Haverá uma relação entre aumento das exportações e crescimento do PIB?
Baseado numa simples relação contabilistica entre o total de recursos disponíveis e o total de aplicação desses recursos, as nossas escolas de economia têm ensinado que existe uma causalidade entre o aumento das exportações e o aumento do PIB.
Esta lavagem ao cérebro vai fazendo os seus estragos a ponto de toda a gente, da esquerda à direita, perguntarem-me por ela.
Mas o que produzimos vem do trabalho.
O total produzido na nosso economia, o PIB, resulta apenas do uso de trabalho, N, e de capital, K, com um factor de escala (o nível tecnológico, A):
Y = A x N^0.67 x K^0.33
Não existe outra forma de produzir que não seja assim.
Desta forma, para haver crescimento económico é obrigatório que mais pessoas trabalhem ou que cada pessoa trabalhe mais, que exista mais capital (investimento que obriga a haver poupança) ou que aconteça uma inovação tecnológica não contabilizada como capital (por exemplo, a difusão a partir dos países mais desenvolvidos).
O PIB tem como destino o consumo.
É verdade que, em termos contabilisticos, podemos igualar o total de recursos disponíveis com o total dos seus destinos (consumos).
Podemos colocar de um lado da igualdade a produção, Y, mais as importações, Imp, (recursos disponíveis) e do outro lado da equação o consumo interno, C, o investimento, I e as exportações, Exp (o destino dos recursos):
Y + Imp = C + I + Exp
Fig.1 - É a minina estar sentada aí e não no meu colinho
Agora vem o erro.
Até aqui está tudo bem mas a manipulação algébrica desta igualdade encaminha as pessoas para o erro de pensar que esta igualdade é uma relação causal que determina o PIB:
Y = C + I + Exp - Imp
De repente, as pessoas esquecem-se de que a produção resulta do trabalho e do capital e passam a pensar que resulta do consumo, investimento, exportações e exportações.
A relação é ao contrário: apenas se pode consumir se houver produção.
Aplicando diferenciais (em euros), vem:
d Y = d C + d I + d Exp - d Imp
Podemos transformar esta relação em taxas de variação multiplicando pelos respectivos valores e dividindo pelo PIB. Resulta o crescimento do PIB como uma soma ponderada do crescimento dos diversos destinos em que o ponderador de cada variável é o seu valor em termos de percentagem do PIB:
D Y = 0.85 D C + 0.15 D I + 0.39 D Exp - 0.39 D Imp
Mas não existe causalidade.
Reforço que é errado afirmar que "o aumento das exportações em 1% causa uma expansão do PIB em 0.39%" porque esta relação é apenas uma igualdade contabilistica e não é uma relação de causalidade.
Nunca nos podemos esquecer que para o PIB aumentar é preciso que se trabalhe mais (mais pessoas, mais horas ou mais intensamente), que haja mais capital (investimento que vem da poupança) ou que haja inovação tecnológica.
Não existem caminhos fáceis para fazer a economia crescer.
Burridades 1.
Há um país à beira mar plantado em que todas as pessoas têm as mãos algemadas atrás das costas (a rigidez do mercado de trabalho).
Naturalmente que nesse país se produz pouco.
O actual governo abriu uma discussão sobre o que deve ser feito para que a economia cresça e estão em cima da mesa dois "caminhos de crescimento".
Caminho 1) Aumentar as exportações, o consumo e o investimento e reduzir as importações.
Esta é a medida proposta pelos os especialistas da esquerda. Afirmam, baseados na teoria do "puxão keynesiano" e em dados empíricos, que há uma relação entre o aumento das exportações e do consumo e o aumento do PIB. Dizem que, se o consumo aumentar 1% e as exportações 1%, mantendo-se tudo o resto constante, o PIB aumentará cerca de 1.25%.
Caminho 2) Desalgemar as pessoas para que elas possam trabalhar mais.
Esta é a medida proposta pelos especialistas da direita. Afirmam baseado no facto de o trabalho ser o mais importante factor de produção e em dados empíricos que se aumentar a quantidade de trabalho em 2%, o PIB aumenta 1.33%.
Qual será a politica que de facto faz aumentar o PIB?
Esta situação pode parecer absurda mas é o que se está a discutir, há décadas, em Portugal.
De um lado temos a esquerda que diz serem o consumo e as exportações o motor do crescimento e, do outro lado, o Passos Coelho (Gasparzinho, Álvaro e o falecido António Borges) a dizer que é a flexibilização do mercado de trabalho que é a chave do nosso futuro crescimento económico.
Fig. 2 - A safa é que, por esse mundo fora, os burros ainda têm muita saída.
Burridade 2.
Mas os "das exportações" não desarmam à primeira. São como o Al-Assad que pensa derrotar a máquina de guerra do colosso americano com a promessa de "estudar a hipótese de entregar as armas químicas que nunca tivemos e que não poderíamos ter usado porque nunca as tivemos".
Existe sub-emprego de factores de produção.
Porque as fábricas estão paradas a maior parte do tempo e existe desemprego então, existe sempre capacidade sub-utilizada (i.e., desemprego de factores de produção). Havendo um reforço da procura, o "puxar da procura" keynesiano, essa capacidade desaproveitada vai ser mais utilizada aumentando assim o PIB.
Como a procura não pode aumentar pelo reforço do consumo interno ou do investimento porque o acesso ao crédito está dificultado, a única forma de aumentar a procura é aumentar as exportações.
O "puxão keynesiano" é extraordinario porque vem associado com um aumento dos salários (da retribuição dos factores de produção).
Mas esta visão tem vários problemas.
Problema 1 - Os factores de produção não são homogéneos.
Apesar de, em termos macroeconómicos, existir sub-emprego de factores, esses recursos são de sectores obsoletos e sem capacidade para reforçarem rapidamente os recursos dos sectores onde a procura vai iincidir.
Se a Economia fosse estática, fazendo-se sempre os mesmos produtos usando a mesma tecnologia, um empresa teria sempre os mesmos trabalhadores e seria igualmente competitiva ao longo dos séculos. Acontece que o progresso tecnológico leva ao aparecimento de novos produtos e novas formas de produção que, lentamente, tornam obsoletos os sectores tradicionais.
Por exemplo, a construção naval na Europa acabou quando os asiáticos (Coreia do Sul, Formosa, Japão) desenvolveram novas formas de fazer barcos (pré-fabricados por módulos). Os nossos trabalhadores dos estaleiros navais foram para o desemprego e aí ficaram porque não sabiam fazer mais nada.
Os factores, seja trabalho ou capital, são heterogéneos de forma que um trabalhador da construção civil desempregado ou uma grua não utilizada não conseguem transformar-se no curto prazo num trabalhador de calçado e numa máquina de costura. O desemprego de factores não consegue ser mobilizado para dar resposta ao reforço da procura porque apenas existe nos sectores que estão em re-estruturação (construção civil).
Problema 2 - Como não existe capacidade de mobilizar os recursos sub-utilizados, as empresas para produzir mais têm que aumentar os salários o que implica custos e preços aumentados. Então, o reforço da procura vai causar aumentando dos preços (e salários) mais que aumento das quantidades.
Problema 3 - As empresas vão ter que ficar à espera que as exportações aumentem como que por milagre. Têm que acreditar que rezando uma Avé Maria à NS de Fátima, logo as exportações aumentam.
Será como imaginar o Sporting do ano passado (em que ficou em 7.º) a ganhar o campeonato deste ano porque os outros clubes vão, sem mais quê, deixar de marcar golos.
Vamos à verdadeira causalidade.
Para podermos aumentar as exportações temos que:
Baixar os preços dos nossos produtos
Um produtor de sapatos que exporta 1000 pares por semana sabe que, se quiser passar a exportar 2000 pares por semana, tem que baixar o preço de venda. E sabe ainda que apenas o consegue fazer sem ir à falência se produzir mais com os mesmo empregados (muito difícil para não dizer impossível) ou contratar mais empregados com salários mais baixos (o caminho viável).
Baixando os salários, as empresas conseguem produzir a um custo mais baixo, tornando-se capazes de vender a preços menores ganhando conta de mercado.
Apesar de os esquerdistas dizerem que as empresas não vão ter a quem vender porque o rendimento dos trabalhadores fica diminuído (e que é a grande fatia do rendimento disponível), como estamos inseridos numa zona de comércio livre, a União Europeia, cuja economia é 80 vezes o tamanho da nossa, este problema nunca se colocará.
Fig. 3 - Os custos do trabalho começaram a diminuir no principio de 2010, em simultâneo com o aumento das taxas de juro (dados: EuroStat)
Onde pára a espiral recessiva anunciada pelo PS (e o Cavaco)?
O Seguro só aguenta em cima do burro até ao fim de Setembro.
Batalhou tanto na "espiral recessiva" de
Salários mais baixos -> menos rendimento -> menos compras -> não há a quem vender -> menos emprego
Que agora é por demais evidente que não passava de uma cavalgadura porque a austeridade sempre é expansiva:
Salários mais baixos -> preços mais baixos -> mais exportações -> são preciso mas trabalhadores -> mais emprego
Quando saírem os resultados das autárquicas vai ter que apear-se
Concluindo.
Dizer que as exportações causam crescimento do PIB é equivalente a dizer que quem tomar um medicamento durante muito tempo, fica velho.
À posteriori observamos que as pessoas que tomam o medicamento durante 100 anos ficaram muito velhas mas não podemos garantir que quem se proposer tomar o medicamento esse tempo todo o consiga fazer.
Pedro Cosme Costa Vieira