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segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

E ao 7.º dia, o BANIF caiu

No dia 13 de Dezembro, a TVI ... 
anunciou que o BANIF iria ser "resolvido".
Na segunda-feira seguinte não o foi, houve desmentidos de toda a parte, todo o mundo gritou que "a TVI enganou-se" e, por parte do BANIF, até veio a ameaça de que iria demandar judicialmente a TVI pelos "prejuízos causados".
Não foi no dia 13 mas, mesmo com desmentidos vigorosos, só aguentou mais uma semanita. No dia 20 de Dezembro, caiu com um estrondo de milhares de milhões de euros.

Porque será que o BANIF, BES, BPN, BPP caíram?
O mais simples é pensar que foram geridos por malfeitores que apenas queriam causar prejuízo aos contribuintes. E ainda mais simplista ainda é concluir que a banca tem que estar nas mãos do Estado.
A razão é simples mas não tem nada a ver com isso: os bancos assumiram riscos que não conseguiram cobrir nem transmitir aos clientes. No final, esses riscos rebentaram com os seus balanços.

Vejamos como funciona um banco comercial.
Os aforradores, sejam pessoas ou empresas, metem lá dinheiro na forma de depósitos e de obrigações ficando garantido que receberão de volta as importâncias entregues acrescidas de um juro, por exemplo, 1%/ano.
Depois, o banqueiro pega no dinheiro recolhido e vai emprestá-lo a outras pessoas e empresas, a um juro mais elevado, por exemplo, a 3%/ano, mas com o risco de os devedores não pagarem o combinado.
A diferença entre a taxa de juro a que são remunerados os aforradores e a taxa de juro a que o banqueiro empresta esses recursos tem que cobrir os custos de funcionamento do banco e o risco de algum devedor fugir sem pagar.
Para que o banco nunca vá à falência, o banqueiro tem que fazer uma gestão criteriosa das taxas de juro e dos riscos assumidos. Em termos de "regulador", para nunca haver perdas para os aforradores, o banqueiro tem que meter do seu bolso 10% do dinheiro que empresta (a "core tier 1"). Se, por exemplo, o banco emprestar um total de 1000 milhões €, o banqueiro terá que meter 100 milhões€ do seu bolso (é o capital mínimo do banco) a que acrescem 900 milhões € de depósitos e obrigações dos aforradores.


Vejamos como funciona um banco de investimento.
O banco de investimento não assume risco porque o transmite integralmente aos seus "depositantes". Assim, funciona como um intermediário quase idêntico a uma bolsa de valores.
Por exemplo, um aforrador entrega 100 mil € ao banco e o banqueiro diz-lhe que vai emprestar 10 mil € a uma empresa, 20 mil € a outra empresa, etc. (que identifica), a determinada taxa de juro com o aviso de que, se as empresas não pagarem, é o cliente que perde o dinheiro. O aforrador terá que dar o seu OK ao negócio.
O banco apenas cobra uma comissão pela intermediação do negócio.
Por causa de ser apenas intermediário, o banco de investimento nunca pode falir e, por isso, não existe necessidade de ter um capital mínimo.
O problema das falências não foi, como dizem os esquerdistas, o "banco de investimento" estar misturado com "o banco comercial" mas sim os bancos comerciais assumirem risco exagerado que um banco de investimento nunca assumiria.
Um exemplo de risco exagerado são os fundos de capital garantido.

Vejamos como funciona a gestão do risco.
Pensemos num cliente, o Sr. João, que vai pedir 100 mil € de crédito a um banco, a 30 anos, para comprar uma casa.
Vamos supor que a taxa de juro acordada é a EURIBOR a 6 meses mais 1 ponto percentual.
Se o banco se conseguir financiar à taxa EURIBOR a 6 meses, este crédito terá para o banco uma margem de cerca de 15% (esta conta não é trivial).
Em função do valor da casa, do rendimento mensal, estado civil, idade, número de filhos, rendimento da mulher e outras variáveis, o banco calcula o risco do João não pagar, por exemplo, pensa ser de 3% a probabilidade de o João não pagar o crédito.
Estes 3% de taxa de incumprimento vão-se concretizar (ou não) na perda total dos 100 mil € mais os juros.
Se o Banco tiver 1000 clientes iguais ao João e nenhum pagar os seus créditos, o banco irá à falência.
O que pensa o banco é que, como uns pagarão e outros não, em média, a perda será de 3% pelo que o risco apenas se irá traduzir na redução da margem do negócio que passa de 15% para 12%
     = 1,15 * (1-3%) -1
Para corrigir esta perda de margem, seria apenas necessário aumentar o spread um poucochinho.


O problema é que, desde 2008, muitos deixaram de pagar.
Muitas e muitas pessoas, não só particulares como também empresas, falharam os pagamentos. Afinal, aqueles 3% estavam subavaliados e, por outro lado, concretizaram-se todos ao mesmo tempo.
Milhares e milhares de pessoas deixaram de pagar as suas hipotecas e pacotes de empresas de construção faliram.

E de quem foi a culpa?
De muita gente.
Dos governos que pressionaram os banqueiros a "emprestar dinheiro à economia".
Dos banqueiros que não souberam resistir à pressão política.
Já tenho dúvidas quanto à responsabilidade dos regulados  (Banco de Portugal e CMVM) porque mais não foram que pressionados pelo poder político. Estes problemas não surgiram com o Carlos Costa sendo algo que se arrasta desde o tempo do Vítor Constâncio. Imaginem que há 10 anos o Vítor Constâncio impunha que o crédito à habitação apenas poderia ser concedido até 75% do valor do imóvel e que a prestação teria que ser menor que 25% do rendimento líquido do agregado familiar. Seria esfolado vivo.

Os nossos bancos ficaram muito expostos ao sector imobiliário.

Os bancos assumiram muito risco no crédito imobiliário, emprestaram a prazos longos e a taxas de juro muito baixas porque pensavam que conseguiriam aceder a crédito à taxa EURIBOR.
Concederam mais de 100 mil milhões € o que pondera 40% nos seus balanços. Como a EURIBOR está bastante abaixo da taxa média a que os nossos bancos se conseguem financiar, para uma diferença de 1,5 pontos percentuais, este problema tem um impacto negativo no balanço dos nossos bancos em 25 mil milhões €.

Crédito à habitação com prazo superior a 5 anos, em milhões € (dados, Banco de Portugal).

Como poderia este problema ser resolvido sem custos para os contribuintes.
O Sócrates primeiro, o Passos Coelho depois e o Costa agora, deveriam ter força política para, por decreto, fixar o indexante dos créditos à habitação na EURIBOR média de 2009 (1,52%/ano para EURIBOR a 6 meses).
Claro que isto iria ter um custo para as famílias endividadas (a prestação hoje seria 15% mais elevada do que está), mas livraria os bancos de grande parte dos seus problemas. Em vez de todos os contribuintes pagarem as falências dos bancos, estes ficariam equilibrados à custa de quem se endividou.
Os banqueiros erraram no calculo do spread das taxas de juro mas, agora, os contribuintes não estão a financiar os bancos mas sim os devedores que conseguem uma taxa de juro inferior ao que seria indicado.

Será a solução do BANIF melhor que a aplicada ao BES?
A solução para o BANIF é intermédia entre a nacionalização do BPN e a resolução do BES.
No BPN o Estado assumiu todas as perdas.
No BES serão os "outros bancos" a assumir as perdas.
No BANIF, o Estado assume 80% das perdas e os "outros bancos" 20%.
Qualquer destas soluções tem vantagens e desvantagens.

A solução BPN.
Nas pessoas que se relacionavam com o BPN, os accionistas perderam dinheiro mas mais ninguém. Depositantes, obrigacionistas, e demais credores receberam todo o seu dinheiro e quem ficou com o prejuízo foram os contribuintes (talvez 500€/pessoa).

A solução BES.
Muita gente perdeu dinheiro, milhões e milhões de euros, os "outros bancos" estão com um problema de pelo menos 3000 milhões € mas os contribuintes estão protegidos em termos directos.
 
Por exemplo, vejamos o caso da Goldman Sachs no BES.
Duas ou três semanas antes do colapso, a Goldman Sachs fez um depósito de emergência no BES de 752,5 milhões €, dinheiro que veio do veículo Oak Finance.
Acontece que o BES tinha pedido outro empréstimo ao Nomura dando acções como penhor. E, no dia 14 de Julho de 2014, o banco japonês Nomura executou o penhor ficando com 4,99% do BES (talvez a 0,47€/acção). Talvez no dia seguinte, o Nomura vendeu cerca de metade da posição ao Goldman Sachs que passou a ter uma participação qualificada (mais de 2% do BES).
No dia 23 de Julho o Goldman Sachs vendeu parte da sua posição (talvez a 0,46€) ficando com menos de 2% do capital do BES (ver fonte).
A 3 de Agosto, o BES acaba, é resolvido, e o depósito da Goldman Sachs é metido no Banco Mau com o argumento de que a GS era accionista institucional.
Alguém achará razoável que uma instituição que foi accionista minoritário do BES durante uma semana,  entre os dias 15 de Julho e 23 de Julho, tenha, por isso, perdido o direito ao depósito bancário de 7252,5 milhões€?
O GS nem chegou a ter tempo para registar os seus direitos de voto quanto mais a ter responsabildiades na gestão.
Está em tribunal em Londres e tenho a certeza que alguém vai ter que pagar isto e mais coisitas.


A solução BANIF.
Se tivesse havido uma resolução, não seriam os contribuintes a perder o dinheiro mas sim os restantes bancos do sistema financeiro e obrigacionistas.
Agora, com o BCP cotado a 0,05€/acção, o Montepio esganado e a CGD nas lonas, acrescentar aos 3000 milhões do BES mas 1750 milhões € de perdas do BANIF, o sistema não seria capaz de absorver tamanhas perdas.
Por isso, não vejo que o Costa pudesse fazer algo de substancialmente diferente.

Terá o Passos Coelho culpas por ter adiado o problema?
A solução BANIF não foi invenção do Passos Coelho mas a aplicação de um modelo usado nos países com mais experiência a resgatar bancos, a Inglaterra.
Pensam os ingleses, que têm dos maiores bancos do mundo, que gerir um banco compete aos banqueiros e não ao Estado. Então, na crise de 2008, resolveram os bancos que faliram mas mantendo os accionistas antigos, com 30% do capital, a gerir o banco.


Vamos aplicar o modelo ao BES.

O Estado metia 5000 milhões € e ficava com 70% das acções. As restantes acções iriam para os accionistas privados de então, a Família Espírito Santo (com 6%), o Credit Agricole (4,4%) e os pequenos accionistas (19,6%) que continuariam a gerir o banco (dizem os ingleses que o Credit Agricole e o José Maria Ricciardi teriam conseguido melhores resultados que os conseguidos pelos Vítor Banco e pelos gestores da CGD).
O BES continuaria com essa estrutura accionista (70/30) até que os accionistas privados conseguissem comprar a posição do Estado.

Mesmo no caso do BPN deveria ter sido usado este modelo.
Bem sei que o nosso espírito latino vingativo não aceita que "quem mandou o banco à falência" continue a ter uma palavra a dizer na sua gestão. Mas, diz a evidência, é a melhor forma de reduzir os prejuízos finais.
Ninguém aceitaria que o BPN tivesse um impacto de 5000 milhões € nos contribuintes continuando a ser gerido pelos antigos donos.



Quando deveria ter sido "resolvido" o BANIF?
O BANIF estava falido desde 2008 mas continuou a operar. Se as empresas falidas fechassem todas, paravam metade das empresas, desde o Metro do Porto, à TAP passando pela MartinFer e pela Soares da Costa.
A coisa foi continuando e, enquanto não levantasse problemas, assim deveria continuar.
Acontece que Portugal está dentro de um mercado único onde não podem operar empresas que recebam subsídios do Estado. Assim sendo, as instituições europeias obrigaram a que o BANIF desaparecesse.

É uma amostra do futuro da TAP.
A TAP a tornar-se novamente pública não pode voar em rotas onde operem empresas privadas pois tal traduzirá um ataque à concorrência porque uma empresa subsidiada está a vender o seu produto abaixo do preço de custo.

Será que o Passos ter adiado da resolução fez o BANIF perder valor?
Não há nada de substancial que a administração do BANIF tenha feito nos últimos 3 anos que indique que o banco perdeu valor ou que, há 3 anos, fosse conseguido um preço maior.
O que está de tóxico no balanço (os créditos imobiliários) já lá estavam há 3 anos e a administração não realizou qualquer operação de monta.
O banco estava falido e continuou falido até que, esta semana, caiu.
Se o imobiliário tivesse recuperado, se o BES não tivesse falido, se a PT não tivesse desaparecido, se muita coisa acontecesse que não aconteceu e outra que aconteceu não tivesse acontecido, o BANIF continuaria e, talvez daqui a 20 anos, o problema se resolvesse por si.
Mas não aconteceu e foi preciso liquidar a coisa de urgência.

Também ninguém aceitaria que o Passos Coelho metesse 2000 milhões € no BANIF!
Numas coisas, dizem que foi além da troika, que fez coisas que não deveria ter feito pois estava em fim de mandato ou em gestão. Noutras coisas, já deveria ter feito e não fez.
Privatizar a TAP em gestão foi crime mas privatizar o BANIF já seria bom.
Será que os esquerdistas vão reverter a privatização dos Estaleiros Navais de Viana do Castelo?
Lembram-se como berrabam nesse tempo?



Quando o Passos Coelho se foi despedir do Costa.
O Passo Coelho disse-lhe:
- Amigo António, entrego-te estas duas cartas em respeito ao Sócrates que também me entregou duas cartas que tanto me ajudaram. Quando tiveres um problema grave, abres esta primeira carta e, quando tiveres outro problema grave, abres a segunda carta. Vê só que abri ontem a segunda carta.
- Mas o que é que dizem as cartas?
- Não sejas curioso e quando precisares delas, abre-as.
O tempo foi passando e no passado domingo, o Costa abriu a primeira carta que dizia:
"Amigo Costa, estou a ver que estás com o teu primeiro problema grave. Agora, o conselho que te dou é que ponhas as culpas para o anterior governo, põe as culpas para mim e tudo se resolverá."

Talvez amanhã o Costa tenha que abrir a segunda carta.
Se amanhã o PCP votar contra o orçamento retificativo e o Passos Coelho e o Portas cumprirem a promessa de que serão oposição à geringonça governativa, o Costa vai ter que abrir a segunda carta que diz:
"Amigo Costa, estou a ver que estás com o teu segundo problema grave. Agora, o conselho que te dou é que escrevas as tuas duas cartas!"

Cartas destas queria eu duas!
Pedro Cosme Vieira

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

A melhor solução para o Novo Banco é o canibalismo

A Resolução Bancária é uma filosofia errada. 
Imagine que quer vender o seu carro em segunda mão e um amigo disse-lhe estar interessado.
Na sua mente, "o carro vale pelo menos 1000€" mas, na mente do seu amigo, "o carro vale no máximo 500€".
Se vender pelos 1000€, o seu amigo vai pensar que se aproveitou da amizade para o explorar enquanto que, se o vender por 500€, vai pensar que, afinal, o seu amigo só se quis aproveitar da sua amizade.
Afinal, um pequeno negócio vai por em causa uma amizade de anos.

A solução é "ir ao mercado."
Vão os dois dar uma volta pelos stands de usados da sua redondeza. Imaginemos que visitando 3 stands onde regateiaram o preço de compra de de venda, obtiveram 3 propostas:
   Stand 1 - "Como o vou vender por uma máximo de 850€, só lhe posso dar 550€ por ele"
   Stand 2 - "Como o vou vender por uma máximo de 750€, só lhe posso dar 500€ por ele"
   Stand 3 - "Como o vou vender por uma máximo de 800€, só lhe posso dar 450€ por ele"
O máximo que consegue pela venda do seu carro são 550€ enquanto que o mínimo que o seu amigo consegue para comprar o carro são 750€.
Então, o justo será fazer um preço de 650€ que resulta de dividir a margem dos stands a meio (550€ + 750€)/2

Vejamos o problema da Resolução Bancária.
O modelo de Resolução tem um grave problema que ficou evidente na falência do BES.
Como o fundo de Resolução garante as perdas da falência, está aberta a porta do inferno de que o BES-Angola foi uma amostra.
Passo 1 - Peço 100 milhões € emprestados a um "amigo angolano".
Passo 2 - Abro um banco em Portugal com 100 milhões € de capital.
Passo 3 - 10 mil "meus amigos" abrem uma conta onde metem, cada um, 100 mil €, fazendo um total de 1000 milhões € de depósitos (um Core Tier 1 confortável).
Passo 4 - Empresto todos o activo, os 1100 milhões €, a "outro amigo angolano" que vai à falência.

Passo 5 - O Fundo de Resolução toma a obrigação de pagar os 100 mil € a cada um dos "meus amigos."
Passo 6 - O "outro amigo angolano" paga 200 Milhões € ao "amigo angolano" (100 milhões de juros), fica com 100 milhões € de comissão e dá-me o resto.
No final - Fico com o Banco Mau que não tem activos e tem como passivo os meus 100 milhões € de capital que acabo por perder. Mas também fico com os 800 milhões € que recebo do meu "outro amigo angolano".

Já estão a perceber como funcionou a falência do BES + BES Angola?
É que, como disse o Álvaro Sobrinho, "o dinheiro nunca entrou em Angola"!

No BES deveria ter sido liquidado no mercado.
Realizava-se uma sessão de liquidação do BES em que se chamavam todos os potenciais compradores, incluindo todos os accionistas e credores do BES.
Cada cliente, cada contrato, cada balcão, cada empregado, eram negociados entre os compradores potenciais que aparecessem a jogo numa sessão especial da bolsa de valores. 
No fim de realizadas todas as transacções pelo preço que desse, não haveria ninguém a demandar fosse quem fosse porque as transacções tinham sido realizadas de forma transparente.

Fig. 1 - O BES deveria ter sido desmembrado mas ainda não é tarde para desmembrar o NB

O valor apurado das vendas.
Pegava-se no dinheiro todo, seriavam-se os encargos do BES da forma que a lei diz dever ser (primeiro, os depósitos bancários, e, depois, continuava-se por ai abaixo) e pagavam-se os que houvesse dinheiro para pagar. 
Quando acabasse o dinheiro, não se pagava mais nada, onde não há, rei perde.
Era uma falência justa e transparente em que não haveria Banco Bom a quem as pessoas pudessem vir no futuro a pedir contas.

O BES faliu, ponto final.
Se faliu, terá que haver prejudicados.
Ao criar-se uma divisão entre "activos e obrigações boas" e "activos e obrigações maus" sem haver uma avaliação pelo mercado, todo o processo está manco, vai ser vítima de demandas judiciais e de manifestações.
Todos os que caíram no Banco Mau vão querer que os tribunais ou os políticos façam com que os seus activos passem para o Banco Bom.
Isto é um problema que se vai arrastar anos e anos e anos nos tribunais e nas campanhas eleitorais pelo que a venda do Novo Banco está inviabilizada a menos que o Fundo de Resolução assuma, como fez o Estado na venda do BPN, os riscos.
E era isso que queriam os chineses até porque o Banco de Portugal e a CMVM podem-se lembrar, daqui a uns meses, que o Novo Banco tem que assumir encargos que hoje acham que não.
Se me lembro, o Banco de Portugal, chegou a dizer que o BES teria que assumir todo o papel comercial que vendeu nos seus balcões e só voltou atrás porque o Novo Banco representa encargos para o sistema bancário!
Ninguém sabe o que pensará o Carlos Costa quando o Novo Banco for chinês. 

Agora, a solução só pode passar pelo canibalismo. 
Nunca é tarde de mais para resolver os problemas pelo que, agora, ainda é tempo para arranjar uma boa solução.

Tem que se voltar ao mercado.
Juntar todos à mesa e começar a transaccionar os activos e os passivos do Novo Banco.

Fase 1 - A opção.
São chamados o BES em termos colectivos (Banco Mau) e todos os seus accionistas e credores em termos individuais para, querendo, comprar no todo ou em parte o capital do Novo Banco ao valor nominal.
Esta fase tem por fim evitar futuras questões legais pois, se não quiserem comprar, não se podem queixar.

Fase 2 - A dispersão.
O capital do Novo Banco sobrante da Fase 1 é disperso pelos responsáveis pelo financiamento do Fundo de Resolução Bancária (pelos bancos a operar em Portugal) proporcionalmente à sua cota de mercado e ao valor nominal. Se da Fase 1 não resultar nenhuma venda, teremos a CGD, BCP, BPI e Santander Totta com 65% do capital do Novo Banco.

    Banco   .  Activos . Quota .  Capital no NB
    CGD       .  100,2 .  25%  .  1216M€
    BCP        .   76,6  . 19%   .    929M€
    BPI          .  42,6  .  11%  .    517M€
    Santander .  41,5  . 10%   .    503M€
    Pequenos . 143,0  . 35%  .   1735M€

Como actualmente são os bancos a assumir os riscos da venda do NB, continuarão assim os riscos e prejuízos distribuídos por todos.

Fase 3 - A digestão.
O capital, os  activos e os passivos do Novo Banco são aberto à negociação (em bolsa) podendo assim uns bancos desfazerem-se da sua posição e outros reforçarem-na ao preço que der.
Também poderão ser comprados activos e passivos individuais, contratos, balcões, clientes e trabalhadores.
A negociação é aberta a todos os agentes económicos, accionistas ou não do Novo Banco. 
Nesta sessão também serão transaccionados os activos e passivos do Banco Mau.

Pode acontecer, 
o que não acredito, que o resultado final seja o Novo Banco continuar a operar como um banco comercial mesmo que mais pequeno. Mas, o mais certo, é que o NB desapareça totalmente, que seja totalmente digerido pelo sistema bancário.
E, havendo tantos bancos em Portugal, o seu desaparecimento não irá deixar os consumidores sem alternativas. 

Fig. 2 - Nasceu com um pequeno problema mas o resultado final nem foi mau de todo.

Pedro Cosme Vieira

sábado, 17 de dezembro de 2011

A criação da banca comercial

O Condado da Negralhada ainda é grandinho.
Tem a capital e depois tem 8 aldeias retiradas uns 15 kilómetros. A capital tem 200 habitantes e as aldeias variam entre 50 habitantes e 150 habitantes.
Como os caminhos são fracotes e o povo anda a pé, torna-se difícil os aldeões vir à capital para o missionário fazer os lançamentos no livro.
Então o missionário pensou transformar-se em Banco Central, BC, e permitiu o aparecimento de bancos comerciais privados.

Fig. 1 - Mapa do Condado da Negralhada

O negócio tem que dar lucro.
Uma das funções dos governantes é imaginar como as necessidade básicas do povo podem ser satisfeitas da forma mais eficiente (mais barata). Mais importante que fornecer bens e serviços é desenhar um quadro legislativo que permita aos privados produzir e fornecer esses bens e serviços à população de forma eficiente.
Sob pedido do Conde, o missionário desenhou o sistema bancário.

Banco Central: tem a função de controlar o sistema monetário. Como o melhor é que haja estabilidade de preços e foi isso que o povo pediu, o BC vai actuar neste sentido. 
Inflação: O BC tem que calcular a taxa de inflação.
Licenças: O BC é a entidade que licencia os bancos comerciais (não pode haver concorrência livre).

Bancos comerciais: têm por função ter as contas e fazer os lançamentos das transacções
Fontes de receita: em cada transacção, o banqueiro recebe uma taxa de 0.1% do valor.
Obrigações: o banqueiro tem que obedecer (quanto ao valor máximo de descoberto) às ordens do BC.

Como vai funcionar o sistema bancário.
Cada aldeia terá o seu banco com o livro das contas.
O banco de uma aldeia com 100 habitantes terá 100 contas e o banqueiro vai fazer os lançamentos entre os habitantes da sua aldeia. O BC vai impor uma limite ao saldo a descoberto de cada banco para, desta forma, fazer com que a liquidez total na economia ser limitada (o tal dinheiro). Desta forma, o BC controla a inflação (rever, A inflação é um fenómeno puramente monetário).
(Para rever o funcionamento de cada banco ver o descrito no outro poste).

Mas ainda há as transacções entre clientes de bancos diferentes.
Um banco de uma aldeia não pode fazer transacções entre um cliente seu e um cliente de outra aldeia.
Essas operações obrigam à intervenção do Banco Central.
Cada banco vai ter uma conta no BC que podem ter a descoberto até um determinado valor.
Como as necessidades dos bancos são dependentes do número de clientes que têm, o BC impõe um máximo de descoberto de 750X vezes a raiz quadrada do número de clientes.
Por exemplo, um banco com 50 clientes pode ter um descoberto de 5303X enquanto que um banco com 150 clientes pode ter um descoberto até 9188X. A razão da raiz quadrada prende-se com a diversificação com acontecimentos não correlaccionados.
Se não houvesse um limite a cada banco, uma aldeia poderia passar a viver à custa das outras aldeias (tipo o pretendido pelo da Madeira).
Por isso, o BC tem que haver limite ao poder de saque de cada banco junto do BC.

Fig. 2 - Pai, custe o que custar eu quero aquela negralhana para mim.

Vamos fazer a transacção.
Aqui vai um bocadinho de contabilidade
O cliente "25" da aldeia "3" (que tem saldo = 700X) quer pagar 250X ao cliente "12" da aldeia "7" (que tem saldo = -25) por uma sua filha muito jeitosa que o seu filho quer a todo o custo.

O banco 3 (que tem saldo -4000X no BC) escreve no seu livro
   "25.3, pagamento ao 12.7 = - 250X,                               Saldo = 450X"
   "BC, pagamento ao 12.7 por conta de 25.3 = + 250X,  Saldo = -3750X"
Envia a ordem de transferência ao BC
*O BC está devedor do banco 3

O Banco Central recebe a comunicação do banco 3 e escreve no banco 7 (que tem saldo = 350X)
   "3, pagamento ao 12.7 por conta de 25.3 = - 250X , Saldo = +3750X"
   "7, pagamento ao 12.7 por conta de 25.3 = + 250X,   Saldo = +600X"
* Eu inverti o sinal dos movimentos e dos saldo no BC para ficar sempre na "óptica da conta" (era uma falha de contabilidade que corrigi).
O banco 3 está credor do BC.

O banco 7 recebe a comunicação do Banco Central e escreve
   "BC, pagamento ao 12.7 por conta de 25.3 = - 250X, Saldo = -600X"
   "12.7, pagamento do 25.3 = + 250X ,                          Saldo = +225X"

Em todos os livros mantém-se  o saldo total igual a zero.
Omiti as comissões para não complicar a contabilidade.

Mas não há notas nem reservas fraccionadas.
Criei um sistema monetário sofisticado com banco central e bancos comerciais sem ter necessidade de imprimir notas ou de ter Reservas Compulsivas em notas.
No meu sistema bancário o limite quantitativo de poder saque das contas (o limite ao saldo negativo) funciona de forma equivalente às reservas compulsivas em notas.
Só assim é possível que a estabilização do nível geral de preços.
Sempre que o BC detecte que os preços estão a diminuir, aumenta o limite de saque (por exemplo, de 750X para 760X). Detectando que os preços estão a aumentar, reduz o limite de saque (por exemplo, de 750X para 740X).

Recordando porque os saldos dão sempre zero.
Porque, no Condado da Negralhada, os banqueiros não têm armazenamento de bens que, no cambista, permitia que o Livro tivesse saldo positivo.

O mercado de crédito
Quem quer poupar vai acumulando um saldo positivo o que obriga o BC a aumentar o limite de saque.
O problema é que alguns clientes vão ficando com o saldo cada vez mais negativo e podem morrer antes de anular o saldo (pagar o que consumiram a descoberto).*
* Este é o problema de o BCE ceder liquidez sem limite a Portugal.

Para resolver esta falha é preciso separar o mercado de crédito do sistema de liquidez.
No próximo poste vou criar este mercado, ainda sem necessidade de ter notas.
Pedro Cosme Costa Vieira

Vou rebentar com os caluniadores do sistema das reservas fraccionadas

As contas à ordem e a multiplicação das notas em dinheiro.
Quando depositamos 100€ em notas numa conta à ordem num banco comercial fazemo-lo como se de um cofre se tratasse mas, de facto, o banco vai emprestar parte das nossas notas a outra pessoa.
Imaginando que o Banco Central obriga a que o banco comercial fique com um mínimo de 20% das Notas (denominadas Reservas Fraccionárias Compulsivas) então, os bancos comerciais podem conceder como crédito 80% das notas que depositamos na nossa conta à ordem.
A conta à ordem é um meio de pagamento via cheques, internet ou cartões de débito. Por isso, as contas à ordem são consideradas dinheiro.
Supondo que todo o crédito vai para novos depósitos à ordem então, se depositarmos 100€ em notas passará a haver 500€ de dinheiro na economia (meios de pagamento).

Se o Banco Central diminuir as reservas compulsivas para 10% então, o total dos saldos dos depósitos à ordem crescem para 1000€.

No entanto, continuam a existir apenas 100€ em notas.
Assim, na nossa mente temos que separar o dinheiro genérico (qualquer meio de pagamento) de notas e moedas (que é dinheiro materializado).
O dinheiro total será formado pelo dinheiro escritural (as contas à ordem) mais as Notas e Moedas.
O total de notas e moedas em circulação (a maior parte em reservas dos bancos comerciais) denomina-se por M0 e, somando-lhe os saldos das contas à ordem, temos o M1.

A maior parte de M0 são notas de 500€.
A maior parte das notas está nos bancos para fazerem os 20% de reservas das nossas contas à ordem. Aos bancos, pelo volume, não interessa ter lá notas de 5€. Desta forma, a maior parte do M0 são notas de 500€ que não traduz corrupção mas principalmente que as reservas dos bancos comerciais estão em notas grandes.

Fig 1. A minha quinhenta está no cofre do banco

Os meus colegas
Tenho pregado há muito que os bancos não criam moeda mas que apenas aumentam a velocidade de circulação das notas. A generalidade das pessoas diz logo que eu estou errado até porque eu não percebo nada do assunto.
Tendo eu como colega o mais brilhante aluno que alguma vez existiu na FEP, o RHA, e que ensina essa treta, eu quis experimentar a minha argumentação e ataquei:
- Os bancos comerciais não criam moeda ...
- Criam sim
- Não, apenas aumentam a velocidade de circulação da moeda.
Decorrido meio segundo disse:
  - OK, correcto, realmente é outra maneira de ver a questão.
Realmente é inteligente. Em meio segundo conseguiu abandonar toda a treta que lhe lavou o cérebro durante anos e viu a outra face do problema.

O problema que os esquerdistas identificam no sistema de reservas fraccionarias.
Pensam que, se não houver crédito, a quantidade de dinheiro na economia diminui e que isso implica uma diminuição da quantidade de riqueza criada pela economia. Isto é um duplo erro.

Primeiro. A quantidade de dinheiro na economia não diminui.
O Banco Central está continuamente a medir a quantidade de liquidez na economia. Mede continuamente o total de depósitos à ordem mais notas e moedas, o M1.
Sabendo que mais liquidez leva ao aumento dos preços (e vice-versa) o BC também mede continuamente a evolução da taxa de inflação.
Então, assim que o Banco Central detecta uma diminuição da liquidez na economia (via diminuição do M1 e inflação abaixo dos 2%), emite mais notas (e vice-versa).
O limite mínimo de reservas em notas apenas serve para tornar o sistema de preços estável. 

Segundo. Não existe qualquer ligação entre liquidez (dinheiro) e riqueza (PIB).
A liquidez serve para facilitar as trocas comerciais e ser reserva de valor. Por isso, a sua escassez prejudica a actividade económica. No entanto não tem qualquer papel no funcionamento do mercado de crédito ou na decisão de produção das empresas.
Vamos agora a uma simulação de um sistema financeiro para ver que o sistema de pagamentos não depende das reservas fraccionadas.

Fig 2. O único problema das reservas fraccionadas é que não tenho a minha quinhenta à mão

O Condado da Negralhada.
É uma pequena aldeia sem moeda no meio da Papua na qual vivem 1000 pessoas. Os negralhanos são governados pelo "Conde Sup i Papwa XII".
Certo dia foi lá parar um missionário meu conhecido.
Sabendo o Conde que o missionário me conhecia (tido na Negralhada como santo milagreiro) foi-lhe pedir um milagre.
- Sr. Missionário, temos um problema muito grave no nosso condado.
- Eu tenho batatas e quero comprar galinhas. Pego nas batatas e vou ao meu vizinho que tem galinhas e ele não mas vende porque quer milho que eu não tenho.
- O meu vizinho pega nas galinhas e vai ao nosso vizinho que tem milho e este não lho vende porque quer bananas que ele não tem.
- Isto acontece a toda a hora e impossibilita que a nossa economia funcione.
- Queremos que reze ao Santo Bloguista para que ele nos faça um milagre para resolver o problema.

Fig 3. O Conde e o filho põem uma bandeirinha na ponta do pau

O milagre dos preços
O missionário reuniu as pessoas e disse-lhes.
   - Vão-me dizer a relação de troca que usaram no último mês em todas as trocas que fizeram.
Disseram os negralhanos:
   - Troquei uma cabra por 10 galinhas,
   - Troquei 20 kilos de batatas por 11 kilos de milho
   ...
O missionário foi escrevendo no Excel e, usando a matriz das trocas, calculou os termos de troca médios relativamente às cabras. Depois atribuiu o preço de 100X à cabra média.
Imprimiu a lista com os preços médios e disse:

   - O primeiro milagre já aconteceu, são os preços em X.
  - A moeda está criada e chama-se X e esta lista são os preços médios de cada bem e serviço produzido no nosso condado. Estudem-nos e comecem-nos a praticar.
   - Podem cobrar qualquer preços mas estes são os que se costumam praticar. O preço de uma cabra média serão 100X podendo uma cabra gorda atingir 140X e o de uma cabra magra ficar nos 70X.

O milagre do Livro
O missionario pegou num livro e abriu uma conta em nome de cada um dos negralhanos com saldo zero.
    " 1,       Eu o missionario,               Saldo 0X"
    " 2,       Conde Sup i Papwa XII,    Saldo 0X"
    " 3,       Justino Lopes,                    Saldo 0X"
     ...         ...                                        ...
    " 1000, Maria da Morte,                Saldo 0X"
                             "Saldo Total          0X"

    - O segundo milagre já aconteceu, são as contas à ordem.
    - Quando o "34" quizer comprar uma galinha, vai ao seu vizinho "76" e paga-lhe 2X pela galinha.
    - Vem aqui e eu escrevo no livro:
   " 34,   pagamento ao 76 =  -2X,  Saldo -2X"
   " 76,   pagamento do 34 =  +2X, Saldo +2X"

Depois de realizar um movimento, o saldo total do livro mantém-se sempre zero.

Qual a quantidade de dinheiro que o missionário criou?
O saldo de todas as contas é zero e o missionário não tem qualquer nota. No entanto, o livro acabou de criar uma quantidade infinita de dinheiro (moeda escritural).
Confundido?
Como poderá ser?
É.
Como o saldo pode ficar negativo sem limite, existe capacidade de um negralhano comprar tudo o que se produz na Negralhada durante milhares de anos.

O milagre do limite da quantidade de dinheiro
É preciso limitar a liquidez na economia, a quantidade de dinheiro.
O missionario perguntou.
    - Quanto se produz em média durante um ano na Negralhada?
Lá disseram quantas cabras, batatas, milho, por ai fora e o missionário somou tudo e dividiu pela população da Negralhada e deu 3000X per capita por ano.
Então o missionário, sabendo que nos países de baixa inflação o M1 está entre 20% e 30% do PIB, limitou a quantidade de dinheiro a 25% do PIB anual, 750€/pessoa.
Como fazer isso?
    - O terceiro milagre já aconteceu, é o limite de liquidez.
    - O saldo de nenhuma conta pode ficar abaixo de -750X.
    - Se isso acontecer, esse negralhano deixa de poder realizar pagamentos.

O milagre da estabilidade dos preços
Os negralhanos pediram que houvesse estabilidade de preços.
    - Não queremos inflação. Será isso possível?
O missionário sabe que A inflação é um fenómeno puramente monetário. Que aumentando a liquidez, os preços aumentam e vice versa. Então disse:
    - O quarto milagre já aconteceu, é o controle da liquidez.
    - Mas têm que aceitar a seguinte regra: quando os preços tiverem tendência a aumentar, o saldo a descoberto tem que diminuir e vice versa.
    -Além disso, sempre que fizerem uma transacção têm que me dizer o preço e a quantidade transaccionada.
Como não existe INE na Negralhada para medir a inflação e o missionário tem mais que fazer, o preço e as quantidades permitem calcular a evolução da inflação. Se, por exemplo, os preços aumentarem 1%, o missionário corta o limite de descoberto em 1%.

As  reservas compulsivas são apenas um intrumento de controle da inflação
É equivalente ao limite do "saldo a descoberto" que o missionário usa na Negralhada.
Certo é que não é preciso o missionário ter reservas desde que mantenha um controle da liquidez.

Fig. 4 - Ainda está confuso?

Num próximo poste vou introduzir notas e moedas na economia.
Também vou introduzir no mercado vários bancos e veremos que um banco individual deixa de conseguir controlar a liquidez (a inflação). As reservas compulsivas vão funcionam como um mecanismo de coordenação entre os diversos bancos liderado pelo Banco Central. 

Pedro Cosme Costa Vieira

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Deve o Estado meter capital nos bancos ou pagar as dívidas?

O problema dos nossos bancos é de solvabilidade e não de liquidez.
Os bancos portugueses estão insolventes porque os activos estão muito desvalorizados.
Actualmente o total de activos não é suficiente para fazer face aos depósitos e demais obrigações.
Há duas alternativas para ultrapassar este problema.
A1. os bancos abrem falência e o depositantes perdem parte das suas poupanças;
A2. o Estado reforça o Capital dos bancos passando a ser accionista pela emissão de dívida pública.
A entrada do Estado no capital dos bancos não é equiparável ao pagamento das suas dívidas por três razões.
Primeiro, a entrada de capital é apenas contabilística (não há entrega de qualquer activo). 
Segunda, o pagamento das dívidas obrigava o Estado a meter um activo (dinheiro) que não tem.
Terceira, o Estado pagando as dívidas diminuía o activo dos bancos.
A Troika aceitou que esses 12MM€ não fossem, para já, ao orçamento (não seria possível ter em 2012 um défice inferior a 12% do PIB). Esse reporte aconteceu no caso da Irlanda (que fez o défice ultrapassar, em 2010, os 30% o PIB)

Fig.1 - Sou Madalina. Preciso vender brincadeiras a 50€ porque o meu banco faliu.

Os Bancos são apenas intermediários na afectação de recursos escassos.
A ideia que "os bancos criam crédito" é uma mentira dos comuna e demais ignorantes.
Por um lado, captam recursos de uns agentes económicos (os credores) na forma de depósitos das famílias, empréstimos de outros banco, obrigações que vendem a investidores e o capital próprio dos accionistas.
Depois, aplicam (emprestam) esses recursos noutros agentes económicos (os devedores) que são famílias, empresas públicas e privadas, outros bancos e no Estado.
Se um banco não tiver quem aplique lá recursos (por exemplo, depositantes), não pode emprestar.
Se recordarmos o Cantineiro, ele apenas pôde emprestar recursos à Viúva do Muzuel porque tinha saldo positivo no livro que se traduzia por mercadorias no armazém que tinham sido ganhas pelos seus clientes nas contratas.
Assim, o Cavaco, o Seguro e todos os outros comunas não podem "exigir que os bancos aumentem o crédito à economia" quando estes não têm onde ir buscar recursos.

A falta de liquidez.
O Banco é um negócio que "medeia" prazos.
Quem faz um depósito bancário quer, quando lhe apetecer, levantar o dinheiro. As pessoas poupam principalmente para fazer face a imprevistos e, se as aplicações financeiras não forem rapidamente mobilizáveis então, não consegue responder aos imprevistos deixando de fazer sentido.
Pelo contrário, os empréstimos dos bancos são a médio e longo prazo. Por exemplo, financiam a aquisição de casas a 50 anos.

Em termos agregados, a liquidez é uma questão contabilística.
Os levantamentos pode ser por transferência para outro banco ou em dinheiro.
Vamo supor que o Banco Português BP tem um passivo
      Depósito de João no valor de 100M€
E tem um activo
     Contrato de crédito à empresa pública EP a 25 anos, 5%/ano, no valor de 100M€.

Levantamento por transferência.
O João quer transferir o seu saldo de 100M€ do BP para o Banco Alemão DB.
Então, o BP vai transferir o contrato da EP para o DB.
O João fica com o seu saldo no DB e a EP fica com a sua dívida para com o DB.

Levantamento em dinheiro.
O João quer levantar o saldo do BP em notas.
Então, o BP vai transferir  o contrato da EP para DB (que tem liquidez).
O DB envia as notas para o BP.
O João fica com as notas e a EP fica com a sua dívida para com o DB.

Obrigações subordinadas com ou sem garantia do Estado
Como a transferência jurídica do contrato da EP do BP para o DB tem custos, o BP emite "obrigações subordinadas ao contrato da EP") e entrega-as ao DB.
... e o BP receberá as prestações do Alberto e entrega-a ao DB.
Em qualquer dos casos, se a EP não pagar, o DB fica com o prejuízo.

Em situações de urgência, o BCE aceitas as obrigações subordinadas.
Se o levantamento de notas for generalizado em todos os bancos, o sistema bancário da Zona Euro fica sem dinheiro (e não apenas os portugueses) pelo que o BCE empresta notas e moedas com garantia das obrigações subordinadas.

O BCE é o "financiador e último recurso" a Zona Monetária
Este movimento do BCE traduz que, quando não houver mais nenhum banco com liquidez, o BCE emite notas e moedas.
Mas apenas em situações de escassez generalizada de notas e moedas.
O Banco Central não empresta dinheiro a bancos falidos porque estes não têm garantias para lhe dar.
Por isso, o BCE não pode funcionar como "financiador de último recurso" dos bancos portugueses,  gregos ou italianos porque o seu problema é de insolvabilidade.

Na prática, nunca um banco tem problemas de liquidez.
Se, por exemplo, o sistema de transportes públicos deve 20mil milhões € aos bancos portugueses com um prazo de 25 anos e taxa de juro e 5%/ano.
Isso não é um problema porque este activo pode ser transferido para outro banco, alemão ou luxemburguês, que tenha liquidez.
O problema é que esses "20 mil milhões€" valem actualmente 7 mil milhões€.
Contrariamente ao que diz o Cavaco, o problema dos bancos nunca é um problema de liquidez.

A liquidez é como a paragem do coração.
 Muito pouca gente morre por o coração parar assim-sem-mais-nem-quê.
Há uma doença qualquer e, com o agravar da situação, o coração acaba por parar.
Mas é apenas um sintoma de uma doença fatal.

O problema da desvalorização dos activos.
Como o Banco tem que pagar aos depositantes (e demais credores) mas não tem garantias que os seu devedores reembolsem os empréstimos, o regulador do sistema obriga a que 10% do passivo sejam capitais próprios. É o famoso Core Tier 1.
Quando os devedores não pagam é o capital próprio do banqueiro que responde começando a diminuir.
No caso português, os devedores ainda não anunciaram a falência (as empresas públicas, o Estado e as famílias que comprara casa) mas os agentes económicos estrangeiros antecipam que é grande a probabilidade de isso vir a acontecer.
Desta forma, os activos dos bancos portugueses estão muito desvalorizados. Podemos dizer que não há razão para isso mas os DB não aceita os contratos ao valor que os bancos portugueses os contabilizam.
Assim, os outros bancos da Zona Euro descontam os activos dos bancos português à taxa de 15%/ano.

O BP está insolvente.
A transferência do João já não pode ser contrabalançada pelo contrato da EP porque, para uma taxa de 15%/ano, o DB o avalia em apenas 35M€.
O problema de liquidez resulta de o BP estar insolvente.
O total de activos avaliados a preço de mercado (quanto dariam se fossem vendidos agora) é menor que o total da suas obrigações.

Isso é uma injustiça dos especuladores sanguinários.
Suponha que a CGD lhe queria passar o activo de 1000 milhões € que o Berardo lhe deve.
Ele diz que vai pagar tudo com juros.
Quanto é que o estimado leitor estaria disposto a dar por isso?
Já fica com uma pequena ideia dos problema dos activos dos nossos bancos.

Onde vai o BP buscar o resto o dinheiro?
Se o Estado não fizer anda, o BP tem que declarar falência e o João só recebe 35M€ que ficam à sua ordem no DB.
Não querendo o Estado que o BP abra falência, o Estado Português tem que emitir 65M€ de Obrigações do Tesouro a uma taxa de juro de 15%/ano e mete-las no BP passando desta forma a ser dono do BP.
Essas obrigações do tesouro mais o contrato da EP já serão suficientes para realizar a transferência (ou o envio de notas) para executar o pretendido pelo João.
A EP fica a dever 100M$ a 5%/ano e o Estado 65M€ a 15%/ano ao DB para contrabalançar os 100M€ do Alberto.

Mas porque quer o DB títulos da dívida pública de um país falido?
Quando Portugal declarar a bancarrota vai pagar uma percentagem de toda a dívida que tem.
Antecipa-se que pague 50% da dívida.
Este pagamento será obrigatoriamente igual para todos.
Então, para o DB emprestar 65M€ garantido pelo Estado vai querer que a garantia seja de 130M€.
Supondo uma taxa de juro de mercado de 5%/ano, para um contrato a 10 anos, a taxa de juro terá que ser de 12%/ano.
O DB antecipa que só vai receber metade pelo que "carrega" nos juros de forma a que a metade que recebe corresponda aos 65M€.
O DB antecipa ainda a falência da EP e que só vai receber 35% do valor nominal da dívida.

Os 12 MMe serão suficientes?
Este valor corresponde a 7% do PIB português.
No caso da Irlanda, foram precisos 30% do PIB.
Há pessoas do meio que falam à boca pequena que Portugal vai precisar de injectar 80 Mil Milhões€ no sistema bancário. É uma desvalorização de "apenas" 20% do total de activos do sistema bancário.
São 50% do PIB.
No final, a dívida pública virá acrescentada em 50% do PIB, passando de 100% para 150%.
No Japão o resgate dos bancos elevou a Dívida Pública até aos 250% do PIB!
Não é por loucura de alguém que a acções do BCP estão nos 0.10€.
O Tio Gaspar sabe destes números e pensa que toda a gente os conhece.
Mas era preciso dizer no Telejornal que estamos num verdadeiro buraco.

Concluindo.
O Estado pagar o que deve obrigava a que tivesse dinheiro que não tem.
E isto não melhorava a solvabilidade dos bancos pois também diminuiria o seu activo.
A solução é emitir papeis (títulos de dívida pública) que funcionam no sistema como garantias para o sistema não entrar em falência e consequente rotura de liquidez.
A Troika aceitou que esses 12MM€ não fossem ao orçamento.
No entanto, daqui a uns anos, quando essas garantias forem accionadas e o capital dos bancos reavaliado, Portugal terá que reconhecer essas perdas no Défice.
Este post é uma resposta a um pedido do Sérgio.

Mas ainda subsistiram algumas dúvidas que tenho que clarificar

1. Realmente era bom (para os bancos) que o Estado pagasse o que lhes deve porque, a preços de mercado, essas dividas valem hoje muito menos.
Mas o Estado somos todos nós.
Para o Estado pagar o que deve era preciso que nós portugueses "poupássemos" esse dinheiro, 20000€ por cabeça.
Actualmente o Estado ainda tem um défice de 110€/mês por cada português (um défice de 8% do PIB "camuflado" com o fundo de Pensões dos bancos).
Para o Estado pagar o que deve em 10 anos precisava ter um superávite de 110€/mês (taxa de juro de 5%/ano).

IVA passar para 32%
Então, cada Português teria que pagar mais 220€/mês de impostos.
Isso corresponderia, mantendo a despesa pública actual, a aumenta ros impostos 40%:
IVA passar para 32%; TSU do empregado para 15% e do patrão para 32%; Taxas dos escalões do IRS aumentar 8 pontos percetuais; Combustiveis aumentar 22%.
Pagar de um momento para o outro só expropriando os nossos depósitos (que são 270MM€) e dando-os em pagamento.
Mas os bancos não veriam cheta, apenas deixavam de dever dinheiro aos actuais depositantes.

2. O negócio do Banco é aceitar depósitos e emprestar esse dinheiro cobrando uma margem. Por isso, pagarmos o que devemos seria mau para o banco porque diminuia o seu volume de negócios.
Na contabilidade dos bancos o que lhes devemos é um activo, o dinheiro que têm nos depósitos é um passivo. Na nossa óptica é ao contrário. Por isso, o nosso dinheiro é um activo para nós mas um passivo para o banco (tem que o pagar).
Apenas é bom para o banco pagarmos se o nosso contrato estiver indexado à taxa EURIBOR porque os bancos portugueses não se conseguem financiar a essa taxa. Esses activos estão desvalorizados.

Em condições normais, emprestar dinheiro ao Estado era um negócio razoável porque não tinha risco.
Por isso é que as pessoas tinham certificados de aforro. Dava pouco mas era certo.
Mas, entretanto, a divida pública ficou com muito risco.

3. A Troika não traz um camiões de dinheiro para Portugal. Não entra cá nem 1€.
O dinheiro serve para pagar contas no exteriores.
Paga a estrangeiros que têm divida que entretanto se vencem e juros;
Paga importações para as quais as exportações são insuficientes;
Dá cobertura às saídas de activos de portugueses para o exterior (permitindo que o Estado dê garantias que vão ser usadas junto do BCE e de outro banco do exterior).


4. Sobre os vídeos da propaganda anti-sistema fractional das reservas vou ter que escrever mais um post.

Pedro Cosme Costa Vieira

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Os bancos têm que ter lucro, também é para nosso bem.

Porque as pessoas poupam?
Existe uma poupança quando compramos bens duráveis (denominados bens de equipamento ou de capital).
Por exemplo, compramos um frigorífico por 500€ que dura 10 anos. Então, no ano da compra consumimos em "serviços do frigorífico" 50€ e poupamos 450€. Em cada um dos 9 anos seguintes consumimos 50€ em "serviços do frigorífico".
Também existe poupança quando constituímos um stock de bens de consumo.
Finalmente, existe poupança quando aumentamos o nosso saldo no livro (quando aumentamos o nosso saldo bancário).

Para que exista poupança no livro.
Para que exista poupança na economia, o banco tem que constituir um stock, comprar bens de equipamento ou emprestar o nosso activo a alguém que o faça.
O saldo no livro não é, em si, uma poupança.
Se o Pereira emprestar o dinheiro a alguém que compra e consume os bens, na economia não haverá poupança.

Vamos ficar velhinhos.
No futuro todos vamos ficar velhinhos e sem capacidade para trabalhar.
Agora que somos produtivos, temos que poupar porque especulamos que no futuro ainda vamos estar vivos precisando de comer sem termos rendimentos.

Fig. 1 - Amo tanto a minha mulher que, para a poupar para quando for velhinho, carimbo esta

Podemos ter um desastre.
Podemos perder o emprego (e ficamos sem rendimento), termos um acidente automóvel (e temos uma despesa não antecipada). Podemos ainda ficar doentes (sem puder trabalhar perdendo o salário).
Ao especular que existem estes riscos, pomos de lado uns activos.

Queremos comprar no futuro algo muito dispendioso.
Queremos comprar um bom carro ou uma casa e precisamos de ir juntando dinheiro para depois podermos fazer esta compra.

O negócio do Pereira, o cantineiro, tem-se expandido.
O Pereira fornece um leque reduzido de serviços bancários (depósitos, transferências e algum crédito) mas, por serem serviços imprescindíveis, tem cada vez tem mais clientes.
Os serviços do Pereira são "criação de dinheiro".
O saldo do livro foi crescendo e, de forma correspondente, a mercadoria no armazém. Mas o Pereira começou a ver que o armazém já tinha coisas de mais.
Então, há uns anos, decidiu abrir conta no Entreposto da Cidade.
Quando o fazendeiro "Costa" (que tinha um saldo no Entreposto de 250000$00") mandou abrir conta ao Pereira para pagar 10 contratas, o entreposto lançou no livro:
    "Pereira, 10 contratas x 1000$00 = +10000$00, Saldo = +10000$00"
    "Costa, 10 contratas x 1000$00 = - 10000$00, Saldo = +240000$00"
Depois, quando o Pereira mandou carregar 100 sacas de farinha, o Entreposto lançou no livro:
    "Pereira, 100 sacas farinha x 10$00 = -1000$00, Saldo = +239000$00"

Neste momento o Pereira tem um saldo de 5 000 000$00 no livro do Entreposto que pertence, indirectamente, aos seus clientes.

E se houver uma cheia.
Os clientes do Pereira poupam principalmente porque a aldeia é no Vale do Zambeze que tem risco de cheia.
No passado ficavam na miséria e muitos morriam no ano seguinte de fome.
Agora o Pereira arranjou uma maneira de resolver o problema.
Como o saldo do livro não está todo materializado em mercadorias no armazém mas antes no livro do Entreposto, havendo uma cheia, parte dos saldos está a salvo.

Aqui entra o seguro e a diversificação do risco.
Ao ter saldo no livro do Entreposto, o Pereira tem grande parte das poupanças dos seus clientes a salvo dos problemas locais. Uma cheia, uma guerra, uma doença, uma seca ou uma calamidade qualquer.
Como na Cidade não há cheias, quando acontece qualquer problema o Pereira repõe as mercadorias no seu armazém e salva a situação.
Nessa altura já os clientes podem usar o saldo para refazer as cubatas, repor o gado morto e comprar farinha para se sustentarem até terem novas culturas.
Haverá perdas, mesmo o Pereira perderá tudo o que tem em armazém, mas uma parte substancial da poupança está segura.
Mas o Pereira tem que evitar ter perdas pois, caso contrário, com o tempo vai à falência.

E se o Pereira for à falência?
Será uma tragédia.
Mas os clientes do Pereira não têm capacidade de diversificar o risco de cheia pois não têm volume de negócio que permita ter conta no livro de Entreposto.
Então, os clientes preferem que o Pereira cobre uma margem pelos seus serviços e tenha lucro a haver um risco de ir falência.
O Pereira, para seu bem e dos seus clientes, vai cobrar 1% em cada movimento para cobrir os riscos do negócio.
Uma contrata passará a ser lançada
   "Joaquim, contrata = +1000$00, seguro = - 10$00, Saldo = + 980$00"
Uma transferência (seguro pelo mandante) será
  "Manuela, Trans J = -500$00, seguro = - 5$00, Saldo = + 480$00" 
  "Jozefa, Trans M = +500$00, seguro = 0$00, Saldo = + 500$00"

Fig. 2 - "Pagar as dívidas é uma coisa de crianças" (Sócrates, o Caloteiro)

É o risco a principal razão para existir Spread na intermediação bancária.
Se nós emprestarmos os nossos activos a alguém, corremos grande risco de os perdermos pois a maioria das pessoas é caloteira. e os depositantes não querem risco.
O Banco especializou-se em avaliar a capacidade das pessoas pagarem o que devem. Por outro lado, têm serviços jurídicos que penhoram os bens das pessoas devedores.
Então, nós emprestamos os nossos activos ao banco a 2%/ano (denomina-se taxa passiva) e ele empresta-os a outras pessoas a 5%/ano (denomina-se taxa activa).
É a margem do banco, o Spread.
Se o banco não executar os caloteiros,  nós perdemos os nossos depósitos.

Fig. 3 - O banqueiro persegue os seus devedores a mando dos seus depositantes.

O que paga o Spread.
1. Cobre o risco de o devedor não pagar. Todos os anos o banco tem que guardar parte do Spread para cobrir a eventualidade de um devedor falhar.
2. Cobre as despesas de funcionamento. Os funcionários, a electricidade, as rendas dos imóveis, etc. têm custos que têm que ser pagos pelos clientes do banco.

3. Depois fica o lucro para remunerar o capital.
O negócio bancário é de muito elevado risco porque emprestam dinheiro a 50 anos sobre casas em que há grande probabilidade de os devedores ficarem desempregados e o valor das casas cair drasticamente.
Emprestam a empresas que abrem falência à força toda.
Emprestam ao Estado Português que está em bancarrota.
Mas os depositantes querem ter a certeza que o banco nunca abre falência.
Então, o Banqueiro tem que ter 10% (mais ou menos) do total de depósitos em capitais próprio. Se alguém não pagar, paga o Banqueiro do seu capital.
Isto é muito dinheiro, por exemplo, o BCP tem 6500 milhões de Euros de capital e ainda tem que o reforçar.

O capital do banco é capital produtivo.
As pessoas pensam que o capital que o Banqueiro tem são notas mas não é assim.
Esse capital está materializado em máquinas nas fábricas, televisores nas casas das pessoas, carros, camiões, pontes, estradas, hospitais, etc.
O Banqueiro ao emprestar a uma empresa para ela comprar uma máquina é, em termos económicos, o dono da máquina.
Em termos contabilísticos é apenas dono do dinheiro, mas isso é um artificio da contabilidade.
É como ter 1000$00 no livro. De facto, o cliente tem sacas de farinha e litros de óleo no armazém.

O Sérgio (e a maioria das pessoas)
Pensa que os bancos não produzem nada e, mesmo assim, têm "mais lucro que quem realmente produz ou cria riqueza palpável através de produção de bens e serviços".
Mas, em termos económicos, os meios de produção são, em parte, do Banqueiro e, noutra parte, dos depositantes do banco.
Na economia, considerando todas as máquinas e todo o capital, em média, 20% pertence aos empresários, 8% pertence aos banqueiros e 72% pertence aos depositantes.
Do total dos lucros da economia, 8% tem que ir para os bancos.

Quanto maior o lucro do banco, melhor para os depositantes.
O capital, para fazer face à inflação e ao risco, tem que ser remunerado a uma taxa de pelo menos 10%/ano. No caso do BCP, são, no mínimo, 650milhões de € por ano.
Se os bancos não tivessem capital, não precisavam ter lucro mas o risco de falência seria muito grande e os depositantes não querem bancos desses.
Um banco que tenha um rácio entre o capital próprio e os depósitos de 10% e um lucro de 10% do capital próprio tem o risco de falir na ordem dos 0.1%/ano.
Se estes rácios começarem a diminuir, o risco de perdermos os nossos depósitos começa a aumentar.
Se temos os bancos A e B que pagam 2%/ano de juros e têm 10% de capitais próprios. Se o banco A tem 3%/ano de lucro e o banco B tem 13%/ano de lucro, o melhor é termos o nosso dinheiro no banco B.
O banco B tem muito menor risco de vir a falir.

Todos os anos abrem falência muitos bancos.
Nos últimos 20 anos em Portugal faliram as Caixas Agrícolas, o BPP e o BPN (salvo a minha fraca memória).
Se o Banco A oferece 3%/ano e o banco B oferece 2%/ano como remuneração dos depósitos o que está a ser dito é que o risco de o banco A falir durante o próximo ano é mais 1% que o risco do banco B falir.
De facto o banco A não está a pagar mais juros. Nós estamos é a "comprar" um produto com mais risco.

A crise financeira resulta dos bancos terem lucros pequenos.
Ao haver muita concorrência no mercado bancário, os bancos começaram a cativar clientes de elevado risco de se tornarem caloteiros. Isso fez com que os lucros diminuissem o que degradou o seu capital próprio.
Para esconderem que estavam a perder dinheiro, começaram a sobre-avaliar os activos dos seus devedores (as casas). Quando executavam um cliente, rematavam o imóvel pelo valor da dívida, não reconhecendo perdas.
Quando em 2007 surgiu uma crise normal, começou a faltar liquidez e deu-se conta que os bancos não tinham em "armazém mercadoria suficiente para pagar o saldo dos livros".
Começaram a falir em catadupa. E continuam.

A dívida pública
A dívida pública alemã para contratos a 2 anos anda nos 0.4%/ano.
A dívida pública portuguesa para contratos a 2 anos anda nos 20%/ano.
Isto quer dizer que a probabilidade de, nos próximos 2 anos, o Portugal entrar em bancarrota e não pagar nada é de 30%.
Quem comprar 100€ de dívida pública portuguesa a 2 anos pode, por um lado, receber 140.00€ mas, por outro lado, tem 30% de probabilidade de não receber nada.
Quem comprar 100€ de dívida pública alemã a 2 anos vai receber, de certeza, 100.80€.
Agora é uma decisão de cada um mas não pensem que os "especuladores sanguinários" especulam ficar ricos com os títulos da dívida dos caloteiros.

Fig.4 - É como ter uma mulher simpática. Dá-nos a certeza de que não vamos ser corneados.

Como é camarada Louçã? Agora não te interessa falar?
Até a agência de Rating Chinês desceu o Rating da Zona Euro toda.
Então até os chinocas são especuladores sanguinários?
É que já não há tansos em lado nenhum do Planeta Terra.

Pedro Cosme Costa Vieira

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