sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

Qual é a poluição da Celtejo?

Vou apenas apresentar uns números relativos.
Com já referi noutro poste, para a Celtejo produzir 200 mil ton de pasta de papel branqueada precisa dissolver outras 200 mil ton.
Como usa 15000 m3 de água por dia, então, em cada litro de água "porca" vão existir 36,5 g de matéria orgânica dissolvida.
Comparando, o leite meio gordo tem dissolvidos 98 g por litro.

Depois, vem o tratamento.
Segundo a lei, a água rejeitada para o Tejo só pode conter um máximo de 0,35g por litro.
Usando sedimentação, floculação, filtragem, precipitação e tudo o mais que seja necessário, a ETAR da Celtejo tem que reduzir a quantidade de matéria orgânica presenta na água para este valor, uma redução de 99,9%.
Depois do tratamento, só pode haver 1 litro de leite dissolvido em cada 2800 litros de água.

Como funciona a sedimentação?
Em circunstância nenhum pode haver partículas na água em suspensão, particularmente se tiverem capacidade de sedimentação (porque são fáceis de retirar).
No entanto, olhando para as imagens do Rio Tejo, junto ao emissor que vem da Celtejo vê-se matéria orgânica depositada no fundo do rio o que traduz total sob-dimensionamento do tanque de sedimentação (que tem 50 m de diâmetro, circunferência pequena a vermelho da Fig. 1).
Quando uma partícula está em suspensão, se for menos densa que a água, retira-se por escumagem (vai flutuar), se for mais densa, retira-se por sedimentação (vai afundar) e se tiver densidade igual densidade, retira-se por filtragem. 
No processo de sedimentação, a partícula vai cair lentamente sendo a velocidade tanto menor quanto mais pequena e menos densa for a partícula. Isto porque a força que puxa a partícula para baixo é a gravidade dada por 4/3.pi.r^3*(densidade-densidade da água) e a força que evita que a partícula desça é proporcional à área dada por pi.r^2. Então, a velocidade vai ser proporcional ao raio.
Então, a medida imediata que tem que ser imposta à Celtejo é a construção de um novo tanque de sedimentação (com 160 m de diâmetro, circunferência grande a vermelho, Fig. 1). Fazer isto é muito barato pois não é preciso garantir a total estanquidade.
Um tanque com 160m de diâmetro tem 10 vezes a área de um tanque com 50 m de diâmetro.

Fig. 1 - Estação de tratamento da Celtejo (esquerda, cercada por linha vermelha) onde se vê um tanque de sedimentação com 50 m de diâmetro e necessário tanque a amarelo (com 160 m de diâmetro).

Fig. 2 - Um tanque de sedimentação é a tecnologia mais barata que existe no tratamento de águas. Os 160 m de diâmetro vão dar às partículas cerca de 12 h para se poderem separar da água.

O problema são os acidentes.
Imaginando que a fábrica está a trabalhar sempre no mesmo regime, é muito fácil dimensionar a sedimentação: enche-se um tubo transparente com água suja e mede-se, ao fim de uma hora, quanto o sedimento desceu. 
Se, por exemplo, as partículas desceram 10 cm e queremos que, dentro do tanque, desça 1 m, temos que ter um volume capaz de conter o fluido durante 10 horas.
O problema são os acidentes em que aparecem muito mais carga que o normal e partículas mais pequenas (que demoram mais tempo a sedimentar).
O tanque de sedimentação ser exageradamente grande vai conseguir fazer face aos acidentes. 

E depois?
Logo se vê.
Se continuar a haver problemas nas descargas, a "água limpa" terá que sofrer tratamento terciário que consistirá em arranjar um grande armazém de água onde esta vai ser "tratada" biologicamente por plantas, bactérias e peixes.

A Legionela nos hospitais.
Como a água de minha casa tem cor acastanhada (talvez por causa da canalização pois a água é a do Douro e Paiva), a água que bebo e uso a cozinhar vem de uma "fonte natural"à qual acrescento uma gota de lixívia por cada litro. Se a lixívia for de 3,5%, fica com 1,75 mg/l de hipoclorito de sódio o que lhe dá um cheirinho muito ténue a lixívia.
No judo costumo beber água da torneira que, normalmente, não tem cheiro a lixívia porque a quantidade usada, 0.80mg/l, não é detectável por mim.
Ontem senti um cheirinho a lixívia pelo que as Águas do Douro e Paiva devem ter aumentado a quantidade de hipoclorito de sódio para os 2,0 mg/l (que é o máximo recomendado).

Fizeram muito bem. 
Sabendo-se de vários casos de legionela atribuídos à água da torneira um pouco por todo o país, é uma obrigação moral e legal que quem fornece a água garantir que esta é totalmente segura.
Penso mesmo que deveria sair uma portaria a alterar os limites passando o mínimo para 2,0 mg/l (cerca de uma gota de lixívia por litro) e o máximo para 5,0 mg/l (cerca de 3 gotas de lixívia por litro).

Fig. 3- Que se fo.. o cheiro, primeiro está a saúde.

4 comentários:

Pedro Renner disse...

Não se pode usar a centrifugação para acelerar a sedimentação? Lembro-me de ter trabalhado numa quinta onde se centrifugava o leite quando este estava em excesso e não se vendia. Vendiam-se posteriormente as natas, ou estas, batidas, tornadas em manteiga. Também, parte do excesso do leite coalhava-se em queijo. As sobras de água, os porcos agradeciam, e a gente agradecia os posteriores presuntos, lentriscas e enchidos.
Na natureza, nada se cria, nada se perde, tudo se transforma: não que me apeteçam natas, manteigas e queijos da Celtejo, mas aquilo há de servir para alguma coisa.

Económico-Financeiro disse...

Olá Renner,
Sim, a centrifugação acelera a sedimentação das partículas mas tem vários problemas:
1) Está muito mais sujeito a "acidentes" (se a velocidade diminuir, a água sai totalmente contaminada).
2) É de difícil inspecção (o desempenho da centrifugação depende da velocidade que pode ser alterada quando o inspector não está a olhar enquanto que a área da bacia de sedimentação é constante)
3) A sedimentação natural é muito mais barata (onde existem terrenos disponíveis, que é o caso).
4) As águas residuais têm as moléculas dissolvidas (que dão o tom castanho à água, dão mau cheiro e fazem espuma) que não sedimentam por centrifugação (a água precisa um período de tempo grande para que a matéria orgânica se degrade e agregue por "envelhecimento").
O tanque com 160m terá um tempo de residência de 5 dias mas pode não ser suficiente (a água poderá precisar de ficar meses em repouso).
No limite, a água terá que ser toda evaporada o que obrigará a um "tanque" com 500 ha.
1ab

Silva disse...


Caro PCV

Eu continuo a insistir no aumento do preço da água (ver post ligado).

Económico-Financeiro disse...

Estimado Silva,
Neste caso, não é tanto o preço da água que é captada do Rio Tejo mas sim o preço da matéria orgânica descarregada no Rio Tejo.
O "contracto" actual permite a Celtejo descarregar 5250kg/dia de matéria orgânica (dissolvida em 15000m3) sem nada pagar.
O preço deveria ser o prejuízo causado pelas descargas. Desta forma, a Celtejo compararia o preço da descarga com o custo de tratar o efluente.
Um abraço.

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