terça-feira, 23 de outubro de 2018

Será acertado o OE2018 baixar os preços dos transportes de passageiros?

Os esquerdistas têm uma visão deficiente da economia social. 

Pensam eles que as pessoas de menores recursos financeiros, os pobres, devem pagar menos nos transportes públicos, electricidade, água, propinas, etc. exactamente porque são pobres.
Vêem eles, esquerdistas, esta redução no preço do acesso como um subsídio que o Estado tem que dar a quem precisa mais.
Mas esta visão está errada pois, em termos económicos, o preço social não tem por fim subsidiar os pobres mas, pelo contrário, aumentar a margem operacional (mais conhecida por "lucro antes de amortizações e juros") e subsidiar os mais ricos!
Vejamos como, em termos económicos, a coisa funciona usando o exemplo aos transportes público de passageiros.

Curva da procura.
A quantidade que se consegue vender agrega-se na "curva da procura" que, para cada preço, quantifica a quantidade total que as pessoas estão disponíveis para comprar.
Quanto mais baixo o preço, maior é a quantidade que as pessoas querem comprar o que se aplica também aos transportes públicos de passageiros.
Assim, a quantidade de bilhetes validados no sistema de transportes públicos aumenta quando o preço das viagens diminui mas o preço não afecta de igual modo as pessoas, pessoas com diferente rendimento, idade, estado de saúde, etc. reagem de forma diferente ao preço.
Estas diferenças podem ser aproveitadas pelos vendedores no sentido de melhorarem o serviço ao mesmo tempo que aumentam o seu lucro.
Vamos supor que as pessoas de uma cidade se podem dividir em nível de rendimento.
Apesar de falar do nível de rendimento, podem pensar noutras variáveis de segmentação.

Vou supor que existem 3 segmentos de mercado.
Os ricos que estão disponíveis para pagar um preço mais elevado mas viajam menos de transportes públicos.
Segmento 1 - Vamos supor que a quantidade de ricos que viajam, em milhares por dia, se agrega em:
    Q.ricos = 66.67-33.33*P

Segmento 2 - Também existem os remediados:
    Q.médios = 80-66.67*P

Segmento 3- E os pobres:
    Q.pobres = 200 - 400*P

Estas curvas da procura agregam-se na Curva de Mercado que, por exemplo, para um preço de 0.70€/viagem, quantifica que viajarão 76,67 mil pessoas por dia.
66.67-33.33*0.7 = 43,33 ricos;  80-66.67*0.7 = 33.33 médios e ZERO pobres.

Se o preço for de 0.20€/viagem, viajarão 246,67 mil pessoas por dia onde se incluem muitos pobres.
60 ricos;  66.7 médios e 120 pobres.

Fig. 1 - Curva da procura dos Ricos, Médios e Pobres e Curva de Mercado (a amarelo)

O custo de transportar mais um passageiro é muito pequeno.
Existem muitos bens cuja produção tem um custo fixo elevado e um custo variável (de produzir mais uma unidade) muito pequeno de que o transporte públicos de passageiros é um exemplo.
Grosso modo, o autocarro parado custa 60$; a andar sem passageiros, custa mais 40$ e acrescentar mais  um passageiro acresce apenas 0.1$ ao custo total.
O óptimo em termos sociais será, quando o autocarro tem lugares vagos, meter passageiros desde que paguem pelo menos 0.1$. O problema é que a empresa tem que "esfolar" o cliente para conseguir pagar os custos fixos.

Vamos supor que o custos fixos são 50000€/dia e o custo variável 0.1€/passageiro.
Se a empresa cobrar 0,7€/viagem, valor muito próximo do preço do monopolista, o lucro operacional será de 46 mil€ por dia (a área a amarelo da Fig. 2) o que implica um prejuízo de 4 mil€/dia.
Este preço quase anula os prejuízos mas exclui os pobres.

Fig. 2 - Para diminuir os prejuízos, é preciso cobrar 0,70€/viagem o que exclui os pobres.

Agora, a "política social" vai obrigar a empresa a cobrar apenas 0,20€/viagem o que já vai incluir a maioria dos pobres à custa do aumento do o prejuízo para 25 mil€/dia.

Subsidiar os pobres  não é caridade mas boa gestão.
Os esquerdistas defendem que subsidiar os pobres estigmatiza-los. Por isso, devem todos pagar o mesmo preço e o Orçamento de Estado subsidiar as empresas de transportes.
Esta visão está errada porque cobrar um preço diferente a alguns não é subsidiar já que todos ficam melhor. Os ricos e médios também vão poder pagar menos e o prejuízo vai diminuir!
E é exactamente isto que mostra a Ciência Económica: a segmentação do mercado é positiva para todos.
Parece um contra-senso mas, o preço geral (para os ricos e médios) pode diminuir para 0.6€/viagem se se permitir que os pobres paguem apenas 0,20€/viagem!
E, mesmo assim, o prejuízo diminui!
Apesar de a margem obtida com o "preço normal" diminuir 2,7 mil € por dia (a área a amarelo da Fig. 3), os pobres vão acrescentar 16 mil€/dia a esta margem (a área a azul à direita do tracejado da Fig. 3).
Assim, os pobres não estão a ser subsidiados pois, a redução do seu preço permite mesmo que os ricos e médios paguem menos e que, mesmo assim, o prejuízo de 4 mil €/dia se transforme num lucro de 9,9 mil€/dia.

Fig. 3 - Criar um preço para pobres  não é caridade pois permite diminuir o preço dos ricos e médios (perdendo a área a amarelo) e ainda aumentar a margem operacional (ganha-se a área azul à direita do tracejado)

Dito isto, o que concluir?
Que é preciso meter na cabeça dos esquerdistas que subsidiar os pobres não é caridade mas apenas uma forma inteligente de segmentar o mercado em tecnologias em que o custo fixo é muito elevado.
No caso concreto, a redução dos preços nos passes sociais é uma política tremendamente mal desenhada porque leva ao aumento do prejuízo das empresas de transportes.

O que eu defendo.
O tarifário é muito complexo.
As minhas propostas são no sentido de acabar com as zonas e com os passes e reduzir tudo a um cartão que funciona como "via verde".

1 - Acabar com as zonas.
As zonas têm por finalidade segmentar o mercado entre quem faz uma viagem longa (disponível para pagar menos por km) e quem faz uma viagem curta mas são muito complexos e difíceis quando a pessoa faz viagens diferentes ao longo do tempo.
A construção das zonas tem uma fórmula por trás que poderia estimar mas não vou perder tempo com isso.
(Afinal, dei-me ao trabalho de estimar a regra das zonas e é 0,80€ + 0,08€*km)
A minha proposta é que a pessoa valide o cartão à entrada e à saída e sejam calculados os quilómetros percorridos. Depois, é aplicada uma formula contínua.
Não concordo a ser proporcional (os tais 0,08€/km) e defendo que deve haver um desconto maior com a distância, por exemplo, 0,90 + 0,60Ln(Km):

 Km Preço   || Km Preço
 0,5 0,48 € || 4,0  1,73 €
 1,0 0,90 € || 5,0  1,87 €
 2,0 1,32 € || 10,0 2,28 €
 3,0 1,56 € || 20,0 2,70 €

Eu sou a favor de uma formula contínua para não haver perdas de direitos por meia dúzia de cêntimos (a famosa "mudança de escalão").
Quem não validar o passe à saída, paga 3,30€.

2 - Acabar com os passes mensais.
O passe mensal tem por finalidade segmentar o mercado entre quem faz muitas viagens ao longo do mês (disponível para pagar menos por viagem) e quem faz uma viagem ocasional.
É um problema a revalidação, o cálculo se valerá a pena ou não, etc.
A minha proposta é estender a filosofia dos quilómetros a a um período alargado de tempo, por exemplo, a média dos quilómetros percorridos diariamente nos últimos 90 dias.
Existe uma regra para a determinação do preço do passe que, grosso modo, são 24 viagens (uma redução de 60% para quem faça duas viagens por dia).
Então, pegar em todas as viagens realizadas nos passados 90 dias e aplicar à viagem de hoje um desconto crescente com essa média (também uma formula contínua), por exemplo,

 NV   Desc.    || NV     Desc.
 10    5%   || 50   60%
 15  10%  || 75   70%
 20  25%  || 100 75%
 30  40%  || 200 87%

3 - Os passes de empresa, de grupo e familiares.
Seria apenas agregar os cartões e obter descontos, o que já é feito pelas operadoras de telemóveis.
Por exemplo, para efeito do desconto da regra 2, a média de viagens de cada pessoa ponderar com o grupo, por exemplo:
   NVi = NV da pessoa + 0,1 * NV da mediana do grupo.

E onde entrava a segmentação pelo rendimento?
Sobre o preço normal da viagem, seria aplicado um desconto decrescente com o rendimento, por exemplo, Desconto Social = (Rendimento per capita - 2*IAS)/1000.
Uma família (um a ganhar o SMN e outro meio SNN e 2 filhos menores) com um rendimento per capita de 217,50€/mês, teria um desconto em todos os membros da família de 62,5%.


Fig. 4 - Não se resolve nada porque preterem as gajas boas em favor de cepos.

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