sexta-feira, 16 de março de 2018

O homem que matou a cabeleireira é uma vítima

Bem sei que isto vai causar polémica mas vamos a ela. 
Ontem um homem matou uma mulher e dois cães, à facada.
Hoje esse homem apareceu enforcado num poste de Alta Tensão.
Até aqui, é apenas mais um caso da CMTV.
Mas este caso é muito interessante de analisar porque contém os sentimentos mais forte que alguém pode sentir e é uma história que se repete ao longo da História da humanidade. 
Começa com a confiança (e como a confiança é importante), passa pela traição, dá lugar ao desespero, desenvolve a vingança e acaba na loucura descontrolada.
Há tantos casos de "homens bons" que ficam tresloucados e matam por desespero.

Vamos ao que aconteceu.
Uma criancinha nasceu e puseram-lhe o nome de Adolfo. Os pais eram pobres, também cresceu pobre, passou fome, frio, desmazelo, usou roupa dada, rota, teve que abandonar a escola cedo porque era longe, tinha que ajudar os pais no campo e nunca pode comprar um livro.
Adolfo fez-se homem, sempre na miséria de cavar campo de manhã à noite, casou-se nessa aldeiazinha, foi morar para uma barraca que era curral para o gado e, certo dia, porque se via que era trabalhador, alguém lhe disse "anda comigo para a Suíça que arranjo-te qualquer coisa, não podes continuar enterrado nesta miséria".
Lá foi, deixou a aldeia, a mulher, a filha, foi para um meio totalmente diferente, sem saber uma palavra, que sacrifício, mas esforçou-se por vencer, ganhou dinheiro que mandou para a mulher e poupou para, um dia, viver.

A confiança.
Esse dia, um dia, aconteceu, quando conheceu a cabeleireira, mulher fulgosa.
Então, o plano do Adolfo foi pegar no seu dinheirinho, escapar da mulher e da filha que, com o tempo, se tinham transformado em duas cabras, e começar a viver a vida que sempre imaginou poder um dia ter.
Pegou então no dinheirinho, comprou uma casa e um mercedes que meteu em nome da cabeleireira para que "as cabras não mo possam tirar". 
Saiu de casa dizendo, "Adeus filha, até nunca mais". 
"Para onde vais pai?" -Perguntou a filha.
Disse "Vou  viver!" quando não sabia que os dias da sua vida já estavam contados.

A traição.
Chegou a casa da cabeleireira 
-Meu amor, agora vamos viver! - disse o Adolfo
-Adolfo! Tu estás maluco ou quê! Tu não passa de um chato! Põe-te mas é a andar daqui, vai para a porca da tua mulher!
-Mas tua dizias que me amavas!
-Tu és um tanso, bem dizia a minha mãe que és burro como uma porta.
-Mas..., e a minha casa e o meu mercedes...?
- És mesmo burro! Olha para ti! Achas que tens estaleca para uma mulher como eu?  A casa e o mercedes são meus, estão em meu nome, põe é a andar daqui senão ainda chamo a GNR. Até me metes nojo!

O desespero.
Adolfo sentiu um calor invadir-lhe todo o corpo, a cabeça a inchar e as veias da testa a latejar.
Era a adrenalina a inunda-lo como acontece ao soldado no momento que salta da trincheira para carregar sobre o inimigo e nem sente as balas no corpo.
A visão ficou turva, ficou cego de ódio, a boca secou, a respiração ficou ofegante, começou a suar.

A vingança.
Pegou numa faca que tinha ali à mão de semear, foi-se a ela, "Puta" e espetou-lha vezes sem conta.
Não parava de repetir, "Filha da puta, hás-de arder na puta do Inferno!!!!"
Vêm os cães, ladram, ladram, um deles morde-o numa perna mas o Adolfo nada sentiu, enfia-lhe a faca entre as costelas - "Filho da puta, não comes mais da minha ração".
Vem o outro e acontece-lhe o mesmo.
-Filhos da puta, ide fazer companhia a esta cabra que deu cabo da minha vida.

A loucura.
A mente do Adolfo não voltou mais ao seu estado natural.
A carga emocional desestrutura toda a mente, a sede de vingança aumenta a cada segundo, se pudesse, se tivesse um bomba atómica, acabava com a humanidade. O eu dissocia-se do seu corpo passando-se a ver como um elemento estranho à realidade, como se estivesse a ver um filme, alucinações infernais inundaram a sua visão, ouve gritos vindos de toda a parte, gritos vindos do inferno. Pegou no carro e começou a gritar, gritou, gritou, gritou e gritou de desespero. Parou num sítio qualquer, voltou a gritar, gritar e gritar e terminou com a sua vida como se, com isso, fosse começar a tal vida que sempre quis viver.

Há os que recuperam.
Há homens que conseguem recuperar o seu estado normal e que, depois, não conseguem expicar o que aconteceu.
Há heróis que, depois, não querem ouvir falar do que fizeram nem sequer ver quem quer que seja lhes recorde o que se passou.
É a PPST, a perturbação pós-stress traumático.

Porque é que o homem foi uma vítima.
Claro que foi vítima da cabeleireira que mais não era do que uma burlista.
Mas, verdadeiramente, o Adolfo foi vítima da natureza humana, das estratégias que a nossa mente desenvolveu ao longo dos milénios para que conseguíssemos sobreviver enquanto espécie animal perdido num meio ambiente muito agressivo.
Sim, gosto de me colocar milénios atrás, como os nossos antepassados, no meio da savana africana, cercado por leões e hienas, vítima de secas terríveis, de ataques de outros humanos e imaginar como o comportamento de hoje vem desses tempos.
E vem, esta reacção automática e animalesca que transforma "um bom homem" (sim, toda a gente diz destes assassinos tresloucados "era um bom homem") num assassino impiedoso foi o que permitiu, no passado, actos de grande valentia e heroísmo, de David enfrentar Golias, de "um punhado de heróis" enfrentar e vencer os castelhanos que eram muito mais numerosos, de esquecer a dor e a incapacidade e sacrificar a própria vida para "corrigir uma injustiça".

Será que podemos confiar?
Cada vez mais penso que não.
Ao menor sinal de alarme, o melhor é passar ao estado de segurança.
Hoje, tinha muito mais que dizer, mas vou-me ficar por aqui.

Dizia o meu pai: há coisas mais perigosas do que metermo-nos debaixo de um comboio.



3 comentários:

Lura do Grilo disse...

"Filho da puta, não comes mais da minha ração". Sublime ... professor! Sublime!

No meio desta tragédia deu para rir.

Silva disse...


Caro PCV

Para complementar eis aqui um link

https://www.cmjornal.pt/famosos/detalhe/mantorras-anuncia-noivado-mas-ainda-e-casado?ref=DET_noticiasSeccao_MaisLidasDia

Anónimo disse...

O que queria acrescentar referia-se a isto?

https://informacaoincorrecta.blogspot.pt/2018/02/the-red-pill-os-homens-tem-direitos.html

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