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sexta-feira, 20 de setembro de 2013

O programa cautelar e o segundo resgate

As finanças públicas portuguesas têm 2 problemas.
O primeiro problema é a divida pública bruta ser massiva, cerca de 215 mil milhões de €, 130% do PIB.
O segundo problema é o défice público ser elevado, cerca de 10 mil milhões € anuais, 6% do PIB. 
Estes dois problemas são diferentes mas estão ligados porque, por um lado, a divida pública "cria" juros que fazem aumentar o défice público (são despesa) e, por outro lado, o défice traduz despesa pública que não consegue ser financiada com receita (impostos) o que obriga a aumentar a dívida pública.
A junção destes dois problemas cria na mente dos aforradores a dúvida quanto à nossa vontade colectiva e capacidade em cumprir as nossas obrigações financeiras o que faz com que as taxas de juro que exigem pela dívida pública aumentem.

Fig. 1 - Fujam que vem aí o segundo resgate. 

Um euro de défice é mais um euro de endividamento.
O Estado financia a sua despesa e investimento de cada ano com os impostos e com novo endividamento.
Mas o Estado apenas pode ter défice (mais despesa que receitas) se houver alguém que lhe empreste dinheiro.
É tal e qual a vida de um tóxico-dependentes: só há vício se houver onde ir buscar o carcanhol.

Fig. 2 - Pelas contas da EuroStat, o nosso défice tem andado nos 6% do PIB, cerca de metade devido aos juros

Há coisas que não vão ao défice.
Se tudo fosse às contas públicas, um euro de défice traduzia-se directamente em mais um euro de divida pública. Como o défice público acumulado do governo do Passos foi (em 2011-2012) cerca de 11% do PIB, a divida pública teria aumentado exactamente 11% do PIB mas aumentou bastante mais.
Acontece que o EuroStat considera apenas as receitas e despesas geradas no próprio ano. Quer isto dizer que, por exemplo, se forem descobertas despesas que foram escondidas em 2008, estas verbas vão directamente à divida sem haver revisão das contas do défice de 2008.

Mas também há défice que não implica novo endividamento.
Também acontece que há receitas (das privatizações) que não entram no défice mas que servem para financiar o Estado.
Há ainda o caso de despesas que vêm ao défice mas que já têm o financiamento garantido, por exemplo, prejuízos de empresas públicas que já estão financiados.
Então, apesar de haver uma ligação muito forte entre défice e necessidades de financiamento, há anos em que existem discrepâncias importantes.

As necessidade de financiamento do Estado.
É a soma do "novo endividamento" com o "velho financiamento que se vence".
Se, em média, a divida pública portuguesa tiver uma maturidade de 7 anos, cada ano vencem-se (i.e., é preciso pagar) 30 mil milhões €, 2.5MM€/mês. Se a maturidade média for de 2 anos, o estado precisará 108 mil milhões € por ano, 9MM€/mês.
A esta divida que é preciso reformar, o estado precisa acrescentar o défice do ano corrente.

A divida pública bruta e líquida.
Nesta última semana surgiu uma discussão entre os dados da Maria Luíz (da dívida liquida) e do Banco de Portugal (da divida bruta).
A divida bruta quantifica tudo o que o Estado deve enquanto que a divida líquida obtém-se subtraindo à divida bruta o valor de todos os activos vendáveis do Estado (leia-se, privatizações e créditos).
O problema do cálculo da dívida liquida está na quantificação do valor dos activos do Estado porque, se for obrigatório continuar a actividade, há valores positivos (por exemplo, os CTT) também há valores muito negativos (por exemplo, as empresas de transportes públicos onde se inclui a TAP).

Vamos ao endividamento do Estado.
Normalmente, o estado português endivida-se em leilão.
Primeiro, o estado anuncia quanto se quer financiar (e.g., entre 750M€ e 1250M€) e o prazo (e.g. 540 dias).
Segundo, os aforradores individuais dizem quanto querem emprestar e a que taxa de juro. Apresento o exemplo de 4 dos 100 aforradores que nos pretendem emprestar dinheiro:

     Aforrador       Quantidade         Taxa de juro anual
       António            1500€                    3.456%
       António            3550€                    4.143%
       Joaquina            2350€                   2.971%
       Manuel               790€                   3.431%
      Albertina            3525€                   4.563%
      Albertina            5000€                   5.863%

Terceiro, as ofertas são organizadas pela taxa de juro de forma crescente.

     Quantidade         Taxa de juro anual média
               ...                          ...
        754565€             2.955%
        754653€             2.956% <- quero aqui
        757749€             2.9611%
              ...                           ...

Quarto, o estado português decide qual o quantitativo de dinheiro que vai aceitar emprestado sujeitando-se à taxa de juro média exigida pelos aforradores.

O mercado secundário.
Todos os dias os aforradores podem comprar e vender dívida pública que está na mão de outros aforradores. Este mercado denomina-se secundário porque não é o Estado que está a emitir os títulos de dívida.
Apesar de o estado português não se estar a endividar, se hoje fosse pedir dinheiro emprestado (fosse ao mercado primário), a taxa de juro iria ser muito próxima da taxa de juro do mercado secundário.

Depois, há o financiamento da Troika.
Em 2010 os agentes económicos deram conta que a probabilidade de Portugal não conseguir pagar a sua divida era muito grande pelo que, para as garantias normais de mercado, os aforradores começaram a exigir taxas de juro demasiadamente elevadas. Por exemplo, 15%/ano sobre 215MM€ traduziam-se num encargo de 32MM€ por ano que é maior que a soma de todas as pensões, subsídio de desemprego e RSI.

Foi preciso arranjar financiamento fora do mercado.
Esse financiamento (na ordem dos 3.2%/ano), por ser a uma taxa de juro muito inferior ao mercado, é um favor que alguém nos faz, no caso, os nossos parceiros europeus e do FMI.
Acontece que esse financiamento, além do juro baixo, trouxe condições que temos que cumprir religiosamente.

A qualquer momento podemos sair do programa.
Se hoje o Passos Coelho quisesse, abandonávamos o Memorando de Entendimento mas seria preciso pagar de volta todo o dinheiro que nos emprestaram.
Interessante o Seguro nunca avançar com esta hipótese quando afirma que não vai cumprir nada do que nos é exigido.

Fig. 3 - O problema é que a taxa de juro irlandesa está 0.1 pp abaixo do nível médio de 2003/2008 e a nossa está 3.2 pp acima (dados, ecb)

Daqui a nada, a mama acaba-se.
Quando o nosso resgate foi assinado em princípios de 2011, pensaram que em 3 anos Portugal conseguiria ganhar a confiança dos aforradores. Eu nunca acreditei no que afirmava o Gasparzinho mas, lentamente, as taxas de juro foram descendo até que, em finais de maio 2013, atingiram 5.20%/ano. Parecia que ia tudo bem encaminhado mas descarrilamos.
A Irlanda já consegue crédito a 10 anos com uma taxa de juro 0.1 pp abaixo da média de 2004/2008 (3.9%/ano) enquanto que nós teríamos que pagar mais 3.2 pp (7.2%/ano), ver Fig. 3.
Se em Maio 2013 parecia que nos íamos safar, hoje é certo que não nos vamos conseguir financiar em mercado pelo que precisaremos de continuar a receber ajuda (e "conselhos") dos nossos parceiros.

Será possível termos um programa cautelar?
Não. Isso foi uma miragem que se esfumou com a saída do Gasparxinho.

O que será o programa cautelar?
O programa cautelar irá cobrir uma percentagem das necessidades de financiamento à taxa de juro de mercado.
Num leilão de divida pública, quanto mais dinheiro se quiser, mais elevada é a taxa juro média que se paga. Então, o programa cautelar ao assumir uma percentagem do valor pretendido, faz com que a taxa não seja tão elevada.
Por exemplo, Portugal precisa de 2MM€ a 5 anos indo, primeiro, ao mercado de divida pública captar 25% (e.g., conseguia 500M€ a uma taxa de juro média de 2.956%/ano). Depois, os restantes 1500M€ são emprestados pelos nossos parceiros a essa mesma taxa de juro (2.956%/ano).
O programa cautelar implicará uma "vigilância reforçada" mas pouco restritiva porque o mercado vai, com a subida da taxa de juro, criar os incentivos certos para que o governo se porte bem. Serão as normais condições de, tendencialmente, um défice público nos 1.5% do PIB mas, se não for cumprido exactamente, paciência. 

As taxas de juro establizaram num valor muito alto.
Mas não vamos poder ter um programa cautelar porque as taxas de juro, mesmo de curto prazo, estão incomportáveis. A 3 anos estão nos 6.33%/ano, muito acima dos 3.20% da Troika, enquanto a Irlanda já está nos 1.72%/ano (abaixo da taxa de inflação esperada).
Em Maio de 2013, quando a nossa taxa de juro a 3 anos estava nos 3.2%/ano (igual à da Troika), podiamos pensar num programa cautela. Agora, temos que avançar para um segundo resgate.

Fig. 4 - Mesmo no curto prazo, a nossa taxa de juro está ao nível de um país do terceiro mundo

A 8.a e 9.1 avaliação estão a preparar o 2.o resgate.
Primeiro, o novo resgate  vai implicar que os investidores privados terão perdas. As actuais taxas de juro indicam que quem tiver 100€ de divida pública portuguesa a 10 anos vai receber 66.67€ e, se for a 3 anos, 89.00€ em obrigações do Fundo de Resgate com o mesmo prazo e remunerados à taxa de 3.20%/ano em que, quem vai pagar os juros é Portugal.

O défice terá que cair para zero.
O défice vai ter que se reduzir rapidamente para zero de forma a acabar a necessidade de novo financiamento. Com um crescimento médio de 1%/ano e uma inflação de 2%/ano, um défice público nulo faz com que em 25 anos a nossa divida pública se reduza dos actuais 130% do PIB para o objectivo de Maastricht de 60% do PIB.
Para que isto aconteça é preciso avançar com cortes de 6000 milhões € (e não 3.7MM€)e com aumentos de impostos de 3000 milhões €.
Vai ser preciso cortar muito mais em  pensões, salários, saúde e educação mesmo que tal seja inconstitucional. Vai ser como na Grécia: se é incontitucional despedir funcionários públicos, o governo vai suspender os pagamentos dos salários a 24 mil e quem quiaer que se vá embora.
Quando o Seguro vier que pague.

O mercado de trabalho tem que progredir.
As reformas do mercado de trabalho terão que ser aprofundadas para reduzir a taxa de desemprego.
Terá que haver mais flexibilidade não só na contratação e despedimentos mas também  nos salários e horários.
Terá que haver mais cortes no regime do subsídio de desemprego.

Imaginemos o impossível.
Que algures no futuro, o Seguro vai chegar a primeiro ministro.
Onde vai ele arranjar financiamento para cumprir a promessa de repor as pensões, salários e demais gastos que o Passos Coelho tem que cortar?
A sorte dele é que isso nunca irá a acontecer. O que o Seguro anuncia são terrenos armadilhados para cortar o caminho aos seus opositores internos. Vai vale ser o bobo da corte que comido pelos tubarões.
O António Costa está calado mas vai ter que dar resposta a todas as babuzeiras que o Seguro vai avançando. Isto vai obrigar o Costa a pesar pois, no dia em que, eventualmente, tomar posse como primeiro ministro vai ter à perna o Seguro a gritar:
-Eu queria reconstruir tudo que o Passos Coelho destruiu mas o PS não me deixou.

Fig. 5 - Enquanto ninguém olha, vou-me esconder e fazer de morto porque o caminho para salvador da pátria está todo minado.

Pedro Cosme Costa Vieira

sábado, 1 de dezembro de 2012

Será que a Troika ajoelhou aos pés da falhante Grécia?

A Grécia está à rasca.
O défice continua descontrolado, o desemprego está acima dos 25% e as contas externas estão negativas. Mas, estranhamente, a Troika esteve lá e não disse coisas muito negativas. Não só desbloqueou uma verba de 31.5 mil milhões € como estendeu o prazo do resgate em 15 anos (para mais do dobro, quase 30 anos) com um período de carência onde só serão pagos os juros de 10 anos.
Será, como dizem os nosso esquerdistas, que a Troika foi derrotada pela agressividade da Grécia e que o Passos Coelho deveria seguir esse caminho  ou os gregos estão a fazer o seu trabalho?

Os juros da dívida grega têm descido.
Depois de atingir 30%/ano em Junho 2012 (as obrigações a 10 anos estavam a ser transaccionadas a 10% do valor nominal), foi descendo até 0s 16.131%/ano de ontem (as obrigações a 10 anos estavam a ser transaccionadas a 33% do valor nominal).
Em 5 meses, as obrigações gregas valorizaram 230%.
Isto deveria traduzir que a Grécia vai no bom caminho mas, se acreditarmos no que ouvimos na comunicação social, não é isso que parece estar a acontecer.

Lentamente, a Grécia está a fazer o seu trabalho.
Em câmbios fixos (como acontece a quem pertence à Zona Euro), o ajustamento da economia faz-se pelos custos do trabalho (no caso grego e nosso, pela diminuição) e pela consequente diminuição dos preços face ao exterior (o que aumenta as exportações e diminui as importações).
E a OCDE aponta que os custos do trabalho reais gregos estão a diminuir desde princípios de 2010 cerca de 7%/ano (ver, Fig. 1). Em pouco mais de 2 anos, os custos reais do trabalho (corrigindo da inflação da Zona Euro), diminuíram mais de 15%. 
Pelo contrário, Portugal não corrige (está praticamente ao nível de Jan 2008) e a Espanha mantém-se ainda 4% acima dos custos de Jan 2008.

Fig. 1 - Evolução dos custos reais do trabalho relativamente a 2008 (dados: OCDE e BM, cálculos e grafismo do autor)

O nível geral de preços na Grécia relativamente à média da Zona Euro estão acima do nível de Jan 2008 mas estão (finalmente) a cair cerca de 1.5%/ano (ver, Fig. 2).
A Irlanda recuperou completamente a sua situação financeira porque os preços desceram, relativamente à média da Zona Euro, 8%. Os nossos preços só (ou já?) desceram 3%.

Fig. 2 - Evolução dos preços relativamente a 2008 (dados: OCDE, cálculos e grafismo do autor)

Nos fundamentais, a Grécia vai no bom caminho.
E a duplicação do apoio da Troika é o reconhecimento de que, mesmo refilando, a Grécia está a ir no bom caminho.
É pena as pessoas em Portugal, principalmente os comentadores de política económica que aparecem em todos os meios de comunicação social, não pegarem nos fundamentais da Irlanda e dizerem ao nosso povo que a solução passa obrigatoriamente por aí:

Descer custos do trabalho (menos salários e maior horário) leva à redução dos níveis de desemprego e torna possível haver uma

Redução dos preços relativamente aos nossos parceiros da Zona Euro que permite aumentar as exportações e induz uma diminuição as importações.

Mas isso vai acontecer na mesma.
Por causa da taxa de juro ser outra variável (além dos custos do trabalho e preços relativos) que equilibra a economia. Mas tem um efeito negativo de fazer aumentar o desemprego.

Qual será o impacto da duplicação do prazo?
É outro resgate quase igual (ligeiramente melhor) ao que está actualmente em vigor mas negociado para ter início e 2025 e durar até 2040.
Como a Grécia (e Portugal) nos próximos 15 anos não conseguiria gerar recursos para amortizar ós empréstimos da Troika, o melhor que conseguiria fazer era refinanciar esses pagamentos à taxa de juro do mercado de dívida. O melhor estimador para esse mercado é o "mercado secundário" onde, para um prazo de 30 anos, estava na primeira metade de Nov2012 nos 15%/ano.
Então, dado o diferencial entre a taxa de juro de mercado e a taxa de juro do resgate, duplicar o prazo tem um impacto muito significativo na quantidade de dinheiro que as instituições europeias estão, implicitamente, a oferecer à Grécia (e a Portugal).

Há um perdão de 73%.
Comparando com essa taxa de juro de mercado, no plano anterior, por cada 100€ de dívida actual, a Grécia teria que pagar 46.6€.
Agora terá que pagar apenas 27.3€.
Mas, tecnicamente, a Grécia vai pagar tudo o que deve mas é apenas de fachada pois, em termos económicos, só vai pagar 27.3%.

É estranho mas faz lembrar a história do Salazar.
Que prometeu à Nossa Senhora de Fátima que, se curasse a vaca que estava doente, vendia-a e dava o dinheiro a obras de caridade.
A vaca ficou boa mas a forretice do Salazar não permitia o cumprimento da promessa. Para não deixar de cumprir com a sua palavra, foi para o mercado com a vaca (pela qual pedia 10€) e uma galinha (pela qual pedia 500€).
O problema é que só vendia a vaca a quem também lhe comprasse a galinha.
O valor da dívida, a taxa de juro e o prazo funcionam da mesma maneira.
Pode-se perdoar a dívida cortando no seu valor ou na taxa de juro (abaixo do valor de mercado).
Quando a taxa está abaixo do valor de mercado, a extensão do prazo também reduz o valor real da dívida.

Vamos ver o impacto no caso português
Em princípio, esta extensão do prazo (e redução da taxa de juro de 3.20%/ano para 3.09%/ano) só se aplica a parte do pacote financeiro (1/3, 26 mil milhões de €) do FEEF - Fundo Europeu de Estabilidade Financeira (European Financial Stability Facility - EFSF). Neste caso, as novas condições à taxa de mercado da primeira quinzena de Nov2012 (7.89%/ano, bloomberg) traduzem  uma poupança, em termos actualizados, de 4750 Milhões €. Assim, traduz-se numa poupança de 18% da nossa dívida.
Para os valores de mercado, o resgate actual traduz um "perdão" de 28% da nossa dívida e com as novas (futuras) condições o "perdão" aumenta para 46.6% da dívida. Podemos ver na Fig. 3 que os pagamentos são muito adiados e reduzidos.

Fig. 3 - Evolução dos pagamentos a efectuar pelo resgate de 26MM€ (Cálculos e grafismo do autor)

O nosso plano de resgate traz ganho por adiar os pagamentos a uma taxa de juro muito inferior à de mercado o que faz, globalmente, diminuir os encargos do plano de resgate.

Fig. 4 - Alterações dos pagamentos do resgate de 26MM€ (Cálculos e grafismo do autor)

Respondi a umas questões do Tiago Figueiredo Silva (jornalista)

Fig. 5 - Saiu um parágrafo meu e a minha foto à beira de dois gigantes da comunicação social

O presidente do Eurogrupo anunciou que Portugal e a Irlanda vão ter acesso a uma redução de juros e das comissões pagas pelos empréstimos do FEEF, a um extensão das maturidade dos empréstimos do FEEF em 15 anos e extensão do período de carência dos juros em mais 10 anos.

1. Em termos práticos, quais as vantagens para Portugal? Porquê?
Portugal (e outros países) endivida-se sabendo que até ao fim do prazo não é capaz de gerar recursos suficientes para amortizar o capital. A esperança é conseguir refinanciar a dívida vencida continuamente.
O acordo sobre a extensão do prazo é a materialização da certeza de que Portugal apenas atingirá o objectivo dos 60% da dívida pública daqui a cerca de 30 anos. Se numa primeira fase as instituições que nos estão a resgatar pensaram que os problemas dos países sob resgate eram apenas de credibilidade de curto prazo, hoje já têm a consciência que sofremos de problemas económicos estruturais que precisam de tempo para serem corrigidos.
A actual taxa de juro (abaixo do 3.5%/ano) já é uma taxa muito baixa se recordarmos que nos primeiros anos do euro, 1999 - 2003, Portugal tinha bom rating e pagava uma taxa média a 10 anos de 5%/ano.

2. É possível quantificar o que estas medidas vão representar para Portugal? (poupanças, etc…)
A descida da taxa de juro tem um efeito positivo directo (uma descida de 0.1 pontos percentuais induzirá uma poupança de 78 milhões€/ano). Mas, se Portugal conseguir uma taxa de juro de 3%/ano, a previsão de que Portugal apenas conseguiria re-financiar os 78MM€ do resgate no mercado a uma taxa média de 5%/ano indica que estas alterações das condições da ajuda representam, em termos actualizados, uma poupança próxima dos 10 mil milhões €.
  
3. Esta redução dos juros e das comissões terá um efeito significativo ou não representa um montante relevante para Portugal?
Além do efeito directo nos encargos do Estado, tem também um efeito indirecto de tornar a nossa economia mais credível o que diminuirá o custo do financiamento de toda a economia. Sabido que o total do endividamento externo português é próximo dos 400 mil milhões de €, uma possível redução transversal de 1pp na taxa de financiamento externo, traduzir-se-á numa poupança anual de 4000milhões€.

4. Em conclusão, o que ganha Portugal com estas medidas anunciadas?
É a oferta da oportunidade de Portugal e demais países resgatados recomeçarem de novo. Agora, Portugal tem uma década livre para, sob observação dos nossos parceiros, se concentrar nas reformas estruturais necessárias para equilibrar as contas externas e anular o défice público preparando, nas décadas seguintes, a resolução definitiva do problema da nossa (in)sustentabilidade.

A grande capacidade dos jornalista é a capacidade de sinteze dos materiais ao espaço disponível que é sempre muito limitado. Neste caso, o Tiago conseguiu retirar das minhas 336 palavras as 30 palavras mais complementares (e informativas) à notícia principal.

Pedro Cosme Costa Vieira

sábado, 19 de novembro de 2011

A descida dos salários e o Cavaco: cada tiro cada melro

O total da riqueza produzida num país num ano denomina-se por Produto Interno Bruto, o famoso PIB.
Do total produzido, uma parte vai para remunerar o trabalho (principalmente os salários) e outra parte o capital (os juros e os dividendos). Ainda há uma parte que vai para amortizar o capital que se deteriora.
Em termos gerais e num análise de médio prazo, por cada 100€ de PIB, 65€ vão para remunerar o trabalho, 20€ vão para remunerar o capital e 15€ vão para substituir o capital que se deteriorou.

Supondo o PIB constante, se os salários aumentarem, o capital fica com menor remuneração pelo que o investimento diminui o que prejudica o crescimento económico. É um factor de desequilíbrio.
Se os salários diminuírem, o capital fica com maior remuneração pelo que o investimento aumenta o que favorece o crescimento económico. É um factor de equilíbrio.

Como funciona o crescimento económico
Quando o salário diminui, as empresas que existem ficam mais lucrativas (maior percentagem do PIB vai para o lucro das empresas).
Como as empresas maiores capturam uma parte maior do ganho então as empresas investem para aumentarem de dimensão e os seus lucros.
Também aumenta a poupança (maior percentagem do PIB vai para juros)
Por outro lado, mais pessoas querem ser empresários pelo que nascem novas empresas.

Aí o capitalista explorador do trabalhador vai sair beneficiado
Já se experimentou ser a produção feita pelo Estado. Na China, na URSS, na Albânia, em Israel, em Angola, etc.
Esse processo, parecendo que em alguns países começou por dar resultados positivos, a prazo levou ao empobrecimento dos povos. Hoje apenas subsiste com este modelo a Coreia do Norte. Mesmo Cuba já decidiu abandoná-lo.
Mas ainda há muitas pessoas em Portugal que pensar ser este o caminho a seguir.
Outros pensam que o Sporting vai ser Campeão Nacional.
Eu penso que vou arranjar uma Brasileira toda boa.

A produção deve ficar para os privados.
Como em Portugal qualquer pessoa pode ser empresária e qualquer grupo de trabalhadores pode formar uma cooperativa (que tem benefícios que os empresários não têm), o discurso da "exploração do trabalhador" não faz qualquer sentido.
É igual a dizer que o FCP ganha campeonatos porque o Pinto da Costa é o Papa.
     Sem empresários não há economia.
     Sem lucro não há empresários.
     Logo, sem lucro não há economia.

Porque o Cavaco está Ché Ché 
Portugal tem a sua economia totalmente desequilibrada. Isso traduz-se, entre outras coisas, por um desemprego crescente. Cada semana mais 1000 pessoas ficam desempregadas.
Mais 1000 pessoas desempregadas por semana.


Fig. 1 - Eu não sei onde os do FMI foram buscar a ideia. Eu sou professor catedrático de economia.
És mas é um marreta.

Ter vontade de crescer é uma coisa muito fácil.
O Cavaco dizer que a economia portuguesa tem que crescer é muito fácil. Crescer já é outra coisa.


Fig. 2 - Ajoelhar é uma tonteria. Basta eu crescer 10%/ano para podermos fazer amor em 2040.
Espera por mim querida.

Para equilibrar a economia portuguesa era preciso que o PIB crescesse 33% mantendo os custos do trabalho no nível actual.
Peguemos no PIB per capita (pessoas com idade entre 15 anos e 65 anos) e calculemos a tendência de crescimento da economia portuguesa.

Fig. 3 - Crescimento do PIB pc (15-65 anos) (fonte: Banco Mundial)

Antes do 25 de Abril de 1974 a taxa de crescimento foi de 6.3%/ano.
Antes da entrada na Zona Euro foi de 2.3%/ano
Depois do Euro (1999) foi de 0.6%/ano.
O 25 de Abril de 1974 trouxe-nos muitas coisas positivas mas prejudicou o crescimento.
O Euro diminuiu a taxa de juro mas abusamos da sorte.

Pensando que vai tudo continuar como está
Para uma taxa de crescimento de 0.6%/ano, mantendo os salários constantes no níevel actual e pensando que a taxa de inflação na Zona Euro vai ser 2%/ano, vamos conseguir equilibrar a economia em 2022.
O Desemprego estabiliza nos finais de 2022.
Óh Cavaco, quem é que pode esperar por 2022?
Vamos ultrapassar os 25% de taxa de desemprego.

Isto já é ser um  optimista pois os tempos que aí vêm são duros, são tempo de chumbo grosso. Para as taxas de juro de 12%/ano que as empresas têm que pagar, será muito difícil manter os 0.6%/ano de crescimento do PIB.
Para os próximos 10 anos a minha previsão é uma perda média do PIB de 2%/ano.

O Terceiro Segredo de Fátima
Afinal o Terceiro Segredo de Fátima foi mal interpretado. Portugal vai-se safar.
"Vimos um bispo vestido de branco" era o Sócrates.
"subir uma escabrosa montanha, no cimo da qual estava uma grande Cruz de troncos toscos" eram as eólicas do socratísmo.
"ia orando pelas almas dos cadáveres que encontrava pelo caminho" eram os credores a perdoar as nossas dívidas.
"Sob os dois braços da Cruz estavam dois Anjos cada um com um regador de cristal" que são o BCE e o FMI a despejar toneladas de dinheiro em Portugal.
Por isso, o segredo quer dizer que nos vão perdoar a dívida que temos, que as eólicas vão dar muito dinheiro e contribuir para que o PIB cresça 10%/ano e o FMI e o BCE vão-nos inundar com todo o dinheiro que queiramos.

Amigo Passos, depois de leres isto vais ter que te desdizer
Querido Passos, fica-te tão bem esse penteado meio despenteado. A tua nova cabeleireira é muito melhor que a antiga. Espero que não seja a do Sócrates pois, se for, daqui a pouco pinta-te o cabelo de branco.
Dizes que não tens nada a ver com os salários dos privados mas a lei proíbe a sua redução.
Tens ou não tens a ver?
E o Salário Mínimo Nacional? São os privados que o decidem ou és tu?
Se não tens nada a ver com o assunto, retira esses artigos da lei e deixa para os privados o que é dos privados.
SMN - Acabou porque o estado não tem nada a ver com os privados
Proibido descer salários - Acabou pelas mesmas razões.

Como diz o Cavaco dos ex-amigos: o que é da lei é com a lei.
Usa esse precedente que o Cavaco já não te vai poder atacar.

Finalmente o BPN
Os meus piores receios estão-se a concretizar: o BIC está a endorecer as negociações e os nossos governantes não têm estaleca para aguentar.
Isto não pode continuar havendo necessidade de avançar rapidamente para a liquidações do BPN que servirá de treino para liquidar o BCP e os restantes bancos portugueses que vão todos falir.

A técnica da "digestão".
Como uma ameba, a CGD engole o BPN mantendo-o num saco digestivo.
Para evitar que Portugal fique rapidamente sem liquidez e haja uma corrida aos bancos, a CGD desmonta os activos financeiros e entrega-os ao Fundo de Resgate Europeu para garantir as cedências de liquidez.
Será preciso assumir um desconto (a negociar com a Troika) que o Estado assume e passa-o para dívida pública.
Fecha todos os balcões do BPN e despede os funcionários redundantes (que são todos).
Como também vai ser preciso liquidar o BCP e depois o BPI, o BES, etc. até não ficar nenhum, a liquidação do BPN vai servir como treino para as equipas de liquidações.
Vai dar uma saga do filme "The Terminator"

"The Bank Terminator 1 - The BPN"
"The Bank Terminator 2 - The BCP"
"The Bank Terminator 3 - The BPI"
Roll on and on and on till the Heaven

O post da inflação está quase pronto. Estou a trabalhar nas perguntas para o meu teste mas ainda vai sair este fim de semana.

Pedro Cosme Costa Vieira

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Pressa trama Portugal e toda a Zona Euro

Este Orçamento é uma não solução, porque não se socorre de todas as variáveis que tem ao seu alcance. Torna-se numa equação impossível porque não tem em conta a variável tempo. Venho defendendo, há muito, essa abordagem realista. Recentemente, vários comentadores políticos (e não só) deram especial relevo a esse facto. Precisamos de cerca de 6 anos para atingir os objectivos/ défices propostos no memorando de entendimento. Economias muito mais fortes (casos do Reino Unido e da Catalunha) do que a nossa adoptaram prazos semelhantes. É urgente negociar, tendo em conta a variável tempo. Com realismo e inteligência chegaremos a uma equação possível. Só nos podemos indignar senão houver essa inteligência.

Sarkozy não resiste aos encantos de Merkel, mas resistirá a Zona Euro à falta de  liderança
de um eixo franco-alemão virado sobre si mesmo?
FOTO: D.R.

A afirmação acima reproduzida foi escrita por Carlos Oliveira Cruz, no blog da Sedes mas subscrevo-a por inteiro. Se há aspecto que me impressiona pela negativa no Memorando de Entendimento assinado por Portugal com essa entidade “legalmente inexistente”, parafraseando o constitucionalista Jorge Miranda,  chamada troika, prende-se precisamente com a aceleração à velocidade da luz do ajustamento orçamental que está a esmagar Portugal.

Como se não bastasse a pressa da troika em colocar Portugal no seu devido lugar (em recessão para só depois poder investir e crescer?), o actual governo olhou para as perspectivas económicas de médio prazo na Europa e assustou-se. Se nós só podemos praticamente contar com as exportações para crescer e se os mercados compradores também parecem não prometer muito para 2012 e 2013, então vamos lá pegar nas receitas da troika e multiplicar por dois , três ou quatro, conforme o caso.

O que impressiona no Orçamento do Estado para 2012 é a pressa, sim é isso mesmo, não HÁ outra palavra que melhor descreva aquele documento. Dirão os mais rigorosos que a culpa é da equação:

Receita da troika + Perspectivas Recessivas da Zona Euro = Portugueses infinitamente mais tramados do que se temia.

Como diz Nicolau Santos, no Expresso, os portugueses vão perder entre 40% a 50% do seu rendimento até 2013. O ministro [Vítor Gaspar] quer tornar-nos a pequena China da Europa.


É justo dizer que as medidas mais brutais do Orçamento, nomeadamente a retenção de um ou dois subsídios (Natal e/ou férias) para os funcionários públicos e pensionistas, resulta de um raciocínio simples:

Metas do défice são para cumprir mesmo + Corte na despesa demora tanto que só terá efeitos quando a troika nos deixar em paz = Toca a cortar despesa + aumentar receita de forma rápida e certeira

Cenário catastrofista em 2014, comparável ao pessimismo do Orçamento para 2012:

Metas do défice cumpridas em Portugal + Palmadinhas nas costas da troika + Recessão profunda + Grécia viu perdoada mais de 50% da dívida mas afundou mais a Zona Euro = Portugal não consegue financiar-se nos mercados a taxas aceitáveis, uma vez que não tem perspectivas de crescimento (dizem as agências de rating) e por contágio da Grécia, e pede perdão da dívida.

Para quem tem esperança no futuro da Zona Euro, um clube que exige o cumprimento das mesmas regras de comportamento (orçamental) ao filho que não tem uma perna (Portugal e Grécia são bons exemplos) e àquele que é um atleta de competição (Alemanha e nórdicos, por exemplo), vale a pena ler os sete passos de recuperação da moeda única propostos por George Soros. Ele tem o mérito de ter um pensamento clarividente, sabe o que quer, ao contrário do que acontece com Merkel e Sarkozy, os supostos condutores do comboio do euro, mas que andam muito preocupados com calendários eleitorais internos.


1) Os Estados-Membros da zona do euro concordam sobre a necessidade de um novo tratado, criando um Ministério das Finanças comum na devida altura. Recorrem ao Banco Central Europeu (BCE) para cooperar com o Fundo Europeu de Estabilidade Financeira (FEEF) e enfrentar a crise financeira: o BCE providencia liquidez e o FEEF aceita os riscos de solvência.

2) O FEEF assume, portanto, os títulos da dívida grega detidos pelo BCE e pelo Fundo Monetário Internacional. Este mecanismo ajudará a restabelecer a cooperação entre o BCE e os governos da zona do euro e permitirá uma redução significativa voluntária da dívida grega com a participação do FEEF.

3) O FEEF é então usado para garantir o sistema bancário e não os títulos da dívida soberana. A recapitalização é adiada, mas terá de ser feita a nível nacional. Esta opção está de acordo com a posição alemã e será mais útil para a França do que a recapitalização imediata.

4) Como contrapartida pela garantia, os grandes bancos concordam em seguir as instruções do BCE em nome dos governos. Aqueles que se recusarem não terão acesso à “janela” de redesconto do BCE.

5) O BCE instrui os bancos para manter linhas de crédito e carteiras de crédito, enviando inspectores para controlar os riscos. Este procedimento remove uma das principais fontes da crise de crédito actual e tranquiliza os mercados financeiros.

6) Para lidar com o outro grande problema - a incapacidade de alguns governos de se endividarem nos mercados primários a taxas de juros razoáveis -, o BCE baixa a taxa de desconto, encoraja esses governos a emitir Bilhetes do Tesouro (BT) e incentiva os bancos a manter sua liquidez, na forma desses BT, em vez de efectuarem depósitos no BCE. Todas as compras do BCE são “esterilizadas” pelo facto de este emitir os seus próprios BT. O risco de solvência é garantida pelo FEEF.O BCE pára com as compras no mercado aberto (secundário). A solução permite que países como a Itália consigam financiar-se nos mercados no curto prazo e a um custo muito baixo, isentando o BCE de emprestar aos governos ou imprimir moeda. Os países credores podem indirectamente impor disciplina sobre a Itália, controlando a quantidade que Roma pode pedir emprestado por esta via.

7) Os mercados vão ficar impressionados com a coesão entre as autoridades europeias, entendendo também que estas têm fundos suficientes à sua disposição. A breve trecho, a Itália será capaz de pedir emprestado no mercado a preços razoáveis. Os bancos poderão ser recapitalizados e os Estados membros da zona  euro, beneficiando de um ambiente mais calmo, podem negociar a implementação de uma política fiscal comum [isto é, um Ministério das Finanças europeu].
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CONCLUSÃO

Em suma, falta o factor tempo em todos os planos que estão em marcha. Tempo para cortar na despesa como deve ser e tempo para criar uma política orçamental única na Europa do euro. Os credores estão com pressa relativamente à Irlanda, Grécia e Portugal, Merkel e Sarkozy estão com pressa sob pressão de calendários eleitorais próprios, o Governo português está com pressa e carrega brutalmente na carga fiscal porque leva tempo cortar na despesa (extinguir organismos ou despedir funcionários públicos ou até dispensar aqueles que trabalham nas empresas municipais mas não são funcionários do Estado, fundir organismos e serviços, etc). 

Portugal e a Zona Euro estão sob stress e, como diz o povo, depressa e bem há pouco quem!

Pedro Palha Araújo

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