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domingo, 24 de novembro de 2013

O "incumprimento" alemão

Quando em 1992 a Zona Euro foi criada 
ficou combinado que a inflação ficaria nos 2.0%/ano, o que tem sido cumprido à risca.
Olhando para os dados (Fig. 1), desde o momento que os câmbios ficaram fixos (Janeiro de 1999) até agora (Outubro de 2013) a taxa de inflação média foi de 2,03%/ano (dados, BCE).
O BCE não pode ser governado pelos chavões políticos que pedem sempre mais crescimento económico e menos desemprego tendo antes que fixar os olhos na inflação e, quando esta está abaixo da meta, aumentar a quantidade de moeda em circulação e vice-versa. Como existe um atraso no efeito das medidas do BCE nos preços, o banco central tem que ter um modelo de previsão da evolução futura da inflação que inclui diversas variáveis onde se incluem as taxas de crescimento do PIB e de desemprego mas isso não quer dizer que o BCE tenha em atenção estas variáveis quando implementa as politicas monetárias.
Apesar de desde 1998 (a crise do Sub-prime e das dividas soberanas) ter sido mais difícil controlar a inflação, mesmo assim, a média desde Jan2008 até Out2013 está nos 1.99%/ano (o desvio padrão aumentou de 0.33pp para 0.84pp). 

Fig. 1 - Inflação na Zona Euro (dados,  BCE)

Taxa de câmbio.
O BCE não faz (quase) nada para controlar a taxa de câmbio do Euro que resulta das forças de mercado. O manter a taxa de câmbio num determinado valor obriga, no curto prazo, a endividamento/crédito face ao exterior e, no longo prazo, a uma política de salários e preços compatível com a taxa pretendida.
Se, num patamar muito inferior à taxa de inflação, considerarmos que também compete ao banco central da zona monetária promover o equilíbrio das contas com o exterior (a Balança Corrente), então o BCE também tem funcionado muito bem.
Os dados (Fig. 2) indicam que entre 1Q:1999 e 2Q:2013 o saldo da balança corrente esteve totalmente equilibrada (um saldo médio de -0.01% do PIB). 

Fig. 2 - Evolução da Balança Corrente da Zona Euro (dados,  BCE)

Nas variáveis que medem a performance do banco central, o BCE aproxima-se da perfeição (inflação na meta de 2%/ano e balança corrente equilibrada).

Então, onde estão os problemas da Zona Euro?
Estão nos países.
Antes da criação da Zona Euro os países do Sul da Europa tinham taxas de inflação superior aos países do Norte da Europa e, associada, uma maior taxa anual de crescimento nominal dos salários. Estas diferenças eram corrigidas com desvalorizações das moedas do Sul relativamente às moedas do Norte.
Como o câmbio fixo é uma das formas standard de controlar a inflação, quando se criaram as bases da Zona Euro (em 1992 no Tratado de Maastricht) acreditou-se que, com o câmbio fixo, as diferenças nas taxas de inflação iriam rapidamente desaparecer.
O problema já na altura identificado é que o processo de correcção nominal pelo câmbio fixo tem impacto económico negativo que os governos tentam torpedear aumentando o défice público financiado externamente (politicas fiscais expansionistas). Para evitar que tal surgisse na Zona Euro, os países comprometeram-se a manter o défice público abaixo dos 3.0% do PIB e a divida pública abaixo dos 60% do PIB.

Mas o problema de base não era o défice público.
Era o défice público ser usado para evitar que os preços (e os salários) ajustassem.
Usando politicas expansionistas (défice público) os governos permitem que se mantenham taxas de inflação diferenciadas o que causa a divergência dos preços. Desta forma, nos países com maior inflação (em que os salários também sobem mais que a média)  o nível de vida aumenta mas as empresas deixam de conseguir exportar. Este efeito é o motor do desequilíbrio das contas com o exterior (a balança corrente).

Vejamos o nosso Salário Mínimo Nacional.
O ser humano tem o problema de desvalorizar as coisas que tem. Chama-se a isto a "depressão pós parto": a mãe pensa que vai ficar muito feliz por ter uma criança mas, mal ela nasce, deixa de dar valor a isso. 
Nós também somos assim relativamente ao nosso salário.
Em 1998 as pessoas trabalhavam 45h/semana e o salário mínimo era de 298,80€/mês. Se actualizarmos esse valor com a taxa de inflação e corrigirmos o horário de trabalho, em 1998 o SMN era de 350€/mês.
Estava tudo bem, o Jorge Sampaio era o Presidente da Republica e o Primeiro Ministro o Guterres e não achavam esse valor pequeno e muito menos inconstitucional. Diziam então que quem trabalhava era justamente remunerado e ninguém se preocupava com isso.
Entre 1998 e 2011 o salário mínimo aumentou 65% em valor e o horário de trabalho reduziu 11%. Agora, o custo horário já é de 3,66€/h. Nestes 13 anos o SMN aumentou 83%, 4.7%/ano, mais do dobro dos 2%/ano previstos no tratado de Maastricht.
Agora o SMN são 485€/mês e toda a gente diz que é pouco.

E o crescimento económico?
Parece claro que os salários têm que crescer com o crescimento económico. O problema é que, comparando 1998 (antes do Euro) e 2013, o crescimento económico per capita foi 0,3%/ano.
Nestes últimos 15 anos tivemos 10 anos de governos socialistas, com politicas de crescimento que resultaram num endividamento massivo e em 0,3%/ano de crescimento.
Como pode ainda alguém acreditar nessa lengalenga da "politica do crescimento"?
Mesmo acrescentando o crescimento de 0.3%/ano, para respeitarmos o que assinamos em Maastricht (2%/ano), em 2013 o SMN teria que estar nos 365€/mês (ou 410,00€/mês com 45h/semana).

E quem se comprometeu pelos portugueses no tratado de Maastricht?
Em 1992, o Cavaco como primeiro ministro e o Mário Soares como Presidente da República.
Algum juiz do Tribunal Constitucional disse que era inconstitucional impor ao nosso país que o preços e salários só aumentassem 2%/ano?
Nada e até fizemos uma revisão da constituição de forma a ser possível passar para a ordem juridica interna as consequências do tratado mas, afinal, não foi suficiente porque agora tudo é ajustamento nominal inconstitucional.
Os preços subirem 10% e as pensões ficarem na mesma é exactamente igual a manter os preços e descer as pensões cairem 10%. No entanto, a primeira hipotese é constitucional e a segunda já não.
Nós somos mesmo governados por mentecaptos.

A subida do SMN é um crime contra os pobres.
Vamos imaginar uma lei cujo objectivo é defender as chouriças pequenina.
Essa Lei diz que uma chouriça só pode fazer parte do cosido se tiver mais de 20cm.
Em que é que esta lei protege os homens com uma chouricinha pequenina?
Passa-se o mesmo com as pessoas menos produtivas.
Se o salário mínimo acabasse com a pobreza, eu defendia já que tinha que subir para 1000000€/mês. O problema é que subir o SMN não é arranjar emprego para as pessoas a esse salário. É apenas condenar as pessoas que produzem menos à inactividade e à subsidio-dependência.
O aumento administrativos do SMN manteve o PS no poder mas roubou-nos o crescimento económico (que foi de 0,3%/ano), atirou centenas de milhar de pobres (as menos qualificadas) para o desemprego e isto porque o Estado tinha dinheiro fácil (a crédito) para as apoiar como subsidio-dependentes (do Rendimento Mínimo Garantido e do Subsídio de Desemprego).
Mesmo que a pessoa quiser trabalhar porque precisa, vem logo a Inspecção Geral do Trabalho para o proibir.

Depois, os esquerdistas queixam-se do desemprego.
Tornou-se oficial o discurso de que "os empresários que não conseguem pagar um salários digno têm que fechar" e "nós como sociedade não podemos permitir que as pessoas sejam exploradas pelos patrões".
E fecharam mesmo.
Os esquerdistas que façam empresas cooperativas.
Falências e mais falências, desemprego e mais desemprego foram respondidos com subsídios e mais subsídios, défice público e mais défice público, dívida e mais dívida, importações e mais importações até que BUMMMMMM, em 2010 rebentou.
Vamos ver como se comportou a Alemanha.
Em resposta às crises de 2002 e de 2008 a Alemanha teve défice público mas não foi considerado um problema porque a balança corrente estava positiva (em 2002:2004 estava positiva em 48€/mês/pessoa e em 2000:2010 em 115€/mês/pessoa).

Fig. 3 - Défice público

Fig. 4 - Balança Corrente alemã (M€ por trimestre, EuroStat)

O défice público de hoje são impostos, com juros, de amanhã.
O Estado paga a despesa pública com impostos e endividamento. Mas a única forma que tem de pagar a divida pública é, no futuro, cobrar mais impostos.
Se o país tiver balança corrente equilibrada, a divida pública está na mão dos nacionais que, mais tarde, vão usar esses títulos para pagar o incremento nos impostos.
De facto, a divida pública não é riqueza nacional (existem trabalhos científico sobre o não-efeito-riqueza da dívida pública) porque as pessoas sabem que, mais tarde, vão ter que a usar para pagar os impostos necessários para o Estado a amortizar.
Se a balança corrente for deficitária, a divida pública é riqueza dos estrangeiros que não são sujeitos aos impostos do país devedor. Então, quando a divida pública é detida por estrangeiros, é muito mais difícil arranjar base tributária para a amortizar.

Já percebem porque a Alemanha pode ter défice excessivo sem problema?
A Alemanha não respeita o limite dos 60% (tem 80% do PIB de dívida pública) mas os preços e salários face ao exterior estão baixos o que faz com que a economia seja superavitária. Desta forma, a divida pública não é um problema porque está na mão dos alemães que, mais tarde, a vão usar para pagar impostos.
No Japão passa-se exactamente o mesmo. A divida pública é mais elevada que a nossa (em termos líquidos o FMI diz que o Japão tem 140% do PIB e nós temos 115% do PIB) mas é interna (e.g., o IVA já começou a aumentar, de 5% para 10%).

Fig. 5 - We love Germany

Mas não tem nada a ver com o BCE.
O défice público não tem nada a ver com a governação da zona monetário, é antes uma decisão de cada um dos países que a constituem e de haver quem empreste dinheiro para que os países possam financiar o défice.
Um país pode pertencer a uma zona monetária sem qualquer supervisão do banco central, tal e qual como quando a moeda era o Ouro. Por exemplo, entre 1991 e 2001 a Argentina pertenceu à zona do dólar americano.
O problema é que, se o governo quiser torpedear a convergência nominal, a sua taxa de inflação elevada vai tornar a balança corrente deficitária.
No próximo poste vou mostrar como as economias periféricas estão a caminho do ajustamento.

Pedro Cosme Costa Vieira

quarta-feira, 26 de junho de 2013

O FED, a causalidade e as expectativas racionais

A causalidade.
Na passada quinta feira, a Semi-Nova  (amiga da minha assistente operacional doméstica), ficou viúva.
- Mas porque morreu o homem? Foi acidente de trabalho? 
A minha assistente identificou que a causalidade foi:
- Como o Sergueianev bebia muita vodka então, o fígado rebentou.
Nos últimos dias tenho andado a convencer a minha mãe de que a Semi-Nova estava boa para tomar conta de nós (ou vice-versa). Claro que a minha mãe disse logo que ela era muito feia e magrita tal e qual uma colega da minha irmã mais nova que, por ser exageradamente feia, se casou com um preso que não se cansava de repetir, Tu és a mulher mais bonita que eu conheci na minha vida.
A rapariga imaginou a causalidade:
- Como ele me ama verdadeiramente então, acha-me muito bonita.
O problema é que o dito cujo omitia o fim da frase, "que conheci na minha vida prisional". Então, quando saiu em liberdade, deixou-a para todo o sempre. A moça ficou de rastos.
Afinal a causalidade era,
- Olhando para estes gajos então, tu és muito bonita.

Fig. 1 - Tens mesmo as melhores mamocas das que se vêm por aqui.

A cadeia trouxe à mente outra causalidade.
A minha mãe teve, em tempos tão recuados que eu não me lembro, uma rapariga como empregada doméstica. Apesar de ser gorda e parecida com um sapo que acabou de comer um saco de batatas, teve um filho que, algures na adolescência, se meteu pelos maus caminhos da vida. Começou por uma estadia de 2 anos "no colégio" por atirar o irmão ao poço e agora está a cumprir uma pena de 12 anos de cadeia por assaltos com violência.
Diz a minha mãe, Quando o João Paulo sair da cadeia, vai-se meter noutra brincadeira e não tarda nada, volta para lá  porque a cadeia é uma escola do crime.

Qual será a verdadeira relação?
Sendo certo que a percentagem de ex-condenados que comete crimes é maior que a percentagem de pessoas no geral, não terá a questão ser colocada ao contrário?
R2 -> "Estadia na cadeia" ---------------------> "Maior tendência a cometer crimes"
R2 -> "Maior tendência a cometer crimes" --> "Estadia na cadeia"
Em termos aparentes.
A relação de causalidade parece ter a ver com a precedência no tempo.
Se dou uma martelada no pé e, imediatamente a seguir, sinto dor então, a martelada causou a dor.
Quando eu era pequenino, volta e meia ouvia uma sirene que lançava ondas de barulho a quilómetros de distância.
óóóóÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓóóóó
Eu, na minha curiosidade infantil, vinha à rua e logo via alguns carros a passar a grande velocidade. Pensava eu para os meus botões, parecem os grilos a sair da toca quando eu lhes encharco a casa com a mangueirinha.
 
Fig 2 - Não tarda nada, o grilo sai a toda a velocidade.

Passados poucos minutos ouvia ao longe uma sirene que, mesmo sem ver de onde via, notava que se ia movendo, tiróri, tirori, tirori, tirori.
Finalmente, percorrendo o horizonte com os meus olhinhos pequeninos (mas que viam melhor que agora), não demorava muito a aparecer fumo na direcção em que o tirori se tinha calado.
Concluía eu que a sirene dos bombeiros era a causadora do aparecimento do fumo.
Afinal o que incendiava o fósforo era o barulho de raspar a cabecinha na caixa, zzzzzzzzzzzu.

Certo dia estavam 2 amigos no café
óóóóóóóÓÓÓÓÓÓóóóóóóóó - óóóóóóóÓÓÓÓÓÓóóóóóóóó
- É pá, tenho que ir rápido.
- Então pá, dizias que nunca, já mais, nunca mesmo, nem depois de morto mas afinal tenho que concluir que sempre te tornaste bombeiro.
-Toca a sirene ---> sais rápido ---> és bombeiro!
Não é nada disso, estás completamente enganado.
- Toca a sirene ---> saio rápido ---> arranjei uma amante toda boa cujo marido é bombeiro.

Será que hoje está calor porque os metereológos o anunciaram há uns dias?
Há 3 dias estava um vento frio mas os metereólogos anunciaram que hoje iria estar muito calor.
Será que foi o anúncio que induziu a onda de calor ou os metereólogos apenas previram, bem, o estado do tempo de hoje?

A precedência temporal não indica nada.
Penso que os meus exemplos convencem  que um acontecimento verificar-se antes de outro não obriga a que exista uma causalidade entre o primeiro e o segundo podendo mesmo a relação ser ao contrário.
Para que a causalidade exista tem que haver uma razão lógica que justifique a causalidade.
No caso da sirene dos bombeiros, mais tarde vim a saber que os bombeiros tinham um sistema de alerta que detectava os incêndios antes de ser ver fumo. O fumo e os bombeiros respondiam aos mesmo acontecimento (o incêndio).
Na economia existem relações empíricas que têm uma base teórica forte (por exemplo, se uma economia tiver mais capital então, o trabalho será mais produtivo) mas outras relações empíricas apenas existem porque a variável que a precede é como o cão que ladra antes dos assaltos.

Vamos ao caso do FED e da taxa de juro.
Uma das relações empíricas que existe mas que é do tipo "cão ladra -> ladrão vai entrar pela janela", é a relação entre a restrição de liquidez do FED e o aumento da taxa de juro.
Mas mesmo que o FED não fizesse nada, a taxa de juro subiria na mesma.
A diferença é que se o banco central não actuasse, nos períodos que precedem as crise económicas a inflação ficava muito baixa e nos períodos que precedem a expansão económica, a inflação subia muito.

Basta olhar para o ouro.
Há pessoas que pensam que se a moeda fosse o Ouro, haveria estabilidade dos preços. Mas se traduzirmos o nosso salário em gramas de ouro vemos que isso não é verdade.
Em Jul2010 o SMN seria de 15.645g/mês, em Jul2011 teria diminuído para 14.265g/mês, em Jul2012 já estaria nos 11.265g/mês para voltar em Jun2013 a ser 15.645g/mês. Nestes três anos, o SMN denominado em Ouro variou mais de 10%.

Fig. 3 - Cotação do Ouro Jun2010-Jun2013 (fonte: www.gold.org

Estimado Vivendi, 
É publicamente sabido que Ben Shalom Bernanke é judeu mas não é correcto referirmo-nos a uma pessoa desta forma porque há milhares de anos que ser judeu é motivo de perseguição.
Em Outubro de 2001 fui visitar Belmonte e, vendo a sinagoga fechada, sentei-me num degrau daquela rua estreita lá ao fundo da aldeia, já quase fora do casario em ruínas. Devo dizer que a arquitectura é horrível mas o Gehry está a desenhar outra.
Indo a passar uma velhota com um manado de couves à cabeça, meti conversa e logo se lhe juntaram outras duas ou três.
- As senhoras podem-me dizer onde mora aqui a comunidade judaica?
- Meu senhor, aqui não há judeus, só há uma velhota maluca que diz isso. Isso são tudo invenções de uns que vêm de Lisboa para ouvir um marroquino que vive na casa dessa maluca. Veja lá o senhor que ele diz que é pecado comer coelho e carne de porco.
Mas o pior estava para vir.
- Alto que se calhar o senhor é um desses de Lisboa.
- Se calhar, quem sabe.
Imediatamente viraram costas e continuaram o seu caminho.
Para recordar como nós portugueses somos intrinsecamente maus, recordo aqui António José da Silva, O Judeu.
Se o Vivendi disser publicamente que é judeu (mesmo não o sendo), verá que é imediatamente posto de parte mesmo por quem nunca imaginou e passará a viver com medo.
Isso é a maior prova de que, afinal, não vivemos num mundo livre e seguro.

A causalidade macroeconómica.
O trabalho de Muth (1961) Rational Expectations and Prices Movements ao afirmar que, tal como os metereólogos, os agentes económicos usam  toda a informação que têm disponível para prever o futuro (e não uma regra adaptativa simples), causou uma revolução na Teoria Economia.
Este trabalho foi a semente da Nova Macroeconomia Clássica (que os comunas denominam por neo-liberalismo) na qual se prova que as politicas de estabilização macroeconómica são ineficazes (e.g.Kydland & Prescott, 1977).
Depois de 1961 sabemos que os agentes económicos alteram o seu comportamento antes que se observe a variável à qual eles estão a reagir. 
Por exemplo, sabendo nós que em Outubro vem o fio, em Setembro começamos a arejar a roupa de lã.
Como os bombeiros sabem que nos dias de calor a probabilidade de haver incêndios é muito maior então, antes mesmo de aparecer a mais pequena das fagulhas, já os bombeiros andam pelos matos armados com baldes de água.

No mercado monetário acontece o mesmo.
O FED e demais bancos centrais têm que manter a inflação baixa, na ordem dos 2%/ano e para isso aumentam e diminuem a quantidade de notas em circulação na economia.
A inflação ser alta ou baixa não tem grande impacto na economia mas existe o consenso de que a melhor taxa é 2%/ano. A taxa de inflação não tem significativo impacto económico porque não altera as taxas de juro reais que no triénio 2009-2011 foram de 4.3%/ano com desvio padrão de 9.9 pontos percentuais (ver, Fig.4).

Fig. 4 - Relação entre taxa de inflação e juro real, 2009-2011 (dados: Banco Mundial, estimação ponderada, 85% da população mundial)
  
Como o banco central controla a inflação.
Aumentando (ou diminuindo) a quantidade de notas em circulação, aumenta (ou diminui) a inflação.

O Juan Gomez quer saber como o dinheiro chega aos nossos bolsos.
No longo-prazo, o banco central tem uma taxa de aumento da quantidade de notas mais ou menos fixas,
Taxa de aumento da moeda = Taxa de inflação + Taxa de crescimento do PIB
Por exemplo, se o crescimento for de 2%/ano e a inflação de 2%/ano, a quantidade de moeda aumenta 4%/ano.
Como existe em circulação cerca de 10% do PIB, esse aumento é de 0.4% do PIB, 680 milhões €/ano.
O Banco central dá esse dinheiro que ao governo que compra com ele coisas, indo assim parar ao bolso das pessoas.
No curto-prazo os bancos centrais usam diversos instrumentos desde a "janela de desconto" até à compra no mercado secundário de activos (operações de open-market) passando pela alteração das reservas obrigatórias da banco comercial.

O Nemo insiste que o investimento não é igual à poupança.
Mas é sempre (mesmo que o investimento seja involuntário) porque a variação de stocks faz parte do investimento.
Não tem nada a ver com as reservas bancárias pois existe variação involuntária de stocks mesmo numa economia sem moeda.
(Pedia-lhe o favor de reler  A moeda, o Crédito, o financiamento e o juro)

Concluindo, o FED não tem nada a ver com a subida das taxas de juro 
O que acontece é que os governadores dos bancos centrais sabem que quando o risco de recessão aumenta (a crise  aproxima), as pessoas querem guardar notas como activo de refugio o que, se não for respondido rapidamente, causa a queda dos preços. Então, quando a crise se aproxima, o banco central injecta moeda no mercado monetário.
Os bancos centrais antecipam a crise usando de forma cega uma multidão de variáveis de fácil leitura num modelo de previsão do desempenho futuro da economia, por exemplo, o algoritmo rpart do R. Pegam em coisas diversas como "consumo de aço", "número de chamadas telefónicas", "carros que pagam portagem", "pluviosidade do mês anterior", etc., para prever as necessidades de liquidez.
Em sentido contrário, os governadores sabem que, quando a crise se aproxima do fim, as pessoas deixam de querer ter tantas notas pelo que há necessidade de absorver a liquidez em excesso.
Não é que a restrição de liquidez do FED tenha impacto nas taxas de juro mas o FED e a taxa de juro apenas respondem em simultâneo ao fim da crise.

Não são os bombeiros irem passear nas florestas que causam os incendios florestais mas ambos (bombeiros e os fogos) respondem ao calor e à baixa humidade.

O Ouro também antecipa o fim da crise.
O Ouro mas não existe nenhum banco central que tente manter estável os preços em Ouro. Então, a cotação do Ouro aumenta na antecipação das crises (os preços em Ouro diminuem) e a cotação diminui quando se aproxima a expansão económica (os preços em Ouro aumentam).

Fig. 5 - As mulheres boas adoram o Ouro.

Pedro Cosme da Costa Vieira

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Será que o BCE fez a crise do Euro passar o "olho do furacão"?

A crise das dívidas soberanas europeias parece estar a amainar.
Olhando para a evolução das taxas de juro da dívida soberana dos países da Zona Euro, no último mês, e principalmente na última semana, as taxas de juro dos PIIGS desceram vertiginosamente. Se há um mês a taxa de juro da dívida portuguesa estava ligeiramente acima dos 10%/ano, hoje fechou nos 8.1%/ano.
Mesmo a taxa de juro grega desceu de 25.6%/ano para 21.6%/ano.

Comparando com as taxas de juro alemãs, estas taxas de juro traduzem que, há um mês, uma obrigação portuguesa de 100€ estava a ser transaccionada a 47.5€ e hoje está a se-lo a 56.6€ (uma valorização de 17%).
Estes valores traduzem que a probabilidade do Estado Português entrar em bancarrota nos próximos 10 anos (equivalente à grega em que "paga" 46.5% da dívida) diminuiu num mês de 98% para os 81% de hoje.
Foi um melhoramento muito significativo principalmente se atendermos que só hoje o juro português diminuiu 0.6%/ano.

Fig. 1 - Evolução das taxas de juro no último mês

Em oposição, as taxas de juro alemã têm subido.
Uma obrigação alemã de 100€ emitida a 1.17%/ano (a taxa de 20 de Julho), desvalorizou até hoje para 96.1€ (uma desvalorização de 4%).
É uma subida ligeira mas também tem o seu significado. Traduz que diminuiu, mesmo que ligeiramente, o risco percebido de a Alemanha abandonar o Euro.

Vamos ser optimistas.
Estes movimentos de taxa de juro parecem indicar que a Crise das Dívidas Soberanas Europeias já ultrapassou o seu ponto mais negativo começando agora, como disse o Pedro Passos Coelho no Pontal, uma mudança de tendência.
Isto não quer dizer que a economia vá recuperar rapidamente, que o desemprego volte instantaneamente aos 5% da população activa ou que a "austeridade" acabe de hoje para amanhã.
Muito antes pelo contrário, os credores acreditam que as medidas de contenção orçamental que os diversos governos estão a implementar estão de pedra e cal e que, havendo necessidade, esses governos têm determinação para avançar com mais medidas.

Estes movimentos parecem mostrar uma luz forte ao fundo do túnel.
Se depois deste ano de emergência se iniciar um período de rigor orçamental, alterações legislativas, desmantelamento das empresas publicas altamente ineficientes, algo semelhante ao que se viveu cavaquismo, podemos imaginar o fim da década de estagnação de 2002/2012 para passarmos a ter uma década de expansão económica.

Fig. 2 - Depois de tanto azar, esta será a primeira de muitas noites de prazer

Mas vamos ser pessimistas.
Alguma, senão a maior parte, desta movimentação das taxas de juro deve-se apenas ao anúncio do BCE de que vai comprar dívida pública soberana e, em termos económicos, este anúncio não vale nada.

Será que o BCE fez algo novo?
O BCE anunciou que vai fazer algo que é totalmente corriqueiro e que se chama "operações de open market".
Para controlar a inflação nos 2%/ano, os bancos centrais têm, principalmente, dois instrumentos:

Instrumento 1 - Operações de Open Market
O BCE "compra" títulos da dívida pública dos países e, em contrapartida, mete notas no mercado monetário aumentando a inflação. Se o Banco Central quer uma inflação de 2%/ano e a economia está abaixo deste valor então, o BCE faz operações de OM para que o nível geral de preços aumente.
Se o BCE comprar 100€ de dívida pública portuguesa, automaticamente, aumenta a quantidade de notas em circulação na Zona Euro em 100€.

Ao comprar os títulos de dívida pública no mercado, o BCE aproveita o desconto de risco pelo que assume o risco de haver perdas de bancarrota tal qual os demais operadores de mercado.
Por exemplo, se uma obrigação portuguesa a 10 anos foi emitida com um taxa de juro (um cupão) de 2%/ano, em condições normais valeria 100€. No entanto, como a taxa de juro subiu para 10%/ano, vale no mercado apenas 50.84€. Se o BCE compra por 50.84€ e tem esperança de receber, daqui a 10 anos, 100€ então, tem que assumir o risco de o país bancarrotar e não pagar.

O BCE usa "dinheiro novo" para comprar a divida pública (o que causa um aumento da taxa de inflação) e, em caso de precisar vender, "destroi" as notas que receber da venda (o que causa uma diminuição da taxa de inflação).

Instrumento 2 - A Janela de Desconto
O BCE oferece um determinado juro aos bancos que depositem dinheiro nos seus cofres (actualmente está nos 0%) e cobra uma taxa de juro a quem quiser empréstimos (em que os devedores têm que entregar colaterais. Actualmente está nos 0.75%/ano).
São as taxas de juro directoras do banco central.
Ao baixar as taxas de juro directoras, menos bancos querem depositar  e mais bancos querem levantar dinheiro aumentando a quantidade de notas em circulação.

No longo prazo, a criação de novas notas é feita pelos Estados.
De facto é o BCE que cria as novas notas mas, em termos contabilísticos, vai acumulando "lucro" que, no fim do ano, oferece aos Estados que o gastam nas suas despesas.
Se, no longo prazo, fosse preciso destruir notas, os Estados teriam que retirar dos seus orçamentos verbas para cobrir o "prejuízo".

Em termos económicos, dá no mesmo.
Em termos económico é igual o BCE fazer uma operação de open market ou alterar as taxas directoras.
A única diferença é que na operação de OM é o BCE que assume o risco de bancarrota dos países e no caso das taxas directoras são os bancos que ficam com o risco.

Primeiro problema - a inflação vai disparar.
A quantidade de moeda em circulação é pequena, cerca de 10% do PIB e não pode aumentar pois implica imediata subida da taxa de inflação.
E a inflação não pode fugir consistentemente da meta dos 2%/ano.
Neste momento de grande turbulência, a dificuldade de controle da taxa de inflação aumentou (medido pela oscilação da taxa de inflação) pelo que a actual taxa de 2.5%/ano não traduz que o BCE tenha abandonado o seu mandato de controle da inflação. Mas vai ter que descer para os 2%/ano.

Fig. 3 - A inflação está na margem aceitável mas tem que descer

Então, onde vai o BCE buscar o dinheiro para comprar a dívida pública?
O anuncio é que o BCE vai deixar de emprestar dinheiro aos bancos na exacta medida em que comprar dívida pública. Por cada 100€ de divida pública que comprar, são menos 100€ que emprestam aos bancos.
Ora bolas.
Isto é só mudar de um instrumento de política monetária (janela de desconto) para outro instrumento.

Segundo problema - as taxas directoras vão disparar.Para manter o nível de inflação com a compra ilimitada de dívida pública, o BCE tem que "esterilizar" esse dinheiro aumentando as taxas directoras.
Desta forma, as instituições financeiras depositarão mais notas no BCE e menos instituições pediram notas emprestadas.
Se antes os bancos compravam dívida pública e, depois, usavam esses títulos como colateral nos pedidos de empréstimos junto do BCE, agora o BCE compra directamente os títulos e os bancos deixam de ter esse papel de intermediários.

Então, a economia vai ficar igualmente estranguladaSe é preciso arranjar dinehiro para comprar dívida pública, o BCE precisa captar mais depositos e emprestar menos dinheiro.
Se antes se advinhava uma trajectória descendente das taxas de desconto e da relacionada EURIBOR, agora eu passa a antecipar uma subida.

Os Estados têm que manter a consolidação orçamental.
Porque, em termos económicos, o resultado vai ser exactamente igual só que agora o BCE assume o risco de bancarrota dos Estados (e não os bancos) e os correspondentes prémios de risco (os diferenciais de taxa de juro para a dívida pública alemã).
Se os Estados se continuarem a endividar à velocidade a que estavamos habituados, o crédito necessário pelos Estados vai secar todo o crédito do mercado.

E porque sobem as taxas de juro alemãs?
É que o BCE vai fazer uma compra diferenciada.
Segundo a prática corrente, a compra de dívida pública seria proporcional à importancia das economias de cada país. Por exemplo, a Alemanha tem um peso de 25%, então o BCE numa operação de 1000€ compraria 250€ de dívida pública alemã (e 2.6€ de portuguesa).
Agora vai abandonar essa proporção.
Vai vender dívida pública alemã, holandesa, filandesa e dos demais países sem dificuldades financeiras para comprar dívida pública portuguesa, grega, e demais falidos.

Terceiro problema - os alemães não gostam disto.
Apesar de a decisão ter sido implementada mesmo com o voto contra da Alemanha, há a possibilidade da Alemanha sair da Zona Euro.
Apesar de dizerem que não está previsto nos tratados a saida de um país da Zona Euro, ninguém pode obrigar um país a estar na Zona Euro.
E tenho lido, as sondagens indicam que cada vez mais alemães, holandeses e finlandeses estão  a favor da saida dos seus países da Zona Euro.
Tenho a certeza que se a inflação subir significativamente acima dos 2%/ano ou se as taxas directoras subirem acima dos 5%/ano, a Alemanha sai do Euro.

Mas não terá a Alemanha muito a perder?
Mas isso é um problema dos alemães. É tal e qual a guerra da Siria.
Os lutadores pela liberdade perdem a vida mas não querem ficar mais sob o jugo do tirador.

Fig. 4 - Depois de tanto azar, esta puta levou-me o pouco que me restava.

E os aumento da TSU?
Lá está nas medidas que eu enviei ao Governo em 20 Set 2011, é a alternativa 3.
Mas os ex-meus subsídios vão arder na mesma.
Para quem começou por perder 10% em 2011,
Mais 14.3% em 2012.
Pelo menos, vou manter o meu salário e o meu emprego.
Já não são só má notícia.

Os comunas dizem que:
Diminuir de 23.5% para 18% dos patrões são 5.5% do salário enquanto que aumentar de 11% para 18% do empregado são 7% do salário traduz um aumento dos impostos em 1,5% dos salários.
Se actualmente a TSU é (23.5% + 11% = 34.5%) passará a ser (18% + 18%) = 36%
Mas não é bem assim porque os 7% que os trabalhadores vão pagar a mais vai ser deduzido à matéria colectável em termos de IRS.
Se anteciparmos uma taxa média de IRS de 20% então, o aumento de 7% traduz-se numa redução de IRS de 1.4% do salário.

O Passos fez contas para que desse ela por ela.
E não prevê que o lucro das empresas aumente porque está tudo falido.
As contas só se fazem no fim mas o aumento de 7% dos trabalhadores não vai ser muito diferente da diminuição dos 5.5% dos empregadores.
Mas ainda haverá necessidade de arranjar muita passa para controlar o défice e que ainda está por anunciar.

Pedro Cosme Costa Vieira 

sexta-feira, 6 de julho de 2012

A crise do ChISP e a descida da taxa de desconto do BCE

Como Portugal é um país muito endividado face ao exterior, uma descida da taxa de desconto do banco central (a taxa de juro) parece ser positiva. No entanto esta descida é globalmente uma má notícia.

Fig. 1 - Digamos que a coisa está a ficar muito feia.

1. Os agentes económicos portugueses que estão endividados face ao exterior não se conseguem financiar à taxa de desconto do BCE nem à taxa EURIBOR.
Estas taxas são aplicadas apenas a agentes económicos sem risco (de bancarrota ou cambial) que não é o caso do Estado Português, dos bancos portugueses nem das grandes empresas portuguesas.
Apesar de repetidamente os agentes políticos e económicos da área dos comunas dizem que "a yield da dívida pública é no mercado secundário pelo que ninguém a está a pagar", o certo é que as grandes empresas portuguesas já começaram a captar financiamento nas famílias portuguesas a taxas de juro entre 6%/ano e 7%/ano e em crescendo.
Os bancos portugueses conseguirem financiarem-se a essa taxa de juro é uma negociação política com os nossos parceiros na Zona Euro que traduz uma ajuda encapotada e não uma decisão economia racional.
Como a Sr.a Merkel não consegue justificar junto dos eleitores alemães o subsídio das taxas de juro dos créditos concedidos aos PIIGS, usam umas linhas de crédito do BCE para fazer isso. Sem quase ninguém dar conta.

O risco do ChISP é principalmente cambial.
Actualmente, o risco do Chipre, Itália, Espanha e Portugal, é principalmente cambial pois existe uma forte probabilidade de estes países decidirem (por dificuldades em ajustar a economia em câmbios fixos) abandonar voluntariamente a Zona Euro.
A Grécia é um caso perdido que merece ser colocado à parte porque, além do risco cambial, mantém um muito elevado risco de bancarrota descontrolada.
Assim, é conveniente enterrar os PIIGS e passar a falar do ChISP.
No outro dia obriguei os meus alunos a falar sobre "a união monetária" e todos disseram que, "actualmente, Portugal não tem risco cambial face aos nossos parceiros da Zona Euro".
Isto está errado porque, apesar de termos cambio fixo com esses países, existe o risco de sairmos e desvalorizarmos. Este risco materializa-se na taxa de juro e obriga a termos contas públicas e balança corrente sólidas e durante muitos anos.
Por causa do risco cambial é que os negócios da família Soares dos Santos mudou o local de realização dos seus contratos para a Holanda. A generalidade das grandes empresas estão a ser obrigadas a realizar os seus contratos subordinados à lei luxemburguesa, holandesa ou inglesa.
É o descrédito de que manteremos o actual cambio (de 200.482 Escudos por Euro) no médio prazo.

Fig. 2 - Mortos os PIIGS, vivas ao ChISP


2. Vão diminuir a prestação dos créditos à habitação indexados à EURIBOR
porque esta taxa de referência da Zona Euro tem tendência a diminuir quando a taxa de desconto do BCE diminui. Uma coisa não causa a outra mas estão ligadas pelos fundamentais da conjuntura económica.
No entanto, como os nosso bancos não se conseguem financiar a essa taxa, esses os contratos passam a dar mais prejuízo o que obriga ao Estado Português a injectar mais capital no sistema bancário.
Esse capital público é obtido a uma taxa muito superior à EURIBOR e vai-se traduzir em mais impostos e mais austeridade pública.
Por isso, a vida das famílias que estão endividadas melhora pela descida da EURIBOR mas a vida de todas as outras piora por os impostos terem que aumentar para compensar as perdas dos sistema bancário.
É apenas uma transferência de rendimentos das famílias menos endividadas (os mais velhinhos) para os mais endividados (os mais novinhos).


3. A descida para valores historicamente baixos da taxa de desconto antecipa que a Zona Euro vai entrar numa crise historicamente grave.
Como eu já expliquei (O Cavaco Está maluco: o BCE não pode salvar a Itália nem ninguém), quando se antecipa uma crise, os agentes económicos querem ter mais liquidez, mais notas.
Isto, em termos psicológicos, resulta de as pessoas acharem que a moeda é um activo sem risco.
Como aumenta o risco das empresas, famílias, Estados e bancos falirem, as pessoas querem ter mais liquidez.
Claro que existe o risco do poder de compra das notas diminuir mas, se o Banco Central tiver como mandato manter a estabilidade dos preços, esse risco é pequeno.
Se a quantidade de notas se mantiver constante, haverá falta de dinheiro na economia o que faz diminuir os preços, haverá deflação.
Então, olhando para a evolução do PIB e da inflação na "crise do subprime" que começou em 2007 e atingiu fortemente o PIB da Zona Euro em 2009, o padrão está-se a repetir com a crise das "dívidas soberanas" dos PIIGS que começou em meados de 2010 e começou a ter efeito no PIB da Zona Euro no princípio de 2011 e vai, prevê o BCE, ter um impacto terrível em 2012/13.

Fig. 3 - O BCE desceu a taxa de desconto porque antecipa uma crise económica muito grave, com deflação e contracção violenta do PIB (dados: BCE)

Fig. 4 - Vai ser preciso apertar forte em mais algum lado.

3. O BCE não alterou a sua política monetária.
O mandato do BCE impõe uma taxa de inflação de 2%/ano e, indirectamente (porque está dependente do financiamento externo aos Estados e aos privados), uma balança corrente equilibrada.
E isto está a ser perfeitamente cumprido.

Fig. 5 - O BCE mantém, numa mão, a inflação nos 2%/ano e, na outra mão, uma balança corrente nula.

No entanto, colocam-se dois desafios a este mandato:
A) A inflação da Zona Euro está difícil de controlar por a variabilidade da taxa de inflação estar elevada.
Fig. 6 - A taxa de inflação (média de "24 meses" alisada exponencialmente) na Zona euro está em torno dos 2%/ano mas a sua variabilidade aumentou de 0.3 pp em 2006/8 para 1.0 pp em 2009/12

B) Os colaterais usados pelos bancos na obtenção de liquidez são heterogéneos porque são, principalmente, dívida pública dos países onde estão residentes, que tem níveis de risco diferentes.
Por exemplo, uma obrigação de dívida pública portuguesa a 30 anos emitida ao par com um cupão de 3.5%/ano estão a ser negociadas a 40% do valor nominal (por exemplo, 100€, juros de 3.5€ no fim de cada ano, vendida por 100€, estão a ser negociadas no mercado por 40€).
Então, quando um banco pede liquidez ao BCE, esta obrigação com o valor nominal de 100€, servirá de garantia de 100€ ou de apenas 40€?
Antes da "crise" serviriam como garantia de 100€ mas agora, o valor refere-se a 30 de Setembro de 2011.
Mas porquê esse dia?
As obrigações Espanholas, Gregas e Italianas já desvalorizaram bastante desse esse dia.

C) E o mercado interbancário desapareceu.
Os grandes bancos emprestam liquidez entre si sem garantias (sem colaterais). Se, por exemplo, o BCP tinha falta de liquidez porque um cliente transferia electronicamente 1M€ para o Deutch-Bank, o BCP pedia no interbancário (em concorrência) a um banco qualquer e optava pelo que lhe fizesse a taxa de juro mais baixa.
Todos os dias de manhã, os bancos reportam à REUTER as taxas dos seus contractos do mercado interbancário, esta retira 15% das taxas mais elevadas e mais baixas e calcula a EURIBOR como a média dos restantes 70% dos contratos.
Neste momento, os bancos que conseguem obter empréstimos de colegas sem garantias são muito poucos pelo que o BCE tem que funcionar como intermediário do sistema o que aumenta em muito o volume de transacções que tem que fazer diariamente e a necessidade de notas (porque o BCE é menos rápido a fazer transacções que o verificado no mercado interbancário)

Fig. 7 - No último ano, o total de activos do BCE aumentou de 2000MM€ para 3000MM€ (os tais 1000M€ das operações LTRO), fonte: bloomberg


Fig. 8 - Porque os bancos depositaram 750MM€ no BCE. fonte: bloomberg

4. Sobre as gajas boas.
Existem pessoas que dizem que eu, ao endeusar as gajas boas, estou a diminuir as outras.
Que as mulheres devem ser vistas como "o santuário da vida" e "a mãe de toda a Humanidade" e não como gajas boas, boas para carimbar.
Mas ver a mulher como um santuário é reduzir a mulher à função reprodutora. Reduzi-la a uma tecnologia.

Certo dia, numa reunião em Bruxelas, o Bocage encontrou-se com a Sr.a Merkel.
Diz a Sr.a Merkel:
- Na Alemanha fazemos aviões, centrais nucleares, mercedes e muitas mais coisas de alta tecnologia. O Bocage, conhecido homem de argumentação fácil, diga lá o que se faz em Portugal que use tecnologia de ponta superior ao que usamos na Alemanha?
Diz o Bocage:
- Tecnologia de ponta, alta tecnologia, ... bom ... é mais tecnologia deitada.
- Há algo muito sofisticado que fazemos no nosso querido Portugal com tecnologia 100% local.
- Fazemos pessoas ...

Todas as mulheres podem ser gajas boas e apetitosas
Mas dá trabalho e obriga a um grande esforço.
Cortar no que se come, fazer uma caminhada/corridinha de 60 minutos por dia, usar um penteado fixe, ser simpática, aprender uns cozinhados e ter uma conversa construtiva (ao contrário da mulher normal que é rabugenta).
E podem mesmo usar um perfume discreto num sítio estratégico (tipo, atrás da orelha, no umbigo ou mesmo na parte que o decote mostra) para poderem usar a técnica do "cheira aqui a ver se gostas deste perfume novo".
Na primeira vez podem ficar um bocadito coradas mas, pumba, já está engatado no anzol.
Custa mas dá resultado certo.
Garanto que mesmo as que são mais feias ficarão rapidamente boas e apetitosas.
Volte a repare na Fig. 5. Será que é uma mulher feia? Não interessa porque é boa como o milho.

Fig. 8 - Se esta chinoca se transformou numa mulher altamente apetitosa, até uma professora universitária é capaz de o atingir.

5. O chumbo do corte dos subsídios pelo Tribunal de Contas.
A constituição dá ao Governo total liberdade para carambiar o povo com impostos.
Pode-nos carregar com IMI, IVA, IRS, IRC, IPP, TSU, .... .... ... ... ... ... .... ... sem fim.
Pode-nos ainda carregar com taxas moderadoras, de recolha do lixo, de esgotos, ... ... ... ... sem fim.
Mas os Passos Coelho decidiu inventar por dois caminhos.
Primeiro, cortou os subsídios que fazem parte das remunerações do trabalho.
Segundo, aplicou só a alguns porque "os outros não nos interessam já que não têm impacto orçamental".
Foi um erro que eu ataquei desde o princípio.

A redução deveria ter sido pelo aumento da TSU
ou uma sobretaxa no IRS como fizeram no caso dos subsídios de Natal de 2011 aplicada a todos.

A soma obtida nos privados deveria ser devolvida aos empregadores para reduzir os custos do trabalho.
Em termos finais é igual cortar os salaríos ou aumentar os impostos mas o Passos queria dizer que diminuiu a despesa em vez de dizer que aumentou os impostos.
Agora, apenas tem que arrepiar caminho e aplicar o corte a todos com um imposto.

Passos, esta derrota pode ser transformada numa vitória.
Podes usar isto como arma terrível contra os do PS que levantaram a questão. Como convém repor a "legalidade constitucional" o mais rapidamente possível, avanças já para um orçamento rectificativo em que repões o subsídio de Natal aos funcionários Públicos e metes uma sobretaxa de IRS sobre o Subsídio de Natal de todos, públicos, privados, activos, reformados.
Não precisas de excepções nem nada dessa confusão. Até queles que recebem pelos fundos de pensões dos bancos chumbam.
Dirá o Passos:
-Eu não queria cortar mas os do PS, ao levantarem a questão junto do Tribunal constitucional, obrigam-me a faze-lo. A culpa é desses deputados.
E também ajudas o bócó do Seguro.

Fig. 9 - O Governo decidiu inventar e deu um nó cego. Agora, ganha vantagem transformando isso numa atracção de circo.

6. A morte do Yasser Arafat.
Eu sou vitima de muita desinformação. Dizem muita coisa de mim que não corresponde minimamente à verdade. Por exemplo, dizem que sou um génio o que é verdadeiramente exagerado.
Mas isso acontece em toda a parte e com toda a gente.
Um exemplo é a morte do Arafat que, alegadamente, alguém de um laboratório conceituado da Suíça, diz ter sido, possivelmente, causado por Polónio 210.
Isso é totalmente impossível de ter acontecido e só agora se ter dado conta.

O que é o Polónio 210.
É um isotopo sintético de que são produzidos cerca de 100g por ano (quase totalmente na Rússia) em reactores nuclear de muito elevado fluxo, para produzir radiação alfa. E só pode ser produzido em reactores do tipo CANDU (canadiano) ou RBMK (soviético) pela irradiação de Bismuto 209.
Como não pode ser produzido em mais nenhum tipo de reactor e Israelitas não têm reactroes deste tipo, logo, não poderiam ter produzir este isótopo.
Podem produzir bombas nucleares mas não este isótopo.

É uma substancia muito venenosa.
é útil na produção de radiação alfa mas é a substancia mais venenosa que a Humanidade conhece.
Calcula-se que 1g de 210Po é capaz, se absorvida em "condições perfeitas", de envenenar 20 milhões de pessoas matando metade, 10 milhões, dessas pessoas.
Em termos "práticos", se diluirmos 1g de Polónio 210 em 5 tonelada de açúcar, a ingestão de apenas um grau desse açúcar contaminado, teria 50% de probabilidade de causar a morte da pessoa.

Mas o 210Po auto destroi-se.
Por ser muito radioactivo, a cada 138.4 dias, a quantidade de 210Po reduz-se a metade transformando-se em Chumbo 206 que existe em tudo que é sítio (porque a Gasolina usava chumbo como anti-detonante).
O Yasser esteve doente um longo período de tempo o que indicia que a alegada dose foi pequena, da ordem das 0.0000001 g (0.1 micro gramas).
Morreu em Nov 2004, já lá vão 20 semi-vidas o que traduz que a alegada dose se reduziu 2^20 vezes.
Então, a concentração e a radioactividade do material reduziu-se desde então 1 milhão de vezes.
Se a alegada dose já era inicialmente tão pequena que não foi detectada, ao estar 1 milhão de vezes menor, deixou de ser verdadeiramente impossível de detectar.
Acresce que a pessoa excreta 50% da dose inicial pela urina em cerca de 30 dias (tempo que mediou a indisposição do Arafat e a sua morte) pelo que a dose actual está reduzida a 2 milhões de vezes inferior à dose inicial.

Fig. 10 - Se fossem os israelitas, tinham feito com àquele gajo da cadeira de rodas, o Ahmed Yassin.
BUMMMM. Só ficaram duas rodas retorcidas, um pneu rebentado e os chinelos do homem e do que empurrava o carrinho.

Fig. 11 - O Asterix explica porque ficaram os chinelos.


Fig. 12 - O coitado era tão boa pessoa que está no Céu com 70 virgens, uma agarrada a cada pedaço.

Pedro Cosme Costa Vieira.

domingo, 1 de abril de 2012

Bancos de costas voltadas para a economia

A questão é pertinente. Os spreads dispararam, a corrida ao BCE por parte dos nossos bancos, para ir buscar liquidez a 1%, é um fartote e os depósitos dos bancos europeus (não se sabe em que medida dos nossos) é frequente, pese embora esse dinheiro depositado no BCE chegue a ser remunerado abaixo de 1% ao ano. E este dinheiro depositado no BCE fazia falta à nossa economia real (das empresas). Há empresas com spreads de 5% ou mais, isto quando conseguem algum crédito bancário depois de prestarem garantias colossais.


Efeito boomerang: empréstimos-depósitos no BCE

O financiamento do Banco Central Europeu à banca portuguesa aumentou em Fevereiro pelo quarto mês consecutivo, atingindo uma soma de 47,55 mil milhões de euros. O BCE injectou, no final de fevereiro de 2012, cerca de meio bilião de euros no mercado bancário de forma a reactivar o crédito aos particulares e às empresas na zona euro, mas esta operação teve um efeito boomerang, pois o dinheiro voltou em força aos cofres da instituição de Frankfurt. No dia 1 de março, 24 horas depois da operação de liquidez, os bancos efectuaram um recorde de 776,941 mil milhões de euros nos cofres do BCE, em depósitos diários, em detrimento de depositarem noutras instituições financeiras. O BCE permite que os bancos depositem o dinheiro a troco de um juro de 0,25%. Fazendo as contas, se o banco central vendeu o mesmo dinheiro a 1% no dia anterior, é evidente que a banca perde dinheiro com esta operação.

Vítor Constâncio para Mario Draghi: "Bem, sabes como os portugueses são... e vocês, italianos, ainda são mais mãos
de vaca para emprestar dinheiro. Se eu tivesse reparado no BPN há uns anos, esta balbúrdia não seria tão grave. 
Mas não desgosto do clima de Frankfurt"

BCP é o campeão no BCE

Repare-se atentamente nos dois gráficos seguintes. Só o BCP foi buscar ao BCE cerca de 15 mil milhões de euros (antes do último grande leilão). Colocando o problema do ponto de vista da percentagem dos ativos financiados pelo BCE, o BCP é imbatível. O BCE são dinheiros públicos, assim como as injeções de capital no setor feitas nos últimos anos. 

Quanto dinheiro cada banco já foi buscar ao BCE
Quanto dinheiro cada banco foi buscar ao BCE, em % dos ativos financiados

FONTE: UBS citada pelo Financial Times em: 

Euro system names n’ numbers



Banca está mal e o contribuinte é que paga

Os contribuintes portugueses já perderam 3,1 mil milhões de euros com o programa de apoio aos bancos, criado depois do início da crise financeira, em 2007. Um valor que já representa quase cinco vezes aquilo que o Governo planeia gastar com o programa de emergência social (640 milhões de euros). Estas perdas dizem respeito a injeções de capital público nos bancos, juros e garantias acionadas. Os números, publicados há dias pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), mostram que metade do valor é da responsabilidade do BPN que, só em 2010, custou 1,8 mil milhões ao Estado (ver mais aqui).

Aproveito para reproduzir a seguir um artigo meu publicado no último sábado no JN e site Dinheiro Vivo e que ilustra um pouco do que a banca tem andado a fazer (ver original aqui).

Exportadores do Norte com menos crédito na banca

Os dados do Banco de Portugal mostram que o Norte, região responsável por 37% das exportações em 2011 (15,7 mil milhões euros), capta apenas 26% do crédito bancário para empresas (30,2 mil milhões de euros), contra 42% da região de  Lisboa (48,7 mil milhões de euros). Cruzando esses dados com o número de empresas exportadoras , (7208 a Norte e 6077 em Lisboa), bem como os valores das saídas por região, conclui-se quem mais vende ao exterior menos beneficiado tem sido na concessão de crédito.
Embora vários banqueiros reconheçam que as restrições ao crédito aumentaram, dando prioridade agora às sociedades exportadoras, a verdade é que o panorama  no final de 2011 ainda revelava desequilíbrios. As restrições da banca no crédito às empresas são frequentemente justificadas com o custo do financiamento dos próprios bancos.
"Relativamente aos cinco maiores bancos, a redução do custo de funding é bem significativa de 2007 para 2010 - 236 pontos base (pb) - e de 2010 para 2011 (projetado com base no primeiro semestre) o custo do funding poderá aumentar quando muito 31 pb", afirma Meira Fernandes, ex-gestor bancário e membro da tertúlia JN, Universidade Católica e Associação Comercial do Porto.

FONTE: Gráfico elaborado pelo economista e ex-gestor bancário Meira Fernandes, citado neste artigo,
e que já foi publicado duas vezes pelo JN até esta data

"Curiosamente, o Banco de Portugal teve uma intervenção ativa, limitativa, no funcionamento do mercado financeiro na ótica do 'preço da matéria-prima' para os bancos, quando impôs, no Outono passado, um limite máximo de 3% acima da euribor na captação de recursos [depósitos]. Mas nada fez para limitar o 'preço da matéria prima' para os utilizadores de crédito. Há crédito ao consumo a 33% e não há limites para taxas a cobrar nos empréstimos", considera o economista Meira Fernandes. "Quanto ao crédito às empresas, sob a forma de descobertos, as taxas praticadas aproximam-se em média dos 15%", acrescenta.

No ano passado, e com base nos cinco maiores bancos,  o juro cobrado pelos bancos situou-se nos 4,67%, mas o juro pago pela banca para se financiar a si própria ficou-se pelos 3,15%, um fosso que tem aumentado.

A UBS calculou os montantes que diferentes bancos europeus pediram emprestado ao Banco Central Europeu (BCE) a três anos com 1% de juro. BCP, BES e BPI conseguiram à volta de 26 mil milhões de euros através destes empréstimos.  O BCP tem à volta de 17% dos seus ativos financiados pelo BCE, colocando-se à frente nesse rácio dos maiores bancos espanhóis, irlandeses ou italianos. O BES surge em quarto lugar (15%).

Pedro Palha Araújo

quinta-feira, 15 de março de 2012

As operações de LTRO não são emissão de moeda

O que é o LTRO - Long Term Refinancing Operation?
O Banco Central Europeu controla o nível geral de preços (a inflação) usando empréstimos de curto prazo (MRO - Main Refinancing Operation) e de longo prazo (LTRO).
Normalmente os contratos de curto prazo duram 1 semana e os de longo prazo entre 3 e 6 meses.
Nos tempos mais recentes o BCE lançou dois LTRO com um prazo anormalmente elevado, 3 anos.

Fig. 1 - Não te preocupes que o Banco Central Alemão vai-te ajudar.

De facto o BCE não existe.
O BcE define uma política mas são os bancos centrais dos países que lhe dão cumprimento.
No caso, o BCE decidiu lançar 1000 milhares de milhões de euros mas quem cedeu os crédito foram os Bancos Centrais Locais.
Por exemplo, foi o Banco de Portugal que cedeu os créditos aos bancos portugueses e que "recolheu" os colaterais (as garantias pois os movimentos do BCE são contra garantias) e compensou esses empréstimos com dívida ao BC alemão.

Fig. 2 - O Euro Sistema materializa-se com os Bancos Centrais Nacionais
(Setas: fluxos de crédito, Verde: bancos superavitários; Vermelho: bancos deficitários)

Esta operação do BCE não foi uma emissão de moeda.
O sistema de refinanciamento não emite moeda. As estatísticas do BCE indicam que a quantidade de euros em circulação (valor das notas e moedas nas carteiras das pessoas e nos bancos) até diminuiu de 883,7 MM€ em 17 Jan 2012 para 868,8 MM€ em 13 de Março de 2012, -1,69%.

A quantidade de notas e moedas de euros em circulação é muito pequena.
Se, como esses analista ignorantes que aparecem na TV anunciam, o BCE tivesse feito entrar 1000 MM€  de novas notas em circulação (emitisse moeda), aumentaria em 115% as notas em circulação o que faria a taxa de inflação da Zona Euro explodir para mais de 100%/ano.
É engraçado como os comentadores especialistas em questões de economia, além de perceberem tão pouco, não se dão ao trabalho de ir consultar as estatísticas do BCE.
Bem, nem os professores se dão a esse trabalho e, em teoria, falam para alunos informados, quanto mais quem fala para a massa ignorante que apenas gosta de ouvir falar no "grande capital", "os bancos", a "bandalheira das rendas excessivas" e outras palavras sem conteúdo.

Fig 3 - Valor das moedas e notas de euros em circulação, MM€ (fonte: BCE)

Os LTRO são apenas uma intermediação entre os bancos que têm excesso de recursos (do Norte) e os bancos que têm défice de recursos (do Sul).
Normalmente esta compensação é feita no Euro Mercado Interbancário (de que resulta a EURIBOR). Como este mercado está inoperante porque os bancos com défice de recursos têm um nível de risco inaceitável (estão falidos), quem tem recursos deposita-os no Banco Central Local.
O BCE apenas deu ordem para que os Bancos Centrais com excesso de recursos enviassem esses valores para o bancos centrais deficitários.
No final, os recursos são emprestado pelos bancos sólidos aos bancos falidos (é o "refinanciamento") com a intermediação dos Bancos Centrais (do euro sistema).
Mas é um movimento contabilístico que permite o rollover da dívida dos bancos do SUL aos residentes no Norte e permite manter os défices das contas externas dos países do Sul.

O presidente do Banco Central Alemão veio refilar.
Porque, feitas as contas finais da operação, o BC Alemão ficou a arder em 500 mil milhões de euros, tendo este dinheiro ido principalmente para o Banco Central da Grécia, Itália, Espanha e Portugal.
E 500 mil milhões é muito dinheiro correspondendo a 20% do PIB alemão.
É a poupança do povo alemão face ao exterior dos últimos 3.5 anos.


Fig. 4 - Balança Corrente Alemã anual, MM€ (fonte: Banco Mundial)

E o BC Alemão não recebeu qualquer garantia para esse empréstimo. Nem está claro que lei se aplica a esses empréstimos.

E o que acontece se um banco for à falência?
Os bancos depositam garantias quando recebem os créditos do Banco Central mas quem avalia as garantias é o BC de cada país e fica com elas. Assim, o Banco Central Alemão não sabe se as garantias são de facto garantias ou se são puro lixo tóxico.
Se imaginarmos que os bancos portugueses usam dívida pública portuguesa como garantia e que esta  (a 10 anos) já só vale metade do par então, o Banco de Portugal apenas garantias para metade dos 50 mil milhões de euros canalizados da Alemanha.

O desvalor da dívida pública portuguesa.
Apesar de a dívida pública ter um determinado cupão (juro) e valor nominal (o valor que se vai receber no futuro, o par), a alteração das condições de mercado fazem com que o valor de mercado da obrigação seja diferente do valor facial.
Se a taxa de juro diminuir, o valor de mercado da obrigação aumenta (e vice-versa).
Imaginemos que a dívida pública foi emitida à taxa de juro de 5%/ano e que faltam 10 anos para a maturidade. Como a taxa de mercado está nos 4%/ano, os título de dívida pública desvalorizaram de 100€ para 53.00€.
Então, o as suas garantias estão diminuídas de 50MM€ para 26.5MM€.
Se o BCE fosse rigoroso, o Bando de Portugal teria que obrigar os bancos portugueses a arranjarem um reforço das garantias en 23.5MM€ de novos colaterais.
Onde é que os nossos bancos têm tais activos sem risco?
Agora imaginem as garantias que os bancos gregos têm depositadas no BC da Grécia.
Fig. 5 - Isto é um satélite grego (de fazer torradas espaciais) dado ao BE como garantia de 10MM€.

E que acontece se um banco central grego, português, espanhol ou italiano bancarrotar?
Aí é que não se sabe e por isso é que os alemães estão preocupados.
As garantias não excluem o banco das suas obrigações pelo que, se um banco for à falência e as garantias não chegarem, o Banco Central vai buscar o que puder à massa falida.
Mas se os bancos de um país falirem em massa, como é muito provável que aconteça na Grécia (e em Portugal) porque grande parte da sua carteira de créditos está muito desvalorizada (dívida pública a não valer nada, as empresas públicas em incumprimento, contratos públicos a serem "rasgados", famílias a falir, empresas na bancarrota), o banco central não vai ter como cumprir com as suas obrigações face ao euro sistema.
E os Estados desses países não podem assumir a dívida do banco central porque também estão falidos.
Alemão perde.

O problema da lei que se aplica.
Quando a Grécia sair da Zona euro, a dívida ao BC Alemão ficará em Euros ou passam para Dracmas ao câmbio da hora da saída e depois sofre desvalorização?
É que não houve nenhum acordo quanto a isto.
O BC Alemão emprestou mais recursos que o previsto no Fundo de Resgate, e ninguém pediu ao Parlamento Alemão autorização para isto nem houve comprometimentos dos países falidos quanto ao pagamento destas somas.

Isto já aconteceu, na União Soviética.
No final da União Soviética, o Banco Central Ucraniano começou a "criar moeda" mediante movimentos contabilístico a descoberto.
Por exemplo, a empresa Uc (ucraniana) comprava 1000R de gás à empresa Rs (russa).
A Uc ia a um banco ucraniano que lhe colocava 1000R na conta que tinha obtido no BC ucraniano.
A Uc transferia os 1000R para a Rs que usava para pagar salários na Rússia.
Então, como o BC russo não tinha compensado os 1000R do BC ucraniano, havia um aumento da massa monetária o que causava inflação em toda a URSS.
Então,  a Rússia vendia o gás e não recebia nada em troca, era dado, porque a Ucrânia se apropriava de todos os "direitos de senhoriagem" da Zona Rublo (apenas ela emitia moeda).
Quando os bancos centrais das outras repúblicas descobriram este descontrolo, tentaram fazer o mesmo pelo que o Banco Central da Rússia deixou de aceitar ordens de pagamento em Rublos e o Rublo acabou.

Será assim que vai acabar a Zona Euro?
Irá acabar quando o Banco Central Alemão se a recusar a ceder mais crédito aos bancos centrais dos países bancarrotados.
Se as garantias que os bancos centrais estão a aceitar são "falsas", o risco de bancarrota dos bancos centrais vai crescer, os cidadãos alemães vão começar a ter consciência disso e vão fazer pressão para que o BC alemão se recuse a dar cumprimento às ordens do BCE, abandonando o euro sistema.

Será que há o risco de isto acontecer?
A Espanha ter relaxado a consolidação orçamental depois da operação do BCE indicia que, havendo dinheiro, faz-se fiesta.
Em vez de descer os custos do trabalho e fazer funcionar o mercado de trabalho, o mais fácil em termos políticos é aumentar a despesa pública.
O Banco Central Espanhol (e Português), enquanto os alemães estiverem a dormir, irá sacar crédito ao BC alemão para financiar os défices.
Não vale mais a pena ter austeridade.
Até o Alberto João já recomeçou a falar.

Pedro Cosme Costa Vieira

sábado, 17 de dezembro de 2011

A criação da banca comercial

O Condado da Negralhada ainda é grandinho.
Tem a capital e depois tem 8 aldeias retiradas uns 15 kilómetros. A capital tem 200 habitantes e as aldeias variam entre 50 habitantes e 150 habitantes.
Como os caminhos são fracotes e o povo anda a pé, torna-se difícil os aldeões vir à capital para o missionário fazer os lançamentos no livro.
Então o missionário pensou transformar-se em Banco Central, BC, e permitiu o aparecimento de bancos comerciais privados.

Fig. 1 - Mapa do Condado da Negralhada

O negócio tem que dar lucro.
Uma das funções dos governantes é imaginar como as necessidade básicas do povo podem ser satisfeitas da forma mais eficiente (mais barata). Mais importante que fornecer bens e serviços é desenhar um quadro legislativo que permita aos privados produzir e fornecer esses bens e serviços à população de forma eficiente.
Sob pedido do Conde, o missionário desenhou o sistema bancário.

Banco Central: tem a função de controlar o sistema monetário. Como o melhor é que haja estabilidade de preços e foi isso que o povo pediu, o BC vai actuar neste sentido. 
Inflação: O BC tem que calcular a taxa de inflação.
Licenças: O BC é a entidade que licencia os bancos comerciais (não pode haver concorrência livre).

Bancos comerciais: têm por função ter as contas e fazer os lançamentos das transacções
Fontes de receita: em cada transacção, o banqueiro recebe uma taxa de 0.1% do valor.
Obrigações: o banqueiro tem que obedecer (quanto ao valor máximo de descoberto) às ordens do BC.

Como vai funcionar o sistema bancário.
Cada aldeia terá o seu banco com o livro das contas.
O banco de uma aldeia com 100 habitantes terá 100 contas e o banqueiro vai fazer os lançamentos entre os habitantes da sua aldeia. O BC vai impor uma limite ao saldo a descoberto de cada banco para, desta forma, fazer com que a liquidez total na economia ser limitada (o tal dinheiro). Desta forma, o BC controla a inflação (rever, A inflação é um fenómeno puramente monetário).
(Para rever o funcionamento de cada banco ver o descrito no outro poste).

Mas ainda há as transacções entre clientes de bancos diferentes.
Um banco de uma aldeia não pode fazer transacções entre um cliente seu e um cliente de outra aldeia.
Essas operações obrigam à intervenção do Banco Central.
Cada banco vai ter uma conta no BC que podem ter a descoberto até um determinado valor.
Como as necessidades dos bancos são dependentes do número de clientes que têm, o BC impõe um máximo de descoberto de 750X vezes a raiz quadrada do número de clientes.
Por exemplo, um banco com 50 clientes pode ter um descoberto de 5303X enquanto que um banco com 150 clientes pode ter um descoberto até 9188X. A razão da raiz quadrada prende-se com a diversificação com acontecimentos não correlaccionados.
Se não houvesse um limite a cada banco, uma aldeia poderia passar a viver à custa das outras aldeias (tipo o pretendido pelo da Madeira).
Por isso, o BC tem que haver limite ao poder de saque de cada banco junto do BC.

Fig. 2 - Pai, custe o que custar eu quero aquela negralhana para mim.

Vamos fazer a transacção.
Aqui vai um bocadinho de contabilidade
O cliente "25" da aldeia "3" (que tem saldo = 700X) quer pagar 250X ao cliente "12" da aldeia "7" (que tem saldo = -25) por uma sua filha muito jeitosa que o seu filho quer a todo o custo.

O banco 3 (que tem saldo -4000X no BC) escreve no seu livro
   "25.3, pagamento ao 12.7 = - 250X,                               Saldo = 450X"
   "BC, pagamento ao 12.7 por conta de 25.3 = + 250X,  Saldo = -3750X"
Envia a ordem de transferência ao BC
*O BC está devedor do banco 3

O Banco Central recebe a comunicação do banco 3 e escreve no banco 7 (que tem saldo = 350X)
   "3, pagamento ao 12.7 por conta de 25.3 = - 250X , Saldo = +3750X"
   "7, pagamento ao 12.7 por conta de 25.3 = + 250X,   Saldo = +600X"
* Eu inverti o sinal dos movimentos e dos saldo no BC para ficar sempre na "óptica da conta" (era uma falha de contabilidade que corrigi).
O banco 3 está credor do BC.

O banco 7 recebe a comunicação do Banco Central e escreve
   "BC, pagamento ao 12.7 por conta de 25.3 = - 250X, Saldo = -600X"
   "12.7, pagamento do 25.3 = + 250X ,                          Saldo = +225X"

Em todos os livros mantém-se  o saldo total igual a zero.
Omiti as comissões para não complicar a contabilidade.

Mas não há notas nem reservas fraccionadas.
Criei um sistema monetário sofisticado com banco central e bancos comerciais sem ter necessidade de imprimir notas ou de ter Reservas Compulsivas em notas.
No meu sistema bancário o limite quantitativo de poder saque das contas (o limite ao saldo negativo) funciona de forma equivalente às reservas compulsivas em notas.
Só assim é possível que a estabilização do nível geral de preços.
Sempre que o BC detecte que os preços estão a diminuir, aumenta o limite de saque (por exemplo, de 750X para 760X). Detectando que os preços estão a aumentar, reduz o limite de saque (por exemplo, de 750X para 740X).

Recordando porque os saldos dão sempre zero.
Porque, no Condado da Negralhada, os banqueiros não têm armazenamento de bens que, no cambista, permitia que o Livro tivesse saldo positivo.

O mercado de crédito
Quem quer poupar vai acumulando um saldo positivo o que obriga o BC a aumentar o limite de saque.
O problema é que alguns clientes vão ficando com o saldo cada vez mais negativo e podem morrer antes de anular o saldo (pagar o que consumiram a descoberto).*
* Este é o problema de o BCE ceder liquidez sem limite a Portugal.

Para resolver esta falha é preciso separar o mercado de crédito do sistema de liquidez.
No próximo poste vou criar este mercado, ainda sem necessidade de ter notas.
Pedro Cosme Costa Vieira

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