Repetidamente os meus colegas chacotam-me perguntando se "é hoje que saímos da Zona Euro".
Os desgraçados gozaram-me à brava quando eu disse, no final de 2011, que
O fim do euro é no Domingo às 20h não tendo dado conta que, juntamente com a Espanha, a Itália e o outros bancarroteiros, o nosso processo de saída da Zona Euro tinha começado em 2008 e que, apesar de ter sido um processo lento e oscilante, ficou concluído exactamente em finais de 2011.
Neste momento já só fazem parte da Zona Euro a Alemanha, a Finlândia, o Luxemburgo e a Holanda.
O erro de percepção dos meus colegas e demais pessoas resulta de não ter havido uma cimeira em que a questão tivesse sido decidida e de não ter sido pré-anunciada uma data de efectivação da saída.
A nossa saída foi decidida e materializada pelo "mercado" que, lentamente, nos foi excluindo desse grupo de elite.
Fig. 1 - Fui expulsa porque dominei a bola à margem das regras do futebol
É como o Fim do Mundo que as pessoas estão à espera que seja algo espectacular e vai ser apenas um "já desligamos a máquina".
O Fim do Mundo começou quando fizemos 25 anos mas não o queremos aceitar.
Lá vem uma dorzita aqui, um cabelo branco acolá, uma noite de insónia, um dente furado, depois a coisa agudiza-se tornando-se mais frequente e intensa e, por fim, damos conta que estamos numa missa deitados de barriga para cima, a olhar para o tecto da igreja e que os nossos parentes estão a discutir a partilha dos nossos bens.
Pumba, só aí damos conta que o fim do mundo foi ontem.
Fig. 2 - Tal como sair da Zona Euro, não ficamos velhos de um dia para o outro.
Apesar de em Portugal continuamos a usar as notas de Euros, de facto já estamos fora do clube do euro.
Estamos no patamar do Monte-Negro e do Kosovo que usam Euros mas que nem sequer chegaram a entrar na Zona Euro.
Também os marroquinos usam Euros e Dólares.
A actual "crise da dívida soberana" Espanhola e Italiana é apenas o voltar à tendência de longo-prazo que se vivia nos anos anteriores à sua entrada na Zona Euro.
Ontem é que foi uma noite de bebedeira!
Um homem sai do bar, altas horas da noite e pumba, cai.
Tenta levantar-se e andar mais uns metro e pumba, cai outra vez.
Decidir então arrastar-se até casa. Entrar de mansinho para a patroa não dar conta e deita-se.
No dia seguinte diz a mulher.
- Então meu marmanjo, ontem é que foi bebedeira forte. Para trabalhares, não podes, mas para a bebedeira, estás sempre pronto.
Contando o homem com o facto da mulher ter um sono pesado como uma porca diz:
- Eu, eu, eu, eu, não, não, não, foi só um cervejita.
- Foi, foi. Se foi assim, como justificas o homem do café ter telefonado a dizer que te tinhas esquecido lá ontem da cadeira de rodas?
Fig. 3 - Se beber, terá dificuldade em avaliar se está dentro ou fora da Zona Euro.
Como se dá conta de que já estamos fora da Zona Euro? Quando o Cavaco, em 1992, justificou o processo de convergencia nominal com os países da futura Zona Euro (baixar a taxa de inflação para 2%/ano), foi afirmado que, ao entrarmos neste clube de elite económica, as nossas taxas de juro reais iriam diminuir aproximando-se das da Alemanha.
Iríamos entrar na zona monetária do Marco Alemão.
Ficou implícito que saberíamos se tínhamos sido aceites na Zona Euro quando as nossas taxas de juro fossem iguais às dos alemães.
Usando o
spread para a taxa de juro de longo prazo média entre a França e Alemanha, vemos que isso realmente aconteceu (fonte:
BCE). No princípio da década de 1990, a taxa de juro média entre a Alemanha e a França era de 7%/ano e Portugal, Espanha e Itália éramos semelhantes entre nós com um
spread relativamente a essa taxa de juro dos países centrais da União Europeia de 3.7%/ano (ver fig. 4).
A Irlanda estava muito melhor com um Spread de apenas 0.9%/ano (ver, Fig. 4).
A Grécia já tinha um spread muito mais elevado, de 12.5%/ano (não cabe no gráfico).
Fig. 4 - Spread entre a taxa de juro dos PIIGS e da Alemanha e França (dados: OCDE)
Entre 1998, quando estávamos na Zona Euro, os spreads de todos os países da Zona Euro, incluindo o nosso, ficaram reduzido a quase zero (ver, Fig. 4 e Fig. 5).
Essa redução nos spreads mantém-se actualmente apenas para os FiLHos da Alemanha (Finlândia, Luxemburgo e Holanda), estando todos os outros países acantonados em diversos patamares.
FiLHos + Alemanha são a Zona Euro (spread < 0.5 pp)
Finlandia, Luxemburgo e Holanda
Tremidos (0.5 pp < spread < 1 pp)
Aústria e França
Com um pé dentro e outro fora (1 pp < spread < 2.5 pp)
Belgica, Malta e Eslováquia
Já estão fora da Zona Euro (2.5pp <spread < 4pp)
Chipre, Espanha, Eslovénia e Itália
Já estamos a milhas da Zona Euro
Irlanda (7pp), Portugal (9pp) e Grécia (16pp)
Fig. 5 - Dispersão das taxas de juro entre os países da Zona Euro, 1993/2013 (dados: BCE)
No princípio de 2008, fomos, lentamente, empurrados borda fora da Zona Euro.
O processo de entrada na Zona Euro aconteceu entre 1995 e 1998 e reverteu-se entre 2008 e 2011.
Os actuais 6%/ano a 7%/ano exigidos pelos aforradores à Espanha e Itália traduzem a convergência para o spread de 3.7%/ano relativamente às taxas de juro da Alemanha+França que vigorava antes da entrada na Zona Euro.
A tendência, mantendo os 3.7%/ano do
spread, diminuiu de 10.9%/ano para 6.5%/ano porque, em termos mundiais, a taxa de juro teve uma tendência de diminuir.
Fig. 6 - O Sr. podia-me empurrar um bocadinho para fora da Zona Euro
As mentes levesinhas dizem que a taxa de juro da Alemanha diminuiu por causa do Euro.
Isso não tem qualquer aderência à realidade pois as taxas de juro diminuíram em toda a parte do mundo.
Se nos concentrarmos na União europeia, as taxas de juro diminuíram não só na Alemanha como, na mesma proporção, na França (que entrou para a Zona Euro) e no Reino Unido (que ficou de fora) (ver fig. 7).
Fig. 7 - A taxa de juro de longo prazo desceu 6 pp nos últimos 20 anos (dados: OCDE)
Porque será que a taxa de juro tem descido no Mundo?
A teoria económica tem dias respostas para isso: a descida da taxa de crescimento do PIB mundial e a descida da taxa de inflação.
1. As pessoas dão mais valor ao Presente que ao Futuro.
Imaginemos que chega à hora do Almoço e propõem-lhe que adie a refeição em troca de comer o dobro ao Jantar.
Não vai aceitar isso porque dá mais valor ao presente que ao futuro.
A grandeza macroeconómica que equilibra a nossa preferência do presente face ao futuro é a taxa de juro.
Por exemplo, se a taxa de juro é 10%/dia então, consumir hoje uma coisa cujo preço é 10€ é equivalente a consumir a "mesma" coisa amanhã que terá um preço equivalente a 9.1€ actuais.
Então, se uma pessoa ganhar 20€/dia, haverá uma taxa de juro que faz com que a pessoa gaste exactamente 20€/dia, chamemos-lhe B.
Se a taxa de juro de mercado for menor que B, a pessoa endivida-se. Se for maior que B, a pessoa economiza.
2. Se as pessoas antecipam que o rendimento vai aumentar, B aumenta e vice-versa.
Se uma pessoa ganha 20€/dia este ano e antecipa que no próximo ano vai ganhar 100€/dia então, vai querer antecipar o poder de compra que vai ter no ano seguinte endividando-se.
Pelo contrário, se antecipar que o rendimento vai diminuir, a pessoa vai querer adiar o consumo, poupando.
Como a taxa de crescimento da economia mundial tem diminuído então, há uma tendência para a taxa de juro diminuir.
Fig. 8 - A taxa de crescimento do PIB mundial reduziu 3 pp (dados: Banco Mundial)
A queda da taxa de juro em 6 pontos percentuais deve-se à redução de 3 pp na taxa de crescimento do PIB mundial (ver, Fig. 8) e a uma queda na expectativa da inflação futura na ordem dos 3 pp (ver, Fig. 9).
Fig. 9 - Taxa de inflação, UK + Alemanha + França (dados: Banco Mundial)
E porque a taxa de juro portuguesa não ficou, como a Espanha e Itália, nos 6.5%/ano?
Tem a ver com a diferença no nosso endividamento público.
Em 1995, a dívida pública italiana andava nos 130% do PIB e agora está nos 120% do PIB.
A espanhola manteve-se nos 70% do PIB.
A portuguesa andava nos 70% do PIB e agora está nos 110% do PIB e a caminho dos 120%.
Fig. 10 - Dívida pública, Portugal + Espanha + Itália (dados: Banco Mundial e tradingeconomics)
Agora sou eu que faço as perguntas aos meus colegas.
P1. Como justificam que as empresas de referencia como a PT, a EDP, o Continente conseguissem, em 2005, financiar-se a uma taxa de juro igual à dívida pública alemã mais 1 ponto percentual e agora tenham que pedir crédito às famílias portuguesas e pagar um spread de 6 pontos percentuais?
P2. Como justificam que os nossos bancos de referência, CGD, BCP, BPI, BES, tivessem acesso sem qualquer restrição ao mercado interbancário da Zona Euro à taxa EURIBOR e agora não consigam nem um euro?
P3. Como justificam que as nossas PME tivessem sido excluídas dos mercado de "seguro de crédito"?
E, agora que estamos fora da Zona Euro, como irão evoluir as taxas de juro "sem risco"?
Como a taxa de crescimento do PIB à escala mundial e a taxa de inflação em Euros se devem manter estáveis, antecipo que a tendencia de longo prazo para as taxas de juro espanholas e italianas se vai manter nos 6.5%/ano.
a Irlanda, passando o sufoco actual, vão tender para os 3.6%/ano.
Prevejo ainda que nas melhores condições (se o actual ajustamento macroeconómico e de finanças públicas correrem muito bem), a taxa de juro "sem risco" da economia portuguesa se vai aproximar do patamar dos 6.5%/ano e que vai ser a nossa taxa nos próximos 50 anos.
Fig. 11 - Papá, durante quantos anos vamos passar férias nesta praia? 50 anos?
Pedro Cosme Costa Vieira