sexta-feira, 13 de julho de 2018

Economia, mercados financeiros e derivados

Os esquerdistas falam que os mercados financeiros são um perigo.
Se a economia são mil euros, os mercados financeiros transaccionam um milhão de euros e os mercados de derivados mil milhões de euros.
O que vou (tentar) explicar neste poste é que, apesar de ser verdade esta desproporção, tal resulta apenas de haver baixos custos de transacção e que não trazem qualquer perigo à economia, pelo contrário.

Comecemos pelo "mercado" de resultados desportivos.
Este mercado é educativo porque não tem por base nenhum bem económico, apenas especulação quanto aos resultados desportivos.


Imaginemos o campeonato 2018/2019 onde há 18 equipas, um total de 153 jogos em que o resultado de cada jogo pode ser "Ganha-casa" ou "Empata".
Cada combinação resultado/jogo vai ser transformada numa "acção" que pode ser transaccionada.
Exemplo de acção será "Ganha-casa / Portimonense- Sporting" (jogo da 7.a ronda).
Então, iniciada a épocas, o mercado vai ter 306 "empresas cotadas" em que, a cada semana, 17*2 empresas "são liquidadas".

O mercado.
Cada pessoa tem uma conjectura quanto à probabilidade de um determinado resultado acontecer. Isto traduz que a empresa liquidada "Ganha-casa / Portimonense- Sporting" se concretiza favoravelmente.
No mercado, umas pessoas "compram" e outras pessoas "vendem" acções a um determinado preço.
No momento da transacção, o comprador paga o preço ao vendedor que fica com ele o que traduz um empréstimo "estranho". 
No fim do jogo, se o resultado for o previsto pelo comprador, o vendedor paga-lhe 10€. Caso contrário, o vendedor fica com o dinheiro.
Por exemplo, o João comprou uma acção por 0,90€ dando esse dinheiro à Maria.

Se o resultado for favorável, teremos
Resultado do João = +10€ - 0,90€ = 9,10€
Resultado da Maria = +0,90€-10€  = -9,10€

Se o resultado for desfavorável, teremos
Resultado do João = - 0,90€ = -0,90€
Resultado da Maria = +0,90€  = +0,90€

Como funciona a transacção de entrada no mercado.
Por simplicidade, vamos supor que, a cada 15 minutos, há um leilão que junta as propostas que entraram no sistema.
As pessoas têm previsões quanto à probabilidade de cada um dos 306 acontecimentos possíveis.
Por exemplo, o João prevê que o "Ganha-casa + Portimonense- Sporting" tem 10% de probabilidade de se concretizar pelo que coloca uma oferta de compra de 1000 acções ao preço de 0,90€/acção (um investimento de 900€ que pode perder). Neste caso, prevê ganhar 1000*(+10%*10€ - 90%*0,90€) = +100€
Já a Maria prevê que a probabilidade seja de 8% pelo que também coloca uma oferta mas de compra de 1000 acções a 0,90€/acção (recebe um crédito de 900€). Neste caso, prevê ganhar 1000*(-8%*10€ + 92%*0,90€) = +28€ com o risco de ter que pagar 10000€.
O leilão vai permitir que esta transacção se materialize.

Como funcionam as transacções de saída do mercado.
Havendo muitas pessoas continuamente a realizar compras e vendas, o preço de cada acção vai evoluindo ao longo do tempo em resultado da informação que vai sendo conhecida, por exemplo, um jogador que se lesiona ou um treinador que é despedido. Essa evolução traduz a probabilidade que, em média, as pessoas atribuem a cada acontecimento.
Imaginemos que a Maria, de repente, acha que a probabilidade aumenta para 12% e vê que o preço evoluiu para 1,1€/acção. Então, a Maria querendo anular o seu risco e porque não pode anular a sua posição, vai fazer uma transacção simétrica: vai comprar 1000 acções ao Alberto por 1100€.
A Maria, porque houve uma desvalorização, teve um prejuízo de 1100€-900€ mas conseguiu transferir para o Alberto o risco dos 10000€ de perdas.

Motivado pelos baixos custos de transacção.
Imaginemos que as transacções são gratuitas e que a "CMVM" cobra uma taxa de 1% sobre os 10€.
Então, vai haver milhões e milhões de transacções ao longo do tempo.
Uma pessoa vai entrar no mercado, por exemplo, adquirindo 250€ de diferentes acções e, a toda a hora, porque recebe informação que acha importante, vai recompor a sua carteira de activos.
Sempre que uma pessoa encontre um preço que, dadas as suas previsões, permita um ganho, faz uma transacção de recomposição da carteira.
Até pode acontecer que o investidor nunca chegue a esperar pela liquidação, i.e., nunca chegue a receber ou a pagar os 10€, vindo o seu ganho da diferença entre comprar e vender.
Os baixos custos de transacção fazem com que possa haver milhares de milhões de euros transaccionados, em valores 1000 vezes superior ao facturado pelos clubes mas essas transacções não traduzem nada pois a maioria delas anula-se.
Por exemplo, o João, porque recompõe a sua carteira centenas de vezes por dia, pode ao longo da época ter comprado e vendido milhões de euros, mantendo-se com uma carteira de 250€.  

Porque é o mercado financeiro positivo para a economia?
Primeiro, porque tudo o que as pessoas fazem, desde que não se prove que causa prejuízo aos outros, é positivo para a economia.
Segundo, tudo está nos custos de transacção baixos e na circulação da informação sobre a economia.
Vou dar um exemplo.

Um proprietário está a pensar plantar um pomar.
Tem um terreno que não produz nada e, com um investimento de 100000€, consegue passar a produzir, em média, 100 toneladas de maças por ano.
O proprietário pensa amortizar o investimento em 25 anos à taxa de juro de 5%/ano e precisa de  15000€/ano para tratar do pomar.
Em média, o preço de venda das maças terá que ser no mínimo 0,25€/kg.
Mas existem problemas.
1) O proprietário não tem dinheiro e o terreno não serve como garantia.
2) A produção só começa em 2025.
2) O preço médio das maças é na ordem dos 0,40€/kg mas na época da colheita é muito baixo, 0,10€/kg, porque os compradores aproveitam-se da situação de necessidade dos produtores.
3) A produção média é de 100 t/ano mas há anos em que é apenas 50 t pelo que a venda antecipada tem problemas. 

Vamos ao mercado futuro de fruta.
1 = O produtor conseguiu vender 75 t/ano de fruta em todos os julhos dos anos de duração do pomar, em 2025, 2026, ..., 2049 a 0,35€/kg. Por exemplo, o produtor obriga-se a entregar 75t de maçã em 2030 pela qual o comprador se obriga a pagar 26250€.
Se descontarmos estas vendas ao presente à taxa de 5%/ano, dará 260 mil€.

2 = O produtor vai usar as vendas já realizadas "vendendo" parte delas para obter financiamento. Assim, as vendas criaram um "activo financeiro" que pode ser comprado e vendido vezes sem conta.
O produtor fica sem responsabilidades no pagamento do financiamento porque o dinheiro obtido não é um empréstimo mas resulta da venda de um activo financeiro. 
A responsabilidade do pagamento ao investidor passa para o comprador das maçãs.

3 = O investidor que emprestou o dinheiro, precisando rapidamente de reaver a massa, "vende" os créditos.

Houve problemas!
Se um ano a produção for superior às 75t, o excedente é vendido na hora.
O problema é que, chegamos a Março de 2030, 4 meses antes de as maças serem colhidas e entregues, o produtor prevê que só vai ter 50t porque na sua zona houve uma geada tardia!!!!
Então, à cautela, vai ao mercado e compra 25t para entrega em Julho pagando 0,40€/t. Vai ter um "pequeno prejuízo" mas evita o risco de, mais tarde, as maçãs estarem ainda mais caras.
Este "mercado secundário" vai ter milhares de transacções de pessoas que nunca vão chegar a ter as maças em sua posse, tentando ganhar na margem entre a compra e a venda.
Estas transacções dão liquidez ao mercado permitindo que os bons investimentos tenham financiadores e também "digerem" a informação que vai surgindo como a evolução do estado do tempo, da procura e de novos pomares.

A Esquerda é a nova Direita.
A dicotomia Esquerda /Direita tinha por base a ideia de que a Esquerda era progressistas, inovadora, e a Direita retrograda, conservadora.
Mas o que observamos é exactamente ao contrário, a Esquerda quer repor o passado, manter o que existe, conservar os velhinhos nas casas a cair, combater a nova economia enquanto que a Direita quer a mudança.
Por isso, a Esquerda tem medo do que é novo, dos mercados que surgiram das novas tecnologias, a Uber, os arrendamentos de curta duração, os hosteis, os contratos de trabalho na hora.
Com a diminuição dos custos de transacção induzidos pelos computadores e pela Internet, o número de transacções financeiras por cada euro de bens tem tendência a explodir mas isso não traz qualquer mal à nossa sociedade, muito antes pelo contrário.

Imaginem um novo mercado de segurança.
Existem 10000 câmaras espalhadas na cidade e há pessoas que, no conforto do seu lar, umas em Portugal, outras em Moçambique ou no Bangladesh, observam o que se passa, 24 horas por dia.
Existe um algoritmo que calcula quantas pessoas devem estar a observar e quais as câmaras monitorizadas.
Vamos supor que, numa situação normal, há 100 pessoas.
De repente chegaram uns motoqueiros é, na próxima hora, é preciso aumentar para 250 pessoas. Então, é enviado uma SMS a 500 pessoas (que previamente mostraram disponibilidade) e são aceites pelo sistema as primeiras 150 que fizerem log-in.
O pagamento é feito mediante o "apanhar" de diamantes: aparecem na imagem diamantes amarelos e, em cada que a pessoa carregue, recebe 0,50€ (forma de garantir que a pessoa está mesmo a observar a imagem).
Também as pessoas podem contratar o serviço para sua casa, colocando uma câmara em cada divisão que serão monitorizadas por alguém que pode estar a milhares de quilómetros de distância.
Tudo isto é progresso, tudo isto é futuro que os esquerdistas querem torpedear com o argumento de que "não dá direitos aos trabalhadores".
Mas tudo o que as pessoas quiserem fazer de forma informada e livre, é positivo para as pessoas.

Quem é que não quer ser livre?
Os esquerdistas dizem que tirar liberdades é bom para as pessoas!

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