Bem, recordando esses tempos, não li nenhum dos livros obrigatórios. Se calhar, eu não era um aluno exemplar :-)
A Selva, 1930, é quase uma adaptação d'A Estepe não faltando a referencia à miséria, à sexualidade e mesmo aos judeus que eram uma ínfima minoria no Brasil (em comparação com a Ucrânia).
Talvez por essas semelhanças e por A Selva ter sido publicada 42 anos depois de A Estepe é que Tchekov é um dos grandes vultos da história da humanidade enquanto que Ferreira de Castro é "apenas" uma referência de trazer por casa.
3) Um dia de trabalho produz mais riqueza na Amazónia (a recolher borracha) do que no Seará (na agricultura convencional).
Estamos então em presença de um problema de afetação de recursos em que um recurso é "não transaccionavel" (a terra não pode mudar de sítio) e um recurso que é transaccionável (o trabalho pode mover-se).
Este problema seria instantaneamente resolvido se não houvesse "custos de transacção" (a viagem de 3000km).
N'A Selva, o contrato de trabalho incluia um empréstimo inicial.
Nos "tempos bons", este crédito corresponderia à facturação de 100 dias de trabalho (5 kg/dia de borracha a 4$00/kg). Nesses tempos, mesmo descontando a alimentação que era mais cara que o normal, ao fim de um ano a dívida estaria amortizada e, depois, era tempo de juntar para levar um pecúlio para arranjar mulher e criar filhos.
Mas, nos entretantos, os tempos pioraram. Ferreira de Castro aborda a questão da concorrência da Malásia mas tanbém quer dizer que a pobreza é motivada pela ganância dos patrões.
O problema foi a inovação tecnológica.
As fazendas brasileiras de borracha, onde o avô da minha mãe também trabalhou para, depois, se estabelecer como comerciante em Manaus, funcionaram muito bem até ter havido uma inovação tecnológica na Ásia!
Pelo lado da procura, estava tudo bem, a borracha era usada para fazer pneus (para bicicletas, carros e camiões) cuja produção estava em grande crescimento principalmente durante a Grande Guerra, 1914-1918.
O problema é a procura ter criado inovação tecnológica por parte dos ingleses. Não fossem eles os pais da Revolução Industrial.
E Ferreira de Castro fala da concorrência dos ingleses sem dar conta que essa concorrência apenas existe porque ocorreu uma industrialização do processo.
A tecnologia na Amazónia.
A planta produtora da borracha, a Hevea brasiliensis*
Sendo nativa, no Brasil a tecnologia era recolectora:
Partindo de um ponto à beira de um rio, desbravava-se um caminho pela mata dentro procurando encontrar árvores da borracha. Este caminho era difícil de iniciar e precisava de constante manutenção.
Como a floresta era impenetrável e ainda não havia drones, não havia possibilidade de escolher previamente o percurso pelo que encontrar mais ou menos árvores era um processo de sorte e azar. Assim, uns caminhos acabavam por ser mais produtivos e outros menos.
O caminho dava uma volta voltando ao ponto inicial e deveria ter uma extensão que permitisse ser percorrido de manhã (para colocar os copos) e novamente à tarde (para recolher os copos cheios). Em média, um caminho tinha cerca de 10 km com 20 ou 30 árvores produtoras, espaçadas entre si uns 500m.
Dada a pouca densidade das árvores produtoras e a dificuldade do percurso, mais de 80% do tempo de trabalho do trabalhador era perdido. Além disso, o período da cheia impossibilitava o trabalho durante grande parte do ano.
* A Hevea brasiliensis é nativa do Brasil e conhecida por "árvore da borracha do Pará". A árvore que temos nos nossos jardins e casas é a Ficus elastica e conhecida por "árvore da borracha indiana".
Esta nota deveu-se à chamada de atenção do Pedro Alves que agradeço.
Acrescento que a árvore do Pará é mais produtiva pelo que é a planta usada nas plantações.
Actualmente, a borracha natural, num total de 12700kt/ano é produzida na Tailandia (4380t/ano), Indonésia (3230t/ano), Vietname (1120kt/ano), China (820kt/ano), Índia (750 kt/ano) e Malásia (700kt/ano) e praticamente nada no Brasil ( 200kt/ano). A produtividade é na ordem dos 1150kg/ha e o preço na ordem dos 1,20€/kg (ver fonte).
Qual foi a inovação tecnológica?
Os ingleses pegaram em plantas recolhidas na Amazónia e fizeram plantações na Malásia.
Primeiro, desmataram a floresta e, depois, plantaram a Ficus elastica numa malha regular 3 x 10 metros. Na plantação, a densidade das árvores é 1000 vezes maior pelo que podem ser escolhidos os melhores terrenos (livres de inundação e mais próximos do alojamento) e o trabalhador não perde tempo a caminhar nem a desmatar o caminho. Desta forma, num dia de trabalho um malaio produzia 10 vezes mais do que produzia um trabalhador brasileiro e com menos esforço físico.
Se um brasileiro produzia 5 kg de borracha por dia, um malaio produzia 50kg.
O problema não estava na exploração do trabalhador.
Estava na concorrencia que a industrialização colocou aos produtores tecnologicamente atrasados.
Interessant Ferreira de Castro nunca ter colocado a questão "Como conseguem os malaios produzir a preços tão baixos?"
O problema das fazendas brasileiras estava na elevada produtividade das plantações concorrentes, com uma diferença de 10 para 1,o que induziu quedas nos preços de tal ordem que as fazendas brasileiras ficaram inviáveis e isto mesmo que o searense trabalhasse apenas para não morrer de fome.
Tanto era evidente que o negócio da borracha como era feito estava condenado que Ferreira de Castro colocou como últimas palavras do patrão antes de ser assassinado "não estou para meter aqui o dinheiro que ganho na criação de bois."
O William quando era gaiato, tal como milhares de crianças portugueses, queria ser um novo "ronaldo" mas, para isso, tinha que ter um bom treinador e jogar numa equipa de futebol e que fosse competitiva.
Estranhamente, mesmo com o melhor treinador do mundo, um jogador não evolui sem "jogo nas pernas" e num ambiente competitivo.
O problema é que uma equipa só pode jogar com 11 e não se podem meter todos os "jovens promessas" a jogar porque isso iria custar derrotas. Então, cada equipa só pode tentar alguns o que traduz um Custo de Oportunidade.
Vejamos o contrato da "jovem promessa"
O jovem promessa, sem formação nem jogo nas canetas, vale 600€/mês a jogar no Fanhões de Baixo.
Mas, com o devido apoio, pode vir a valer milhões.
Então, o Sporting, antes de lhe dar a formação ao potencial craque, faz um contrato de longo prazo.
Supondo que o jogador tem 12 anos e que vale hoje, num horizonte temporal até aos 35 anos, uma média de 600€/mês. Então, o valor actual do jogador será de 75000€ (taxa de juro de 3%/ano)
VA = 600*14 / 3%*(1-(1+3%)^-23)
Vamos supor que, por causa da concorrência, o sporting oferece um contrato até aos 35 anos de 1000€/mês, o que traduz um investimento acima do seu valor actual de mercado de 50000€.
A estes 50000€ acrescem as despesas de formação e o custo de oportunidade.
O Jogador joga muito.
Vamos supor que, chegado aos 22 anos, o jogador continua com os 1000€/mês mas que agora um clube estrangeiro está disponível a pagar 350 mil€/mês (até fazer 35 anos). Como o jogador tem um contrato de 1000€/mês com o Sporting então, pode ser trespassado por 43,5 milhões €.
Isto porque para o clube estrangeiro tanto dá pagar 350 mil€/mês como dar 43,5 milhões€ pela transferência ao Sporting e pagar 1000€/mês ao William.
O problema é que o jogador não vai querer jogar a ganhar 1000€/mês!
Numa divisão, em que A determina a proporção e B aceita ou recusa, caso em que ambos perdem tudo, quando Adá a B menos de 30%, é quase certo que B vai recusar perdendo ambos tudo. Se A proposer 50%, é quase certo que B aceita.
Neste caso, se o William receber pelo menos 120 mil€/mês, quase com certeza que vai recusar, deixando de jogar.
Se a 1000€/mês o jogador vale 43,5 milhões€, a 120 mil€/mês desvaloriza para 28,5 milhões€.
Qual é o poder negocial do William?
O único poder é a greve de zelo, pura e simplesmente, recusar a transferência e deixar de jogar.
Como ganha o mesmo, e este é o problema da "economia igualitária socialista" defendida pelo esquerdistas, não se esforça.
O problema n'A Selva acabou por ser a falta de incentivos.
E é referido pelo autor.
Como o trabalhador nunca mais se libertava da dívida, pura e simplesmente, deixava de trabalhar. Só fazia o mínimo para não morrer de fome e ter direito a uma bebedeira de vez em quando.
Má tecnologia e errados contratos de trabalho levaram as fazendas de borracha à falência.
Além de dever informação que permitisse calcular o salário, devia haver uma partilha do resultado extraordinário do esforço do trabalhador de, pelo menos, 30%.
Assim, primeiro, deveria ser dito o rendimento esperado do trabalhador:
A) Em média, um seringueiro consegue recolher 1000kg/ano de borracha que é paga a metade da cotação de Belém que é actualmente de 5$00/kg.
B) Em média, os mantimentos para um ano custam 3000$00.
Depois, deveria ser dado um incentivo extra:
C) Metade de tudo o que conseguires produzir acima dos 1000kg, vai directo para a tua conta-poupança
Finalmente, uma claúsula de salvaguarda para partilhar o risco:
D) Se, por alguma razão, ao fim de 5 anos não conseguires saldar a dívida, esta será perdoada e ficas com o saldo da conta-poupança e ainda 10% de tudo o que facturaste.
É o salário por objectivos.
Em vez do contrato do jovem jogador ser 1000€/mês terá que ter ainda objectivos:
A) 1000€ por cada jogo realizado na equipa principal
C) Uma claúsula de rescisão razoável.
Já me faz lembrar o André Carrillo.
Pressionaram o jogador, castigaram-no, proibiram-no de treinar e, no fim, pagaram um ano de salários, ele não jogou e receberam um monte de nada.
E o jogador também nunca mais se encontrou (porque o Benfica não tinha espaço para o meter).
Só espero que o Sporting tenha aprendido alguma coisa mas parece que não.
segunda-feira, setembro 04, 2017






















