No 3 de Agosto a albufeira atingiu 65%  (perda de 1360 m3/hora, 380 l/s)
  No dia 3 de Setembro a albufeira atingiu 39% (perda de 980 m3/hora, 270 l/s)
Em particular, no mês de Julho verificou-se uma quebra de 16 pp relativamente aos anos antiores (450 mil m3) sem justificação (ver Quadro 2).

Quadro 2 - Comparação entre o volume médio de 2006/2016 e o de 2017
Jun Jul Ago Set
2006/16 127% 119% 86% 59%
2017 127% 103% 68% 32%
Dif 0% -16% -18% -27%

Resposta: Se ponderarmos os diversos usos da água (abastecimento de água potável, caudal ecológico e praias fluviais a jusante), a albufeira tem um problema de sub-dimensionamento.
Para ser possível perdas continuadas de 300 l/s, 1080 m3/h, entre 1 de Junho e 1 de Dezembro, a albufeira deveria ter uma capacidade de 4,8 hm3.  

Resposta à Questão 2)
O gestor foi imprudente mas a parte principal da culpa está com o objectivo inicial da barragem (abastecimento de água a Viseu) ter sido estendido em termos de território e objectivos (o aparecimento do turismo/praias fluviais).

Resposta à Questão 3)
A albufeira tem a margem de segurança mas não nos podemos esquecer que esta margem existe para fazer face a cheias repentinas (que acontecem um dia em cada 1000 anos). Actualmente, a gestão tem sido no sentido de, em Junho, atingir os 140%, quando já não há risco de cheia mas é sempre um risco.
Para manter os 400 l/s entre 1/Jun e 1/Dez são precisos 7,2 hm3 o que, retirando os 3,6 hm3 da albufeira de Fagilde a 130%, obriga a "arranjar" uma reserva adicional de 3,6 hm3, i.e., duplicar a capacidade da albufeira de Fagilde.

No médio/longo prazo, existem 3 opções:
A) Aumentar a altura do coroamento da barragem em 1.5 m (mitiga o problema).
B) Construir outra barragem a montante
C) Fazer uma ligação desde a barragem da Aguieira (15 polegadas, desnível de 185 m, distância de 40 km)

Fig. 2 - Evolução da água armazenada na albufeira de Fagilde e o caudal perdido entre Abril e Dezembro de 2017 (dados, snirh.apambiente.pt)

Nota sobre o preço da água.
O preço que pagamos por consumir mais um copo de água deveríamos ser o custo de produzir e meter em nossa casa esse copo de água. É a regra do "otimo social" Preço = Custo marginal.
Acontece que o preço que pagamos é muito superior ao custo marginal porque o regulador quer que paguemos o preço médio.
Como produzir água, canaliza-la até nossa casa e, depois, levar os esgotos e trata-los tem um custo fixo de investimento muito grande, a estratégia de diluir esse custo fixo no preço da água faz com que consumamos menos água do que seria bom em termos económicos. E isto é particularmente penalizante para os agregados familiar mais pobres e com mais elementos.
Na nossa factura, 10% é "custo marginal" e 90% é o "custo fixo". Não sendo possível pagarmos apenas o custo marginal deveria haver outra estratégia para pagarmos o custo fixo, por exemplo, ser uma prestação proporcional ao rendimento do agregado familiar.
  Consumo da água => 0,25€/m3
  Tratamento dos esgotos => 0,25€/m3
  Contribuição para o custo fixo => 2% do rendimento.
Isto seria bom para todos porque os ricos poderiam passar a regar o jardim e a encher a piscina e os pobres passariam a ter água a preços razoáveis. Além disso, os fornecedores de água poderiam vender mais quantidades (e existem muitas economias de escala) e, assim, acabar com o défice tarifário.
Pensem nisto senhores políticos (enquanto estiverem no Brasil ;-).

Eu tive muita sorte.
Imaginem que eu tinha um tacho na Raríssimas a ganhar 12000€/mês mais carro.
Teria sido terrível ficar 30 dias sem salário!




3 comentários:

Lura do Grilo disse...

Caro Prof.

Vejo-o azedo ainda pela perda de salário e com razão: foi uma sacanice de todo o tamanho que lhe custou pouco mais de 2000 Euros. Mas o Estado no estado de coisas actual é assim: forte com os fracos e fraco com os fortes. Veja a vergonha da CGD: foram biliões para o bolso de alguns e nem sequer investigaram.

Dar umas quecas com um secretário de estado é seguramente uma melhor via para o sucesso do que usar a liberdade de expressão ou ensinar dezenas de anos em certas circunstâncias.

Também vejo jovens a sair das universidades com a sua capacidade de pensar completamente obliterada: são cordeiros para o sacrifício de qualquer causa que um maluquinho promova com eficiência.

Aproveito, apesar de o Prof. não ser crente, de lhe desejar um Santo Natal.

lusitânea disse...

Sei que aquelas populações viveram desde os tempos romanos sem aquela barragem.Tinham as suas fontes e tanques de lavagem de roupa e disseminação de de outra roupa suja lá da terra.Coisa que com a ligação da água encanada foi quase proibida à base de campanhas de que aquilo andava tudo inquinado e fazia mal à saúde...
Depois pagam a água que era de borla e ainda por cima falta...

Silva disse...


Caro PCV

O preço que o consumidor tem que pagar pela água tem que cobrir o custo de capital.

Muito mais rapidamente haveria inovação e investimento.

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