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sexta-feira, 10 de julho de 2015

O 3.º resgate grego está a ser cozinhado

Há uns meses atrás, avisaram-me de que a Grécia ia bancarrotar. 
Quando, em 2010, a Grécia pediu o 1.º resgate, nas contas públicas, a despesa era muito superior à receita mesmo depois de retirar os juros pagos pela dívida pública. Quer isto dizer que, se nessa altura a Grécia deixasse de pagar os juros e as amortizações da dívida, não tinha direito para pagar toda a despesa pública. Esta situações denomina-se como "défice do saldo primário".
Também em termos de contas com o exterior, o valor dos bens importados era muito superior a tudo o que a Grécia conseguia vender ao exterior incluindo o turismo.
Então, em 2010, a Grécia poderia prometer pagar tudo e mais alguma coisa porque sabia que, no entretanto, o Memorando apenas serviria para receber dinheiro das instituições europeias e do FMI.

Mas afinal o que foi a Austeridade?
A Grécia recebia 100€ e gastava 115€ (e Portugal recebia 100€ e gastava 111€). Se não tivesse havido resgate, de um momento para o outro os gastos teria que ir para 100€, teria que ser um corta na despesa de qualquer coisa como 30 mil milhões €.
O que os esquerdistas chamam Austeridade foi um plano de amortização da queda que, em vez de ser num momento, seria espalhado por vários anos.
Assim, em vez de um dia para o outro ter que cortar 30 mil milhões €, foi dado crédito para que fosse ajustando 6 mil milhões € em cada ano.

  Ano   Sem ajuda   Com ajuda   Ajuda
  2009    115€            115€      
  2010    100€            112€          12€ (Início da ajuda)
  2011    100€            109€          21€
  2012    100€            106€          27€
  2013    100€            103€          30€ (total de ajuda)
  2014    100€              97€          27€ (Início da amortização da ajuda)
  2015    100€              97€          24€
A amortização continua até estar tudo pago

Mas correu um bocadinho mal.
As metas resvalaram um anito ou dois mas a coisa estava a caminhar no sentido do equilíbrio das contas públicas.

Fig. 2 - O Défice grego até está a caminho do equilíbrio (com o sobressalto de 2013)

Chamar terroristas a quem lhes emprestou dinheiro?
Não sei o que o Varofáquis tinha na cabeça mas foi um erro que vai ficar muito caro aos gregos.
É que as pessoas, contribuintes do Norte da Europa, que ajudaram a Grécia emprestando-lhe dinheiro a taxas muito baixas com o risco de o perderem, ficaram com ódio aos gregos pela ingratidão.

Mas, então, o que aconteceu em 2014 de especial?
É que a Grécia atingiu o equilíbrio das saldo primário e das contas com o exterior (a balança corrente).
Quer isto dizer que os esquerdistas pensaram que, se agora a Grécia deixasse de pagar juros e amortizações da dívida, não viria mal nenhum ao mundo porque os impostos já são  suficientes para pagar a despesa pública e as exportações e o turismo capazes de pagar todas as importações.
Então, pensou no Varofáquis, 2015 era o momento para a Grécia mostrar as garras ameaçando com o "não pagamos nada".

Qual foi o seu erro?
O povo grego é cobarde.
Apesar de o povo grego ter votado em 61% a favor do Não, ao mesmo tempo, correu aos bancos para levantar os seus depósitos.
Afinal, o povo grego nunca acreditou na capacidade negocial anunciada pelo governo que eles apoiaram.
Se o povo grego fosse de coragem, continuaria a sua vida normalmente deixando os seus depoósitos nos bancos e a aceitar pagamentos por transferência bancária.
Assim, com a sua cobardia, rebentaram com os bancos e obrigaram o governo a pedir um terceiro resgate.

Como vai ser o 3.º Resgate grego.
Estive a falar com o Junker e com o Schaeuble via Skype e disseram-me que o resgate só pode avançar se não for metido nem mais um euro na Grécia.

Vejamos então as condições dos credores
Parte que compete à Grécia:
1 = A Grécia não vai ver nem um euro tendo que ajustar a sua despesa pública ao valor dos impostos. 
2 = A Grécia vai pagar aos credores 2,5% do PIB (para ir pagando juros e amortizando a dívida).
3 = A dívida pública no balanço do sistema bancário (23 mil milhões €) e actualmente usada como garantia no BCE será desvalorizado a zero e a Grécia vai recapitalizar os bancos aplicando um "hair-cut" aos depósitos. Entre os 10 mil e 100 mil o hair-cut será de 30% e, acima dos 100 mil €, o hair-cut será de 50%.

Parte que compete aos credores:
4 = O BCE vai dar liquidez ao sistema bancário grego depois de este estar recapitalizado e com boas garantias. 
5 = Os credores vão fazer o roll-over da dívida pública que está nos seus balanços que vai sendo paga lentamente (com 2,5% do PIB). Inicialmente a divida pública ainda vai crescer porque os juros são actualmente cerca de 4,5% do PIB, ver,  mas será suficiente para que, a prazo, a divida comece a diminuir (demorará 40 anos a voltar ao 60% do PIB).

Quer então dizer que a Grécia vai manter-se no Euro?
É o único ponto que ainda não está fechado porque a França quer que continue. Mas existe uma probabilidade de 90% da Grécia sair do Euro.
Em termos de contagem de votos, os países que estiveram ocupados pelos soviéticos (Eslováquia, Estónia, Letónia e Lituânia), querem que a Grécia saia da ZE por os Tsipras ter ido falar com o Putin.
Por estarem fartos de serem apelidados de terroristas, a Holanda, Finlândia, Austria, Bélgica também querem que a Grécia saia.
Já dá 8 votos certos a favor da saida e, como 89% dos alemães e todos os deputados da CDU são a favor da saida, podemos contar 9 votos.
Depois há aqueles que nem dizem sim nem não (Portugal, Espanha, Grécia, Eslovénia)
E verdadeiramente a favor está a França, a própria Grécia e mais ninguém.
Se contarmos apenas os votos expressos, temos 9 contra 2 a favor da saida.
Não vai ser fácil a Grécia continuar na Zona Euro.

Porque a Grécia tem que sair do Euro.
Apenas por questões económicas.
Para que a taxa de desemprego desça dos actuais 27% para os normais 6%, os salários gregos têm que descer, em termos reais, 20% e os gregos não estão convencidos disso.
Acreditam mesmo que, para combater o desemprego, os salários têm que subir.

Fig. 3 - A desvalorização do Drakma em 20% vai fazer o desemprego cair rapidamente.

Perguntam onde fui eu buscar os 20%?
Vejamos às minhas contas a ver se concordam.

1 = O peso dos salários no PIB é cerca de 60%. 
2 = Actualmente há 27% de desemprego pelo que trabalha 1-27% = 73% da população activa.
   => Supondo um PIB de 100€, o "salário médio" será de 60€ / 73% = 82,20€.
3 = Nos próximos 3 anos a economia não vai crescer muito. Vamos supor que, em termos acumulados, a economia cresce 4% (uma taxa de crescimento de 1,3%/ano).
    => Daqui a 3 anos o PIB será de 103€, 62,40€ para salários.
4 = Para daqui a 3 anos fazer a taxa de desemprego voltar a ser  6%, como há 62,40€ para distribuir por 92% da população activa, o "salário médio" só poderá ser 66,40€.
   => 66,40€/82,20€ -1 = 20% que traduz a redução no poder de compra dos salários para que possa haver emprego para toda a gente.

Não estou a ver como os esquerdistas gregos se vão convencer disto.

Como vai ser o Grexit.
=> Será recriado o Drakma com a taxa de câmbio de 340,75GRD/€ (cotação actual).
=> A cotação do Drakma irá desvalorizar 20% e, depois, passa a câmbios flexíveis com o Euro.
=> O Banco Central Grego vai ter total liberdade na emissão de Drakmas mantendo assim a solvabilidade nominal do Estado Grego (poderá sempre pagar as Pensões e os salários dos funcionários públicos com Drakmas novos).
=> As instituições europeias vão garantir que os depósitos bancários (depois de aplicado o hair-cut para os recapitular) se vão manter em euros e totalmente garantidos pelo BCE. Para isso, a gestão de risco de créditos dos bancos gregos também será feita pelo BCE.

Mas onde estão os Dracmas?
=> Os salários e as pensões vão ser denominados em Drakmas.
=> Os preços dos bens e serviços irão ser afixados em Drakmas e em Euros.



Mas demora pelo menos 3 meses a imprimir os Drakmas!
Demoraria se alguém quisesse usar essa moeda mas, de facto, não vai ser preciso imprimir uma única nota de Drakmas pois ninguém a vai usar porque vai ser gerida pelo Banco Central Grego em que actualmete nenhum grego confia.
Senão reparemos, hoje já existem duas moedas em circulação na Grécia, o Inside Money (os depósitos bancários garantidos pelo Banco Central Grego) e o Outside Money (as notas de euros garantidas pelo BCE). E prova de que ninguém vai querer receber drakmas é que ninguém aceita actualmente o Inside Money (garantido pelo BCG).

E onde vai ser usado o Drakma?
Em transferências da Segurança Social Grega para os pensionistas e nos salários dos funcionários públicos. Mas estes valor serão convertidos em euros no instante em que entram nas contas bancárias (garantidas pelo BCE) das pessoas pois niguém quererá depósitos em Drakmas.
Também os actuais contratos de trabalho privados (efectivos) vão ter os salários convertidos em Drakmas para que o mercado de trabalho possa ajustar.
As pessoas também poderão pagar os impostos em Drakmas mas ao câmbio do dia pelo que ninguém o irá fazer porque é indiferente a pagar em euros.

Então, a Grécia vai sair do Euro sem sair do Euro!
Exactamente.
Mas, ao fixar os salários e as pensões em Drakmas, a economia vai ajustar rapidamente às possibilidades da Segurança Social, da receita fiscal e da produtividade das empresas.
Se, daqui a um mês ou dois, os comunas decretarem que Salário Mínimo grego aumenta 50%, logo o Drakma desvaloriza e a economia anula essa loucura.
Se se lembrarem de contratar 1 milhão de funcionários públicos, como vão receber em drakmas emitidos pelo BCG, a moeda vai desvalorizar para quase nada e mais ninguém quererá ser funcionário público.
Será como em Cuba em que, fazendo o câmbio, cada funcionário pública ganha pouco mais de 6€/mês.
Exactamente seis euros por mês, não foi engano meu (mais uns quilo de arroz e dois litros de óleo).

Um povo desmiolado precisa de moeda própria.
O modelo que vai ser aplicado à Grécia, depois, poderá ser aplicado a todos os países cujos povos sejam desmiolados.
Assim, o António Costa já pode ganhar com maioria absoluta e, assim, pode subir com facilidade o Salário Mínimo Nacional, as pensões e os salários dos funcionários públicos 50% que não vai ter qualquer problema pois, no dia seguinte, o Escudo desvaloriza e volta tudo ao mesmo.

Fig . 1 -Viva ao António Costa, o Nicolás Maduro Português (a única diferença. é o bigode).

Esta faz-me lembrar uma conversa de café.
Estava um homem com aspecto um pouco embriagado a olhar ostensivamente para outro fazia alguns momentos e a dizer "É igual, não falha nada, só pode ser ela."
Como o outro já se estava a sentir incomodado, perguntou lá do fundo.
- Ouça lá oh homem, o que está ai a dizer?
- É que o Sr. é igualzinho à minha mulher, igual, igual, igual, até pensei que fosse ela mas faz diferença no bigode e no cabanhaque.
- No bigode? - perguntou o outro - mas eu não tenho bigode nem cabanhaque!
- Exactamente, mas tem ela amigo.


Pedro Cosme Costa Vieira

sábado, 27 de junho de 2015

O Grexit e o futuro do Euro

Toda a gente diz que ninguém sabe o que irá acontecer. 
Mas eu sei. 

Vamos ao câmbio fixo.
O regime de câmbios fixos existe o país A,tem a sua moeda fixa relativamente à moeda do país B. 
Por exemplo, o Peso Argentino teve câmbio fixo (1 para 1) com o Dólar Americano entre 1991 e 2001.
Se no país A a política de salários e preços for expansionista relativamente ao país B, as contas de A com B começam a desequilibrar-se (a Balança Corrente fica deficitária) e o endividamento externo começa a aumentar. Este desequilíbrio também leva ao aumento da taxa de desemprego em A, a diminuição do desemprego em B e a emigração de A para B.

Com o tempo
Se o povo da país A pensar que a economia se baseia no consumo e não na produção e que o salário é um direito e não uma contra-partida pelo que se produz (e o país B não quiser aumentar a sua inflação ) então, a economia de A vai contraindo e o endividamento externo vai-se tornando crescente o que faz aparecer o risco do país A ter que abandonar o câmbio fixo e desvalorizar a sua moeda.
Este risco cambial é uma força altamente destruidora das relações de câmbio fixo. Por esta razão, a evidência empírica indica que todas as relações de câmbio fizo do passado acabaram por fracassar.

Fig. 1 - A nova nota Grega em primeira mão.

Será a Zona Euro um regime de câmbios fixos?
Os especialistas dizem que sim e, se o for, também está condenada ao fracasso, demore muito ou demore pouco, vai acabar por acabar. 
Mas, de facto, não é um regime de câmbios fixos.
"Não é?" - o estimado leitor está agora a perguntar - "Deve haver nessa cabecinha um engano qualquer porque o nosso Escudo tem câmbio fixo com o Euro, 200$482 = 1,00€." vai pensar.
Mas não é um verdadeiro regime de câmbios fixos porque o nosso velhinho Escudo não está fixo relativamente à moeda de nenhum país mas sim a um cabaz com, além do escudo, 20 moedas e 20 economias.
Está outra vez a pensar "Portugal mais 20 economias dá 21 e a Zona Euro só tem 19 países, o fulano está a meter os pés pelas mãos."
Não, não, é que ainda existe a Kosova (os kosovares dizem que o nome é feminino) e Cabo Verde.
Assim, o Euro é um instrumento supra-nacional mais parecido com o Ouro que com um papel moeda.
O Euro é gerido pelo BCE como uma entidade supra-nacional que tem que manter a inflação de 2,0%/ano na média dos países que usam o Euro como moeda.
Em teoria o Euro pode subsistir mesmo que nenhum país o use como moeda transformando-se na média de uma cabaz das moedas de todos os países da União Europeia.

E se o país A tiver uma inflação superior a 2,0%/ano?
Tendo ambos Euros, para o país A ter inflação acima dos 2%/ano, o país B irá ter uma inflação abaixo dos 2%/ano. Esta diferença nas taxas de inflação vão fazer actuar as forças económicas.
1) Os bens do país A ficam mais caros que os do país B o que faz com que as empresas do país A não consigam vender as suas produções.
2) As empresas do país A começam a ajustar descendo os salários (os custos diminuem o que leva à queda da inflação).
3) Se os salários não poderem descer (por ser inconstitucional)começam os despedimentos. 
4) Se os despedimentos forem inconstitucionais, as emrpesas começam a falir.
5) O Estado vai pagar subsídios de desemprego, tomar conta das emrpesas falidas e contratar funcionários públicos o que aumenta a despesa pública que tem que ser financiada com endividamento  externo crescente.
5) Se a economia não ajustar pelos salários, como não é possível um endividamento eterno, as pessoas vão ter que emigrar para o país B (onde a inflação sendo menor, a economia reage em sentido contrário).

Será que isto já aconteceu em algum lado?
Aconteceu e está a acontecer repetidamente em Portugal e um pouco por todo o Mundo. 
Por exemplo, entre 1960 e 2015 a população portuguesa aumentou 17% mas a população de Mértola diminuiu 75%. Em 1960 Mértola tinha 26026 habitantes e hoje tem 6750.
É que as pessoas em Mértola não estavam disponíveis para ter salários mais baixos que em Lisboa.

Fig. 2 - Mértola é muito bonita mas nunca lá estive.

Com a saída da Grécia não vai acontecer nada ao Euro.
Vai acontecer o mesmo que aconteceria se um país qualquer entrasse no Euro, nada.
Quando em 2001 a Argentina "quebrou" a associação com o Dólar Americano o que é que aconteceu ao Dólar? Será que o Dólar Americano acabou? Não me consta.
Vai passar a haver o risco de qualquer país sair do Euro mas esse risco é de cada país individual e não do Euro enquanto moeda. Esse risco de saída do Euro vai-se materializar em diferenças na taxa de juro de longo prazo, o que já acontece. Por exemplo, a dívida pública espanhola e Italiana a 10 anos paga  1,8% de taxa de juro e a dívida alemã paga 0,6%/ano (média de Maio 2015).

E poderá a Grécia continuar a usar o Euro?
Concerteza como Mértola sempre usou a mesma moeda que o resto de Portugal.
Se o BCE decidir manter a liquidez, nos próximos dias o sistema bancário vai acalmar passando a funcionar normalmente.
O governo poderá fazer mais despesa e contratar mais funcionários públicos (alegadamente pagos em Euros) desde que consigam cobrar impostos ou quem lhe empreste Euros. Como os gregos não vão aumentar os impostos (seria a tal Austeridade) e ninguém vai lhes vai emprestar Euros de forma voluntária, começarão a ser introduzidos "títulos de dívida convertíveis", TDC, para pagar parte da despesa pública, por exemplo, o salário é de 1000€/mês, a pessoa recebe 500€/mês mais 500€/mês em TDC que começará a ser utilizada como uma moeda local com câmbio flexível com o Euro.
Uma despesa pública que em condições normais custaria 1000€ vai custar 1500€ pois o governo vai pagar 750€ em notas e outros 750€ em TDC (supondo um câmbio no mercado negro de 1TDC = 0,33€).
Lentamente, a TDC entrará em circulação como moeda local havendo um mercado de câmbio. Se o governo teimar em aumentar a despesa pública e diminuir a receita fiscal, mais e mais TDCs terão que ser emitidos pelo que o câmbio com o Euro será cada vez menor. Assim, os salários vão descendo pois a metade em TDCs valerá cada vez menos.

Fig. 3 - És boa e eu queria dar uma volta nisso mas imagino que não aceites TDCs.

O TDC vai ganhar vida e, a prazo, haverá notas e moedas a dizer TDC.
Se o país A (a Grécia) não quiser resolver o problema dos salários em euros elevados, a prazo vai ficar sem a população que vai ter que emigrar para a Alemanha.
Se o país A (a Grécia) não quiser resolver o problema do défice público, terá que emitir mais e mais TDC e pagar uma percentagem dos salários nesta nova moeda o que, desvalorizando, fará diminuir os salários reais.
Mas, como observamos a crise em Mértola que já dura há mais de 50 anos, também veremos esse fenómeno no pais A.

O que é a democracia na óptica dos esquerdistas?
É o Syriza, com 2,25 milhões de votos, ter legitimidade democrática para desgovernar a Zona Euro que tem 334,57 milhões de pessoas.
Porque o Syriza foi eleito com votos correspondentes a 0,67% da população da Zona Euro, tem legitimidade democratica para dizer como deve ser governada a Zona Euro.
Bem, o Staline foi eleito com menos votos.
Que mandem lá na zonazinha deles.

E como estamos de pre----lhada.
Eu tenho observado coisas muito interessante.
1) Ainda não ouvi ninguém dizer que Portugal tem que receber os tais 3,52% dos imigrantes que chegam à Grécia, Itália e Hungria. Estão a chegar cerca de 2000 por dia pelo que deveríamos receber 70 por dia, 25 mil por ano.
2) Nenhum dos entrevistados diz "Eu atravessei o Mediterrâneo porque o meu sonho de sempre foi viver na Itália" nem "Eu atravessei o Mediterrâneo porque o meu sonho de sempre foi viver na Grécia" e muito menos "Eu atravessei o Mediterrâneo porque o meu sonho de sempre foi viver em Mértola."

Estão a ver onde eu quero chegar?
Eu estive a perguntar à minha empregada ex-ucraniana porque veio para Portugal. 
Porque, em 2001, constava que se viajasse para Portugal com visto de turista, se, uma vez chegando cá, conseguisse nos 30 dias arranjar emprego tinha logo um visto de residência. 
E assim foi. Em 2004 veio ela e o filho (com visto de turista).
Mas queria ir para Inglaterra mas não conseguiu visto.
Por mais refugiados que entrem na Europa, tendo liberdade de circulação, nem um quererá vir para Portugal.
Se não nos pomos a pau (literalmente) e "obrigamos" as portuguesas a ter filhos à força toda, quando eu passar a centenário (daqui a 50 anos), Portugal estará reduzido a 1 milhão de habitantes (e Mértola a 2 ou 3 velhotes).

Pedro Cosme Vieira.

quinta-feira, 25 de junho de 2015

Estará mesmo o desemprego abaixo do de Abril de 2011?

Esta semana estalou uma pequena polémica.
O Ministro Mota Soares, depois de um longo desaparecimento, veio dizer que hoje temos um número de desempregados inferior ao número que existia no dia em que o PS assinou o Memorando de Entendimento com a Troika (17 de Abril de 2011).
Foi objectivamente isto que o homem disse depois de ter passado uns longos meses escondido no mesmo lugar em que está o António Costa (está a pensar o que há-de dizer sobre a Grécia).
Claro que os esquerdistas do PS e mais vieram dizer que isso não passava de uma fábula.
 
Fábula?
Mas, sendo a fábula uma histórias em que as personagens são animais, então, os esquerdistas acham que o desempregados são animais!
Mas confesso que o meu primeiro pensamento foi "É impossível que depois de 4 anos de espiral recessiva, de destruição neoliberal, de empobrecimento e de austeridade pouco inteligente haja menos desempregados que em Abril de 2011, no fim de um período de 6 anos em que os esquerdistas do PS aplicaram as políticas de emprego e crescimento que dizem vir a ser, se vierem a ganhar as eleições de Outubro de 2015, o outro caminho que nos vai levar ao enriquecimento e à prosperidade (para o qual o Sócrates precisou de um massivo endividamento público e externo!).
 
Fig. 1 - O Mota Soares é o Varofáquis português mas em ponto pequenino (numa lambretazita).

Esta semana senti-me derrotado.
Tenho passado dias de grande angústia pois não quero aceitar que o Mota Soares meteu o pés pelas mãos (faltou à verdade) e os esquerdistas aproveitaram para, pela primeira vez na vida, dizer algo de verdadeiro.
Dei voltas e voltas na cama a tentar racionalizar o comportamento do Mota Soares. Será que o homem anda na lambreta sem capacete e, naquele dia, estava com a cabecinha sobre-aquecida por causa do Sol?
 
Hoje fui sem esperança, ver as estatístricas ao www.ine.pt.
Pensei que seria a minha derrota final.
Diz lá no INE que em Abril de 2011 havia 658,7 mil desempregados mas não tem dados para Junho de 2013. Os últimos dados que tem são 669,8 mil desempregados em Abril 2015, próximo do valor de 2011 mas acima.
Mas o Mota Soares falou em Junho de 2015 pelo que tive que espetacular como terá evoluído o desemprego em maio e em Junho para os quais não tenho dados.
 
A Ciência nunca diz "não sou capaz de dizer nada".
Para estimar o número de desempregados em Junho de 2015 peguei na série desde o valor máximo do desemprego ( 1 T 2013) e calculei a variação média mensal. Obtive -1,22%/mês.
  
Fig. 2 - Número de pessoas desempregadas (dados: INE)
 
Afinal, hoje há mesmo menos pessoas desempregadas do que havia em 2011.
Aplicando esta taxa de variação aos valores de Abril de 2013 obtenho 653,2 mil como o valor médio do número de pessoas desempregadas para Junho de 2015 (661,6 mil para Maio).
Se em Abril de 2011 havia 658,7 mil desempregados, hoje há menos  5,5 mil desempregados.
E, pensando que a saída do Euro da Grécia não vai ter impacto no nosso país, em Setembro de 2015, na véspera das eleições, haverá 630 mil desempregados, menos 23,2 mil desempregados que no dia da assinatura do Memorando.
 
Mas é uma "estatística rápida".
Então é preciso calcular uma medida do erro do estimador e, a partir dai, o grau de confiaça da estimativa.
Aplicando o estimador aos meses desde Abril de 2013 até Abril 2015, calculo que o erro padrão é de 18,5 mil. Este número indica que a probabilidade do INE vir dizer que o desemprego em Junho 2015 é inferior ao valor de Abril de 2011 é de 60%.
Vamos ver que já só faltam 2 meses para sair a estatística.
 
Não pode ser mas é.
Depois de 4 anos de austeridade, de espiral recessiva, de agenda neoliberal destruidora, posso afirmar com confiança de 60% que hoje há menos desempregados do que havia em Abril de 2011, no fim de um período de 6 anos de crescimento e glória em que os esquerdistas do PS tiveram a oportunidade e mão livre  para aplicar as políticas do "outro caminho" alavancadas no endividamento público e externo massivo, políticas que o Passos Coelho, no entretanto destruiu.

Mas a taxa de desemprego ainda está superior.
A minha "estatística rápida" aponta para 12,7% em Junho 2015 quando em Abril de 2011 era de 12,3%.
ainda são 4 décimas a mais mas em Setembro a coisa, em termos de taxa, já vai estar abaixo.
A diferença entre a evolução da taxa de do valor deve-se à diminuição da população activa em 200 mil pessoas (de 5355 mil para 5152 mil).
 
E como ficará a Grécia?
Vai borda fora.
Quando no dia 27 de Janeiro de 2015 a Grécia bloqueou o aprofundamento das sanções à Rússia por causa da invasão do Leste da Ucrânia, a Alemanha (em sociedade com a Polónia e o apoio do Reino Unido e de todos os demais países europeus que estiveram ocupado pela URSS) decidiram que a Grécia não tinha mais lugar dentro da União Europeia.
Agora vai borda fora da Zona Euro e, daqui a um anito, borda fora da União Europeia.
O Varufáquis e o Tsipras não compreenderam que tinham tocado o bicho alemão com uma vara demasiado curta.

Queriam 6 meses.
No dia 25 de Janeiro os esquerdistas gregos disseram que em 6 meses arrumavam a casa.
Que iam subir impostos e fazer as coisas necessárias mas de forma inteligente para equilibrarem as contas públicas e re-iniciarem o crescimento e o emprego de uma vez por todas.
E o que fizeram passados 5 meses?
Aumentaram a despesa pública e reduziram a receita fiscal.
E o que vão fazer nos próximos 3 anos e 7 meses?
Prometer uma coisa e fazer exactamente o seu contrário.

Agora, se se quizerem mesmo manter na Zona Euro. 
Têm que fazer aquilo que os comunas acusaram o Gasparzinho de fazer: só lhes sobra "ir para além da Troika" e falar com os "funcionários" da troika muito de mansinho.
Têm que se deixar dessa ilusão da renegociação, voltar a pegar no Memorando de Entendimento de 2012 (o segundo resgate grego) e dar-lhe cumprimento a 110%.

Mas será a dívida pública grega pagável?
Os esquerdistas dizem que não, dizem que 175% do PIB não se pode pagar.
Mas o Japão tem uma dívida pública de 238% do PIB e ninguém diz que não é pagável.
Em 1820 e em 1945 o Reino Unido tinha uma dívida pública na ordem dos 250% do PIB e conseguiu paga-la.
Se a Grécia tiver um superávite primário de 2,0% do PIB, o que não é nada da especial, poderá pagar toda a sua dívida pública em menos de 70 anos. O que é preciso é ter a vontade que parece que nunca tiveram.

Fig. 3 - Evolução futura da divida pública grega com um superávite primário de 2% do PIB e crescimento do PIB de 2%/ano

Mas isso de pouco interessa?
Alguém se lembra da dívida de guerra da URSS?
Depois a invasão alemã da URSS, os americanos forneceram pelo Corredor Persa, Ártico e Vladivostok bens no valor de milhares de milhões de dólares. Não só alimentos como camiões, aviões e todo o tipo de equipamento num total de 16,3 milhões de toneladas.
A URSS usou esse armamento não só para derrotar os nazis como para invadir a europa de Leste.
Alguma vez os soviéticos disseram que não pagavam?
Alguma vez os americanos mandaram a factura à URSS?
Alguma vez os soviéticos pagaram?
Nunca, nem um cêntimo.
E hoje ninguém fala disso.

Fig. 4 -  Não tires já que ainda tenho 150 trabalhos e 250 testes de GInf para ver.

Pedro Cosme Vieira

sábado, 1 de dezembro de 2012

Será que a Troika ajoelhou aos pés da falhante Grécia?

A Grécia está à rasca.
O défice continua descontrolado, o desemprego está acima dos 25% e as contas externas estão negativas. Mas, estranhamente, a Troika esteve lá e não disse coisas muito negativas. Não só desbloqueou uma verba de 31.5 mil milhões € como estendeu o prazo do resgate em 15 anos (para mais do dobro, quase 30 anos) com um período de carência onde só serão pagos os juros de 10 anos.
Será, como dizem os nosso esquerdistas, que a Troika foi derrotada pela agressividade da Grécia e que o Passos Coelho deveria seguir esse caminho  ou os gregos estão a fazer o seu trabalho?

Os juros da dívida grega têm descido.
Depois de atingir 30%/ano em Junho 2012 (as obrigações a 10 anos estavam a ser transaccionadas a 10% do valor nominal), foi descendo até 0s 16.131%/ano de ontem (as obrigações a 10 anos estavam a ser transaccionadas a 33% do valor nominal).
Em 5 meses, as obrigações gregas valorizaram 230%.
Isto deveria traduzir que a Grécia vai no bom caminho mas, se acreditarmos no que ouvimos na comunicação social, não é isso que parece estar a acontecer.

Lentamente, a Grécia está a fazer o seu trabalho.
Em câmbios fixos (como acontece a quem pertence à Zona Euro), o ajustamento da economia faz-se pelos custos do trabalho (no caso grego e nosso, pela diminuição) e pela consequente diminuição dos preços face ao exterior (o que aumenta as exportações e diminui as importações).
E a OCDE aponta que os custos do trabalho reais gregos estão a diminuir desde princípios de 2010 cerca de 7%/ano (ver, Fig. 1). Em pouco mais de 2 anos, os custos reais do trabalho (corrigindo da inflação da Zona Euro), diminuíram mais de 15%. 
Pelo contrário, Portugal não corrige (está praticamente ao nível de Jan 2008) e a Espanha mantém-se ainda 4% acima dos custos de Jan 2008.

Fig. 1 - Evolução dos custos reais do trabalho relativamente a 2008 (dados: OCDE e BM, cálculos e grafismo do autor)

O nível geral de preços na Grécia relativamente à média da Zona Euro estão acima do nível de Jan 2008 mas estão (finalmente) a cair cerca de 1.5%/ano (ver, Fig. 2).
A Irlanda recuperou completamente a sua situação financeira porque os preços desceram, relativamente à média da Zona Euro, 8%. Os nossos preços só (ou já?) desceram 3%.

Fig. 2 - Evolução dos preços relativamente a 2008 (dados: OCDE, cálculos e grafismo do autor)

Nos fundamentais, a Grécia vai no bom caminho.
E a duplicação do apoio da Troika é o reconhecimento de que, mesmo refilando, a Grécia está a ir no bom caminho.
É pena as pessoas em Portugal, principalmente os comentadores de política económica que aparecem em todos os meios de comunicação social, não pegarem nos fundamentais da Irlanda e dizerem ao nosso povo que a solução passa obrigatoriamente por aí:

Descer custos do trabalho (menos salários e maior horário) leva à redução dos níveis de desemprego e torna possível haver uma

Redução dos preços relativamente aos nossos parceiros da Zona Euro que permite aumentar as exportações e induz uma diminuição as importações.

Mas isso vai acontecer na mesma.
Por causa da taxa de juro ser outra variável (além dos custos do trabalho e preços relativos) que equilibra a economia. Mas tem um efeito negativo de fazer aumentar o desemprego.

Qual será o impacto da duplicação do prazo?
É outro resgate quase igual (ligeiramente melhor) ao que está actualmente em vigor mas negociado para ter início e 2025 e durar até 2040.
Como a Grécia (e Portugal) nos próximos 15 anos não conseguiria gerar recursos para amortizar ós empréstimos da Troika, o melhor que conseguiria fazer era refinanciar esses pagamentos à taxa de juro do mercado de dívida. O melhor estimador para esse mercado é o "mercado secundário" onde, para um prazo de 30 anos, estava na primeira metade de Nov2012 nos 15%/ano.
Então, dado o diferencial entre a taxa de juro de mercado e a taxa de juro do resgate, duplicar o prazo tem um impacto muito significativo na quantidade de dinheiro que as instituições europeias estão, implicitamente, a oferecer à Grécia (e a Portugal).

Há um perdão de 73%.
Comparando com essa taxa de juro de mercado, no plano anterior, por cada 100€ de dívida actual, a Grécia teria que pagar 46.6€.
Agora terá que pagar apenas 27.3€.
Mas, tecnicamente, a Grécia vai pagar tudo o que deve mas é apenas de fachada pois, em termos económicos, só vai pagar 27.3%.

É estranho mas faz lembrar a história do Salazar.
Que prometeu à Nossa Senhora de Fátima que, se curasse a vaca que estava doente, vendia-a e dava o dinheiro a obras de caridade.
A vaca ficou boa mas a forretice do Salazar não permitia o cumprimento da promessa. Para não deixar de cumprir com a sua palavra, foi para o mercado com a vaca (pela qual pedia 10€) e uma galinha (pela qual pedia 500€).
O problema é que só vendia a vaca a quem também lhe comprasse a galinha.
O valor da dívida, a taxa de juro e o prazo funcionam da mesma maneira.
Pode-se perdoar a dívida cortando no seu valor ou na taxa de juro (abaixo do valor de mercado).
Quando a taxa está abaixo do valor de mercado, a extensão do prazo também reduz o valor real da dívida.

Vamos ver o impacto no caso português
Em princípio, esta extensão do prazo (e redução da taxa de juro de 3.20%/ano para 3.09%/ano) só se aplica a parte do pacote financeiro (1/3, 26 mil milhões de €) do FEEF - Fundo Europeu de Estabilidade Financeira (European Financial Stability Facility - EFSF). Neste caso, as novas condições à taxa de mercado da primeira quinzena de Nov2012 (7.89%/ano, bloomberg) traduzem  uma poupança, em termos actualizados, de 4750 Milhões €. Assim, traduz-se numa poupança de 18% da nossa dívida.
Para os valores de mercado, o resgate actual traduz um "perdão" de 28% da nossa dívida e com as novas (futuras) condições o "perdão" aumenta para 46.6% da dívida. Podemos ver na Fig. 3 que os pagamentos são muito adiados e reduzidos.

Fig. 3 - Evolução dos pagamentos a efectuar pelo resgate de 26MM€ (Cálculos e grafismo do autor)

O nosso plano de resgate traz ganho por adiar os pagamentos a uma taxa de juro muito inferior à de mercado o que faz, globalmente, diminuir os encargos do plano de resgate.

Fig. 4 - Alterações dos pagamentos do resgate de 26MM€ (Cálculos e grafismo do autor)

Respondi a umas questões do Tiago Figueiredo Silva (jornalista)

Fig. 5 - Saiu um parágrafo meu e a minha foto à beira de dois gigantes da comunicação social

O presidente do Eurogrupo anunciou que Portugal e a Irlanda vão ter acesso a uma redução de juros e das comissões pagas pelos empréstimos do FEEF, a um extensão das maturidade dos empréstimos do FEEF em 15 anos e extensão do período de carência dos juros em mais 10 anos.

1. Em termos práticos, quais as vantagens para Portugal? Porquê?
Portugal (e outros países) endivida-se sabendo que até ao fim do prazo não é capaz de gerar recursos suficientes para amortizar o capital. A esperança é conseguir refinanciar a dívida vencida continuamente.
O acordo sobre a extensão do prazo é a materialização da certeza de que Portugal apenas atingirá o objectivo dos 60% da dívida pública daqui a cerca de 30 anos. Se numa primeira fase as instituições que nos estão a resgatar pensaram que os problemas dos países sob resgate eram apenas de credibilidade de curto prazo, hoje já têm a consciência que sofremos de problemas económicos estruturais que precisam de tempo para serem corrigidos.
A actual taxa de juro (abaixo do 3.5%/ano) já é uma taxa muito baixa se recordarmos que nos primeiros anos do euro, 1999 - 2003, Portugal tinha bom rating e pagava uma taxa média a 10 anos de 5%/ano.

2. É possível quantificar o que estas medidas vão representar para Portugal? (poupanças, etc…)
A descida da taxa de juro tem um efeito positivo directo (uma descida de 0.1 pontos percentuais induzirá uma poupança de 78 milhões€/ano). Mas, se Portugal conseguir uma taxa de juro de 3%/ano, a previsão de que Portugal apenas conseguiria re-financiar os 78MM€ do resgate no mercado a uma taxa média de 5%/ano indica que estas alterações das condições da ajuda representam, em termos actualizados, uma poupança próxima dos 10 mil milhões €.
  
3. Esta redução dos juros e das comissões terá um efeito significativo ou não representa um montante relevante para Portugal?
Além do efeito directo nos encargos do Estado, tem também um efeito indirecto de tornar a nossa economia mais credível o que diminuirá o custo do financiamento de toda a economia. Sabido que o total do endividamento externo português é próximo dos 400 mil milhões de €, uma possível redução transversal de 1pp na taxa de financiamento externo, traduzir-se-á numa poupança anual de 4000milhões€.

4. Em conclusão, o que ganha Portugal com estas medidas anunciadas?
É a oferta da oportunidade de Portugal e demais países resgatados recomeçarem de novo. Agora, Portugal tem uma década livre para, sob observação dos nossos parceiros, se concentrar nas reformas estruturais necessárias para equilibrar as contas externas e anular o défice público preparando, nas décadas seguintes, a resolução definitiva do problema da nossa (in)sustentabilidade.

A grande capacidade dos jornalista é a capacidade de sinteze dos materiais ao espaço disponível que é sempre muito limitado. Neste caso, o Tiago conseguiu retirar das minhas 336 palavras as 30 palavras mais complementares (e informativas) à notícia principal.

Pedro Cosme Costa Vieira

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Austeridade: o beco sem saída

Economia portuguesa está assim: o consumo parou, o poder de compra foi atropelado pelos impostos
 e salários mais baixos e os nossos principais compradores não querem saber de nós
porque também não estão famosos. O Estado não gasta tostão para acelerar a economia.

Vamos supor que somos extremamente conscienciosos e queremos baixar a nossa estrutura de despesa. Vendemos a casa, o carro e vamos viver dois anos para debaixo da ponte. Seguramos o emprego e, de repente, o dinheiro chega para tudo, o que não é de admirar. Ao fim de dois anos, a troika despede-se no aeroporto da Portela. Mas nós nem nos apercebemos disso. Estamos doentes, desdentados, a família desfez-se e o emprego foi perdido porque já não tomávamos banho todos os dias. Em suma, ficámos piores e menos habilitados a criar riqueza. Será que Portugal vai estar assim no arranque de 2014? Umas palmadinhas nas costas da troika bastarão para ficarmos felizes? "Boa, rapazes. Diminuíram a despesa de forma notável. Boa sorte para a recuperação da economia e criação de emprego. Animem-se! Olhem para a Grécia que já nem é do euro", dirão os cobradores do fraque.

Será que a crítica à austeridade sem política de crescimento económico é tão infundada e mais na base do palpite? Parece  óbvio que não. Vamos por partes.

Grécia: o buraco sem fundo da zona euro

“Pesadelo da dívida grega posto a nu”, titula o Financial Times de hoje, revelando um relatório “estritamente confidencial” preparado e entregue, na semana passada, pelos analistas da troika (UE/BCE/FMI) aos líderes da zona euro. A “análise de sustentabilidade da dívida” defende que mesmo no cenário mais otimista, as medidas de austeridade impostas em Atenas podem dar origem a uma recessão tão profunda que a Grécia não conseguirá sair do buraco da dívida nos próximos três anos, 170 mil milhões de euros de resgate [136 mil milhões para além dos 34 mil milhões que sobraram do primeiro resgate à Grécia, de 110 mil milhões].
O relatório adverte ainda para o facto de dois dos mais importantes princípios do resgate se poderem autodestruir.

Grécia: se a revolta se agudizar, não há troika que meta aquele país na ordem

Forçar a austeridade na Grécia pode provocar a subida dos níveis de endividamento enfraquecendo severamente a economia, enquanto a reestruturação da dívida de 200 mil milhões de euros poderia impedir a Grécia de alguma vez mais conseguir voltar aos mercados financeiros por assustar os futuros investidores privados.

O relatório sugere que a dívida grega vai diminuir a um ritmo mais lento do que o esperado – apenas para 160 por cento da produção económica em 2020 – muito abaixo do objetivo de 120 por cento estabelecido pelo Fundo Monetário Internacional. Num cenário destes, a Grécia precisaria de um resgate que ronda os 245 mil milhões de euros, ou seja, muito mais do que os 170 mil milhões de euros de projeção “base” sob a qual os ministros da zona euro estiveram a negociar durante toda a noite, na segunda-feira, 20 de fevereiro, em Bruxelas


Portugal: o aluno brilhante da austeridade


As políticas de austeridade e corte de salários colocadas em prática em países periféricos como Portugal e Grécia terão um efeito contrário ao pretendido: a economia vai crescer menos (-3% ou mais, em 2012, apontam as previsões), apesar de o anúncio dessas medidas poderem ter um efeito positivo de curto prazo nos mercados. O número de economistas a defender esta ideia tem aumentado e, ontem, foi a vez de Corrado Andini e Ricardo Cabral, da Universidade da Madeira  (ver aqui) , virem explicar os motivos, juntando-se assim a personalidades como Paul Krugman, que também ontem veio reiterar a sua linha de pensamento no New York Times, chamando a Portugal “aluno brilhante da austeridade” sem resultados positivos (ver aqui) .Não, Krugman nunca defendeu o corte de salários, ao contrário do que chegou a ser ventilado. Ele defendeu o efeito "inflação" e exemplificou com uma medida de equivalência, isto é, caso a opção fosse o corte salarial directo... Basta saber traduzir do Francês (ver aqui).

Ministro das Finanças alemão confessa a Vítor Gaspar: "Sim, nós sabemos que esta austeridade toda não
 leva a lado nenhum,  mas isso não é importante. Na Alemanha, ninguém se queixa. Só a Grécia é que parece uma
"rave party"  non-stop do meu tempo de juventude

A execução orçamental portuguesa relativa a janeiro, ontem divulgada pela Direção-Geral do Orçamento, foi um primeiro sinal de que austeridade poderá ter um efeito contrário ao pretendido. O défice do subsector Estado baixou 41% face a janeiro de 2011, essencialmente devido à despesa total ter sido inferior em 12,7%. À parte do IVA, cujo aumento de 5,7% na receita era já previsível, tendo em conta o facto de as taxas terem sido agravadas em vários produtos e serviços no início do ano, os outros impostos ressentiram-se da aplicação das políticas de austeridade, gerando uma quebra da receita fiscal nos impostos directos na ordem de 18,8%, em especial no IRC.

Receita fiscal em janeiro de 2012: uma pequena amostra do que está para vir?



Medidas Adicionais de austeridade e cortes salariais vão piorar a crise do euro” é o título do paper publicado ontem, em Inglês, pelos economistas da Madeira e explica-nos, por exemplo, que a Espanha tem um problema da dívida externa, enquanto a Grécia e Portugal têm também esse problema e ainda um aumento exponencial de dívida soberana. Portugal aumentou a sua dívida pública em 43,7 pontos percentuais no período 1999-2010 (88,2) % do PIB, a Grécia em 50,9 pontos (137,1%) e Itália em apenas 5,4 pontos (117%).

Curiosamente, fazem notar os economistas, o nível da dívida soberana da Alemanha está bem acima da Espanha (78,8 e 57,4% do PIB, respetivamente). Além disso, os germânicos aumentaram em quase 22 pontos percentuais a sua dívida entre 1999 a 2010,  apesar de um superávite primário (sem juros) médio de 0,6% do PIB, no mesmo período. No entanto, aquele resultado pode ser explicado por uma taxa de juro média real 2,6 pontos percentuais superior à taxa de crescimento real do PIB entre 1999 e 2010. 

Segundo Ricardo Cabral e Corrado Andini, os mercados de exportação dos países periféricos estão a comprar menos e o consumo interno caiu devido às políticas de austeridade e baixa de salários. A recente dinâmica das taxas de juro da dívida pública é provável que reflitam o facto de que os mercados financeiros começaram a ter em conta não apenas o risco de a dívida soberana de um país não poder ser paga, mas também o risco de taxa de câmbio (o risco de que a dívida soberana de um país será paga em outra moeda que não o euro). Em 2009-2010, as taxas de inflação, em geral diminuíram quando comparadas com o período 1999-2008. Uma vez que as taxas de juros nominais aumentaram ou diminuíram sensivelmente em países periféricos, as taxas de juro reais nesses países aumentaram. Em vez disso, na Alemanha uma redução de um ponto percentual na taxa de juros nominal foi acompanhada por uma diminuição aproximadamente igual à taxa de inflação, de modo que a taxa de juro real manteve-se estável.

“Até os alunos brilhantes da austeridade, como Portugal e Irlanda, fizeram tudo o que lhes foi pedido, enfrentando ainda altos custos de financiamento no mercado secundário da dívida. Porquê? Por que os cortes da austeridade deprimiram profundamente as respetivas economias, colocando em risco as suas receitas fiscais, de tal modo que o rácio da dívida em percentagem do PIB, o indicador padrão da evolução fiscal, está a piorar”, afirmava ontem Paul Krugman, Nobel da Economia.  

Pedro Palha Araújo

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Títulos da dívida pública: a suprema embrulhada

Pescadinha de rabo na boca ou o imbróglio
das dívidas soberanas europeias


De acordo com os instrumentos do FEEF (Fundo Europeu de Estabilidade Financeira), teoricamente já é possível que um Estado receba dinheiro e depois o use para recomprar uma parte da sua dívida, normalmente com um desconto significativo”, referiu o porta-voz do ministro das Finanças, Martin Kotthaus, citado pela Reuters há dias. Pressionados pela Alemanha, os estados da Zona Euro até já admitem que os privados participem nos custos de uma eventual reestruturação da dívida grega. É como uma família em que uns emprestam dinheiro aos outros e as regras relativas ao pagamento e juros vão sendo alteradas ao longo do tempo. É família, ninguém leva a mal.

Vou vender a minha casa, um bem que possuo (podia ser o meu ordenado, isto é, a minha capacidade de criar riqueza, um activo de qualquer forma), mas depois vou ao banco (o FEEF não me aceita) e vou conseguir recomprar a casa a um preço mais baixo e o banco até me faz um crédito bonificado nessa circunstância. Se o mercado imobiliário recuperar (mercado secundário!) até vendo outra vez o imóvel. Faz todo o sentido! A engenharia financeira não tem limites, como se constatou em 2008.

É uma das maiores embrulhadas que já se viu. Já tínhamos percebido que havia bancos europeus que iam ao mercado primário e secundário da dívida comprar títulos da dívida do respectivo país ou de outros estados. Se necessário, até recorriam ao BCE, pagando uma taxa de 1% para se financiarem para comprar… títulos das dívidas soberanas. A propósito, os bancos são grande parte dos privados que serão chamados a participar nos custos de uma reestruturação ou recalendarização da dívida grega e quiçá de outros países. O BCE nunca irá gostar muito desta solução porque andou a comprar títulos da dívida dos países periféricos no mercado secundário. De quem é o capital do BCE? Dos bancos nacionais da Zona Euro...

Engenharia financeira = ideias brilhantes

Tal como sugerem alguns economistas, entre eles o director da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, José Reis, mais valia que o BCE emprestasse aos Estados da Zona Euro. Por outro lado, poderão ter alguma razão aqueles que defendem as eurobonds, que no fundo já existem quando o Mecanismo Europeu de Estabilização Financeira (gerido pela Comissão Europeia e que apoia a UE-27) e o Fundo Europeu de Estabilidade Financeira emitem dívida para financiar pacotes de ajuda acordados com países como Portugal e Irlanda (Grécia não beneficiou até agora do FEEF porque obteve apoio antes da sua criação).

Suspeito que a Zona Euro já entrou num processo de fuga para a frente. Os problemas avolumam-se. A Itália é já uma preocupação e eventuais problemas com a Espanha fazem parte dos piores pesadelos europeus. As agências de rating não dão tréguas, pese embora a Comissão Europeia pareça agora empenhada em criar uma estrutura própria de notação financeira. A solução pode amenizar os downgrades do triunvirato norte-americano e até o BCE diz que a Moody’s pode avaliar Portugal como “lixo” que em Frankfurt assobia-se para o ar e aceitam-se os títulos da dívida portuguesa como colateral.

Pedro Palha Araújo

terça-feira, 5 de julho de 2011

O discurso infértil do apocalipse

Um filme famoso. Afinal é também o filme do discurso que diariamente ouvimos


O discurso mainstream é agora e cada vez mais de carácter apocalíptico. Vamos sair da Zona Euro. Os 78 mil milhões de euros de ajuda externa a Portugal são insuficientes. A austeridade veio para ficar durante muito tempo. Não somos muito diferentes dos gregos. Não adianta pagar mais impostos, porque o dinheiro arrecadado é sempre mal gerido. Somos incapazes de criar riqueza. Bem-vindo ao país do triste fado.

Os quatro cavaleiros do apocalipse. Todos nós podemos atribui-lhes uma identidade
 de algum comentador apocalíptico da actualidade. Silva Lopes, João Ferreira do Amaral, etc.
 Ah, Medina Carreira é também uma boa escolha!

A literatura apocalíptica tem uma importância considerável na história da tradição judaico-cristã-islâmica, ao veicular crenças como a ressurreição dos mortos, o dia do Juízo Final, o céu, o inferno e outras que são ali referidas de forma mais ou menos explícita. No actual quadro político-económico da Europa, todos nós temos opiniões sobre o que significará a ressurreição dos mortos, quando chegará o Dia do Juízo Final, o que é exactamente estar no céu ou no inferno, etc.

A actual equipa ministerial tem um duplo desafio: primar pela competência na gestão da coisa pública e elevar a moral dos portugueses. Impossível? Não era isso mesmo que se dizia sobre o orgulho dos portugueses relativamente à selecção de futebol, até aparecer um brasileiro que conseguiu criar uma bandeirite aguda? E não ficamos todos orgulhosos quando ouvimos os nomes de Cristiano Ronaldo, Mourinho ou até de Carlos Tavares, número 2 da Renault/Nissan mundial, entre muitos outros exemplos?

Scolari e C. Ronaldo. A pergunta "burro sou eu?"  tornou o primeiro famoso
num sketch dos  Gato Fedorento.

Se lermos João Ferreira do Amaral, que adivinha a saída de Portugal da Zona Euro, ou Silva Lopes, que nos compara aos gregos e antevê a queda do Carmo e da Trindade, mais vale comprarmos ansiolíticos (baratinhos), metermo-nos na cama o dia todo e o mundo que se dane. O discurso negativista, destruidor, antipoder vende bem. É uma verdade bem conhecida, mas que normalmente não leva a lado nenhum.

Portugal e a Europa em geral precisam de um novo ritmo

Mais vale olharmos para os proponentes de um New Deal europeu: vamos lá a investir em vez de simplesmente poupar e dar um empurrão à entrevada economia da Zona Euro. Gastar mais do que se tem é uma lógica que tem de ser anulada, em Portugal e não só. Mas limitarmo-nos a dizer que diminuir salários, pensões, subsídios e aumentar indefinidamente os impostos é a única solução não cabe na cabeça de ninguém!

Pedro Palha Araújo

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