O segundo resgate está à porta.
A oposição diz em peso que é preciso "re-estruturar a dívida pública" e que vai rasgar tudo o que o Passos está a fazer.
As sondagens dão poucas intenções de voto no PSD e, dentro do governo, o Passos Coelho perdeu todo o apoio (as pedras Relvas + Gaspar + Álvaro foram sendo dinamitadas).
Daqui só se pode concluir que, colectivamente, o povo português não quer cumprir as condições contratuais que foram por si livremente aceites (representados pelos antigos governantes).
Bem sei que os anteriores governantes eram uns parolos que não sabiam o que faziam mas queremos os "direitos adquiridos" que esses mesmos parolos prometeram em nome do Estado.
Nas obrigações que assumiram em nosso nome foram uns criminosos mas, na parte dos direitos que nos prometeram, já foram estadistas de grande visão estratégica.
Fig. 1 - Re-estruturação a sério é a Síria: transformam cidades em montes de entulho para reciclar.
Apesar de má, lentamente a situação está a melhorar.
A consolidação orçamental e a economia vão evoluindo lentamente mas no sentido correcto: o défice público está a reduzir, a balança corrente está equilibrada, a economia está a crescer e o desemprego está a diminuir.
O problema do risco da dívida pública é que dos 200 mil milhões € que Estado Português deve, a Troika assumiu 40% (78 MM€). Como os 78MM€ têm garantias reforçadas, a dívida que fica na mão dos privados, apesar de menor, vai incorporando a totalidade do risco.
Se, e.g., Portugal precisasse bancarrotar 50MM€ na divida pública, nos 200MM€ seriam perdas de 25% mas, tirando os 78MM€, agora a mesma bancarrotagem implica perdas para os privados de 40%. (o hair cut).
Apesar do razoável processo de ajustamento, como o stock de divida na mão dos privados está a diminuir, apenas será previsivel observar uma diminuição significativa do prémio de risco da dívida pública se as nossas contas públicas evoluírem de forma muito favorável. Isto é, atingirem rapidamente o "equilíbrio do saldo primário" (em finais de 2013) e um défice público de 3.0% em 2015 (um pequeno resvalar no objectivo de 2.5%).
É que a bancarrotagem já está para além da nossa vontade.
Nós até podemos afirmar que queremos pagar tudo mas, ao ser obrigatório as instituições europeias assumirem uma fatia cada vez maior da nossa dívida pública, vão ser impostas perdas aos aforradores privados.
E isso já aconteceu na Grécia e no Chipre e a ideia circula pelos corredores da Europa.
Naturalmente que os aforradores ficam nervosos, sejam o "grande capital estrangeiro" ou os velhinhos que têm certificados de aforro, com a comparação com o que aconteceu na Grécia e em Chipre.
E qual será o impacto do "perdão"?
Os privados que têm grande parte da nossa dívida pública são os nossos bancos. E já ficou acordado que as perdas dos bancos serão transmitidas aos depositantes.
O provável é que aconteça como no Chipre: primeiro, o congelamento das contas bancárias abaixo de um determinado quantitativo e, posterior, uma perda parcial desses depósitos.
A coisa vai cair no bolso de cada um de nós seja por mais impostos, menos despesa pública ou outra qualquer marretada..
Fig. 2 - Das Problem ist dass ich nicht von den Deutschen gewählt um die Portugiesen zu unterstützen. O problema é que eu não fui eleita pelos alemães para sustentar os portugueses (google.translator)
Será que tudo falhou?
Diz ainda o Chilavert que "Todas as soluções aplicadas por FMI, BCE e Governo falharam!". O problema é exactamente ao contrário: as soluções propostas pela Troika não foram sequer implementadas.
"A meu ver, grande parte das soluções do governo não foram sequer aplicadas porque foram contrariadas pela opinião pública (ex: TSU) ou pelo TC (diversos cortes na despesa). Pior ainda quando se fala nas soluções da troika, pois muitas destas, constantes do acordo, nem sequer foram seriamente tentadas pelo governo (ex: fusão de municípios, venda da RTP, TAP). Eu ainda estou à espera que as soluções do governo e da troika venham a ser aplicadas - e só aí é que poderemos concluir se resultaram ou falharam." (Portuendes)
As metas assinadas pelo Sócrates (que não tinha qualquer intensão de respeitar) nunca foram atingidas porque o Governo não conseguiu cortar suficientemente na despesa nem aumentar os impostos. Foram apenas umas tentativas tímidas que, mesmo assim, saíram de conselhos de ministros tumultuosos. Não nos podemos esquecer que o Gasparzinho saiu porque a Moção de Estratégia do Portas ao congresso do CDS fazia dele o bombo da festa.
O Sócrates assinou que teríamos um défice de 3% do PIB em 2013, o governo vai atingir 6.0% e ainda assim os esquerdistas conseguiram convencer o povo que os cortes foram maiores que o previsto no Memorando assinado pelo Sócrates.
Para 2013 faltam 5000M€ relativamente aos cortes que em 2011 o Sócrates prometeu à Troika.
É preciso ser cego e não querer ver.
O Hulk ter dito no túnel da Luz "agarrem o Hulk senão eu mato o cara", foi gravíssimo e merecedor de meses e meses de suspensão. O Jesus ter literalmente batido em polícias (as mãos dos polícias também são polícias), não foi nada.
"Estava só a proteger o minino"
A argumentação do Seguro é que, quanto mais o governo poupar, menos poupa. Então, quando o PS for governo, quanto mais gastar, menos gastará.
Imaginemos um gordo. Quando comemos, a digestão gasta calorias. Então, se comermos mais, gastamos mais calorias. Daqui, conclui o Seguro que quem quiser emagrecer tem que comer mais.
É preciso ser louco para acreditar nisto mas ele está convicto e o povinho quer acreditar.
Fig. 3 - Se queres emagrecer, come mais pois a digestão gasta calorias
Em 2011 a conta era fácil de fazer.
Se Portugal tinha um défice público de 10% do PIB, 17MM€/ano, e a despesa pública era de 50% do PIB então, a despesa tinha que diminuir 11.3MM€ e o a receita aumentar 5.7MM€ (tinha sido acordado que 2/3 do ajustamento seria do lado da despesa).
Se somarmos a isto o efeito recessivo da correcção do défice externo de 11% do PIB (e não das contas públicas que têm um efeito neutro), estamos a falar em cortes e aumentos da receita ainda superiores.
Muita gente fez esta conta, desde o Cantiga Esteves ao Silva Lopes passando pelo Medina Carreira mas ninguém quis acreditar, mesmo antes de o Passos formar governo.
Mas o nosso ajustamento externo tem sido extraordinário.
Todos sabemos que a correcção das nossas contas externas tem estado associado a uma contracção do PIB mas temos que comparar com a Grécia para ver se o nosso ajustamento tem sido ou não um fracasso.
O desequilíbrio face ao exterior de 11% do PIB era gravíssimo porque implicava mais endividamento externo. vivíamos bem porque, anos e anos a fio, cada português endividou-se face ao exterior em 150€/mês.
Fig. 4 - As nossas contas externas tinham um défice de 11% do PIB.
Naturalmente que menos 600€/mês de endividamento externo em cada família de 4 pessoas tem uma efeito negativo no PIB. Considerando o PIB per capita, a nossa perda foi, até finais de 2012, de 5%..
Fig. 5 - Apesar de tudo, o PIB per capita português só contraiu 5% e já está a crescer.
É fácil calcular que a correcção foi conseguida com um "efeito multiplicador" ligeiramente menor que 0.5 (cada correcção de 1% do PIB implicou uma perda do PIBpc de 0.46% do PIB).
Vamos comparar com a Grécia.
A Grécia precisou corrigir um défice das contas exteriores ligeiramente superior ao nosso, 14% do PIB, 230€/mês por cada pessoa. Não será preciso ter grandes conhecimentos de economia para prever que reduzindo-se o financiamento de cada família em cerca de 1000€/mês, o povinho ficou grego.
Fig. 6 - A Grécia precisou corrigir um défice externo de 14% do PIB.
Esta correcção foi acompanhada (até finais de 2012) por uma contracção do PIB per capita de 20%, quatro vezes a nossa perda..

Fig. 7 - O PIB per capita grego já contraiu 20% e continua em queda.
É verdade que o PIB pc da Grécia ainda é ligeiramente superior ao nosso mas estamos a convergir.
Então, na Grécia o "efeito multiplicador" foi de 1.4 (cada correcção de 1% do PIB implicou uma perda do PIBpc de 1.4% do PIB), o triplo do "efeito multiplicador" verificado em Portugal.
Temos que concluir que, em comparação com a Grécia, o nosso ajustamento das contas externas foi um grande sucesso.
E as contas públicas estão a evoluir benzinho
Tínhamos um défice de 10% (em 2009/2010) e fechamos 2012 com 6.4% (uma consolidação de 1.8% do PIB por ano).
Apontamos para 2014 um défice de 4% do PIB que traduz uma consolidação no período 2013/4 de 1.2% do PIB.
Lentamente, o Passos tem levado a água ao moinho.
Pergunta ainda o Chilavert
"Será que todos os portugueses vão ter de pagar pela incompetência das "elites" e serão os únicos castigados pelo falhanço do projecto UE?"
O primeiro problema é que a incompetência tem um impacto positivo nas nossas vidas.
São as pensões chorudas aos 52 anos de idade daqueles que anunciam na TVque "sustentam com a pensão a filha e genro que não trabalham e o neto toxicodependente.
São os empregos garantidos e bem remunerados de centenas de milhares de professores e demais funcionários públicos.
São as empresas públicas a fornecer serviços a preço de saldo.
São as estradas e autoestradas para tudo que é sítio.
É a assistência médica universal e gratuita.
É um ensino de qualidade e gratuito.
O problema é isto tudo ser feito sem qualquer preocupação quanto à capacidade do nosso pequeno país gerar riqueza suficiente para o manter.
O segundo problema é que a incompetência das "elites" pode ser corrigida.
É cortar tudo o que o Estado prometeu sem ter possibilidade de lhe dar cumprimento.
O Passos Coelho não se deve esforçar a convencer o Tribunal Contitucional de que é constitucional cortar 10% nas reformas dos funcionários públicos ou descer os salários dos funcionários públicos.
Tem é que pedir a declaração da inconstitucionalidade das leis e diplomas que instituíram as regras de aposentação dos funcionários públicos sem atender às receitas potenciais.
Tem é que pedir a declaração da inconstitucionalidade de todas as leis e decretos que permitiram contactar para o quadro funcionários públicos com salários e condições melhores que os trabalhadores privados.
Tem é que pedir a declaração de que assumir encargos com "direitos adquiridos" viola o Principio da Confiança de que o Estado não vai onerar os contribuentes futuros com encargos insuportáveis.
Se não é possível mudar um "direito adquirido" que é financeiramente insustentável então, a constituição desse "direito" é declaradamente inconstitucional.
Não foi a UE que falhou.
Fomos nós que quisemos acreditar que tínhamos direito a ter um nível de vida superior ao dos alemães sem sabermos fazer nada de valor.
De repente, nós e a Grécia, tornamo-nos em califados árabes mas em que o petróleo foi substituído pelo endividamento externo.
Eu ainda me lembro de não sei quem (penso que o Sócrates mas também pode ter sido o Cavaco, a Ferreira Leite, o Portas ou outro parolo qualquer) dizer que tínhamos todas as condições para nos tornarmos a região mais rica da Península Ibérica.
Agora só temos que nos desconvencer dessas idiotices e colocarmo-nos na posição que sempre foi a nossa: um país de riqueza intermédia.
Por mais que não queiramos meter nas nossas cabecinhas, em cada 7 pessoas que existem no nosso planeta, 6 delas têm um nível de vida inferior ao nosso. E o nosso nível de vida é 60% do rendimento médio dos 40 países mais ricos do que nós:
| País | PIBpc, PPC | Pop. | | País | PIBpc, PPC | Pop. |
| Qatar | 326% | 1,7 | | Finland | 148% | 5,4 |
| Luxembourg | 319% | 0,5 | | Japan | 143% | 127,6 |
| Singapore | 236% | 5,1 | | France | 138% | 65,0 |
| Norway | 220% | 4,9 | | Bahamas, The | 128% | 0,4 |
| Brunei Darussalam | 212% | 0,4 | | Spain | 126% | 46,0 |
| United States | 197% | 309,1 | | Italy | 126% | 60,4 |
| Kuwait | 196% | 3,0 | | Korea, Rep. | 123% | 49,5 |
| United Arab Emirates | 182% | 8,2 | | Equatorial Guinea | 122% | 0,7 |
| Switzerland | 182% | 7,8 | | Israel | 122% | 7,6 |
| Ireland | 174% | 4,5 | | Slovenia | 118% | 2,0 |
| Netherlands | 172% | 16,6 | | New Zealand | 117% | 4,4 |
| Austria | 166% | 8,4 | | Saudi Arabia | 117% | 27,3 |
| Canada | 165% | 34,1 | | Cyprus | 117% | 1,1 |
| Australia | 162% | 22,0 | | Oman | 113% | 2,9 |
| Iceland | 159% | 0,3 | | Czech Republic | 110% | 10,5 |
| Sweden | 159% | 9,4 | | Greece | 110% | 11,3 |
| Germany | 157% | 81,9 | | Trinidad and Tobago | 109% | 1,3 |
| United Kingdom | 153% | 62,3 | | Malta | 106% | 0,4 |
| Belgium | 153% | 10,9 | | Bahrain | 101% | 1,2 |
| Denmark | 152% | 5,5 | | Portugal | 100% | 10,6 |
Quadro 1 - Só 1 em cada 7 pessoas do Mundo vive em países com um PIB per capita, paridade de poder de compra superior ao nosso (dados, Banco Mundial, média 2008-2012)
E o que nos espera o futuro?
É aplicar o que o Sócrates assumiu com os nosso credores.
Apesar de já muita coisa ter sido feita, o caminho a percorrer ainda é longo e cheio de espinhos porque estamos atrasados 2 anos.
Na construção do OE para 2014 vai ser preciso cortar 2500 milhões € relativamente ao estamos a viver em 2013.
Retomar os cortes dos subsídios.
O Governo não pode desanimar com o chumbo do Constitucional do corte do subsídio de férias.
Tem que voltar a atacar este corte ultrapassando a questão da "violação do principio da igualdade".
O mais fácil será reduzir os subsídios de férias e de Natal a meio salário em todos os contractos de trabalho sejam públicos ou privados. É um corte de 7.14%..
Vamos supor que o Governo não quer que o corte seja igual nos salários mais baixos. Então, pode fazer uma redução na TSU dos salários mais baixos, por exemplo, no SMN a TSU passar de 11% para 6%..
Esta medida terá um impacto na despesa na ordem dos -1300M€.
Um novo aumento de impostos.
O IRS e o IMI subiram em 2013 pelo que vão descansar um anito.
Em 2014 vai ser o ano do IVA vai ter que subir dos 6% / 13% / 23% para os 8% / 15% / 25%.. Esta medida tem um potencial impacto na receita fiscal na ordem dos +1000 milhões €.
Mais uns cortes aqui e outros acolá e a coisa vai ao sítio.
Privatizar e liquidar empresas públicas.
Para 2015 será preciso que o plano de saneamento das empresas públicas ganhe força.
Flexibilizar o mercado de trabalho.
Apesar de já ter sido feito bastante, a nossa Lei do Trabalho ainda de avançar mais, convergindo para o que nas economias mais avançadas como os Estados Unidos da América, Reino Unido ou Alemanha.
1) Possibilidade de redução, por acordo, dos salários.
2) Possibilidade de flexibilizar, por acordo, o horário de trabalho.
3) Flexibilizar, por acordo, as condições do contracto de trabalho.
Fig. 8 - Tornarmo-nos flexíveis exige esforço mas, em caso de tensões, evita lesões
O relatório do FMI.
Toda a gente sabe que "tomar medicamento a mais" mata o paciente. Quando nos doí a cabeça, se tomamos 50 caixas de aspirina, naturalmente que vamos rebentar com o nosso estômago.
Então, o FMI dizer que o excesso de consolidação orçamental tem um efeito negativo na economia não é novidade nenhuma.
A questão está na quantificação do que é "excesso de consolidação orçamental". Os estudos indicam que será uma consolidação acima de 2% do PIB a cada ano.
No caso português, estamos a consolidar um défice público de 10% do PIB (em 2009 /2010) à razão de 1.8% do PIB no biénio 2011/12 e de 1.2% no 2013/4 (previsto) o que está claramente abaixo do limite dos 2%/ano..
Assim, não é preciso ter medo da "espiral recessiva" do "excesso de austeridade" pois o nosso programa de ajustamento é adequado e vai no bom caminho.
Finalmente, o progresso no Mundo.
As notícias que passam na comunicação social são só tragédias mas é informação enviesada para a desgraça. De facto, nunca o nível de vida das pessoas à escala mundial melhorou tão rapidamente como se tem observado nos últimos anos.
Pegando em dados do Banco Mundial, desde 2010 o PIB pc ppc está a aumentar 4.5%/ano (usando a população como ponderador na agregação dos países). Isto traduz que a cada 15 anos, o nível de vida das pessoas está a duplicar.
Pedro Cosme Costa Vieira