quarta-feira, 23 de maio de 2018

As claques de futebol como segmentação de mercado

Actualmente fala-se muito contra as claques. 

Todos os clubes têm claques, grupos de pessoas que vão a muitos jogos gritando palavrões, insultos em apoio à sua equipa e contra as outras.
Por causa de serem (veremos que propositadamente) formadas por pessoas "marginais", alguns dos seus membros têm sido associados a actos de violência.
Sendo o futebol propício a isso e vivendo nós numa sociedade cheia de demagogia e xenofobia, a comunicação social e a classe política têm aproveitado estes incidentes para atacar, genericamente, as claques e os dirigentes desportivos que as apoiam (i.e., todos).
Não nos podemos esquecer que os clubes de futebol foram as únicas grandes instituições democráticas que resistiram ao Salazar, em que quem quisesse poderia ser sócio e em que cada sócio sempre pode votar livremente.

Neste poste vou tentar mostrar, no contexto da segmentação do mercado, que as claques fazem todo o sentido comercial e que só é pena que mais empresas principalmente as públicas (de fornecimento de água e de transportes) não sejam geridas por pessoas inteligentes ao ponto de reconhecerem as vantagens para os consumidores e para as empresa das segmentação do mercado.

Fig. 1- Ficou bonito todo este nevoeiro, parecia o filme Exterminador Implacável

A segmentação de mercado.
É separar os potenciais clientes por grupos com características diferentes. Cada segmento vai ser tratado de forma diference em termos de qualidade e de preço do bem de forma a maximizar o lucro da empresa.
A segmentação é muito importante quando o processo produtivo tem custos fixos relativamente grandes podendo atingir os 100%.

Vejamos o exemplo de transportes públicos urbanos.
Nos autocarros urbanos, 100% do custo de transportar um passageiro é fixo.
O autocarro urbano custa 150000€, amortizável em 15 anos à taxa de juro de 5,0%/ano o que traduz um custo financeiro de 270€/semana. Se o autocarro fizer 6 percursos por dia, 42 por semana, é um custo financeiro de 6,5€ por percurso.
Além do custo financeiro, o percurso tem o preço o combustível (0,25 l/km*1,4€/km = 0,35€/km), o motorista (10€/h) e a manutenção do autocarro (0,05€/km). 
Então, um percurso de 20 km que dure 1,5 horas vai  custar cerca de 30€ = 6,5€ + 7,0€+ 15,0€ + 1,0€.
Para o percurso ser sustentável, para um preço de bilhete de 0,75€, terá que haver 40 passageiros. Como os passageiros não fazem o percurso todo, terá que haver uma ocupação média de cerca de 10 lugares que está muito longe de esgotar a capacidade do autocarro.

Segmentação do mercado das viagens.
Como o custo de meter mais um passageiro de 0€, então, a transportadora aumenta o seu lucro se conseguir captar com um desconto clientes que normalmente não viajam. A arte da segmentação está em conseguir-se separar os clientes que viajam e vão continuar a pagar 0,80€/viagem dos que não viajam vão passam a viajar se o preço for menor.
Vou apresentar algumas forma de segmentar o mercado.

A) Para as pessoas de menores recursos. Criar uma zona na traseira do autocarro, com uma entrada independente, sem aquecimento, com lugares de pé a que se faz um desconto de 50%.

B) Para percursos curtos. O bilhete passa a ser validado à entrada e à saída e serão cobrados apenas os quilómetros percorridos. Supondo que uma viagem média são 5km, poderiam ser cobrados 0,16€/km.

C) Para as pessoas idosas e jovens. Fora da hora de ponta ou em percursos não congestionados, as pessoas com mais de 65 anos e menos de 18 anos terem um desconto de 50%.

D) Descontos ad hominem. Mediante regras flexíveis que tivessem em atenção a situação financeira, familiar, estado de saúde, etc. da pessoa ou agregado familiar, ser atribuído um "estatuto especial" com descontos entre 10% e  90%.

E) Primeira Classe. Também existe a possibilidade de criar lugares com maior qualidade pelo qual se cobra um preço mais elevado.

Estas formas de segmentação serem cumulativas. Por exemplo, um jovem que viajasse na 3.a classe, um percurso de 3 km e com pais toxicodependente (atribuídos ad hominem 50% de desconto)  iria pagar 0,06€ pela viagem, 0,16€/km*3km*50%*50%*50%.

Isto tudo a propósito das claques.
Um bilhete na pior classe para assistir a um jogo de futebol dos 3 grandes ronda os 25€.
Os estádios de futebol, tirando 2 ou 3 jogos por ano, estão às moscas o que, por um lado, deixa os jogadores desmotivados e, por outro lado, não tem qualquer custo meter lá mais espectadores.
Não é bem às moscas, fui buscar estatísticas à ligaportugal.pt e a taxa média de ocupação na época 2017/2018, já com as claques, foi de 60%, 215 mil espectadores para 354 mil lugares.

Os membros das claques, sejam jovens, desempregados, estudantes, gente perdida, bebedolas, drogados, mal criados, destementes a Deus ou lá o que queiram que sejam, não iriam ver qualquer jogo se tivessem que pagar o bilhete normal.
É esta a razão porque os membros das claques só dizem palavrões: é uma forma de a empresa SAD ir buscar clientes à marginalidade que, de outra forma, não iriam, sem prejudicar os "normais" clientes pagantes do bilhete normal.
Então, em vez de ter os lugares vazios, é lucrativo vender bilhetes a 5€ a estes enegúmenos e ainda se ganha animação no espectáculo.
Eu falei em 5€ por bilhete mas ouço dizer que chegam a ser muito mais baratos, talvez 1€ e, por vezes, à borliex.

Fig. 2 - Venham para a claque do Sporting.

E os bilhete revendidos?
Parece que as claques têm o negócio de revenda dos bilhetes.
Alegando qualquer coisa como "tenho um familiar" ou "tenho um amigo", os membros das claques podem receber bilhetes "sobrantes" que, depois, vão revender.
Esta revenda também faz parte da segmentação pois são bilhetes que nunca seriam vendidos. A venda apenas acontece porque o revendedor, tendo interesse directo, vai-se esforçar muito junto dos seus contactos para poder realizar a venda.
Além disso, este dinheirinho extra é uma forma de claquistas financiarem os jogos fora de casa, especialmente, os que são no estrangeiro.

Poderíamos ser muito mais felizes se mais mercados fossem segmentados.
Além dos transportes, a água, electricidade ou televisão por cabo, porque têm custos fixos muito importantes, deveriam ser fornecidos, por exemplo, às famílias pobres, com desconto significativo.
Também a habitação social poderia ser muito mais segmentada, com casas mais pequenas e hosteis a preços muito reduzidos.
Não compreendo como a Câmara de Lisboa, esquerdistas sempre a falar na especulação imobiliária,  com centenas de casas abandonados, não tem um hostel para as pessoas de baixos recursos poderem viver na baixa de Lisboa, por exemplo, a 15€/semana.
Pegava num prédio qualquer seu, entregava-o a um particular por 20 anos com a obrigação de cobrar 15€/semana e o eventual lucro a dividir 50/50.

Imaginem esta situação.
Um jovem de uma terriola qualquer, filho de pobres, sem um tostão no bolso, quer tentar arranjar um emprego em Lisboa.
Agora, será extremamente difícil (a minha empregada, do Uzbequistão, teve que ficar, com a irmã, muitos dias a viver na rua).
Se houvesse um hostel camarário a 15€/semana, se demorasse 10 semanas a receber o primeiro ordenado, só precisava investir 150€ em alojamento.
Coisas para os esquerdistas pensarem (se é que pensam).

Fig. 3 - Em Kiev, arranja-se um hostel para os 30 dias de Junho por 55€, 1,83€/dia!

2 comentários:

Silva disse...


Caro PCV

Muito provavelmente, o futebol é o sector de actividade que nos últimos 100, talvez 150 anos, mais pessoas tem tirado da pobreza, num tempo relativamente curto, em todo o mundo.

Por isso, é que o futebol tem sido alvo de profundos ataques, sendo a introdução do VAR o mais recente ataque.

O futebol precisa de ser protegido.

O afastamento das claques insere-se nesta protecção.

A melhor maneira de combater as claques (e tudo o que destrói o FUTEBOL PROFISSIONAL) é dizer que assim desvaloriza o valor do próprio negócio e dos seus intervenientes nomeadamente os jogadores.

Avalio Rui Patrício em 10 milhões de euros mas se não houvessem claques avaliaria-o em 12 milhões, agora imaginem se não houvesse VAR e nem o Rui Patrício brincasse na selecção.

Silva disse...


Caro PCV

O fuebol deve ser o sector de actividade que nos últimos 100 anos, talvez 150 anos mais pessoas tem tirado da mediania senão mesmo da pobreza em todo o Mundo.

Por isso, não espanta o ataque a que o futebol tem sido alvo, sendo o último, a introdução do VAR.

O futebol precisa de ser protegido.

As claques destroem valor ao negócio do FUTEBOL PROFISSIONAL, por exemplo, avalio Rui Patrício em 10 milhões de euros mas, se não houvesse claques avaliaria-o em 12 milhões de euros. Agora pode imaginar em quanto é que o avaliaria-o se ele não brincasse na selecção nem houvesse VAR.

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