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sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Poderemos continuar no Euro?

Muitas pessoas me têm feito esta pergunta. 
Quando, em 2011, a taxa de juro média da dívida pública estava acima dos 20%/ano, parecia  certo que Portugal iria abandonar o Euro e retornar ao Escudo. Falou-se muito na comunicação social desta contingencia que, decorridos apenas 2,5 anos, passou a ser um não-problema porque a taxa de juro média já está nos 2,7%/ano, bastante abaixo dos 4,1% de 2007, ano anterior à Crise do Sub-Prime (calculada para uma maturidade média de 3 anos).
Se com as taxas de juro de 2007, dos impostos que cada um de nós paga, 850€/ano são para juros, com as taxas de agora só teríamos que pagar 600€/ano para juros.
A crise finaneira está completametne ultrapassada. Mas o problema é saber se os fundamentos que deram origem à crise já foram ultrapassados ou se continuam no meio de nós.
Qual foi o problema que o Euro nos colocou? 
Foi acreditarmos que os salários poderiam subir todos os anos como subiam antes de 1995 até se equipararem aos do Luxemburgo.
Este erro levou  o Guterres ao poder para iniciar uma politica de rendimentos e preços totalmente desligados da realidade da nossa economia que nos levou a um endividamento externo insustentável.
O sórates fechou os molhos quando, num curto espaço de tempo, aumentou o Salário Minimo Nacional de 403€/mês para 485€/mês.

Para que serve a moeda própria. 
Um país tem moeda própria para poder ajustar as suas contas com o exterior, medidas pelo défice da Balança Corrente. Se, num período, um país passar a importar mais do que exporta (mais o turismo e as transferências), o país passa a ter défice externo que precisa financiar com endividamento externo. 
O défice externo é difícil de controlar pelos politicos se as pessoas tiverem visão curta pois o endividamento faz o nível de vida melhorar no curto-prazo para o piorar no futuro (será preciso pagar a dívida mais os juros), quando já serão outros a governar. 
É tal qual aquelas pessoas que prejudicam todo o ano (a pagar prestações) porque tiveram uma grande passagem de ano, comendo leitão (em vez de frango) e andando de limusina (em vez de a pé), mas paga a crédito. 

A moeda própria permite equilibrar rapidamente as contas com o exterior.
Se exportamos menos do que o que importamos, desvalorizamos o Escudo face aos nossos parceiros comerciais o que faz diminuir o preço dos nossos produtos (face ao exterior) e aumentar o preços dos bens importados (internamente). Este duplo efeito faz diminuir a importações e aumentar as exportações. Se, pelo contrário, exportamos mais do que o que importamos, valorizamos o Escudo face aos nossos parceiros comerciais o que tem o efeito contrário.
Quando, por exemplo, o governo decretou um aumento dos salário mínimo nacional em 20%, a moeda desvalorizava, a inflação aumentava, e tudo voltava rapidamente ao equilíbrio anterior.
Os salários em Escudos ficariam iguais.
A desvalorização da moeda permite que os salários, as pensões e a despesa pública diminuam (face ao exterior) mas fiquem internamente iguais (em Escudos).
Desta forma, há a ilusão de que os rendimentos aumentam quando, na realidade, o seu poder de compra diminui (por causa do aumento dos preço dos bens e serviços importados).
Em termos psicológicos, as pessoas não penalizam eleitoralmente o governo pelo ajustamento via devalorização.
Desde 2006 passamos a ter um défice externo colossal.
O Guterres e, posteriormente, o Santana Lopes e o Sócrates pensavam que poderiam dar tudo a todos para todo o sempre. O Holland pensava o mesmo e o Seguro ainda o pensa.
Se calhar não pensavam bem isso nem o Seguro o pensa agora. O mais provável é estes políticos pensarem que, enquanto derem tudo a todos, conseguem manter os tachos e, quando o país rebentar, vão-se embora mas com pensões milionárias que o Tribunal Constitucional há-de proteger.
Fig 1 - Enquanto durar, dura e quando rebentar caindo na barriga e no quadril, rebentou. 
O Sean Sullivan é para alegrar as vistas da Sofia Santos.

Entre 1996 e 2010, o endividamento externo foi de 120% do PIB. 
Isto traduz que, nestes 15 anos, cada português se endividou face ao exterior em 20 mil €.
Uma família de 5 pessoas inflamou o seu rendimento com 100mil€ de endividamento externo.
Foram 250€/mês para cada trabalhador.
Este endividamento externo massivo causou um erro na percepção do rendimento disponível das famílias. Agora, os "cortes" que estamos a sentir é o reverso, não são uma verdadeira quebra de rendimento mas apenas o terminar desse endividamento externo.
No tempo do Sócrates endividamo-no sempre acima dos 10% do PIB, todos os anos.
Notar que o Durão Barroso conseguiu em 2 anos reduzir o défice de 10,3% do PIB para 6,5% do PIB mas os do PSD+CDS puseram-lhe os patins e veio o Santana Lopes que aumentou logo o défice para 8,4% do PIB.
Quem foi o ministro da finanças do Santana Lopes? (Veja a solução no fim que nem vai acreditar).

Fig. 2 - Défice da Balança Corrente (1990-2013, tradingeconomics)
Com o Euro, temos que ajustar pelos salários nominais.
Com o Euro, não podemos desvalorizar. Desta forma, o equilíbrio da balança corrente obriga a que os preços do bens e serviços que exportamos diminuam internamente o que apenas é conseguido pela redução dos custos do trabalho em termos nominais (redução dos salários em euros).
Como a queda dos salários induz contracção nominal do PIB, também é preciso reduzir a despesa pública.
Se os salários não diminuírem quando há défice externo, aumula-se dívida o que a prazo obriga a que a currecção seja feita pela subida da taxa de juro e pelo desemprego (como estamos a viver desde Jan2010).

Será que o nosso mercado de trabalho é suficientemente flexível?
Se o nosso mercado laboral não for flexível em baixa, no longo-prazo pertencer à Zona Euro terá um impacto negativo na  nossa taxa de crescimento do PIB.
Então, para podermos continuar na Zona Euro, a resposta a esta questão tem que ser afirmativa.

Tenho muitas dúvidas disso.
As sondagens darem maioria aos socialistas parece indicar que a maioria dos portugueses acredita no "outro caminho", no "caminho do crescimento e do emprego em austeridade", prometido pelos esquerdistas, em que podemos ficar no Euro sem descer salários nem pensões nos períodos de crise.

Mas o Holland dá-me alguma esperança.
Em 2012, o Holland chegou a presidente da França prometendo bater o pé à Sr.a Merkel e iniciar o "outro caminho". Claro que o "outro caminho" é apenas uma miragem pelo que o meia leca teve agora que avançar com o "caminho da austeridade".
Tenho esperança de que a falhada experiência francesa venha a ajudar os portugueses a ver de que há total necessidade de ajustar os nossos salários em baixa.

Bastaram 2 anos para derrotar o "outro caminho".
Na França, o Holland aguentou 2 anos om a conversa do "outro caminho" até que deu o braço a torcer.
No Egipto, a Irmandade Muçulmana também prometia um caminho de leite e mel. Apesar de anos e anos de repressão policial, a cada crise económica, a IM foi-se tornando cada vez mais populares até que, em 2011, a guerra civil parecia inevitável. A solução foi dar-lhes o poder para poderem implementar o prometido "outro caminho". O problema é que, ao fim pouco 2 anitos, o caminho foi tão desastroso que centenas de milhares de pessoas pediram nas ruas um governo militar.
Em Portugal, em 1974/1975 dois anitos de governo de influência comunista foi suficiente para os mandar, até hoje, para um canto da oposição.
Parece que 2 ano é a validae do governo demagógicos mas o Guterres aguentou 7 anos e o Sócrates  6 anos mas o nós temos a desculpa de termo sido enganado pelo crédito fácil (que acabou).
Fig. 3 - Estará o nosso povo, tal como os egipcios, convencido de que o "outro caminho" é um logro?

O ajustamento do salários é um sinal de esperança.
Até finais de 2011, as pessoas resistiram com todas as suas forças contra a descida nominal dos salários mas, finalmente, o mercado está a ajustar. Olhando para as estatísticas da Eurostat, desde 2011 os nossos custos do trabalho diminuíram 10% relativamente aos nossos parceiro da ZE12.
Este ajustamento permite que a nossa inflação seja menor que a da Zona Euro o que tem levado ao aumento das exportações e à diminuição do desemprego.
Fig 4 - Custos do trabalho em Portugal relativamente à Zona Euro 12 (fonte: Eurostat, Business, corrigido da sazonalidade e dos dias de trabalho)


Volto a estar pessimista - o PIB cresce cada vez menos.
Apesar de o nível de vida de um povo depender de múltiplas variáveis, o total de bens e serviços produzidos na economia é a componente mais importante. Todos nós sabemos que não é possível haver qualidade de vida sem acesso a bens materiais e por isso é que toda a gente grita a pedir mais salários e pensões e menos impostos.
O produzido por cada um de nós, em média, é medido pelo PIB per capita.
Então, para o nosso nível de vida melhorar, o PIBpc tem que aumentar. O problema é que o nosso PIBpc está a crescer cada vez mais devagar estando estagnado desde que entramos na Zona Euro.
Desde 2000 que temos crescimento ZERO VÍRGULA ZERO.
Se de 1985 a 2000 crescemos 3,7%/ano, entre 2000 e 2012 estivemos totalmente estagnados.
Tivemos 12 anos seguidos de "políticas de crescimento" liderados pelo Guterres, Santana Lopes e Sócrates, com défices públicos (em 2009 e 2010) e externo acima dos 10% do PIB, mas que resultaram num crescimento ZERO (-0,05%).
Fig. 5 - A taxa de crescimento anual do PIBpc português está há 40 anos a cair e há 12 anos que é zero (dados: Banco Mundial)

E estamos a divergir.
Em 1991 a Alemanha teve que digerir a economia da ex-RA o que lhe coloou sérios problemas. Isso mais a nossa entrada na CEE que actualmente se chama UE, pemitiu que convergissemos um pontos percentual por ano com a Alemanha.
O problema é que desde 2000, mesmo com endiviamento externo massivo, temos estado a divergir 0,5 pontos por ano.
Será que vamos continuar a divergir como no tempo das politicas de crescimento do Sócrates ou vamo quebrar essa tendência?

Fig. 6 - Racio entre o PIBpc português e o alemão.  (dados: Banco Mundial)

E fico ainda mais pessimista.
Muita gente pensa ser provável que, algures no futuro, o António Costa venha a ser primeiro ministro de Portugal. Mas, ao reparar que a Câmara Municipal de Lisboa reduziu os horários dos seus assalariados para 35 horas por semana, ganho a certeza que, nesse hipotético cenário futuro, vamos voltar aos tempos do Guterres+Santana Lopes+Sócrates de dar tudo a todos enquanto não rebentar.
Isto é totalmente demagógico e imoral porque o António Costa, por um lado, é contra o Passos Coelho estar a esmifrar os contribuintes mas, por outro lado, esbanja os nossos impostos para ser popular junto dos assalariados da CML.

Mas não é só lá.
O Magnífico Reitor da minha universidade queixou-se na comunicação social que os cortes  orçamentais para 2014 são intoleráveis porque põem em causa o funcionamento da instituição.
Mas eu recebi um e-mail da comissão de trabalhadores a dizer que o Magnífico aceitou, sem mais, uma redução de 6,25% no horário de trabalho semanal.

Como é possível?
Haver uma Lei da República que obriga a 40h/semana de trabalho para TODA A GENTE e depois cada cacique torpedear isso localmente?
As pessoas são funcionários públicos ou funcionário da "empresa pública XPTO", uma entidade empregadora livre de acordar o horário que lhe der na real gana porque sabe que os salário serão sempre pagos pelo Orçamento de Estado?
No limite, podemos ter funcionários públicos dispensadas de trabalhar.

Vamos Seguro, mostra coragem e manda isto para o Tribunal Constitucional.
 
Como é possível um trabalhador num local, seja uma câmara ou uma universidade, trabalhar 40h/sem e outro trabalhar 35h/sem ganhando ambos pela mesma tabela salarial?
A redução dos salários de alguns funcionários públicos viola totalmente os princípios constitucionais da igualdade (entre funcionários públicos) e da confiança (dos contribuintes de que os governantes usarão os seus impostos com zelo).

Fig. 6 - Essa tem graça mas eu agora vou fazer de morto pelo menos até às europeia.
Re-encaminhar para o Xé Xé Soares.
O que se pode concluir quanto à viabilidade da nossa permanência no Euro?
Não estou certo que, no longo prazo, seja positivo para Portugal pertencer a uma zona monetária que inclui países do centro da Europa cujas culturas e economias são, tudo indica, diferentes da nossa.
As crises económicas de 2002, 2008 e 2010 mostraram que temos muita dificuldade em ajustar e as expansões de 1996 e 2009 foram muito ténues e com elevado endividamento externo.

No longo prazo é preciso responder a 4 questões. 
1) No próximo período de expansão (2014-2015) vamos voltar ao desgoverno de 1995-2010?
2) Como irá ajustar a nossa economia quando aparecer a próxima crise (lá para 2017)?
3) Qual vai ser a taxa de crescimento do PIBpc na próxima década?
4) Conseguiremos inverter a tendência de divergência com a Alemanha?

Continuo pessimista quanto à nossa permanência no Euro.
Só se, em 2015, o povinho português rejeitar a ilusão do "outro caminho" dando o voto ao Passos Coelho é que eu me convencerei que temos algumas chances de continuar no Euro.
Actualmente ainda não acredito que o nosso povo esteja preparado para viver em Escudo.

Fig. 7 - Não compreendo o porquê da pergunta. Fui exactamente eu quem acabou com a "politica da tanga" do Durão Barroso e deu inicio à "politica de crescimento e emprego" que o Sócrates + Teixeira dos Santos apenas copiaram.

Pedro Cosme Costa Vieira.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

A União Europeia também vai acabar, brevemente

A formação de alianças é uma resposta à adversidade do meio ambiente.
Aqueles programas de animais que dá nas TVs às 12h de Domingo são uma aula prática sobre a dinâmica que levou à criação da União Europeia e que justifica a sua existência.
Vemos nesses programas que, quando num território existem leões, os búfalos juntam-se em grandes grupos com os machos do lado de fora protegendo, com uma muralha de cornos afiados, as fêmeas e crias.
Em resposta ao ambiente hostil, os machos abdicam dos seus interesses individuais (comer e ter as fêmeas só para si) e cooperam na defesa da própria vida e da manada.
Quando não existem leões, os búfalos espalham-se pela pradaria e os machos concentram-se nos seus interesses individuais lutando todo tempo com os seus iguais para os atingir.

Porque será que se formam grupos?
Porque o perímetro da circunferência aumenta linearmente enquanto que a área do circulo aumenta ao quadrado. Então, 15 machos formando uma muralha exterior de cornos protegem uma área onde cabem 15 fêmeas (1 fêmea para cada macho) enquanto que 30 machos protegem uma área onde cabem 60 fêmeas (4 fêmeas para cada macho).
Se, em condições adversas, um macho fica sozinho, é imediatamente submetido pelos leões.
A defesa à adversidade externa é a força que mantém unido o grupo.

Porque se desfazem os grupos?
Pertencer a um grupo também tem um lado negativo pois os indivíduos mais fortes, que poderiam derrotar todos os seus irmãos, têm que partilhar com os mais fracos a erva e as fêmeas.
Então, existe também uma força de repulsão que faz os individuos querer ser independente: a não partilha dos recursos escassos.
É por esta última razão, a partilha do petróleo, que o Kuwait nunca se quis unir ao Iraque.

Fig. 1 - A CEE, no contexto da Guerra Fria, construiu uma muralha de cornos 

Como construímos as nossas amizades de infância? 
Havia um matulão que queria bater em toda a gente e nós, os fracotes, formávamos um grupo que, pelo número, se tornava mais forte que o matulão individualmente. 
As amizades da guerra são das mais fortes que existem porque os soldados, em presença de um ambiente extremamente hostil, têm que formar grupos coesos e desenvolver uma confiança cega nos camaradas.
Por essa razão é que, na Gestão, nos programas de "Team Building" os indivíduos são colocados em ambientes onde se sintam desconfortáveis.

O tamanho e coesão do grupo é um equilíbrio entre as forças de repulsão e de atracção.
Quando a ameaça externa aumenta, a força de atracção sobrepõe-se à força de repulsão tornando o grupo maior e mais coesa. Quando a ameaça externa diminui, a força de repulsão torna-se dominante e o grupo diminui de dimensão e de intensidade.

Onde esta conversa explica a existência da União Europeia?
Quando a CEE - Comunidade Económica Europeia foi fundada em 1957, vivia-se na Guerra Fria e os países eram muito fechados.
Era muito pequeno o comércio de bens e serviços (as taxas alfandegarias eram muito elevadas).
Não havia mobilidade de pessoas. Os mais velhos recordam que era quase impossível obter um passaporte; que para se ir comprar uns caramelos a Espanha era preciso Visto e éramos revistados à saída e à entrada;  que era impossível ir trabalhar para um país estrangeiro.
A situação mais grave foi a construção da "Cortina de Ferro" para evitar que as pessoas saíssem da Europa de Leste.

Fig. 2 - No pós-WWII, a Europa Ocidental ficou cercada pela ameaça soviética a Leste e a islâmica a Sul

Mas essa fase foi, lentamente ultrapassada tendo a ameaça soviética acabado em 1991 com a queda do muro de Berlim e o comércio internacional no Mundo foi crescendo a uma cadencia constante. De 12% do PIB em 1960, o comercio internacional aumentou até os actuais 27% do PIB (ver, Fig. 3).

Fig. 3 - O comércio internacional tem aumentado 0.32 pp por ano
(dados: Banco Mundial, grafismo do autor)

O comércio internacional é muito importante
Porque permite que os países se especializem nas actividades em que têm vantagens comparativas. Por exemplo, em Portugal importamos algodão que usamos na tecelagem de lençóis que exportamos com lucro. Como o nosso clima não permite cultivar algodão, se não houvesse comércio internacional não poderíamos produzir e exportar têxteis e vestuário.

O comércio internacional da União Europeia tem aumentado mas ...
Mas esse aumento está paralelo com a média mundial. Assim, não resulta directamente do processo de integração europeia mas antes de cada vez mais países tomarem consciência de que a abertura das economias, as exportações e as importações e a movimentação de capitais, pessoas e ideias, é um factor muito importante do seu desenvolvimento.
Essa tomada de consciência levou a que, de um mínimo de 13 países em 1949 e apenas 26 em 1961 (no GATT), actualmente já façam parte da OMC - Organização Mundial do Comércio 156 países.
Actualmente, até Cuba e o Zimbabwé acham vantajoso pertencer à OMC.
O crescimento do comércio internacional que se observou no interior da União Europeia (de 20% do PIB em 1960 para os actuais 40% do PIB) está em paralelo com o que se tem observado na média do Mundo (ver, Fig. 4).
Fig. 4 - O comércio internacional nos países da UE e no Mundo (dados: Banco Mundial, grafismo do autor)

E até houve zonas do Mundo, fora da UE, onde o crescimento do comercio internacional foi muito superior. Por exemplo, a China e a Índia aumentaram o comércio internacional de cerca de 3.5% do PIB em 1970 para cerca de 30% do PIB actualmente (+ 0.6 pp/ano).
Por contrário, o Brasil mantém-se uma economia muito fechada tendo apenas subido de 7% do PIB (nos anos 1960) para os actuais 12% do PIB.

Como as ameaças acabaram, vêm ao de cima as forças que afastam os países
A principal força que empurra a UE para a dissolução é as pessoas do Sul da Europa acharem-se com direito a ter o mesmo nível de vida económico das pessoas do Norte da Europa e os do Norte da Europa não estarem disponíveis a transferir parte do seu rendimento para que essa ideia se materialize.
Quando havia a ameaça soviética, a Alemanha via essas transferencias como o "preço da paz". Agora que a Rússia se tornou um país quase normal, acabou a necessidade de pagar por uma coisa que está naturalmente garantida.
Os países do Norte da Europa não estão mais disponíveis para ajudar ao sustento dos do Sul pois têm o guarda chuva da Organização Mundial do Comercio, a ameaça da União Soviética acabou e a ameaça islâmica não se está a mostrar perigosa (e afecta mais os países do Sul que lhe estão mais próximos).

A tese de termos direito ao mesmo que os alemães é perigosíssima porque parece justa.
Porque diabo não podem os portugueses ter o mesmo rendimento que os alemães se somos todos feitos de carne e osso e até trabalhamos mais horas?
Vejamos com uma comparação como esta tese é perigosa.
Imagine que os habitantes da Quinta do Mocho (um bairro de Sacavém, Lisboa onde a generalidade das pessoas é pobre, tipo favelados do Brasil), se achavam com o direito de viver tão bem como os do Restelo (bairro fino de Lisboa) tendo as mesmas casas, os mesmos carros, passar férias nos mesmos sítios, etc.
Como é que isto se iria fazer?
Só se fosse com um generoso subsídio para a maioria das pessoas que vive no mocho pago com um pesado imposto sobre as que vivem no Restelo.
Caso contrário, os do Mocho dariam cabo do Restelo.

Fig. 5 - Moleque de favela já nasce com cara de marginal.

Agora vemos que o argumento da igualdade Norte-Sul não tem lógica.
À escala da Europa passa-se o mesmo não sendo possível acabar com as diferenças que existem entre o Norte e o Sul.
Viver na Europa do Sul tem vantagens (clima, vida relaxada) e inconvenientes (menor produtividade) não sendo possível manter as vantagens e exigir a anulação dos inconvenientes.
Por contrapartida, os Alemães quereriam o clima e o relaxe do Sul da Europa.
Isso só aconteceria se os alemães fossem viver para o Sul e todos fossem trabalhar para a Alemanha.
Isso não é fisicamente possível.

Mas subsistem algumas ameaças.
Como já não podemos justificar a existência da Zona Euro (e, em última análise, da UE) e as consequentes transferências de recursos do Norte para o Sul com as vantágens internas e ameaças externas, queremos justificar a sua existência com as ameaças internas, com o cataclismo do seu fim.
Todos rezamos para que a dissolução da Zona Euro e da União Europeia cause um prejuízo terrível principalmente à Alemanha e demais países do Norte.
É quase como os suicidas que procuram, com a sua explosão, causar no inimigo mais do que um morto.
Se ouvirmos o discurso dos esquerdistas, vai ser terrível porque a Alemanha não terá para onde exportar os seus Mercedes.

Mas isso é tudo mentira
Uma União Europeia em que cada país mantem as suas contas equilibradas é um factor de progresso da Alemanha mas tem que ser pesado o custo que a UE tem ao contribuente alemão e o benefício comercial que daí retira.
Neste momento, os custos estão maiores que os benefícios.

Fig. 6 - Amor, fiz 5 operações plásticas para ficar mais elegante. Acreditas?

Nós não só importamos da Alemanha como também exportamos para lá.
Portugal exporta 500 milhões de euros de bens para a Alemanha onde os automóveis têm um peso de 30%.
E será mais difícil para os países do Sul da Europa competir no mercado mundial que à Alemanha.


Fig. 7 - Importações e Exportações para a Alemanha (dados: INE, grafismo do autor)


Fig. 8 - Por cada euro que importamos da alemanha, exportamos 0.90€ (dados: INE, grafismo do autor)


Acabado ou reduzido o projecto União Europeia, continuaremos todos sob o guarda-chuva da OMC.
E manter-se-ão os acórdos multilaterais enquanto forem do interesse mútuo dos países onde se inclui, por exemplo, o FMI e a Interpol.
Estando a aumentar as forças de divisão (o custo de manutenção) e a diminuir as forças de união (os ganhos do comercio e as ameaças externas), é de prever que a UE vá diminuindo de intensidade transformando-se, a média prazo, em algo parecido com o MERCOSUR, depois a uma associação do tipo dos PALOPs e, finalmente, à nossa "mais velha associação do mundo" com a Inglaterra (transforma-se em nada).

Fig. final - Do quarto do hotel onde estou de férias vê-se Manhattan. Vamos amor, cansar.


Pedro Cosme Costa Vieira

terça-feira, 22 de novembro de 2011

O paradoxo alemão: olhem mais para o que dizemos e menos para o que fazemos

Será que a Alemanha se pode gabar assim tanto em termos de disciplina das contas públicas e nacionais (equilíbrio da economia)? Será que está a dar lições sem licenciatura (licença para ensinar) credível para tal tarefa docente relativamente aos seus pares europeus? Sabia que se dividirmos a dívida externa bruta por habitante, relativizando assim os valores para cada país, a Alemanha está pior do que Portugal? Sabia que há três défices das administrações públicas melhores do que o alemão e três outros que não andam longe?

Nós não fazemos assim tão bem os deveres de casa, mas vocês
têm a obrigação de fazer tão bem quanto nós, diz Merkel à Europa

O prestigiado Der Spiegel lembrou, ontem, que nada é assim tão espectacular em terras germânicas:


Nos primeiros prognósticos, a Comissão Europeia conta com uma taxa de endividamento de 81,7% do Produto Interno Bruto (PIB) para a Alemanha, em 2011. É claramente mais que o limite de 60% prescrito no Pacto de Estabilidade Europeia – o mesmo que o governo federal repete consecutivamente aos países do sul da Europa e que tanto gostaria de reforçar. Quem quer prescrever um endurecimento das regras melhor faria que as cumprisse primeiro.
Jean-Claude Juncker, chefe do Governo luxemburguês, tem direito a sentir-se indignado com o paternalismo alemão. Apesar da crise que atravessa, a Espanha, por exemplo, está muito mais próxima de cumprir o pacto de estabilidade, com uma taxa de endividamento de 69,6%, que a Alemanha. Até mesmo os holandeses (64,2%), ou os finlandeses (49,1%) estão mais bem colocados que os alemães para se arvorarem guardiões europeus da disciplina orçamental.

Esta atitude de professor arrogante tem um impacto na imagem do país, tal como sublinha o Der Spiegel:
Ao fazer o elogio arrogante da disciplina do estado alemão, o atual Governo faz imensos estragos na Europa. Na Grécia, em Espanha ou na Itália, onde eram estimados pelas suas virtudes – pelo menos, antigamente – os alemães são agora considerados os pais arrogantes do rigor, que pretendem ensinar às pessoas do resto do continente como devem viver e trabalhar. E isto não pode funcionar indefinidamente.

Factos e números falam mais do que palavras. Comparemos a dívida externa alemã com a portuguesa nos próximos dois gráficos elaborados pela BBC News (atente-se na dívida externa per capita que é maior na Alemanha):
ALEMANHA

PORTUGAL


Já repararam a quem a Alemanha deve mais? EUA, França e Itália, Reino Unido e Espanha. Não será por isso de estranhar que Merkel ouça Obama e que se reúna com pompa e circunstância com David Cameron, o primeiro-ministro que foi mandado calar por Sarkozy numa cimeira recente. Não é de espantar que Merkel pareça ultimamente mais decidida quando os mercados da dívida se começaram a voltar para Itália e para Espanha. O novo primeiro-ministro espanhol já telefonou a Merkel e tudo estará sob controlo...


Quanto ao défice das contas públicas, o Pacto de Estabilidade tem o limite de 3% do PIB. E como está a Alemanha em comparação com os seus parceiros? Em primeiro lugar, está a furar o Pacto de Estabilidade e, em segundo lugar, não é exactamente o campeão incontestado.
Alemanha tem défice de 3,3% em 2010 (segundo da esquerda para a direita)
Fonte: Eurostat
Quando a visão alemã do Mundo se baseia no seu umbigo, falha por vezes na autocrítica. Portugal recebeu recentemente uma visita da troika e um senhor alemão chamado Jurgen Kroger veio aconselhar os portugueses a baixarem os salários no privado. O campeonato da economia de valor acrescentado e da  inovação não é para todos e não interessa que esse clube onde a Alemanha está se alargue demasiado. Seria como admitir todos os clubes da II Divisão de futebol na I Liga. Muito engraçado e democrático, mas se a disponibilidade financeira dos clientes (empresas a publicitar, compra de direitos televisivos e espectadores) é finita então todos perderiam, uns mais do que outros, é verdade. No campeonato das exportações, a lógica é igual. Portanto, a receita de Kroger é colocar Portugal a competir com os asiáticos.

Jurgen Kroger acha que os portugueses devem
é competir com os chineses e deixar a Alemanha em paz

Os patrões até poupariam algum dinheiro (3,2 mil milhões de euros se cortassem subsídio de Natal e de férias), mas a quebra na receita fiscal poderia ser brutal. Qualificar recursos humanos implica salários mais altos. Veja-se o que Peter Cohan, guru norte-americano da inovação, veio dizer a Portugal (ler entrevista). É óbvio, caso contrário teremos fuga de quadros qualificados, como aliás já está a acontecer e nem houve propriamente cortes tábua rasa nos salários dos privados. Houve simplesmente congelamento e menor oferta de postos de trabalho, em parte devido à rigidez da nossa legislação laboral que intimida os patrões a arriscar no investimento em capital humano.

Pedro Palha Araújo

domingo, 5 de junho de 2011

Portugueses menos produtivos por hora trabalhada

Aquilo que parece nem sempre é. Os portugueses trabalham mais horas por ano ou até por semana do que os alemães. Circulou hoje esse facto como sendo notícia. Ora, quando Angela Merkel deu a entender que os países do Sul da Europa deviam trabalhar mais e ter menos férias, houve logo vários jornais (JN e económicos) que desmontaram o discurso com estatísticas do Eurostat e OCDE. O problema é que os portugueses produzem menos riqueza por hora trabalhada.


 Os europeus do Sul trabalham mais e às vezes durante mais tempo que os alemães, de acordo com um estudo baseado em dados da OCDE e Eurostat. Os números contrariam assim as declarações da chanceler alemã, Angela Merkel, que apontou um eventual laxismo social em Portugal, Espanha e Grécia. "Os alemães trabalham muito menos que os europeus do Sul. E também não trabalham de forma tão intensiva", disse Patrick Artus, chefe da secção de economia do banco francês Natixis e o redactor do estudo em questão. Chama-se a isto falta de produtividade do senhor Artus. Demorou umas semanas a concluir este facto e ainda levou consigo alguma comunicação social.

De acordo com números da OCDE divulgados em 2010, a duração anual média do trabalho de um alemão (1390 horas) é muito inferior à de um grego (2119 horas), de um italiano (1773 horas), de um português (1719 horas), de um espanhol (1654 horas) ou de um francês (1554 horas).

Excelente notícia? Não. Seria preferível estar como os alemães. Produzimos metade da riqueza por hora trabalhada. Basta observar o gráfico que se segue, cujos valores são os mais recentes e têm como valores paridades de poder de compra (PPS) e a base é UE 15=100. Um retrato deprimente.

Fonte: Pordata
Pedro Palha Araújo

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Alemanha e Europa: um casal com arrufos



“Recebo-te por minha esposa a ti, Europa, e prometo ser-te fiel, amar-te e respeitar-te, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, todos os dias da nossa vida”. Este está longe de ser o discurso germânico relativamente à União Europeia em geral e à Zona Euro em particular.

A crise da dívida soberana da Zona Euro exacerbou a desconfiança dos alemães no projecto europeu e uma esmagadora maioria diz que, só em situações de absoluta emergência, é que a Alemanha deve voltar a ajudar um país da união monetária.

As conclusões decorrem de uma nova sondagem da Allensbach, ontem publicada no "Frannkfurter Allgemeine Zeitung" e divulgada em Portugal pela versão online do Jornal de Negócios, segundo a qual 63% dos inquiridos responde "não ter muita" ou mesmo "quase nenhuma" confiança na União Europeia (UE), o que traduz um novo máximo histórico.

Há dois meses, a percentagem de alemães que se dizia descrente da UE era de 51%, valor que se mantinha relativamente estável desde 2005, segundo escreve a agência Bloomberg, citando o jornal alemão.
Os que se dizem crentes no projecto europeu passaram, por seu turno, de 37% para 26% no mesmo espaço de dois meses.

A mesma sondagem conclui ainda que uma esmagadora maioria, 83%, considera que a Alemanha só deve envolver-se na ajuda a um outro país do euro (para além da Grécia e da Irlanda) em situações de "absoluta emergência" e sempre no âmbito de um compromisso que force os ajudados a aceitarem "condições exigentes". Apenas 6% considera que eventuais apoios aos parceiros do euro devem ser concedidos de forma mais flexível.

Estes resultados sugerem que a crise da dívida soberana europeia promete ter fortes implicações no denso processo eleitoral que se avizinha na Alemanha e, consequentemente, na base de apoio parlamentar da chanceler conservadora (CDU) Angela Merkel. A partir de Fevereiro e até ao fim do ano, sete dos 16 Estados federados vão a votos. As legislativas estão marcadas para 2013.

Ora, segundo o FMI, a turbulência nos mercados financeiros da Europa irá continuar, pelo menos até meados do ano. É evidente que nessa altura já serão visíveis os bons ou maus resultados das medidas de consolidação orçamental, nomeadamente em Portugal, na Grécia (que já iniciou a caminhada da austeridade há meio ano) e a Irlanda, o país recém-resgatado pelo Fundo Europeu de Estabilidade Financeira. O comportamento da Espanha será decisivo para a Zona Euro. Veremos se este sentimento popular alemão se transmite directamente à senhora Merkel.

Fernando Ulrich (BPI) e o empresário António Murta (Pathena) disseram recentemente, no programa Prós e Contras, que as posições alemãs até são moderadas e que a disciplina orçamental germânica deveria ser a regra nos países periféricos. Quanto ao segundo aspecto, parece-me inquestionável: Portugal pode ser muito menos rico do que a Alemanha, mas quem não tem deve gastar em conformidade… Quanto ao primeiro aspecto, a ver vamos se essa moderação alemã se mantém por muito tempo e não me parece que as posições públicas de Berlim estejam a ser tão “soft” assim.

A Europa, enquanto projecto de união política (a determinados níveis) e monetária, poderá sobreviver se olhar para o seu passado. As diferentes nações estão historicamente habituadas ao conflito, mas a Europa sempre funcionou quando alguns dos seus dirigentes olharam para o conjunto e viram as diferenças. As características, pontos fortes e debilidades são muito distintas dentro desta diversidade europeia. Logo,  fazer tábua rasa e germanizar as políticas de 27 nações, ou até mesmo dos 17 Estados da Zona Euro, é utópico. O Plano Marshall nunca teria acontecido se os seus progenitores olhassem para a Europa numa perspectiva nacionalista.

Pedro Palha Araújo

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