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segunda-feira, 30 de julho de 2012

Precisamos relativizar a nossa crise porque em Portugal vive-se muito bem

Diz o povo que "quem não chora, não mama". Naturalmente que na actual crise europeia, nós Portugueses liderados pelos esquerdistas, choramos muito a ver se mamamos nos alemães. 
Na comunicação social e nas listas de e-mail da internet circula a ideia de que somos um povo desgraçado que não sabe fazer nada e que vive na miséria porque não nos esforçamos e temos políticos, empresários e trabalhadores que não prestam para nada. Em particular, o texto que o meu aluno Manuel P. me enviou "à procura de nós" bate muito na tecla que, sendo nós uns desgraçadinhos, isso é por culpa de não sei quem.

Fig.1 - Quando o velho chora, mama na mulher e na nora.

Mas nós não somos uns desgraçados.
Muito antes pelo contrário, nós pertencemos ao grupo dos países mais ricos.

No Mundo existem 7000 milhões de pessoas cujo PIB per capita é de 10000USD (dólares americanos, constantes de 2005, paridade do poder de compra, dados do Banco Mundial para 2011) enquanto que em Portugal vivemos com um PIB pc de 21000USD, mais do dobro da média mundial.

No Mundo, a população dos países que têm um rendimento superior ao nosso é de apenas 1000 milhões de pessoas, 15% do total. Assim, há 6000 milhões de pessoas que vivem em países com um rendimento menor que o nosso e 5000 milhões, 70% do total mundial, com um rendimento menor que metade do nosso.

Metade da população mundial vive em países com um PIB pc, ppp menor que 1/4 do nosso.
O PIB per capita em paridades do poder de compra divide o rendimento total disponível num país num ano pelo número de pessoas (cabeças) e corrigindo o valor pelas diferenças que existem no nível de preços.
Assim, este valor traduz o poder de compra relativo das pessoas.
Se nos concentrarmos nos países com mais de 20 milhões de habitantes (que são 90% dos países mais ricos que nós), apenas existem no Mundo 11 países onde se vive melhor que em Portugal (ver quadro 1).

PaísSalário RelativoGDPpc, PPP
(const. 2005 int. $, 2011)
População
United States1993 €/mês42486311,6M
Canada1675 €/mês3571634,5M
Australia1621 €/mês3454822,6M
Germany1615 €/mês3443781,7M
United Kingdom1523 €/mês3247462,6M
Japan1438 €/mês30660127,8M
France1399 €/mês2981965,4M
Korea, Rep.1292 €/mês2754149,8M
Italy1270 €/mês2706960,8M
Spain1270 €/mês2706346,2M
Saudi Arabia1005 €/mês2143028,1M
Soma891,2M
Portugal1000 €/mês2131710,6M
Quadro 1 - Países com mais de 20M de habitantes e mais ricos que Portugal (dados: Banco Mundial)

 Se em Portugal o nível de vida médio se materializa num salário de 1000€/mês, proporcionalmente, temos o mesmo nível de vida da Arábia Saudita (onde há petróleo à força toda) e nos USA o salário será  ligeiramente inferior a 2000€/mês.

Já nos países do grupo dos BRICS, que os esquerdistas anunciam como exemplos de boa governação e onde não há qualquer crise, vive-se muito pior que por cá (ver, quadro 2).

PaísSalário RelativoGDPpc, PPP
(const. 2005 int. $)
População
Portugal1000 €/mês2131710,6M
Rússia695 €/mês14808142,0M
Brasil482 €/mês10278196,7M
África do Sul454 €/mês967850,6M
China347 €/mês74041344,1M
Índia150 €/mês32031241,5M
Angola244 €/mês520119,6M
Marrocos205 €/mês437332,3M
Quadro 2 - Comparação de Portugal com os BRICS, Angola e Marrocos  (dados: Banco Mundial)

Quando os comunas dizem que é impossível viver com um salário de 485€/mês temos que pensar que no Brasil é possível viver, proporcionalmente, com 235€/mês e em Angola com 120€/mês em Marrocos (que está mesmo aqui ao nosso lado) com 100€/mês.
Recordo que estes valores estão corrigidos das diferenças dos preços (é medido em Paridade do Poder de Compra)

Isto sim, isto é que é miséria.
Em Moçambique, uma família tem que se governar com um mísero salário de 20€/mês.
Já imaginou o que é pagar alimentação, transporte, água, escola para as crianças, tudo?
Claro que este "tudo" reduz-se a quase nada.

Fig. 2 - Preto e Preto S.A.: deixe-nos construir a sua moradia de sonho.
Fazemos o  T2 da imagem por 7€/mês (120 mensalidade postecipadas, TAEG de 12%/ano).

Mas interessante é haver portugueses que dizem que "em Moçambique é que se vivia bem". Se repararmos nas estatísticas (UN e Banco Mundial), vemos que o PIBpc, ppp moçambicano é hoje 4x o valor de 1974.
Será que na altura o PIB moçambicano era dividido por apenas meia dúzia de branco?

A visão não está nos olhos de quem vêm mas na mente de quem julga ver.
Já diziam os autores clássicos que não se pode observar sem ter na mente um modelo, o preconceito, para encaixar a informação que os nossos sensores captam (luz que atinge os nossos olhos ou sons que atingem os nossos ouvidos) nos conceitos.
Quando passa por nós um cigano a correr logo, "vemos" que roubou alguma coisa.
Quando queremos (ou nos "lavam" a mente), até vemos miséria onde existe fartura e fartura onde não há nada.

Fig. 3 - O povo sabe que pode haver erro da percepção, "Quem feio ama, bonito lhe parece". 
(fonte da fotografia do casamento do Rocha Armada, o Terrível: wikileaks).

Pedro Cosme Costa Vieira

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Portugal já saíu da Zona Euro

Repetidamente os meus colegas chacotam-me perguntando se "é hoje que saímos da Zona Euro".
Os desgraçados gozaram-me à brava quando eu disse, no final de 2011, que O fim do euro é no Domingo às 20h não tendo dado conta que, juntamente com a Espanha, a Itália e o outros bancarroteiros, o nosso processo de saída da Zona Euro tinha começado em 2008 e que, apesar de ter sido um processo lento e oscilante, ficou concluído exactamente em finais de 2011.
Neste momento já só fazem parte da Zona Euro a Alemanha, a Finlândia, o Luxemburgo e a Holanda.
O erro de percepção dos meus colegas e demais pessoas resulta de não ter havido uma cimeira em que a questão tivesse sido decidida e de não ter sido pré-anunciada uma data de efectivação da saída.
A nossa saída foi decidida e materializada pelo "mercado" que, lentamente, nos foi excluindo desse grupo de elite.

Fig. 1 - Fui expulsa porque dominei a bola à margem das regras do futebol

É como o Fim do Mundo que as pessoas estão à espera que seja algo espectacular e vai ser apenas um "já desligamos a máquina".
O Fim do Mundo começou quando fizemos 25 anos mas não o queremos aceitar.
Lá vem uma dorzita aqui, um cabelo branco acolá, uma noite de insónia, um dente furado, depois a coisa agudiza-se tornando-se mais frequente e intensa e, por fim, damos conta que estamos numa missa deitados de barriga para cima, a olhar para o tecto da igreja e que os nossos parentes estão a discutir a partilha dos nossos bens. 
Pumba, só aí damos conta que o fim do mundo foi ontem.

Fig. 2 - Tal como sair da Zona Euro, não ficamos velhos de um dia para o outro.

Apesar de em Portugal continuamos a usar as notas de Euros, de facto já estamos fora do clube do euro.
Estamos no patamar do Monte-Negro e do Kosovo que usam Euros mas que nem sequer chegaram a entrar na Zona Euro.
Também os marroquinos usam Euros e Dólares.
A actual "crise da dívida soberana" Espanhola e Italiana é apenas o voltar à tendência de longo-prazo que se vivia nos anos anteriores à sua entrada na Zona Euro.

Ontem é que foi uma noite de bebedeira!
Um homem sai do bar, altas horas da noite e pumba, cai.
Tenta levantar-se e andar mais uns metro e pumba, cai outra vez.
Decidir então arrastar-se até casa. Entrar de mansinho para a patroa não dar conta e deita-se.
No dia seguinte diz a mulher.
- Então meu marmanjo, ontem é que foi bebedeira forte. Para trabalhares, não podes, mas para a bebedeira, estás sempre pronto.
Contando o homem com o facto da mulher ter um sono pesado como uma porca diz:
- Eu, eu, eu, eu, não, não, não, foi só um cervejita.
- Foi, foi. Se foi assim, como justificas o homem do café ter telefonado a dizer que te tinhas esquecido lá ontem da cadeira de rodas?

Fig. 3 - Se beber, terá dificuldade em avaliar se está dentro ou fora da Zona Euro.

Como se dá conta de que já estamos fora da Zona Euro?
Quando o Cavaco, em 1992, justificou o processo de convergencia nominal com os países da futura Zona Euro (baixar a taxa de inflação para 2%/ano), foi afirmado que, ao entrarmos neste clube de elite económica, as nossas taxas de juro reais iriam diminuir aproximando-se das da Alemanha.
Iríamos entrar na zona monetária do Marco Alemão.
Ficou implícito que saberíamos se tínhamos sido aceites na Zona Euro quando as nossas taxas de juro fossem iguais às dos alemães.
Usando o spread para a taxa de juro de longo prazo média entre a França e Alemanha, vemos que isso realmente aconteceu (fonte: BCE). No princípio da década de 1990, a taxa de juro média entre a Alemanha e a França era de 7%/ano e Portugal, Espanha e Itália éramos semelhantes entre nós com um spread relativamente a essa taxa de juro dos países centrais da União Europeia de 3.7%/ano (ver fig. 4).
A Irlanda estava muito melhor com um Spread de apenas 0.9%/ano (ver, Fig. 4).
A Grécia já tinha um spread muito mais elevado, de 12.5%/ano (não cabe no gráfico).

Fig. 4 - Spread entre a taxa de juro dos PIIGS e da Alemanha e França (dados: OCDE)

Entre 1998, quando estávamos na Zona Euro, os spreads de todos os países da Zona Euro, incluindo o nosso, ficaram reduzido a quase zero (ver, Fig. 4 e Fig. 5).
Essa redução nos spreads mantém-se actualmente apenas para os FiLHos da Alemanha (Finlândia, Luxemburgo e Holanda), estando todos os outros países acantonados em diversos patamares.

FiLHos + Alemanha são a Zona Euro (spread  < 0.5 pp)
     Finlandia, Luxemburgo e Holanda
Tremidos (0.5 pp < spread < 1 pp)
     Aústria e França
Com um pé dentro e outro fora (1 pp < spread < 2.5 pp)
     Belgica, Malta e Eslováquia
 Já estão fora da Zona Euro (2.5pp <spread < 4pp)
     Chipre, Espanha, Eslovénia e Itália

Já estamos a milhas da Zona Euro
     Irlanda (7pp), Portugal (9pp)  e Grécia (16pp)

Fig. 5 - Dispersão das taxas de juro entre os países da Zona Euro, 1993/2013 (dados: BCE)


No princípio de 2008, fomos, lentamente, empurrados borda fora da Zona Euro.
O processo de entrada na Zona Euro aconteceu entre 1995 e 1998 e reverteu-se entre 2008 e 2011.
Os actuais 6%/ano a 7%/ano exigidos pelos aforradores à Espanha e Itália traduzem a convergência para o spread de 3.7%/ano relativamente às taxas de juro da Alemanha+França que vigorava antes da entrada na Zona Euro.
A tendência, mantendo os 3.7%/ano do spread, diminuiu de 10.9%/ano para 6.5%/ano porque, em termos mundiais, a taxa de juro teve uma tendência de diminuir.

Fig. 6 - O Sr. podia-me empurrar um bocadinho para fora da Zona Euro

As mentes levesinhas dizem que a taxa de juro da Alemanha diminuiu por causa do Euro.
Isso não tem qualquer aderência à realidade pois as taxas de juro diminuíram em toda a parte do mundo.
Se nos concentrarmos na União europeia, as taxas de juro diminuíram não só na Alemanha como, na mesma proporção, na França (que entrou para a Zona Euro) e no Reino Unido (que ficou de fora) (ver fig. 7).

Fig. 7 - A taxa de juro de longo prazo desceu 6 pp nos últimos 20 anos (dados: OCDE)

Porque será que a taxa de juro tem descido no Mundo?
A teoria económica tem dias respostas para isso: a descida da taxa de crescimento do PIB mundial e a descida da taxa de inflação.
1. As pessoas dão mais valor ao Presente que ao Futuro.
Imaginemos que chega à hora do Almoço e propõem-lhe que adie a refeição em troca de comer o dobro ao Jantar.
Não vai aceitar isso porque dá mais valor ao presente que ao futuro.
A grandeza macroeconómica que equilibra a nossa preferência do presente face ao futuro é a taxa de juro.
Por exemplo, se a taxa de juro é 10%/dia então, consumir hoje uma coisa cujo preço é 10€ é equivalente a consumir a "mesma" coisa amanhã que terá um preço equivalente a 9.1€ actuais.
Então, se uma pessoa ganhar 20€/dia, haverá uma taxa de juro que faz com que a pessoa gaste exactamente 20€/dia, chamemos-lhe B.
Se a taxa de juro de mercado for menor que B, a pessoa endivida-se. Se for maior que B, a pessoa economiza.
2. Se as pessoas antecipam que o rendimento vai aumentar, B aumenta e vice-versa.
Se uma pessoa ganha 20€/dia este ano e antecipa que no próximo ano vai ganhar 100€/dia então, vai querer antecipar o poder de compra que vai ter no ano seguinte endividando-se.
Pelo contrário, se antecipar que o rendimento vai diminuir, a pessoa vai querer adiar o consumo, poupando.
Como a taxa de crescimento da economia mundial tem diminuído então, há uma tendência para a taxa de juro diminuir.

Fig. 8 - A taxa de crescimento do PIB mundial reduziu 3 pp (dados: Banco Mundial)

A queda da taxa de juro em 6 pontos percentuais deve-se à redução de 3 pp na taxa de crescimento do PIB mundial (ver, Fig. 8) e a uma queda na expectativa da inflação futura na ordem dos 3 pp (ver, Fig. 9). 

Fig. 9 - Taxa de inflação, UK + Alemanha + França (dados: Banco Mundial)

E porque a taxa de juro portuguesa não ficou, como a Espanha e Itália, nos 6.5%/ano?
Tem a ver com a diferença no nosso endividamento público.
Em 1995, a dívida pública italiana andava nos 130% do PIB e agora está nos 120% do PIB.
A espanhola manteve-se nos 70% do PIB.
A portuguesa andava nos 70% do PIB e agora está nos 110% do PIB e a caminho dos 120%.

Fig. 10 - Dívida pública, Portugal + Espanha + Itália (dados: Banco Mundial e tradingeconomics)

Agora sou eu que faço as perguntas aos meus colegas.
P1. Como justificam que as empresas de referencia como a PT, a EDP, o Continente conseguissem, em 2005, financiar-se a uma taxa de juro igual à dívida pública alemã mais 1 ponto percentual e agora tenham que pedir crédito às famílias portuguesas e pagar um spread de 6 pontos percentuais?

P2. Como justificam que os nossos bancos de referência, CGD, BCP, BPI, BES, tivessem acesso sem qualquer restrição ao mercado interbancário da Zona Euro à taxa EURIBOR e agora não consigam nem um euro?

P3. Como justificam que as nossas PME tivessem sido excluídas dos mercado de "seguro de crédito"?


E, agora que estamos fora da Zona Euro, como irão evoluir as taxas de juro "sem risco"?
Como a taxa de crescimento do PIB à escala mundial e a taxa de inflação em Euros se devem manter estáveis, antecipo que a tendencia de longo prazo para as taxas de juro espanholas e italianas se vai manter nos 6.5%/ano.
a Irlanda, passando o sufoco actual, vão tender para os 3.6%/ano.
Prevejo ainda que nas melhores condições (se o actual ajustamento macroeconómico e de finanças públicas correrem muito bem), a taxa de juro "sem risco" da economia portuguesa se vai aproximar do patamar dos 6.5%/ano e que vai ser a nossa taxa nos próximos 50 anos.

Fig. 11 - Papá, durante quantos anos vamos passar férias nesta praia? 50 anos?

Pedro Cosme Costa Vieira

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Austeridade: o beco sem saída

Economia portuguesa está assim: o consumo parou, o poder de compra foi atropelado pelos impostos
 e salários mais baixos e os nossos principais compradores não querem saber de nós
porque também não estão famosos. O Estado não gasta tostão para acelerar a economia.

Vamos supor que somos extremamente conscienciosos e queremos baixar a nossa estrutura de despesa. Vendemos a casa, o carro e vamos viver dois anos para debaixo da ponte. Seguramos o emprego e, de repente, o dinheiro chega para tudo, o que não é de admirar. Ao fim de dois anos, a troika despede-se no aeroporto da Portela. Mas nós nem nos apercebemos disso. Estamos doentes, desdentados, a família desfez-se e o emprego foi perdido porque já não tomávamos banho todos os dias. Em suma, ficámos piores e menos habilitados a criar riqueza. Será que Portugal vai estar assim no arranque de 2014? Umas palmadinhas nas costas da troika bastarão para ficarmos felizes? "Boa, rapazes. Diminuíram a despesa de forma notável. Boa sorte para a recuperação da economia e criação de emprego. Animem-se! Olhem para a Grécia que já nem é do euro", dirão os cobradores do fraque.

Será que a crítica à austeridade sem política de crescimento económico é tão infundada e mais na base do palpite? Parece  óbvio que não. Vamos por partes.

Grécia: o buraco sem fundo da zona euro

“Pesadelo da dívida grega posto a nu”, titula o Financial Times de hoje, revelando um relatório “estritamente confidencial” preparado e entregue, na semana passada, pelos analistas da troika (UE/BCE/FMI) aos líderes da zona euro. A “análise de sustentabilidade da dívida” defende que mesmo no cenário mais otimista, as medidas de austeridade impostas em Atenas podem dar origem a uma recessão tão profunda que a Grécia não conseguirá sair do buraco da dívida nos próximos três anos, 170 mil milhões de euros de resgate [136 mil milhões para além dos 34 mil milhões que sobraram do primeiro resgate à Grécia, de 110 mil milhões].
O relatório adverte ainda para o facto de dois dos mais importantes princípios do resgate se poderem autodestruir.

Grécia: se a revolta se agudizar, não há troika que meta aquele país na ordem

Forçar a austeridade na Grécia pode provocar a subida dos níveis de endividamento enfraquecendo severamente a economia, enquanto a reestruturação da dívida de 200 mil milhões de euros poderia impedir a Grécia de alguma vez mais conseguir voltar aos mercados financeiros por assustar os futuros investidores privados.

O relatório sugere que a dívida grega vai diminuir a um ritmo mais lento do que o esperado – apenas para 160 por cento da produção económica em 2020 – muito abaixo do objetivo de 120 por cento estabelecido pelo Fundo Monetário Internacional. Num cenário destes, a Grécia precisaria de um resgate que ronda os 245 mil milhões de euros, ou seja, muito mais do que os 170 mil milhões de euros de projeção “base” sob a qual os ministros da zona euro estiveram a negociar durante toda a noite, na segunda-feira, 20 de fevereiro, em Bruxelas


Portugal: o aluno brilhante da austeridade


As políticas de austeridade e corte de salários colocadas em prática em países periféricos como Portugal e Grécia terão um efeito contrário ao pretendido: a economia vai crescer menos (-3% ou mais, em 2012, apontam as previsões), apesar de o anúncio dessas medidas poderem ter um efeito positivo de curto prazo nos mercados. O número de economistas a defender esta ideia tem aumentado e, ontem, foi a vez de Corrado Andini e Ricardo Cabral, da Universidade da Madeira  (ver aqui) , virem explicar os motivos, juntando-se assim a personalidades como Paul Krugman, que também ontem veio reiterar a sua linha de pensamento no New York Times, chamando a Portugal “aluno brilhante da austeridade” sem resultados positivos (ver aqui) .Não, Krugman nunca defendeu o corte de salários, ao contrário do que chegou a ser ventilado. Ele defendeu o efeito "inflação" e exemplificou com uma medida de equivalência, isto é, caso a opção fosse o corte salarial directo... Basta saber traduzir do Francês (ver aqui).

Ministro das Finanças alemão confessa a Vítor Gaspar: "Sim, nós sabemos que esta austeridade toda não
 leva a lado nenhum,  mas isso não é importante. Na Alemanha, ninguém se queixa. Só a Grécia é que parece uma
"rave party"  non-stop do meu tempo de juventude

A execução orçamental portuguesa relativa a janeiro, ontem divulgada pela Direção-Geral do Orçamento, foi um primeiro sinal de que austeridade poderá ter um efeito contrário ao pretendido. O défice do subsector Estado baixou 41% face a janeiro de 2011, essencialmente devido à despesa total ter sido inferior em 12,7%. À parte do IVA, cujo aumento de 5,7% na receita era já previsível, tendo em conta o facto de as taxas terem sido agravadas em vários produtos e serviços no início do ano, os outros impostos ressentiram-se da aplicação das políticas de austeridade, gerando uma quebra da receita fiscal nos impostos directos na ordem de 18,8%, em especial no IRC.

Receita fiscal em janeiro de 2012: uma pequena amostra do que está para vir?



Medidas Adicionais de austeridade e cortes salariais vão piorar a crise do euro” é o título do paper publicado ontem, em Inglês, pelos economistas da Madeira e explica-nos, por exemplo, que a Espanha tem um problema da dívida externa, enquanto a Grécia e Portugal têm também esse problema e ainda um aumento exponencial de dívida soberana. Portugal aumentou a sua dívida pública em 43,7 pontos percentuais no período 1999-2010 (88,2) % do PIB, a Grécia em 50,9 pontos (137,1%) e Itália em apenas 5,4 pontos (117%).

Curiosamente, fazem notar os economistas, o nível da dívida soberana da Alemanha está bem acima da Espanha (78,8 e 57,4% do PIB, respetivamente). Além disso, os germânicos aumentaram em quase 22 pontos percentuais a sua dívida entre 1999 a 2010,  apesar de um superávite primário (sem juros) médio de 0,6% do PIB, no mesmo período. No entanto, aquele resultado pode ser explicado por uma taxa de juro média real 2,6 pontos percentuais superior à taxa de crescimento real do PIB entre 1999 e 2010. 

Segundo Ricardo Cabral e Corrado Andini, os mercados de exportação dos países periféricos estão a comprar menos e o consumo interno caiu devido às políticas de austeridade e baixa de salários. A recente dinâmica das taxas de juro da dívida pública é provável que reflitam o facto de que os mercados financeiros começaram a ter em conta não apenas o risco de a dívida soberana de um país não poder ser paga, mas também o risco de taxa de câmbio (o risco de que a dívida soberana de um país será paga em outra moeda que não o euro). Em 2009-2010, as taxas de inflação, em geral diminuíram quando comparadas com o período 1999-2008. Uma vez que as taxas de juros nominais aumentaram ou diminuíram sensivelmente em países periféricos, as taxas de juro reais nesses países aumentaram. Em vez disso, na Alemanha uma redução de um ponto percentual na taxa de juros nominal foi acompanhada por uma diminuição aproximadamente igual à taxa de inflação, de modo que a taxa de juro real manteve-se estável.

“Até os alunos brilhantes da austeridade, como Portugal e Irlanda, fizeram tudo o que lhes foi pedido, enfrentando ainda altos custos de financiamento no mercado secundário da dívida. Porquê? Por que os cortes da austeridade deprimiram profundamente as respetivas economias, colocando em risco as suas receitas fiscais, de tal modo que o rácio da dívida em percentagem do PIB, o indicador padrão da evolução fiscal, está a piorar”, afirmava ontem Paul Krugman, Nobel da Economia.  

Pedro Palha Araújo

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