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terça-feira, 10 de setembro de 2013

As exportações e o PIB

Haverá uma relação entre aumento das exportações e crescimento do PIB?
Baseado numa simples relação contabilistica entre o total de recursos disponíveis e o total de aplicação desses recursos, as nossas escolas de economia têm ensinado que existe uma causalidade entre o aumento das exportações e o aumento do PIB.
Esta lavagem ao cérebro vai fazendo os seus estragos a ponto de toda a gente, da esquerda à direita, perguntarem-me por ela.

Mas o que produzimos vem do trabalho.
O total produzido na nosso economia, o PIB, resulta apenas do uso de trabalho, N, e de capital, K, com um factor de escala (o nível tecnológico, A):

     Y = A x N^0.67 x K^0.33

Não existe outra forma de produzir que não seja assim.
Desta forma, para haver crescimento económico é obrigatório que mais pessoas trabalhem ou que cada pessoa trabalhe mais, que exista mais capital (investimento que obriga a haver poupança) ou que aconteça uma inovação tecnológica não contabilizada como capital (por exemplo, a difusão a partir dos países mais desenvolvidos).

O PIB tem como destino o consumo.
É verdade que, em termos contabilisticos, podemos igualar o total de recursos disponíveis com o total dos seus destinos (consumos).
Podemos colocar de um lado da igualdade a produção, Y, mais as importações, Imp, (recursos disponíveis) e do outro lado da equação o consumo interno, C, o investimento, I e as exportações, Exp (o destino dos recursos):

     Y  + Imp = C + I + Exp

Fig.1 - É a minina estar sentada aí e não no meu colinho

Agora vem o erro.
Até aqui está tudo bem mas a manipulação algébrica desta igualdade encaminha as pessoas para o erro de pensar que esta igualdade é uma relação causal que determina o PIB:

    Y  = C + I + Exp - Imp

De repente, as pessoas esquecem-se de que a produção resulta do trabalho e do capital e passam a pensar que resulta do consumo, investimento, exportações e exportações.
A relação é ao contrário: apenas se pode consumir se houver produção.

Aplicando diferenciais (em euros), vem:

   d Y  = d C + d I + d Exp - d Imp

Podemos transformar esta relação em taxas de variação multiplicando pelos respectivos valores e dividindo pelo PIB. Resulta o crescimento do PIB como uma soma ponderada do crescimento dos diversos destinos em que o ponderador de cada variável é o seu valor em termos de percentagem do PIB:
   D Y  = 0.85 D C + 0.15 D I + 0.39 D Exp - 0.39 D Imp

Mas não existe causalidade.
Reforço que é errado afirmar que "o aumento das exportações em 1% causa uma expansão do PIB em 0.39%"  porque esta relação é apenas uma igualdade contabilistica e não é uma relação de causalidade.
Nunca nos podemos esquecer que para o PIB aumentar é preciso que se trabalhe mais (mais pessoas, mais horas ou mais intensamente), que haja mais capital (investimento que vem da poupança) ou que haja inovação tecnológica.
Não existem caminhos fáceis para fazer a economia crescer.

Burridades 1.
Há um país à beira mar plantado em que todas as pessoas têm as mãos algemadas atrás das costas (a rigidez do mercado de trabalho).
Naturalmente que nesse país se produz pouco.
O actual governo abriu uma discussão sobre o que deve ser feito para que a economia cresça e estão em cima da mesa dois "caminhos de  crescimento".

Caminho 1) Aumentar as exportações, o consumo e o investimento e reduzir as importações.
Esta é a medida proposta pelos os especialistas da esquerda. Afirmam, baseados na teoria do "puxão keynesiano" e em dados empíricos, que há uma relação entre o aumento das exportações e do consumo e o aumento do PIB. Dizem que, se o consumo aumentar 1% e as exportações 1%, mantendo-se tudo o resto constante, o PIB aumentará cerca de 1.25%.

Caminho 2) Desalgemar as pessoas para que elas possam trabalhar mais.
Esta é a medida proposta pelos especialistas da direita. Afirmam baseado no facto de o trabalho ser o mais importante factor de produção e em dados empíricos que se aumentar a quantidade de trabalho em 2%, o PIB aumenta 1.33%.

Qual será a politica que de facto faz aumentar o PIB?
Esta situação pode parecer absurda mas é o que se está a discutir, há décadas, em Portugal.
De um lado temos a esquerda que diz serem o consumo e as exportações o motor do crescimento e, do outro lado, o Passos Coelho (Gasparzinho, Álvaro e o falecido António Borges) a dizer que é a flexibilização do mercado de trabalho que é a chave do nosso futuro crescimento económico.
Fig. 2 - A safa é que, por esse mundo fora, os burros ainda têm muita saída.

Burridade 2.
Mas os "das exportações" não desarmam à primeira. São como o Al-Assad que pensa derrotar a máquina de guerra do colosso americano com a promessa de "estudar a hipótese de entregar as armas químicas que nunca tivemos e que não poderíamos ter usado porque nunca as tivemos".

Existe sub-emprego de factores de produção.
Porque as fábricas estão paradas a maior parte do tempo e existe desemprego então, existe sempre capacidade sub-utilizada (i.e., desemprego de factores de produção). Havendo um reforço da procura, o "puxar da procura" keynesiano, essa capacidade desaproveitada vai ser mais utilizada aumentando assim o PIB.
Como a procura não pode aumentar pelo reforço do consumo interno ou do investimento porque o acesso ao crédito está dificultado, a única forma de aumentar a procura é aumentar as exportações.
O "puxão keynesiano" é extraordinario porque vem associado com um aumento dos salários (da retribuição dos factores de produção).
Mas esta visão tem vários problemas.

Problema 1 - Os factores de produção não são homogéneos.
Apesar de, em termos macroeconómicos, existir sub-emprego de factores, esses recursos são de sectores obsoletos e sem  capacidade para reforçarem rapidamente os recursos dos sectores onde a procura vai iincidir. 
Se a Economia fosse estática, fazendo-se sempre os mesmos produtos usando a mesma tecnologia, um empresa teria sempre os mesmos trabalhadores e seria igualmente competitiva ao longo dos séculos. Acontece que o progresso tecnológico leva ao aparecimento de novos produtos e novas formas de produção que, lentamente, tornam obsoletos os sectores tradicionais.
Por exemplo, a construção naval na Europa acabou quando os asiáticos (Coreia do Sul, Formosa, Japão) desenvolveram novas formas de fazer barcos (pré-fabricados por módulos). Os nossos trabalhadores dos estaleiros navais foram para o desemprego e aí ficaram porque não sabiam fazer mais nada.
Os factores, seja trabalho ou capital, são heterogéneos de forma que um trabalhador da construção civil desempregado ou uma grua não utilizada não conseguem transformar-se no curto prazo num trabalhador de calçado e numa máquina de costura. O desemprego de factores não consegue ser mobilizado para dar resposta ao reforço da procura porque apenas existe nos sectores que estão em re-estruturação (construção civil).

Problema 2 - Como não existe capacidade de mobilizar os recursos sub-utilizados, as empresas para produzir mais têm que aumentar os salários o que implica custos e preços aumentados. Então, o reforço da procura vai causar aumentando dos preços (e salários) mais que aumento das quantidades.
Problema 3 - As empresas vão ter que ficar à espera que as exportações aumentem como que por milagre. Têm que acreditar que rezando uma Avé Maria à NS de Fátima, logo as exportações aumentam.
Será como imaginar o Sporting do ano passado (em que ficou em 7.º) a ganhar o campeonato deste ano porque os outros clubes vão, sem mais quê, deixar de marcar golos.

Vamos à verdadeira causalidade.
Para podermos aumentar as exportações temos que:

Baixar os preços dos nossos produtos
Um produtor de sapatos que exporta 1000 pares por semana sabe que, se quiser passar a exportar 2000 pares por semana, tem que baixar o preço de venda. E sabe ainda que apenas o consegue fazer sem ir à falência se produzir mais com os mesmo empregados (muito difícil para não dizer impossível) ou contratar mais empregados com salários mais baixos (o caminho viável).
Baixando os salários, as empresas conseguem produzir a um custo mais baixo, tornando-se capazes de vender a preços menores ganhando conta de mercado.
Apesar de os esquerdistas dizerem que as empresas não vão ter a quem vender porque o rendimento dos trabalhadores fica diminuído (e que é a grande fatia do rendimento disponível), como estamos inseridos numa zona de comércio livre, a União Europeia, cuja economia é 80 vezes o tamanho da nossa, este problema nunca se colocará.

Fig. 3 - Os custos do trabalho começaram a diminuir no principio de 2010, em simultâneo com o aumento das taxas de juro (dados: EuroStat)

Onde pára a espiral recessiva anunciada pelo PS (e o Cavaco)?
O Seguro só aguenta em cima do burro até ao fim de Setembro.
Batalhou tanto na "espiral recessiva" de
Salários mais baixos -> menos rendimento -> menos compras -> não há a quem vender -> menos emprego

Que agora é por demais evidente que não passava de uma cavalgadura porque a austeridade sempre é expansiva:
Salários mais baixos -> preços mais baixos -> mais exportações  -> são preciso mas trabalhadores -> mais emprego

Quando saírem os resultados das autárquicas vai ter que apear-se

Concluindo.
Dizer que as exportações causam crescimento do PIB é equivalente a dizer que quem tomar um medicamento durante muito tempo, fica velho.
À posteriori observamos que as pessoas que tomam o medicamento durante 100 anos ficaram muito velhas mas não podemos garantir que quem se proposer tomar o medicamento esse tempo todo o consiga fazer.

Pedro Cosme Costa Vieira

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Aleluia - a crise acabou

A crise finalmente acabou.
Já era sabido que em Junho o desemprego tinha diminuir invertendo uma tendencia com 60 meses (ver, Fig. 1 e 2). Como a produção tem no trabalho o seu principal motor (cerca de 70%), parecia que iriamos ter um crescimento económico no trimestre acima de 0.1% (pois, no meu cálculo, o nosso crescimento potencial está nos 0.45%/ano).

Fig. 1 - Variação do desemprego, média móvel dos últimos 6 meses (dados: INE).

Fig. 2 - Oooops, a imagem correcta do desemprego é esta!

Esta semana vieram os dados (estimativas rápidas) para o crescimento do PIB no 2Trimestre2013 e, bingo, os resultados foram extraordinariamente bons, o dobro das mais optimista das previsões, um crescimento do 1.1% que em termos anualizados corresponde a 4.5%/ano. Isto é extraordinário.
Pegando na média móvel dos últimos 4 trimestres (e que é semelhante à variação anual homóloga), os dados indicam que quando se dá uma inversão deste indicador, invariavelmente inicia-se um período de expansão económica que, nos últimos ciclos económicos, foi de 0.44%/trimestre, 1.77%/ano em termos anualizados (ver, Fig. 4).

Fig. 3 - Crescimento trimestral dos últimos 4 trimestres (Dados, INE)

O que podemos esperar nos próximos trimestres?
Em termos trimestrais, o desvio padrão do crescimento económico dos últimos 2 ciclos económicos foi de 0.65 pontos percetuais não correlacionado no tempo (ver, Fig. 4). Então, é possivel prever em termos estatísticos qual será a evolução do PIB no período de crescimento que estamos a entrar.
     PIBn = PIB x (1 + 0.44% )^n com um desvio padrão de 0.0065/(n^0.5)

Fig. 4 - Evolução provável do PIB até ao fim da legislatura

É extraordinário.
Nos últimos 2 anos o nosso endividamento face ao exterior (balança corrente) passou de 150€/mês por cada pessoa (-10% do PIB) para um saldo positivo (2013 até Maio) de 20€/mês (+ 1.3% do PIB). Quando em meados de 201o se tomou consciencia da necessidade de acabar com o endividamento externo, eu fiz umas contas e cheguei ao resultado que cada 1 pp de correcção da balança corrente levaria a uma contracção do PIB em 1.6%. Então, previ que o ajustamento implicaria uma contracção do PIB na ordem dos 16%. Olhando agora para os números, a contracção foi de 6.2% do PIB pelo que o multiplicador foi de apenas 0.6, muito menos de metade do que era antecipável a partir dos dados.
Ter-mos conseguido ajustar a economia a uma quebra no endividamento externo de 11.2 pp com apenas uma queda de 6.2% do PIB foi notável.
E agora há uma probabilidade de 33% de seja o Passos Coelho acabar o seu mandato ultrapassando a posição vivida no 2T2011, ultimo trimestre da governação do Sócrates. 
Se esta minha previsão se concretizar favorávelmente, será algo extraordinário porque será conseguido num período em que parou o endividamento externo que, entre 1995 e 2011, foi a grande muleta das politicas económicas dos governos socialistas e, mesmo assim, com um crecimento económico na ordem dos 0.1%/trimestre.
Os socialistas dizem que crescer 1.1% num trimestre não é nada de especial mas, nos tempo do Sócrates, precisaram de 2.5 anos (10 trimestres) e com grande endividamento externo para conseguirem um crescimento acumulado igual ao conseguido em apenas 3 mesesdesta.
Haja vergonha. Já estou a ver chegar 2015 e o Passos Coelho, já todo careca, a arrancar uma maioria absoluta.

Não podemos esquecer o Gasparzinho nem o Álvaro.
Não tanto pelo que fizeram mas pela convicção de que a austeridade era (e é) o caminho certo para Portugal.
Em vez de apenas implementarem as politicas quando obrigados (como acontece na Grécia), adoptavam-nas por convicção.
E esse convicção deu como resultado que contraimos 6.2% e a Grécia já contraiu mais de 25% e não está ainda previsto quando deixará de contrair.
É a diferença entre fazer à última da hora, com greves e manifestações na rua e com a corda na garganta ou fazer por convicção e, com isso, convencer as pessoas de que "o outro caminho" só nos levaria à miséria.

Pedro Cosme Costa Vieira.

sexta-feira, 21 de junho de 2013

O emprego, o desemprego, o capital e a produtividade

Qual será o desemprego no Bangladesh?
Num comentário o ii-v-i-aflat afirma que a taxa de desemprego no Bangladesh é na ordem dos 25% (referido num site), ainda maior que os nossos 16.7%. Assim, aparentemente, um crescimento robusto e um mercado de trabalho flexível não parecem suficientes para acabar com o desemprego. 
Contrariamente a essas estatísticas, o Banco Mundial indica taxas de desemprego nos países emergentes na ordem dos 5%. De que lado estará a verdade?

Os mercados de trabalho são muito diferentes.
Quando ouvimos falar de outro país qualquer, pensamos que a realidade de lá é parecida com a nossa. Em particular, pensamos o mercado de trabalho dos países pobres é idêntico ao nosso em que a maior parte do rendimento das família resulta dos empregos por conta de outrem.

Mas estamos enganados.
Nos países desenvolvidos cerca de 85% dos empregos são por conta de outrem enquanto que nos países subdesenvolvidos essa percentagem desce para apenas 20%. Nos países pobres mais de 80% têm auto-emprego (ver, Fig. 1).

Fig. 1 - Percentagem de trabalhadores por conta própria vs PIBpc.ppc, USD (dados: Banco Mundial)
 
Como funciona o mercado de trabalho?
A agricultura começou há cerca de 10000 anos (a revolução do Neolítico) e, ainda hoje, é a base de todas as economia.
Porque a produção agrícola está muito dependente do solo, todos os países têm uma produção agrícola per capita idêntico, cerca de 400€/ano com um desvio padrão de 125€/ano, não tendo qualquer relação com o PIB pc do país (ver, Fig. 2). Isto traduz que, apesar de todos os alimentos nascerem da agricultura, o desenvolvimento económico é um processo de "destruição" dos empregos na agricultura (mas mantendo a produção) e a sua transferencia para a industria e, posteriormente, para os serviços (o êxodo rural).

Fig. 2 - Relação entre a produção agrícola (em €/ano e em % do PIB) e o PIB pc, ppc, preços de 2005, média 2007-11, 1USD=0.72€ (dados: Banco Mundial)

É demagógico apontar a agricultura como o futuro o motor da nossa economia.
Portugal tem uma produção agrícola per capita anual de 380€ (2.4% do PIB) que compara com a Alemanha 214€ (0.9%), a Espanha 540€ (2.7%), a Índia 368€ (17.9%) e  o Bangladesh 192€ (18.9%).
O peso da agricultura nos países com um PIBpc.ppc inferior a 2500€ é cerca de 30% enquanto que nos outros é cerca de 7%.

Como funciona a produtividade.
Para se produzir é preciso, por um lado, capital, K, (máquinas e ferramentas, vias de comunicação, portos, canais de irrigação etc.) e, por outro lado, trabalho, H, (horas de trabalho). O que mistura do trabalho com o capital é a tecnologia, A, cujo nível é (ligeiramente) diferente de país para país.
Além dos factores de produção, o Estado da Natureza, E, também influencia a produção.

O Gasparzinho invocou "o mau tempo" porque a Teoria Económica denomina a parte que não se consegue explicar por "Estado da Natureza".
Como se faltar um dos factores não se pode produzir,  modelizar a ligação entre os diversos factores é normal usar uma função multiplicativa sendo a mais utilizada a isoelástica (denominada de Cobb-Douglas):

     Y = A x T^0.33 x H^0.67 x E

O auto-emprego.
H1) Vou imaginar uma economia em que existem 1000 unidades de capital, 1000 habitantes que trabalham H horas por semana e que o nível tecnológico é 20.5.
H2) Vou imaginar que todas as pessoas são iguais e que o capital, que também é homogéneo, é dividido equitativamente pelas pessoas, 1 u/pessoa.
H3) Como trabalhar é um sacrifício vou imaginar que a pessoa só trabalha se numa hora produzir pelo menos um certo quantitativo, 2.00€.
H4) A produção é a unidade de valor (o preço dos bens produzidos é 1€/unid).

Uma pessoa trabalhando H horas por semana produzirá 

     Y = 20.5 x 1^0.33 x H^0.67 x E

A pessoa vai trabalhar enquanto a produção for maior que 2€ o que acontece quando a produtividade marginal for 2.

    {H: Y'H = 2€/h}  =>  H = 40h/semana

Havendo 1u de capital por pessoa, a produção será de 242.74€/semana e a produtividade média será cerca de 6.00€/h.
Como a produtividade está dependente não só do trabalho como também do capital podemos dividir a produtividade média em 4.00€/h para o trabalho e 2.00€/h para o capital (e por unidade de capital).

Na economia do "auto-emprego" não existe desemprego.
Quando todas as pessoas trabalham no seu negócio, podem trabalhar mais ou menos horas mas nunca estão sem emprego. Quando há um choque exógeno da natureza (o E altera-se), o rendimento da pessoa ajusta instantaneamente. Por exemplo, se a seca fizer E diminuir de 1 para 0.8, o rendimento do trabalhador com 1u de capital passa de 6.00€/h para 4.80€/h.

Será bom haver politicas macroeconómicas de estabilização?
Vamos supor que os ciclos económicos oscilam entre anos maus (em que E = 0.8) e anos bons (em que E = 1.2) e que a pessoa pretende trabalhar em média 40h/s.

Se houver regularização do rendimento a pessoa vai trabalhar mais nos anos maus. Trabalha 51.7h/s nos anos maus e 28.3h/s nos anos bons o que lhe permite um rendimento constante de 230.75€/s.

Se houver regularização do horário de trabalho a pessoa trabalha 40h/sem o que lhe permite ter um rendimento médio de 242.54€/s (194.19€/s nos anos maus e 291.28€/sem nos anos bons). A pessoa poupa 97.09€ nos anos bons para gastar nos maus.

Se a pessoa adoptar a estratégia óptima (poupando nos anos bons para os maus) vai trabalhar mais nos anos bons. Trabalha 18.1h/sem nos anos maus e 61.9h/sem nos anos bons o que lhe permite um rendimento médio de 252.21€/sem (114.20€/s nos anos maus e 390.22€/sem nos anos bons). A pessoa trabalha mais 21.9h/sem e poupa 276.02€ nos anos bons  para gastar e descansar nos maus.
É interessante observar que a oscilação da produtividade permite um rendimento médio superior ao caso em que não acontecem choques da natureza (242.74€/sem)

Podemos ver que a regularização macroeconómica vai diminuir o rendimento médio da pessoa.

Porque é que nos países pobres as pessoas produzem pouco?
Nos países pobres trabalham-se mais horas que nos países ricos pelo que a diferença na produtividade não vem do trabalho.
Fica o capital e o nível tecnológico.
O nível de capital no Bangladesh é de cerca de 450€ por pessoa e 67.5% da população é activa.
O nível de capital em Portugal é de cerca de 30000€ por pessoa e 56.0% da população é activa.
Isto traduz que em Portugal existe 53600€ de capital por posto de trabalho e no Bangladesh apenas existe 667€ por posto de trabalho.
O nível de capital associado a um emprego em Portugal é 80 vezes o nível no Bangladesh. Tal traduz que cada trabalhador português ter 1 unidade de capital enquanto que um bangladesheano ter apenas 0.0125 unidades.
Atendendo à diferença de capital, o bangladesheano produziria apenas 1.43€/h, 23% da nossa produtividade.
E o nível tecnológico no Bangladesh é inferior ao nosso (e.g., por causa da baixa escolaridade) pelo que a produtividade vem ainda mais reduzida (para 6.6% da nossa produtividade).

É por não terem capital. 
Não é, como dizem os esquerdistas, por os salários serem baixos nem por o grande capital explorar os desgraçadinhos.
Não é, como dizem os direitistas, por serem malandros, pretos, azuis ou amarelos nem por serem governados por pessoas corruptas.
Não é nada disso.
A produtividade em Portugal é 15 vezes a do Bangladesh  porque temos 80 vezes mais capital por trabalhador que o Bangladesh.
No Bangladesh é normal um empresário começar o seu negócio com um microcrédito de 200€ (para comprar um fogão, uma panela e um toldo para arrancar com um restaurante de rua). Em Portugal o mesmo tipo de negócio precisa de 16000€ (uma rulote).

Fig. 3 - A vida deste bangladesheano é repetir, como há milhares anos, os movimentos de uma bomba de água manual.

Como se aumenta o capital?
A falta de capital apenas pode ser resolvida (lentamente) com muito trabalho e pouco consumo (pois a poupança interna é o motor do investimento).
Apesar de capital estrangeiro (o investimento directo estrangeiro) poder ser muito positivo por levar não só capital como também difundir tecnologia, a evidência empírica indica que apenas os países que investiram principalmente com base na poupança interna é que conseguiram abandonar a pobreza (por, a prazo, o pagamento de juros, lucros e amortizações ao exterior drenar os recursos gerados).
Além disso, os estrangeiros têm um percepção do risco diferente dos nacionais (cobram juros maiores).

Finalmente as estatísticas do desemprego.
Uma taxa de desemprego de 5% da população activa traduz que o Bangladesh tem 5.0 milhões de desempregados (a população activa é de cerca de 100 milhões de pessoas). A questão é que a população empregada por conta de outrem é menos que 20 milhões de pessoas. Então, retirando da equação as pessoas auto-empregadas, temos 5 milhões de desempregados num universo de 20 milhões de pessoas. Assim medido, o desemprego será de 25% dos empregados por conta de outrem (e não dos activos).

E porque existem estes 5 milhões de desempregados?
Porque o progresso implica (ou é causado) a passagem de trabalhador por conta própria para trabalhadores por conta de outrem. Revendo a Fig. 1, o aumento de 1% do PIB pc implica que 0.25% da população deixa o emprego por conta própria e procura um emprego por conta de outrem.
Estando o Bangladesh a crescer mais de 5%/ano, todos os anos, além das pessoas que vão nascendo (2%/ano), cerca de 1.2 milhões de trabalhadores transita do auto-emprego para o mercado dos empregos por conta de outrem (6%/ano dos empregos existentes).
Naturalmente que custa a digerir a massa de pessoas que entra continuamente no mercado de empregos por conta de outrem.


Fig. 4 - Como isto está a murchar vou ter que deixar o auto-emprego e arranjar uma coisa mais fixa.

Concluindo com o exemplo do Brasil.
O primeiro passo do desenvolvimento é a agricultura libertar pessoas que passam para pequenas actividades em auto-emprego.
Depois, as pessoas em auto-emprego começam a entrar no mercado de trabalho por conta de outrem onde os salários (e a produtividade) são maiores.
O processo dinâmico de transição, apesar de ter associadas taxas de crescimento elevadas, não pode ser acompanhado pelo aumento dos salários dos diversos sectores porque o melhorar da qualidade de vida dá-se pela passagem do auto-emprego (com rendimentos muito baixos) para os empregos por conta de outrem (com salários apenas baixos).
Um país, como o Brasil, que tenha uma lei que incorpora no Salário Mínimo o crescimento do PIB está condenado a que o processo de desenvolvimento económico estagne.

Fig. 5 - Os presidentes brasileiros querem-se apresentar como chefes de estado de uma grande potência mundial esquecendo-se da pobreza que existe por toda a parte. 

Eu tenho atrasada a resposta a alguns comentários.

Pedro Cosme da Costa Vieira

segunda-feira, 17 de junho de 2013

O crescimento económico dos USA, Japão, Europa e da Ásia

Consta que a Europa está em crise.
E logo surgem vozes "especialistas em Economia" a dizer que a Europa, por seguir uma politica monetária restritiva, está a seguir o caminho do Japão de estagnação económica. Dizem ainda que os USA, porque têm politicas expansionistas, têm muito maior crescimento económico.
Mas os dados do Banco Mundial não dizem nada disso. O que separa os USA dos demais países desenvolvidos é o crescimento da população e não o aumento de produção por cada pessoa (que mede, verdadeiramente, o progresso económico). 
Crescimento económico no período 1996-2011.
Para vermos se existem diferenças estruturais entre os USA, Japão e os maiores países da Europa vou considerar a média dos últimos 15 anos (1996-2011) da informação disponibilizada pelo Banco Mundial (ver, Quadro 1).

PaísPIBpc,ppcPIB (%/ano)Pop (%/ano)PIB pc (%/ano)
USA43,61,630,900,73
JPN31,30,670,050,62
DEU33,51,16-0,071,23
FRA31,41,110,650,46
GBR33,51,580,600,97
ITA30,30,250,64-0,38
ESP29,41,741,280,47
Média37,51,280,600,69
Quadro 1 - Performance económica das 7 maiores economias desenvolvidas, 1996-2011 (dados: Banco Mundial). PIBpc,ppc em milhares de USD.

Os USA (e a Espanha) têm um crescimento mais forte mas se retirarmos o efeito do crescimento da população, a Alemanha e o Reino Unido crescem mais rapidamente que os USA. O Japão cresce 0.62%/ano que é apenas 0.11 pp abaixo dos USA.

Como podem os alemães estar errados?
Interessante ninguém gritar que a França e a Espanha têm 1/3 do crescimento económico da Alemanha estando ambos sob a mesma politica monetária. E que a Itália, também nas mesmas circunstancia, tem crescimento negativo.
A França tem um crescimento 0.18 pp abaixo do Japão.

Como se compara Portugal?
Portugal é um país relativamente rico (poder de compra de 70% da média das 5 maiores economias europeias e 50% dos USA) mas o crescimento económico per capita é zero (ver, Quadro 2).
Os 15 anos considerados englobam os governos do Guterres, Durão (2 anos), Santana Lopes (meses) e Sócrates.
Se o Guterres e o Sócrates anunciam terem sido tão bons governantes, porque será que o nosso crescimento foi 0?

PaísPIBpc,ppcPIB (%/ano)Pop (%/ano)PIB pc (%/ano)
PRT22,80,280,260,03
Quadro 2 - Performance económica portuguesa, 1996-2011 (dados: Banco Mundial) PIBpc,ppc em milhares de USD.


Fig. 1 - O trabalho infantil é errado mas a alternativa é morrer de fome (esta criança nepalesa ganha 0.08€/hora e um adulto ganho 0.20€/h)

Vamos agora aos países mais pobres.
Os esquerdistas acham que na Ásia se exploram os trabalhadores.
A questão é que nos 10 grandes países pobres do Mundo (um PIB pc em paridade de poder de compra inferior a 15% dos USA) vive ligeiramente mais de metade da população mundial e só se produz 10% da riqueza mundial.
Se cada um de nós abdicasse de 10% do seu rendimento, o rendimento de metade da população mundial poderia mais que duplicava mas isso está fora de questão. O que dizem os esquerdistas é que esses pobres estão a destruir a nossa industria pelo que têm que ser proibidos de exportar para cá o que produzem.
O objectivo não é melhorar as suas vidas mas , demagogicamente, dizer que se eles não tiverem emprego, viveremos melhor e eles também!
A pobreza apenas se combate com trabalho e esses países estão, com muito sacrifício, a percorrer o caminho do crescimento económico (ver, Quadro 3).
Se hoje são muito pobres, havendo crescimento económico, amanhã serão menos pobres.

PaísPIBpc,ppcPIB (%/ano)Pop (%/ano)PIB pc (%/ano)
China530910,590,619,98
India25897,731,586,15
Indonesia35065,511,204,32
Pakistan22924,671,872,79
Nigeria19356,882,624,25
Bangladesh13295,971,384,58
Philippines33344,881,912,97
Vietnam24997,161,185,98
Ethiopia7698,392,465,92
Egypt50784,681,882,81
Média43509,021,018,01
Quadro 3 - Performance económica dos 10 países pobres mais populosos, 1996-2011 (dados: Banco Mundial) PIBpc,ppc em milhares de USD.

Ouvir todos os dias noticias de milhões de pessoas que vivem na miséria entristece mas observar que mais de metade da população mundial vê o seu nível de vida melhorar 8%/ano mostra que as tragédias noticiadas, por mais trágicas que sejam, dão uma visão parcelar e errada do que está a acontecer no Mundo.
Um crescimento de 8.01%/ano traduz que, a cada 9 anos, o rendimento das pessoas duplica.
Se o crescimento económico nestes 10 países continuar esta tendência, em 2030 terão um nível de vida semelhante ao nosso.
 
Mas estarão todos os países pobres a desenvolverem-se?
Infelizmente não.
Os dados parem indicar que os países mais pobres (<2500USD, 20% da população mundial) estão quase presos numa armadilha de pobreza (ver, Fig. 2). Pegando nos países abaixo desse limiar (um PIBpc,ppc médio de 1777USD), o crescimento do PIBpc é de 3.58%/ano, muito inferior aos 8.01%/anos dos 10 maiores países pobres (ver, Quadro 1).

 
Fig. 2 - Relação entre crescimento económico e PIBpc, ppc (1996-2011, dados: Banco Mundial)

Os países verdadeiramente pobres.
1.400 milhões de pessoas vivem nos países mais pobres e levam uma vida verdadeiramente desgraçada (com a criança da Fig. 1).
O que temos que dizer a essas pessoas é que vale a pena esforçarem-se. Que há apenas 20 anos na China vivia-se pior que actualmente se vive nesses países e hoje na China já se tem um nível de vida comparável ao do Brasil.

Por falar no Brasil.
O crescimento baseado no consumo e na re-distribuição, no curto prazo pode parecer que dá frutos mas, muito mais cedo do que julgam os esquerdistas, transforma-se num pesadelo. AS manifestações em São Paulo traduzem que as pessoas pensavam que vinha aí o maná mas a realidade está-se a transformar na estagnação económica.
Não há volta a dar. Para a qualidade de vida melhorar de forma sustentável é preciso poupar e investir.
É perigoso promete crescimento economico baseado em mais consumo.

Fig. 3 - Crescimento do PIBpc brasileiro (Dados, Banco Mundial e Tradingeconomics)

Fig. 4 - Os sapatos brasileiros estão cada vez melhores

Finalmente, vou ao Irão.
As pessoas não votaram em grandes visões para o mundo mas apenas olharam para a economia chinesa.
Pode haver uma grande intoxicação ideológica, afirmar ao mundo que estão com capacidade para destruir Israel, que são uma potencia nuclear, etc.  mas as pessoas reparam que em 1980 (o ano seguinte à revolução) um iraniano tinha um nível de vida 13 vezes o de um chinês e hoje está ela por ela.
Em 1980 a economia iraniana representava 55% da economia chinesa e hoje representa 5%.
Alá encheu o Irão de petróleo mas os homens que o governam alegadamente em seu  nome têm feito o nivel de vida das pessoas diminui ao longo do tempo.
Por mais que se queira dizer que a liberdade economica é má, que leva à exploração do homem pelo homem, o bom desempenho económico daqueles 10 paises do quadro 1 é a melhor demonstração que o "deixar fazer, deixar passar" é o principal factor de progresso da humanidade.
É incrivel como a China, a mais feroz das ditaduras comunistas, se tornou a mais forte demonstração das virtudes do capitalismo.


Está tudo encaminhado para o próximo poste ser sobre o desemprego nos países pobres.
E não vale a pena falar da greve dos professores pois estão a tentar defender previlégios que é impossivel manter.
Não é possivel mantermos milhares de professores sem aulas e que se recusam a mudar de escola.
Se não querem trabalhar, rua.

Pedro Cosme da Costa Vieira

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Porque é que a crise não para?

A economia continua a encolher.
Saíram os dados do 1T2013 sobre a economia portuguesa onde se vê que nos últimos 12 meses encolhemos 4%. Muita gente berrou, desde comentadores a políticos, que estamos em queda livre, que são números totalmente imprevisiveis e chocantes mas este valor não é nada de extraordinário. Os comentadores apenas podem berrar porque o povinho é muito ignorante quanto ao que é uma crise.
Desde o princípio de 2011 o nosso PIB contraiu 5.7% que se compara com a contracção de 2009 da Alemanha (5.2%), é menor que o da Finlândia (-9.1%) e uma pequena fracção da contracção da Ucrânia (-16.7%).

Encolheram 16.7% mas ainda estou boa.


Vamos comparar com 2009.  
Na Alemanha a variação homologa do PIB  trimestral foi -6.3%, -6.8%, -4.4% e -1.3%.
Na Finlândia a crise foi ainda pior, com -8.8%, -9.9%, -8.3% e -6.4%.. É verdade, a Finlândia teve um trimestre com -9.9%.
Mas crise a sério teve a Ucrânia, que, no mesmo ano de 2009, viu o PIB variar -19.6%, -17.3%, -15.7% e -6,7%.
Comparando com estes valores, a nossa contracção de 4.0% é uma criancinha mas que tem relevância porque é maior que a média dos 4 trimestres anteriores (-3.2%).
Quando eu Nov 2011 eu estive na Antena 1 (a minha única aparição pública), referi que o nosso ajustamento levaria o PIB a contrair 20%. Decorridos 18 meses, tenho que fazer uma re-previsão para valores mais optimistas. Agora acredito que a retoma acontecerá em 2015 e que a contracção do PIB será de apenas metade, 10%, do que eu então previ (ver, Fig. 2).
Pensando que estamos exactamente a meio da crise, espero eu não me enganar outra vez. Mas posso estar enganado e a coisa atingir mesmo os -20% como já contraiu na Grécia!


 As minhas previsões para o PIB ......
 ANO ..... 2013 ........ 2014 ......... 2015
 ... PIB ........ -3.7% ..... -1.9% ....... +1.7%

Fig. 2 - Evolução do crescimento do PIB (dados: INE) e a minha previsão de que a crise acaba em 2015


Quais as causas da nossa crise?
Sem qualquer dúvida que é o fim do endividamento externo (que era de 10% do PIB).
É difícil aumentar as exportações sem cortar nos preços pelo que o melhor que conseguimos fazer foi atingir o nível de princípio de 2008. Então, de repente, foi preciso cortar a torto e a direito nas importações (que 1/3 era comprada a crédito) e isso deprimiu o sector das vendas a retalho e da construção civil.
Porque era impossível continuarmo-nos a endividar para todo o sempre, os esquerdistas continuarem a repetir que o PEC4 era a solução para todos os nossos problemas só demonstra que estávamos a ser governados por alucinados, tresloucado, dementes. Éramos um manicómio em auto-gestão.
Mesmo que fosse a NS de Fátima a governar-nos, a única solução era cortar nas importações.

Agora, o problema não está na quebra da procura agregada.
Os comentadores, esquerdistas e direitistas, dizem que a causa para a nossa crise está no lado da procura (menos consumo, exportações fracas e investimento reduzido) e nunca falam na necessidade de re-estruturar uma economia que vivia de endividamento (um tipo de  "Doença Holandesa").
Havia actividades muito dependentes das importações (a distribuição), da entrada constante de crédito fresco (a construção civil e obras públicas) e de apoio às populações (restauração) que estão condenadas a mirrar.
Argumentar que o nosso problema está no lado da procura (se não há procura, as empresas despedem pessoas e não investem) é apelativo mas está errado. Apesar de ser aceitável distrairmo-nos com conversas erradas, se quisermos compreender mesmo o que se está a passar, temos que observar cuidadosamente a evolução da nossa economia.

Porque está a análise errada?
Porque Portugal está integrado numa vasta economia em que as quantidades procuradas são dezenas de vezes maiores que a nossa capacidade produtiva total. Desta forma, as nossas empresas podem aumentar a sua produção quase sem limite.
O problema não está na procura mas na concorrência, i.e., na falta de capacidade das nossas empresas competirem junto dos clientes em termos de preços e qualidade.
Num mundo de sonho, podemos pensar que é fácil competir no mercado pela qualidade, fazendo Mercerdes, Audis e BMWs mas isso é apenas em sonho. No mundo real, temos que competir baixando os preços que apenas é conseguido se as nossas empresas conseguirem diminuir os custos de produção.


E como se diminuem os custos de produção?
Pois aqui é que está o problema do nosso país, vivermos com a cabeça na Lua.
Nas taxas de juro não é possível mexer porque a nossa poupança é muito baixa e os exteriores não nos querem emprestar recursos a taxas de juro menores.
Nos custos de periferia, não podemos mexer pois não podemos mudar o país para cima do Luxemburgo.
Sobram os custos do trabalho mas os "direitos adquiridos" não permitem a diminuição dos salários nominais nem o aumento das horas de trabalho (ver, Fig. 3).
Então, como o único direito adquirido que cede é o direito ao emprego, toca a despedir as pessoas menos produtivas.

Fig. 3 - Número de horas de um trabalhador a tempo inteiro (dados: INE)

Será que é isso que está a acontecer?
Até meados de 2008, princípio da crise do sub-prime, trabalhavam-se em Portugal 185 milhões de horas por semana, 17.6h/sem para cada português. Apesar de sabermos que a taxa de desemprego estava a aumentar desde 2002 e o horário semanal a diminuir, até 2008 o aumento da população activa contrabalançava estas duas variáveis.
Em finais de 2008, bastante antes do Passos Coelho entrar no governo, o número de horas trabalhadas começou a diminuir 3.7%/ano e actualmente já acumula uma perda de 17% (ver, Fig. 4).

Fig. 4 - Milhões de horas trabalhadas em Portugal por semana, a tempo inteiro e parcial (dados: INE))


Como pode o número de horas diminuir 17% e o PIB só cair 7.1%?
Se a perda de horas de trabalho fosse de pessoas identicamente produtivas, mantendo-se o nível de capital, esta queda de 17% induziria uma contracção do PIB de 11% (2/3 dos 17%). Apenas não há tamanha contracção porque, a produtividade por hora trabalhada tem aumentado 1.9%/ano (ver, Fig. 5).

Fig. 5 - Produtividade por hora, 2/3 do PIB para o trabalho e 1/3 para o capital (dados: INE)

A economia está a evoluir.
A produtividade do trabalho estar a crescer 1.9% é positivo porque indica que a economia continua-se a transformar. Se acrescentarmos que o investimento tem estado em valores muito baixos, vemos que assistimos a uma transformação muito positiva. Então, temos um potencial para, a médio-prazo, ter um crescimento do PIB acima dos 2%/ano. Penso mesmo que no período 2016 - 2020 vamos ter crescimentos acima dos 3%/ano.

 
2015 vai acabar com um desemprego de 22%.
O lado mau deste número é que a contracção do PIB de mais 5% até finais de 2015 (é a minha previsão) vai estar associada à diminuição do total de horas trabalhadas o que traduz mais desemprego. Se a contracção entre 2011 e 2013 do PIB de 5.7%  foi induzida pelo aumento do desemprego de 12.9% para 17.5%, uma nova contracção de 5% do PIB vai estar associada a um aumento do desemprego para os 22%..
Se eu não errar, o anos de 2015 será de estabilização do desemprego e só em 2016 é que a coisa vai começar a diminuir.
Não digam depois que os números os surpreendem.

 Pedro Cosme Costa Vieira

sexta-feira, 22 de março de 2013

Será o aumento dos salários a "política de crescimento"?

Há um sofisma que faz o aumento dos salários ser "a política de crescimento".
As mentes dos sindicalistas esquerdistas e outras mentes fracas deduzem pela lógica uma ligação positiva entre salários e PIB.
Chegam mesmo patrões a embarcar nesta lógica torpe quando aplicada aos outros (todos menos eu).

Argumentam que, aumentando os salários, o consumo aumenta o que faz aumentar a procura interna que  aumenta as vendas das empresas.

+Salários -> + Rendimento -> + Consumo -> + Procura Interna -> + Vendas

Depois, adiantam que o aumento das vendas aumenta a produção (o PIB) e diminui o desemprego.

+Vendas -> + Produção -> - Desemprego

Finalmente, mais vendas e mais produção fazem aumentar a receita fiscal e, menos desemprego, faz diminuir a despesa pública pelo que o aumento dos salários, além de aumentar o produto e diminuir o desemprego, também diminui o défice público.

+Salário -> . . . ->  - Défice Público
  
Claro que este esquema que aparenta seguir as regras da lógica é uma ilusão de verdade. É uma perversão voluntária do raciocínio demonstrativo para induzir os portugueses em erro.

A prova do erro por redução ao absurdo.
Esta ilusão é fraca porque não resiste à simples prova da redução ao absurdo.
Se aumentar os salários tem efeito tão positivo então, quando o Guterres disser que temos que ajudar aquelas regiões miseráveis que ele visita, que os obrigue a aumentar os salários para um milhão de euros por hora e, logo, todos ficarão ricos.
Mas a prova por redução ao absurdo, por ser uma prova negativa não identifica qual é o erro de raciocínio.
Neste post vou apresentar os erros que os sofistas introduziram na argumentação.


Fig. 1 - Hoops ... mas toda a dedução lógica indica que se trata de uma mulher e das boas

Onde estará o erro?
O erro da argumentação está na omissão de parcelas relevantes.

1. "Esquecem-se" dos rendimentos do capital.
O total que se produz é igual ao rendimento total.
O que se produz na economia, vai ser distribuído pelos diferentes agentes económicos como salários, lucros, juros, rendas e alugueres.
Ao PIB, o Produto Interno Bruto, é preciso retirar a depreciação do capital para obtermos a produção de facto, a produção líquida.

Se o PIB é 100€ então, a produção é de 82€ (18€ são amortizações, diz o Banco Mundial) que é distribuída pelos salários (40€, diz a Pordata) e 27€ para juros, rendas e alugueres (o que falta).
É por demais evidente que os salários são  "rendimento das famílias" mas também o são os lucros, juros, rendas e alugueres (parte).

Para uma produção de 82€.
O rendimento das famílias é de 73.50€ (pordata) e os restantes 8.5€ são "rendimento das empresas" que o investem.
Quer isto dizer que 70% dos lucros, juros, rendas e alugueres vão parar ao rendimento das famílias e 30% vão ser investidas pelas empresas.

E o que acontece ao rendimento das famílias quando os salários aumentam?
É por demais evidente que o aumento dos salários em 1€ tem o efeito imediato de aumentar o rendimento das famílias em 1€ mas também diminui os lucros das empresas em 1€.
Até os esquerdistas reconhecem a existência deste efeito imediato mas contam com a "cadeia virtuosa".
Mas, a diminuição dos lucros em 1€ leva a uma redução do rendimento das famílias em 0.70€ e do rendimento (investimento) das empresas de 0.30€.
Então um aumento dos salários em 1€ tem um efeito directo no rendimento das famílias de +0.30€ à custa de um impacto no rendimento das empresas de -0.30€.

O aumento de rendimento das famílias é menor que o aumento dos salários e é igual à diminuição do rendimento que as empresas usam para investir (sem pagar dividendos).

+Salários -> + Rendimento das famílias e - Rendimento das empresas


Fig. 2 - É legal pois apliquei a Lei de Lavoisier (nada se perde, tudo se tranforma): cada euro que entra na minha carteira, é um euro que alguém lerpa. 

2. "Esquecem-se" do investimento das empresas na procura interna.
O rendimento das famílias vai ser usado na aquisição de bens de consumo mas também na aquisição de bens de investimento e ambos são procura interna.
Uma pessoa ao comprar arroz e massa (consumo) ou um frigorífico (investimento) está a contribuir para a procura interna.
Os esquerdistas "esquecem-se" do investimento das famílias na procura interna mas, mais grave, "esquecem-se" que o investimento das empresas também é procura interna.
E, já mostrei, que se a procura interna das famílias aumenta 0.30€, a procura interna das empresas diminui exactamente 0.30€.
+ Rendimento das famílias -> Mais procura interna
- Rendimento das empresas -> Menos procura interna

Os efeitos anulam-se pelo que o aumento dos salários não tem qualquer efeito na procura interna.
+ 1€ Salários
->  + 0.3€ Rendimento das famílias e - 0.3€ Rendimento das empresas
-> + 0.3€ procura interna das família e -0.3€ procura interna das empresas
-> efeito nulo na procura interna

O aumento do salário não altera a procura interna.
Considerando todas as parcelas, os salários e os lucros, as famílias e as empresas, conclui-se facilmente que o aumento (ou diminuição) dos salários não tem qualquer impacto na procura interna.
Quebrado esta inflamação da procura interna que parecia lógica então, toda a cadeia de acontecimentos virtuosos alegadamente causados pelo aumento dos salários cai por terra como um baralho de cartas.
Considerar todas as parcelas é um autentico corta fogo que termina a diarreia lógica dos esquerdistas da praça.

Se não tem efeito, poderíamos na mesma aumentar os salários.
O problema é que, ao reduzir os lucros das empresas, o aumento dos salários tem um efeito negativo nos investimentos que são lucrativos o que faz diminuir o emprego (rever O desemprego, o salário e a ignorância dos comentadores).
No mercado de trabalho encontram-se as vontades dos trabalhadores (que trabalham tanto mais quanto mais elevado for o salário) e as dos patrões (que contratam tanto mais pessoas quanto mais baixo é o salário) e o encontro destas vontades aparentemente antagónicas vai determinar o salário de equilíbrio (em pleno emprego).
Quando existe desemprego, é prova que o salário está acima do salário de equilíbrio pelo que, globalmente, todos melhoram (o PIB aumenta, o rendimento das famílias e das empresas aumenta) quando o salário diminui.
Quando existe falta de empregados, é prova que o salário está abaixo do salário de equilíbrio pelo que, globalmente, todos melhoram (o PIB aumenta, o rendimento das famílias e das empresas aumenta) quando o salário aumenta.
Declaradamente, agora que a taxa de desemprego está elevadíssima, todos melhoraríamos se os salários diminuíssem.
Todos, não só os desempregados (que passariam a ter emprego) mas também os empregados que veriam o risco de despedimento diminuir.
E os empregados como eu que, até prova em contrário, não têm risco de desemprego, também temos que ser solidários pois, caso contrário, o nosso país vai rebentar com uma taxa de desemprego elevadíssima.

Fig. 3 - A mim, nunca me faltou trabalho.

Finalmente, os 19% de desemprego.
Eu fui o primeiro a prever, em Fev 2012, que o desemprego iria atingir 19% , que iríamos ter 1 milhão de desempregados (rever, Vejo os números do desemprego com muita preocupação). Na altura, todos os meus colegas disseram que eu estava louco mas o Gasparzinho já veio dizer que o desemprego, algures nos finais de 2013, princípios de 2014, atingirá esta meta. 
A boa notícia é que estamos numa situação de paz social e as famílias estão a aguentar razoavelmente bem a redução do rendimento que o desemprego implica. NEsta parte e na balança corrente, estamos melhor que eu antecipava.
Estou moderadamente optimista que este caso de Chipre, e espero que eles não aceitem as condições da Troika, faça o nosso povo ver que o "outro caminho" que o Seguro promete e que leva seguramente ao abismo.

Como se justifica o equilíbrio da Balança Corrente com o enorme taxa de desemprego?
Em teoria, o nível de salários é uma variável que equilibra a Balança Corrente. Se a nossa BC tinha em 2009/10 um desequilíbrio de 10% que obrigava à redução dos salários para tornar a nossa economia competitiva (aumentar as exportações), a BC equilibrou sem haver redução dos salários o que "prova que os salários não repcisam descer mais" (dizem os esquerdistas).
"Esquecem-se" mais uma vez que a BC equilibra não só pela redução dos salários (aumento das exportações) mas também pelo aumento das taxas de juro (redução do crédito externo que leva à reduçãod as importações).
Se quizermos que as taxas de juro diminuam para os níveis de 1999 (e as ofretas de crédito externo) então, os salários têm que diminuir pois, caso contrário, a BC torna-se a desequilíbrar (o que impossibilitará a descida persistente das taxas de juro).

Pedro Cosme Costa Vieira

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