É importante dar resposta a esta questão, colocada por um leitor,porque, tendo o Governo apoio maioritário na Assembleia da República, não parece ter qualquer lógica a tentativa actual do Passos Coelho de chamar o PS à tomada de decisão do governo.
Vou apresentar duas razões.
Fig. 1 - Como seria ternorento ver o Passos assim abraçado ao Seguro
1. Diminuirá o poder do CDS e dos populistas do PSD dentro do Governo.
Interessa ao CDS estar no poder (porque os seus militantes têm acesso aos benefícios do Estado) mas tem que, nessa posição, maximizar a captação de votos. Quanto mais o governo estiver dependente do apoio do CDS, mais as suas ideias demagógicas terão que ser adoptadas pelo Passos. Ter o apoio do PS fará com que diminua a capacidade do CDS marcar a agenda do Governo.
Passa-se o mesmo com os populistas do PSD, maioritariamente autarcas. Estão-se borrifando para o acontece ao Passos desde que aumente a sua influencia autárquica. Havendo apoio do PS, as vozes de burro que vão surgindo no PSD desaparecem.
Fig.2 - Diz o Portas, Só assino mais austeridade se me comprares meia dúzia de submarinos.
2. A ameaça do PS acabar com a austeridade estancou o caminho de redução das taxas de juro.
No curto prazo, até 18 meses, Portugal já se consegue financiar a taxas e juro bastante baixas, já com juro real negativo. Por exemplo, a última colocação 2000M€ de 18Abrl2013 a 12 meses foi a 1.394%/ano.
Com esta taxa de juro, na simulação que fiz no outro dia (Crescimento de 1.5%/ano e inflação de 2%/ano), com apenas 2% de saldo primário, reduzimos o actual endividamento de 130% do PIB para 60% do PIB em 20 anos.
É possível passar toda a nossa dívida que se vai vencendo para curto-prazo mas envolve muitos riscos de ruptura de tesouraria do Estado.
Por exemplo, se passássemos toda a nossa dívida pública menos a da Troika para 12 meses (130MM€), seria preciso rolar no mercado de dívida soberana cerca de 1.5% do PIB cada semana (2500M€/semana).
Primeiro problema - A taxa de juro parou de descer
Antes de entrarmos na Zona Euro, as taxas de juro eram muito superiores às taxas de juro do centro da Europa (Alemanha e França, D + Fr) principalmente porque tínhamos risco de inflação.
Mas, no processo de convergência para o Euro, a taxa de juro exigida à República foi reduzindo até ficar com um spread quase nulo face aos dois países nucleares da Zona Euro (ver, Fig. 3).
Fig. 3 - Evolução dos juros a 10 anos da dívida pública portuguesa e do "centro da ZE" (dados: BCE)
Seria bom se a nossa taxa de juro descesse para a tendência de longo prazo (3%/ano) mas o nosso primeiro problema é que, desde 1 de Janeiro, a taxa de juro deixou de descer estando estabilizada em torno dos 6.2%/ano (ver, Fig. 4).
Para esta taxa de juro, para reduzirmos em 20 anos o nosso endividamento a 60% do PIB já precisamos de um superavit do saldo primário de 6.5% do PIB, 11MM€, que não se me parece possível. Por isso, a nossa dívida de longo prazo ainda está insustentável.
Fig. 4 - Evolução recente das taxas de juro portuguesas de longo prazo (fonte: bloomberg)
O governo pensa que tal resulta do discurso agressivo do PS.
Alguém que empreste dinheiro a Portugal a um prazo de 10 anos, sabe que algures pelo meio vai ter um governo do actual PS. Então, ouvindo deles "acabe-se já com a austeridade" e "renegocei-se a dívida pública", ficam preocupados. Qualquer pessoa de bom senso antecipa que Portugal vai piorar ainda mais a sua capacidade e vontade de pagar o que deve de forma que não quererá emprestar dinheiro a Portugal a menos que a taxa de juro compense o risco.
Se o PS se tornar a comprometer com o Memorando de Entendimento, pensa o Gaspar+Passos que a taxa de juro vai recomeçar a cair, em esperança, até atingir os 3%/ano (e na taxa a 12 meses descer a barreira do 1%/ano).
Aqui está um problema mais grave pois traduz um descrédito de longo prazo do nosso país honrar os seus compromissos.
Antes de se das inicio à criação do Euro (em 1992), cada país tinha a sua taxa de juro que traduzia o risco de haver inflação. Nos anos 2003-2005 o nosso spread face aos países centrais (Alemanha e França) era de 4 pontos percentuais. Mas assim que aderimos à Zona Euro, o nosso spread caiu para zero.
Como a crise das dividas soberanas europeias nos atirou com spreads muito altos, a questão que se coloca agora é se, mesmo que a nossa economia responda bem, algum dia voltaremos a quebrar a barreira dos 4 pp (ver, Fig. 5). Actualmente estamos com um spread de 4.4 pp.
Fig. 5 - Será que algum dia vamos tornar a descer a barreira dos 4pp de spread?
A Irlanda ainda não o conseguiu.
No período 1993-1995, o spread da Irlanda era de 1.0pp e actualmente é de 2.1pp.
Eu já não acredito.
Por todas estas razões, o Passos está a queimar o último cartucho a ver se consegue endireitar o barco.
Talvez seja melhor termos um governo do PS com apoio parlamentar do PSD.
Ao discurso de "acabou a austeridade", as taxas de juro vão disparar. Depois o funcionamento da "política de crescimento" precisa de crédito que o PS vai tentar conseguir mandando o Galada mais o Sócrates, cheios de força, renegociar o memorando. Vão trazer um manado de urtigas.
Sem dinheiro e sem crédito, o PS vai-se ver obrigado a fazer reformas para ter algum dinheirito da Troika e aí, o PSD estará na oposição mas mais disponível para as reformas estruturais, a começar pela constituição, necessárias para termos um país moderno e rico.
Já não vimos isto em 1982-85? A tal reforma da Constituição que, partindo do PS, permitiu os Despedimentos Colectivos, os Contractos de Trabalho a Prazo e os Recibos Verdes?
Fig. 6 - Já não acredito que o Passos consiga segurar a nossa crise.
Pedro Cosme costa Vieira
sexta-feira, abril 19, 2013






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