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sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

A (in)eficiência dos transportes colectivos do Estado

No Porto, os STCP, e, em Lisboa, a CARRIS, são monopolistas nos transportes coletivos de passageiros.
Não sei qual é o argumento que atualmente usam para justificar um monopólio nos transportes de passageiros mas, no antigamente, no tempo do Salazar, pensava-se ser uma forma de aumentar a eficiência económica: enquanto um equipamento não tivesse uma utilização de 100%, seria ineficiente permitir que outro entrasse nesse mercado. Era a Lei do Condicionamento Industrial (decreto lei 19354 de 1931) .
Já na altura se sabia que tal teoria estava errada mas, decorridos 85 anos, já se sabe com muito mais certeza que os monopólios são apenas destruidores do progresso e da eficiência e um mal para os consumidores. 

Os autocarros são (pelo menos assim o parece) mais eficientes que os automóveis!
Isto porque um mesmo veículo pode levar até 150 pessoas, o que tem economias de escala.
Mas o que mede a eficiência de uma empresa não é o que nós pensamos ser mas sim a sua capacidade em ter baixo custo de produção do bem ou serviço a que se dedica. Se a empresa A produz uma bicicleta por 50€ e outra empresa produz uma bicicleta funcionalmente idêntica por 100€, então, a empresa A é mais eficiente que a empresa B.

Será que os dependurados também pagam bilhete?

Eu também sou produtor de transportes de passageiros.
Quando eu me movo de um lado para o outro, uso o meu automóvel que me custou, novinho em folha, 9700€ (mais ou menos). Então, o meu custo de produção é de 0,15€/km:
    Amortização =>  0,055€/km (12 anos / 200 mil km, para uma taxa de juro de 2%/ano)
    Combustível => 0,0585€/km (4,5l/100km*1,30€/l)
    Manutenção => 0,0113€/km (10% da amortização + combustível, 188€/ano)
    Seguro => 0,015€/km (250€/ano)
    IUC e outras coisitas => 0,010€/km
Custo total => 0,15€/km
Se o meu carro transportasse a lotação (4 pessoas), o custo de produção ficaria em 0,04€/km com um consumo de gasolina na ordem dos 1,2litros/100km/passageiro.

Em 99% das viagens, ando sozinho.
Como o meu carro tem 4 lugares, a "minha empresa de transportes" tem uma taxa de ocupação de 25% pelo que sou altamente ineficiente.

Se esta menina me pedisse boleia, a viagem ficaria mais eficiente. E o meu carrinho tem a bateria nova.


Pensei então nos STCP e fui ver o relatório de contas de 2014 (ver).
Um autocarro de 57 lugares novo custa 130 mil € (são os preços anunciados na comunicação social relativamente ao caso MAN / TUB - Transportes Urbanos de Braga).

O tamanho médio dos autocarros dos STCP tem 97 lugares (1) pelo que custarão 170mil€ (supondo que o preço cresce proporcionalmente à raiz quadrada do número de lugares).

       Amortização =>  0,22€/km (22 anos / 1,0 milhões km, taxa de juro de 2,5%/ano) (2)
       Combustível => 0,44€/km (40litros/100km*1,10€/l) (3)
       Manutenção => 10% da amortização + do combustível (4)
       Seguro => 10% da amortização + do combustível (4)
       Mão de obra => 0,62€/km (1,7h/h* 100km/15,6km/h/100km) (5)
       Administração => 0,21€/km (15% dos custos anteriores) (4)
   Custo total => 1,63€/km

(1) Dividindo o número de lugares.km pelos km percorridos (Relatório).
(2) Cada autocarro percorre cerca de 45500km/ano e a taxa de juro é de 3,55%/ano (Relatório) a que retiro 1,05%/ano para a taxa futura de aumento do preço dos bilhetes. Considerando 3,55%, o custo operacional aumenta para 1,66€/km.
(3) Calculei a partir das emissões de CO2 (Relatório).
(4) Percentagem usada normalmente em projetos de engenharia com material circulante
(5) Cada hora de autocarro são usadas 1,7 horas de trabalho (Relatório) e, pela referência a trabalho suplementar (Relatório), calculei o preço horário em 5,65€/h, um ordenado de 933€/mês brutos.

Havendo 97 lugares, o autocarro cheio fica por 0,02€/km por passageiro, metade do custo de meu automóvel, e o consumo de gasóleo de 0,41 litros/100km/passageiro, uma terça parte do meu consumo.


Mas fui ver os custos operacionais no Relatório e Contas dos STCP.
O problema é que os autocarros dos STCP andam vazios, com uma taxa de ocupação de 13,7% o que traduz que, num autocarro de 97 passageiros, em média, viajam 12,5 pessoas.
O custo operacional é de 0,19€/km por passageiro (Relatório) que resulta de um custo de 2,37€/km.
Custo Operacional => 2,37€/km


Será que vi bem a taxa de ocupação?
Num autocarro de 97 lugares, em média os STCP transportam 12,5 passageiros mas, perguntando às pessoas que andam nos autocarros, dirão que a ocupação é muito maior, que os autocarros andam sempre lotados.
Mas isto não passa de um erro de perceção.

É o erro do observador observado.

Vamos supor que em 10 autocarros, 1 leva 97 pessoas e 9 levam 3 o que dá uma média de 12,4 pessoas por autocarro.
Vamos agora fazer uma sondagem perguntando aos passageiros. O erro resulta de haver 97 pessoas que vão dizer que o seu autocarro levava 97 pessoas e apenas 27 a dizer que o seu autocarro levava apenas 3 pessoas.
    Média = (97*97 + 27*3)/(97+27) = 76,5 pessoas
Os passageiros diriam que, em média, viajavam 74,5 passageiros (ocupação de 78%) quando a realidade seria de 12,4 passageiros por autocarro (ocupação de 12,8%)
É também por este erro que todos nós achamos que as urgências hospitalares estão altamente congestionadas quando, de facto, não estão (só lá vamos quando a maioria das pessoas também vai).

Para onde vão os 0,75€/km do sobre-custo?
Se o normal seria ter custos operacionais de 1,63€/km e os STCP têm custos operacionais de 2,37€/km, para onde vão os 0,75€/km da diferença? 
É que são 16,3 milhões € por ano!

O custo dos STCP é de 0,19€/km por passageiro.
Por incrível que pareço, fica mais caro transportar um passageiro num autocarro dos STCP que transportar-me no meu carro, sozinhinho.
Tenho um custo de 0,15€/km contra os 0,19€/km dos STCP e o consumo de gasolina é 4,3 litros/100km quando os STCP fazem 3,3 litros / 100 km (fazendo uma equivalência entre gasóleo + gás natural e a minha gasolina).

Dá que pensar.
Ocupação de 13,7% e um sobre-custo de 16,3 milhões € por ano.
Prometo que num próximo poste foi avançar com um projecto futurista para uma rede de transportes colectivos altamente eficiente (em termos de custos de produção).

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

O grande capital que pague a crise

Os comunas falam muito do grande capital. 
Quando surge algum problema económico, os esquerdistas (classe que em Portugal inclui uma grande percentagem dos socialistas) avançam com a tese de que o "grande capital" é que deve a pagar a crise. 
A questão que eu quero colocar é se, distribuindo o capital irmãmente por todas os portugueses, a nossa vida melhorava. 

Primeiro, o problema das nossas contas públicas está na Segurança Social.
Não está na  produção mas na re-distribuição que é desequilibrada. 
Nos últimos anos, sob o argumento, por um lado, de que as pensões e outras prestações sociais têm que garantir uma vida digna, e, por outro lado, de que as contribuições não podem asfixiar a economia e a vida dos trabalhadores, criou-se uma segurança social que absorve cada vez mais recursos (ver, fig. 1) e que está crescentemente desequilibrada (ver, quadro 1). 
Apesar de a maioria dos comentadores dizer que a SS é sustentável, numa simples consulta às suas contas vemos que em 2014 (OE 2014, p.127), já depois de grandes cortes, as contribuições e cotizações, CC, somam 13,3 MM€, mil milhões, para uma  despesa social de 25,1MM €. 
Afinal diz lá claramente que a SS teve em 2013 e manterá em 2014 um défice 12MM€, que é a totalidade do IRS que vamos pagar, incluindo as taxas e sobretaxas.
O mais dramático é que as regras de cálculo dos "direitos sociais" são de tal maneira desajustadas que, mesmo com medidas draconianas, o défice da SS não pára de aumentar:

Anos     2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013 2014
Défice (MM€)  6,8    7,5 8,3 9,7 9,5 9,6 12,0 11,8
Quadro 1 - Défice da Segurança Social (dados: relatórios do OE)

A principal fatia são as pensões.
Da despesa total da SS, cerca de 2/3 são pensões dividindo-se o resto pelos Subsídio de Desemprego (11%), Acção Social (7%), Formação Profissional (6%) e outras despesas (20%). 
Mesmo que afectassemos o total das receitas em CC (13,3MM€) ao pagamento das pensões (16,1MM€), o sistema ainda teria um défice de 2,7MM€ por ano. 
Bem sei que as pensões da SS são baixas mas como podem os esquerdistas, a Ferreira Leite e o Bagão Felix dizer que a SS é sustentável com as pensões pagas a aumentar 0.4% do PIB cada ano, 600M€/ano (ver, Fig.1)? 

Fig 1 - Evolução das pensões pagas pela SS em percentagem do PIB (dados: Pordata)

Mas as contas do governo sobre a ADSE também estão erradas.
As contas da SS não incluem as despesas em Saúde. Apesar de na sua génese a assistência médica pública resultar da pessoa descontar para a SS, actualmente o financiamento do SNS - Serviço Nacional de Saúde vem directamente do Orçamento de Estado.
Então, se a saúde dos trabalhadores privados é paga directamente pelo Orçamento de Estado, a ADSE que cobre as despesas médicas dos funcionários públicos só deveria ser calculada como a diferença entre o custo médio do SNS e o custo do beneficiário da ADSE. 
Eu, apesar de ir, num futuro próximo, pagar para a ADSE 1600€/ano, muito mais do que dela recebo, não estou a pensar abandonar o sistema por uma questão de solidariedade mas muita gente vai fazê-lo.

A SS tem que aumentar a receita e diminuir a despesa.
Para as pessoas tomarem consciência do que custa o Estado Social, o financiamento do sistema tem que ser mais transparente, i.e., a receita da TSU tem que se aproximar da despesa da SS.

1) É necessário aumentar a TSU dos actuais 34,75% para os 40% da Alemanha (na alemanha a divisão é 20%/20% mas em Portugal poderia ser, e.g., 15% para o trabalhador e 25% da entidade patronal). Desta forma, a receita em CC aumentará cerca de 15%, dos actuais 13,3MM€/ano para 15,3MM€/ano.

2) É necessário reduzir a despesa (pensões e outras despesas) em 10%, dos actuais 25,1MM€/ano para os 22,5MM€/ano.

Com este movimento em tesoura, o défice da SS reduziria 40%, dos actuais 12MM€/ano para os 7,3MM€/ano, próximo do défice de 2008, altura que ninguém questionou a constitucionalidade das regras da SS.

Mas aumentar a TSU e reduzir as pensões custa muito.
Pois custa porque estamos mal habituados mas não há outro caminho. 
Num salário de 1000€/mês, será um aumento das contribuições da TSU em 52,5€/mês.
E numa reforma de 600€/mês, será uma redução de 60€/mês.
O problema é que é preciso cobrir o défice com alguma coisa. Ou directamente ou indirectamente com cortes na saúde e no ensino e com aumentos  do IRS e do IVA.

Afinal, o défice nas contas públicas vem mesmo da Segurança Social.
12MM€ é um défice de 7,3% do PIB.
Se se conseguisse manter o défice da SS nos 7,5MM€ de 2008, o défice público de 2013, em vez dos 5,8%, ficaria nos 3,0% do PIB e em 2014 ficaríamos próximos dos 1% que o Sócrates prometeu conseguir com o PEC 4.

Vamos ao "grande capital".
Primeiro temos que fazer uma ideia de quanto receberíamos se o "grande capital" fosse dividido irmãmente pelos portugueses.
O Banco Mundial indica que a nossa economia tem cerca de 180% do PIB em capital, 300 MM€. 
Se dividíssemos este valor irmãmente pelos portugueses daria cerca de 30mil€ por cabeça que traduz 1,5 anos de salário médio. Apesar de ser uma soma razoável, tenho que dar a má notícia de que uma parte substancial deste capital já nos pertence porque é propriedade do Estado (estradas, portos e empresas públicas) e porque são a nossa casa, carro e a contra-parte dos 120MM€ dos nossos depósitos bancários. 

Dizem que a Martinfer está muito endividada.
Uma maneira de dizer mal do processo de desmantelamento dos Estaleiros Navais de Viana do Castelo é dizer que a Martifer deve mais de 300 milhões €.
Mas isto é o pão-nosso-de-cada-dia das empresas.
Se a Martinfer deve 300M€, a EDP deve 30000 M€, 100 vezes mais.
Numa empresa sólida o activo é financiado a 75% por crédito (capital alheio) e a 25% por capitais próprios. No caso português, é normal ver empresas financiadas a mais de 90% por crédito.  
Confirmamos isso se olharmos para o balanço dos bancos onde vemos que as empresas não financeiras lhes devem 136MM€ (que traduz 45% do total de capital existente em Portugal). 
O  Estado permitir a criação de empresas com apenas 1,00€ de capital próprio por sócio é o reconhecimento de que há emrpesas com 0% de capital próprio.
1,00€ por sócio não dá nem para ir de autocarro ao banco abrir a conta para realizar o capital. 

Quanto daria a cada um?
Pensando que os grandes capitalistas são donos de metade das empresas nas quais têm 20% de capitais próprios, os grandes capitalistas acumulam apenas 30MM€. 
O expropriação da totalidade do "grande capital" não dava sequer para pagar o défice público de 2009 e 2010.
Agora, se pegarmos no "grande capital" e o repartirmos irmãmente pelos portugueses, dá 3 mil € por cabeça, o correspondente a 3 meses de salário. 

Não dava nada a cada um e destruíamos a economia.
Afinal o "grande capital" não existe, é apenas um miragem dos esquerdistas. 
Como diz o Américo Amorim, os patrões são funcionários dos credores e que trabalham muito mais horas e têm muito mais preocupações que os trabalhadores normais.
O maior problema da divisão do "grande capital" pelo povo é que, como a maioria de nós não tem espírito empreendedor, íamos tentar transformar o mais rapidamente possível a nossa cota em dinheiro para pagar umas contas ou fazer umas feriasitas. 
Se não fosse possível vender as cotas, daqui a 10 ou 15 anos as empresas  estariam totalmente obsoletas e falidas porque ninguem iria renovar o capital (acabava o investimento para transformar o capital em rendimento). 

O futuro dos ENVC.
Eu pensava que não ia aparecer ninguém da Martinfer à assinatura do contracto de "subconcessão" mas a noiva sempre apareceu.

Eu sou contra o modelo.
O Garcia Pereira, tal como eu, defende que a nova empresa deveria assumir todo o activo e passivo dos Estaleiros Navais de Viana do Castelo onde se incluem os contratos de trabalho.
Sempre defendi isto, estando mesmo no meu não-famoso livro. 
Mas as minhas razões são diferentes das do Razia que demonstra apenas nisso ser tapado de vistas.
Eu defendia esse modelo porque a West Sea S.A. (uma empresa que não existe mas que, a mando da Martifer, "adquiriu" os estaleiros) é uma empresa sem capital próprio. Então, os credores sem garantias do Estado, onde se incluem os "direitos adquiridos" dos trabalhadores, ficavam a arder. 
O Estado teria que pagar apenas aos credores a quem deu garantias mas os outros, que de forma imprudente concederam crédito aos ENVC e os trabalhadores da sueca, os construtores de barcos de fósforos, ficavam a chuchar no dedo. 

Fig. 2 - Nos últimos anos, os ENVC têm feito vários patrulheiros destes para a Marinha Portuguesa


O que vai acontecer.
Hoje a West Sea S.A. assinou um contrato de arrendamento até 31/3/2031 dos terrenos comprometendo-se a pagar uma renda anual de 415mil€ (dá 16940€/ha que compara com os normais 200€/ha de um terreno agrícola de boa qualidade). 
Claro que existem lá plantados infra-estruturas portuáreas e barracões mas, além de não servirem para nada, têm um valor patrimonial de 10 M€ que, para uma taxa de 0,4% de IMI, são um encargo de 40mil€ por ano.
Aquilo já seria caro pelo IMI. 

Na primeira fase,  que está a decorrer, os terrenos serão libertado. Dia após dia, os construtores de barcos de fósforos, vão sendo enviados para casa e o equipamento vai ser vendido em hasta pública para sucata. Isso ainda nos vai custar umas dezenas de milhões de €.
Lá para fins de 2014 o terreno fica livre de toda a sucata, altura em que a West Sea S.A. vai tomar posse dos terrenos e começar a pagar renda.
Como disse o Carlos Martins (com quem eu morei uns 2 anitos), "já temos 2 trabalhadores que vão começar a trabalhar conosco" e ainda vamos precisar contratar mais uns 2 trabalhadores para haver com quem jogar à sueca. 

Fig. 3 - O que estará de baixo das 7 saias?

Na segunda fase que vai começar a meses das eleições legislativas de 2015, a West Sea S.A. vai anunciar uma grande carteira de encomendas, vai fazer entrevistas e contratar muitas pessoas para cursos e mais cursos de soldador, manobrador de máquina, etc., etc., etc. a desempregados de longa duração, tudo financiado pelo Fundo Social Europeu.

Na terceira fase, já depois das eleições legislativas, esgotam-se os 500 mil € da caução e vem um estudo económico a dizer que os estaleiros não são viáveis.
Mete-se um programa qualquer de requalificação urbana. Avançam mais uns milhões de fundos comunitários e do OE e, com a ideia de  fazer um parque urbano e uma marina, desmantelam-se completamente os barracões e terraplana-se aquilo tudo.
Daqui a 10 anos, quando se olhar para a frente ribeirinha/maritima de Viana do Castelo, veremos que a cidade só ganhou com o fim daquele trambolho que só tem criado prejuízo.

Fig. 4 - Localização do futuro parque urbano e da marina de recreio de Viana do Castelo

Já descobri (imagino).
Eu penso que nunca estive em Viana do Castelo mas tinha um colega minha, a Ruca, que era minhota, penso  mesmo que de Viana.
E até era muito geitosinha. Para profesora, até diria que era uma brasa.
Bem lhe perguntei mas nunca me disse o que havia debaixo das 7 saias.

Fig. 5 - Penso que estão uns calcõezinhos de renda de bilros.

Pedro Cosme Costa Vieira

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

O que é isso dos Swaps?

Todos nós já realizamos swaps.
Quando andávamos na escola, coleccionávamos cromos.
Comprávamos umas saquetas com 5 cromos que colávamos numa caderneta. Por ser uma questão de sorte e azar, tínhamos sempre cromos repetidos e outros em falta.
Vamos supor que a caderneta tinha 150 cromos e que os 5 cromos eram colocados nas saquetas com igual probabilidade. Se comprássemos 150 cromos (30 caderneta), em média só conseguíamos 95 cromos diferentes (e 55 repetidos). Se duplicássemos o número de cromos, em média ainda nos ficavam a faltar 20 cromos. Precisávamos comprar 160 saquetas (800 cromos) para termos a probabilidade de 50% de conseguir preencher toda a caderneta.

Havia necessidade de fazer swap de cromos.
Acabar a caderneta era um desespero.
Mas se na nossa escola várias pessoas fizessem a colecção, era muito mais provável que alguém tivesse repetido o cromo que nos faltava. Então, coleccionar cromos era uma forma das crianças socializarem-se com os demais colegas da escola. Pela troca todos ficavam a ganhar.
Como os cromos era um problema estatístico, quanto maior fosse o conjunto de pessoas a trocar, menos cromos cada um teria que comprar para conseguir preencher a caderneta.

Fig. 1 - Para termos sucesso, era obrigatório trocar os cromos repetidos

#código usado no R para simular o desporto dos cromos
cromos<-0
for (a in 1:1000) #número de simulações
   {x<-0
   for (i in 0:159) #número de cadernetas adquiridas
      x[i*5+(1:5)]<-sample(1:150,5,replace=TRUE) #sorteia os cromos das cadernetas de 1 a 150
  cromos[a]=length(table(x))} #conta quantos cromos há de cada tipo (número de 1 a 150)
mean(cromos) #número médio de cromos diferentes
sd(cromos) #desvio padrão do número de cromos diferentes
length(cromos[cromos==150])/1000 #probabildiade de preenchemos a caderneta toda

O contracto de swap não tem mal nenhum.
Sabemos que melhorávamos a nossa situação sempre que trocávamos um cromo repetido por outro em falta.
Quando trocávamos um cromo repetido por outro que também tínhamos repetido ou um cromo único por outro cromo de que não tínhamos nenhum, não melhorávamos mas fazíamos um favor ao nosso amigo.

Quantos exemplares repetidos era preciso darem-nos por um que tínhamos único?
Ninguém trocava um cromo de que só tinha 1 exemplar por outro cromo de que tinha vários porque piorava a sua situação.
Mas agora imaginemos que alguém nos oferecia 10 cromos que tínhamos repetidos por um de que tínhamos apenas um exemplar.
Este contracto era especulativo porque eu não queria aqueles cromos para nada. Apenas aceitava a troca se especulasse novas trocas no futuro ou noutra escola onde eu imaginava que o mix de cromos era diferente. Antecipava ser provável eu conseguir re-obter o cromo que estava a perder e ainda obter outros que actualmente não tinha.
Especular é ver no futuro, prever o que vai acontecer. Naturalmente que ninguém consegue prever o futuro com certeza.

Swap obrigações <-> acções
Um swap "clássico" é a troca de uma obrigação por uma acção (da mesma empresa).
A obrigação tem remuneração fixa (o cupão) e um pagamento final.
A acção tem direitos de voto na governação da empresa e uma cota parte dos lucros (o dividendo) que é variáveis de ano para ano e uma percentagem quando a empresa for vendida ou liquidada.
Em caso de falência, a obrigação tem prioridade no pagamento relativamente às acções.
Como a obrigação tem menor risco, a remuneração das obrigações é, em termos médios, menor que a cota parte dos lucros correspondente a cada acção, havendo uma cotação que torna os dois activos equivalente:

           Obrigação (- Remuneração; - Risco)  <=> Acção (+Remuneração; +Votos; + Risco)

Uma pessoa que seja mais medrosa vai aplicar as suas poupanças em obrigações enquanto que uma pessoa mais destemido vai-o fazer em acções.

Vamos supor que recebemos uma herança.
Um nosso familiar deixou  10000€ de acções e 10000€ de obrigações de uma empresa familiar, metade a mim e metade ao meu irmão. Eu, como sou medroso, vou trocar as minhas acções, 5000€, pelas obrigações do meu irmão (também 5000€). O meu irmão, mais destemido e empreendedor, com os 10000€ de acções também vai conseguir fazer parte da gerência da empresa (juntamente com os nossos familiares). Ficamos ambos a ganhar porque somos diferentes.

Posso ser um especulador.
Eu não quero as acções de todo mas o meu irmão também não as quer pelo que apenas me dá 1000€ de obrigações pelas minhas acções (ou eu dou 1000€ de obrigações pelas acções dele).
Apesar de eu não querer as acções para nada, eu aceito a troca porque especulo que vou conseguir trocar os 10000€ de acções (as minhas mais as dele) por obrigações de um dos meus primo por mais de 2000€. No final, penso ficar com mais de 6000€ de obrigações com que ficaria se trocasse as minhas acções directamente com o meu irmão.
Especulador é aquele que realiza uma troca não com o fim de ficar melhor mas com o fim de no futuro realizar outra troca e, finalmente, ficar melhor.

Fig. 2 - Um homem ciumento é mais feliz casado com uma mulher feia e gorda


Vejamos uma especulação no mercado de petróleo.
Eu vou ao mercado e compro 100 barris de petróleo Brent do Mar do Norte para entrega em 15 Março 2014 por 10000€.
Mas eu não quero o petróleo para nada. O meu fito é, algures entre hoje e o dia de entrega, conseguir vender os 100 barris por mais de 10000€.
Se eu não conseguir vender a minha posição antes do dia 15 de Março então, terei perda total do meu investimento porque não tenho forma de ir buscar o petróleo ao Mar do Norte.

Teorema da eficiência de mercado.
Havendo um mercado em concorrência, a cotação de todos os activos trocados torna-os  equivalentes. Quer isto dizer que, em abstracto, considerando pessoas iguais, não há qualquer ganho nem prejuízo em trocar o activo A pelo activo B.
Apenas existe ganho quando os agentes económicos são diferentes, por exemplo, apesar de serem  dois irmão gémeos e com o mesmo emprego, um tem contracto de trabalho efectivo e o outro não.
Tal e qual como no caso do cromos. Por questão de sorte e azar, os cromos que nós tínhamos repetidos eram diferentes dos cromos que os nossos amigos tinham repetidos.

Swaps de moedas Libras <-> Euros.
Vamos imaginar duas fábricas de calçado totalmente idênticas, A e B, mas em que a empresa A tem clientes ingleses (em Libras) e compra peles na França (em Euros) enquanto que a empresa B tem clientes em França (em Euros) e compra peles na Inglaterra (em Libras).
Vamos supor que se a cotação se mantiver igual à de hoje, a empresa A tem um lucro de 1000€, igual ao da empresa B mas se houver uma desvalorização da Libra, a empresa A terá um prejuízo de 1000€ (e vai à falência) e a empresa B terá um lucro de 3000€ e vice-versa.
No sentido de diminuir o risco, a empresa A pode trocar as receitas em libras pelas receitas em Euros da empresa B de forma a que, qualquer que seja a cotação, ambas tenham sempre um lucro de 1000€ (nenhuma vai à falência).

Esta troca parece-me boa.
Parece e é boa porque mantém o lucro esperado (em termos médios) e reduz o risco (o desvio padrão do lucro). Se antes a situação oscilava entre muito lucro e ir à falência, com a troca, o lucro será sempre razoavelmente positivo.
Este contracto reduz o risco a zero.


Fig. 3 - Um swap de preto por branco ou branco por preto pode ser bom para todas as partes.

Cuidado com as aparências.
O gestor que fez esta troca é competente mas vamos supor que, decorridos uns meses, a Libra valorizou. Agora, a empresa A e a B vão continuar a ter um lucro de 1000€ mas agora surgem vozes na empresa A contra o negócio. Só agora, depois de se saber que a Libra valorizou, é fácil prever que a Libra valorizou.

- Era por demais evidente que a Libra ia valorizar.
 -Se o dr. não tivesse feito a troca, estávamos com um lucro de 3000€. Estás despedido porque o seu swap causou-nos perdas potenciais de 2000€.

Se o avaliador do mérito da operação for ignorante, mesmo um contracto de swap bem feito (porque reduz drasticamente o risco da empresa), tem 50% de probabilidade de vir a ser considerado ruinoso.
Um gestor que lide com um avaliador tosco, não pode fazer contractos deste tipo.
A pertinência do contracto de swap não pode ser julgada a posteriori mas apenas em referencia ao momento em que foi feito, com a informação disponível no momento em que foi assinado.

Vejamos um seguro automóvel.
Imaginemos um amigo nosso que arranjou um emprego a ganhar 2000€/mês e comprou imediatamente um carro de 100mil€ por 120 mensalidade de 1000€/mês (TAEG de 3.735%). Naturalmente que, se tiver um acidente ou um assalto, não poderá comprar outro carro pelo que o aconselhamos a fazer um seguro contra todos os riscos que lhe custou 2500€. Decorrido um ano e não tendo acontecido nada, ele vem dizer que teve um prejuízo de 2500€ por culpa nossa. Que nós o enganamos, que somos um vigaristas que devemos ter recebido parte do dinheiro.
Mas não foi nada disso.
O seguro foi bom porque cobriu o risco de perda do carro (por roubo ou acidente culposo).
A questão é que esse risco é pequeno e por isso é que o prémio só custou 2500€. A seguradora compensa um caso em que o carro é roubado (e pelo qual paga 97500€)  pelos 39 casos que não são roubados (dos quais recebem 97500€).
Se fosse certo que o carro ia ser roubado, o prémio teria que ser de 100mil€ porque a seguradora não é a Santa Casa da Misericordia.


Fig. 4 - O carro do sr. bispo de Bragança enchei-se de amores pelo carro vermelho.

Por isso é que não podemos dar conselhos financeiros.
Dissemos que fizesse o seguro e, como não aconteceu nada, fomos os culpados pelo prejuízo dos 2500€.
Se tivéssemos dito para não fazer seguro e o carro tivesse sido roubado, éramos os culpados por agora não haver reposição da situação.
É-se preso por ter cão e por não ter.
Quando alguém sem literacia financeira nos faz uma pergunta com a alegação de que "és grande conhecedor destas coisas" têm sempre que responder, "eu também não percebo nada disso, quem gere as minhas contas é a mulher."

Swaps de taxa de juro Variável <-> Fixa.
Quando fazemos um contrato para comprar um imóvel a 50 anos, é muito difícil antecipar qual vai ser a taxa de juro de mercado daqui a tantos anos.
Como o banco se financia em contractos de curto-prazo (depósitos), tem que fazer um contracto que traduza as condições de financiamento que vai encontrar no futuro.
Então, nenhuma instituição de crédito faz um empréstimo de longo prazo com uma taxa de juro fixa.
A taxa de juro do contracto pode ser a EURIBOR mais uma margem real, spread, por exemplo, 3 pontos percentuais. Quer isto dizer que, daqui a 20 anos, se a EURIBOR for de 1%/ano, a taxa de juro será 4%/ano enquanto que se a EURIBOR for de 10%/ano, a taxa de juro será 13%/ano.

Mas o devedor quer prestação fixa.
A taxa de juro variável implica uma prestação variável que tem risco para o devedor pois pode, algures no futuro, não ter rendimento suficiente para a pagar.
Se interessar ao devedor ter uma prestação fixa, tem que trocar a sua taxa de juro variável por uma taxa fixa.
Imaginemos o Metro do Porto que deve 2300M€ se financiava a 50 anos à taxa variável EURIBOR a 3 meses + 2 pp. Como o aumento da alteração da taxa de juro em 1 ponto percentual implica um aumento dos custos financeiros de 23milhões€/ano, o gestor trocou a taxa variável por uma taxa fixa a 20 anos. Para isso, no dia 27/11/2012 foi ao mercado de swap e fez a troca à taxa de juro de 4.370%/ano.
Agora, nos próximos 20 anos, o Metro irá pagar 100.51M€ por ano de juros (para uma facturação de 53M€/ano!).
Apesar de nos próximos 20 anos não haver risco de a prestação subir, o problema é que, entretanto, a taxa de juro desceu. No dia 31/01/2013 a taxa de juro já estava nos 3.840%/ano. Então, a Metro vai pagar nos próximos anos 100.51M€/ano quando, se fizesse o contracto passados 2 meses, já só pagaria 88.32M€/ano. Reportando a diferença de 12.19M€ ao presente, nestes 2 meses o contracto tem perdas implícitas de 168.038M€ (valores descontados à taxa actual).


Fig. 5 - Cotação de swaps taxa Euribor 3 meses para  Taxa Fixa a n anos

Será que o gestor que fez a troca foi incompetente?
Na óptica da empresa, não houve qualquer erro. Se a empresa queria diminuir o risco, o melhor a fazer foi passar a taxa de juro de variável a fixa.
Mas em termos de gestor houve um erro porque já antecipava que o avaliador (politico) é incompetente em termos financeiros. Assim, o gestor assumiu o risco de ser considerado um mau gestor (a taxa fixa descer) com nenhum ganho no caso da taxa de juro subir.
No caso da Maria Luís, dizem que o swap deu lucro à REFER, mas ninguém lhe quer dar o mérito.
Dizem que foi a sorte.
E se calhar foi mesmo.

Vamos agora à actualidade politica.
É discutível se as empresas públicas devem minimizar o risco das taxas de juro. Mas vamos supor que existe um consenso de que as empresas públicas devem ser geridas como as empresas privadas pelo que devem reduzir o risco financeiro. Então, trocar taxas de juro variável por taxas de juro fixas não tem mal nenhum.

Diminuir o risco não tem mal nenhum.
Não há nada de negativo em realizar swaps que diminuem o risco da empresa, tenha sido feitos a mando do Sócrates, do Seguro, do Cavaco, do Passos ou do Gasparzinho, foram todos bem feitos. Mesmo que agora pudessem ser feitos de forma mais vantajosa, o agora não é o então.
Também se eu soubesse o que sei hoje, no euromilhões eu tinha apostado noutros números e estava rico. Os números estavam mesmo lá a olhar para mim mas ninguém pode seriamente dizer que eu não os seleccionei por ser burro ou desonesto.
Eu sabia que metia lá 2€ e que poderia não receber nada.

E os contractos especulativos?
Neste tipo de contractos, o risco da empresa aumenta com a antecipação de que o valor médio da taxa de juro que será paga vai ser menor.
Por exemplo, o lucro normal de uma empresa segue uma distribuição normal com 1000€ de valor médio e 500€ de desvio padrão. Depois de feita a troca, o lucro passa a ter 1100€ de valor médio mas o risco aumenta para 1000€ de valor médio.
Existem estratégias em que devemos assumir mais risco. Por exemplo, alguém que tem cancro e que, se não fizer nada, morre no prazo de 2 anos deve arriscar ser operado. Pode morrer na operação (90%) mas também pode acontecer durar mais 30 anos (10%).
Num jogo de futebol, quando a equipa fica a perder, passa a assumir uma estratégia com maior risco (maior risco de sofrer o segundo golo mas também maior probabilidade de empatar). Perdido por um, perdido por mil.
Apenas podemos dizer que os contractos especulativos são negativos se o ganho médio de assumir o risco for pequeno. Mas em abstracto, não se pode dizer que são todos maus.

E a alegada mentira da Maria Luiz?
Alguém dizer "as empresas públicas fizeram swaps" é a mesma coisa que dizer que empresas têm financiamento taxa fixa ou a taxa variável. Que se saiba, na pasta de transição nada é dito sobre o tipo de contractos.
O relevante é transmitir, para cada empresa, o total de encargos (o valor actual dos pagamentos previstos no futuro) e o risco desses encargos (o desvio padrão do VA). Agora o mix dos encargos, não é relevante.
Quando avalia~mos uma empresa é assim que se faz.
Por exemplo, olhamos para a Metro do Porto e dizemos que o VA de continuar a actividade nos próximos 30 anos, descontado à taxa de 4%/ano, é de -7000M€ com um desvio padrão de 3000M€. Se a empresa for liquidada, o valor de liquidação é de 2500M€ com um desvio padrão de 1000M€.

Detalhar a situação da mais pequena das empresas pública.
Obriga a um trabalho muito aprofundado de levantamento dos encargos actuais e dos encargos futuros (se a empresa é para continuar).
Por exemplo, o Efromovich avaliou a TAP em 20M€ e vieram grandes economista a terreiro dizer que valia muito mais. O certo é que até hoje ainda ninguém ofereceu sequer os 20M€. Este exemplo demonstra como é difícil avaliar os encargos de uma empresa ainda mais quando a gestão teve por objectivo esconder divida do reporte ao défice público.

Vamos agora à conversa.
Por fonte insegura, soube que a conversa de transição entre secretários de Estado foi a seguinte:

- Há problemas nas empresas públicas (diz o anterior).
- Isso já toda a gente sabe mas isso é um problema do ministério da economia (diz a Luís).
- Não é isso Luís, é que também tem impacto na divida pública.
- Mas isso já está tudo reportado, ou não? Há por aí algum gato escondido?
- Não sei bem mas falaram aí numas operações esquisitas de que eu nem sei bem o nome. Penso que é spots.
- Mas spots são anúncios publicitários. Gastou-se assim tanto em publicidade?
- Então não são spots são spoilers.
- Spoilers. aquelas faixas que tem nos carros kitados?
- Não, é outra coisa qualquer. É swings.
- Aquilo de andar a trocar as mulheres? O que é que isso tem a ver com as empresas públicas?
- Já não sei o que é pá. Eu vou ver ao certo e depois  mando-te um e-mail.

Será que a situação tem concerto?
Não. Uma vez feito o contracto, o mais que se pode fazer é outra troca que o anule de agora para o futuro. O prejuízo do passado já está feito.
Para que o contracto pudesse ser revertido, teria que ser um contracto de Opção de Troca.
Eu pagaria para ter a opção de, algures no futuro, fazer ou não, a troca.
Mas o contracto não foi desse tipo pelo que não pode ser anulado.

Agora, é como o processo de Al Capone.
A Al Capone era, alegadamente, um mafioso que cometeu, alegadamente, muitos assassínios e roubos.
Mas nada disso foi possível de provar.
O problema é que, como não foi provado que o homem cometeu crimes então, os rendimentos dele, alegadamente foram obtidos em actividades legais pelo que tinha que os declarar ao fisco.
Como não meteu esses rendimentos na declaração do IRS, apanhou umas centenas de anos de prisão por fuga ao fisco.
A Maria Luís está a ser vítima do mesmo tipo de processo.
Não conseguem provar que a senhora tenha feito nada de irregular. então, atacam na dizendo que mentiu sobre uma conversa qualquer na qual a senhora poderia até estar distraída.
Até pode acontecer como as minhas reuniões de trabalho com os meus colegas. Eles falam, falam, falam, falam, mas no fim eu não me lembro de nada.

Vou acabar com o Rui Rio que deveria estar de férias, calado.
O Salazar quando ficou velho e caquéctico arranjar um sucessor, o que é próprio dos tirano. Desde o Staline, ao Franco, todos fizeram um testamento político no qual indicavam quem os iria sucessor.
O problema é que nas democracias isso não existe, é o povo que decide.
O poder vem do eleitorado que é livre de escolher quem achar melhor. Não é o Rio nem a Ferreira Leite que decidem o que é bom ou mau mas o povo é que sabe, por maioria, o que que.
A obra deita no Porto nos últimos 12 anos não pertence ao Rui Rio pois ele foi apenas um funcionário do povo. Não tem legitimidade para dizer que A, B ou C vai destruir a sua obra pois a obra não é sua. A obra é do povo que, com os seus impostos, pagou o que foi feito.
O Rui Rio recebeu um mandato do povo e UM ORDENADO AO FIM DO MÊS para trabalhar segundo a vontade do povo.

Ele tinha maquinado mandar o Passos ao charco.
Era o fito desta crise politica. Repetir o golpe que mandou o Durão Barroso ao chão e meteu lá o Santana Lopes (com o Portas).
Agora seria Rio com Portas mas o Passos vê mais com um olho que o Rio com os dois.
O seu candidato a Gaia (que é o oficial do PSD) estar atrás do candidato do Filipe Menezes (que é independente).
O seu candidato ao Porto (que é independente) estar atrás do  Filipe Menezes (que é o oficial do PSD).
O F.C.Porto estar cada vez mais forte.
São derrotas a mais num tosco que apenas se alimenta do ódio, ao Pinto da Costa e a tudo o que mexe.
Eu nem gosto do Menezes mas fiquei mais próximo dele.


Fig. 6 - Custa digerir tanta derrota mas tomar omeprazol ajuda e é barato (uma caixa de 56 cápsulas da basi só custa 2.63€)

 
Pedro Cosme Costa Vieira

sexta-feira, 30 de março de 2012

Será que fui derrotado? Será que as taxas de juro estão bem?

O anúncio da queda nas taxas de juro é um embuste.
Nos últimos dias o governo tem anunciado que as descidas observadas nas taxas de juro implícita da dívida pública portuguesa indiciam que estamos a ser bem governados.
Isto é completamente errado e resulta de o nosso Primeiro, por ser filho de um médico, acreditar no efeito placebo. Fazendo o paciente acreditar que lhe estamos a dar um remédio muito potente (mas que é apenas farinha triga), ele melhora. Depois, anunciamos que já se observam melhoras significativas e ele fica completamente curado. Sem fazermos absolutamente nada.
Como eu queria com toda a minha força que isso fosse verdade pois recuperaria o "corte provisório de 5%" mais o "corte provisório dos subsídios" que durará "enquanto Portugal estiver a receber assistência internacional".
Rezo todos os dias à alma do gato da minha colega Manuela a ver se ela, a alma pois o bicho´é adubo da árvore que sempre lhe fez sombra, faz o milagre disto se tornar verdade.

Fig. 1 - O gatinho da Manuela depois de apanhado a fazer uma asneira. Rinhauuu...

A taxa de juro é imprevisível.
Se alguém soubesse, com certeza, que amanhã a taxa de juro ia estar menor que hoje, comprava imediatamente divida pública e vendia-a amanhã, tendo um ganho certo. No caso contrário, vendia hoje dívida e re-comprava-a amanhã, tendo também um ganho certo.
Como isso não é possível (todos ganhariam a todo o tempo), resulta o conceito de Mercado Eficiente, ME.

A melhor previsão para a taxa de juro futura é a taxa que se observou hoje.
Por isso, acreditar que alguém sabe em que sentido a taxa de juro vai evoluir é o mesmo que acreditar que a alma do gato da minha amiga foi para o Céu e que, se eu lhe rezar, vou voltar a receber aquelas maquias.
Eu, a Cristas e o Passos acreditamos que sim mesmo sabendo que não se vai concretizar.
"Tenho fé que vai chover nos próximos dias mas, se não chover, não perco a fé", Cristas
Mas fé em quê? Não é fé que vá chover mas noutra coisa qualquer.

Vejamos a evolução da taxa de juro dos últimos tempos.
Em 1/1/2010, quando começou a "Crise Portuguesa da Dívida Soberana", a taxa de juro a 10 anos exigida à divida pública portuguesa estava nos 4%/ano que comparava com 3.3%/ano para a Alemanha. Neste caso, a probabilidade de Portugal falir com um hair-cut de 75% (pagando 25% da obrigação) era antecipada como 8.7%.
        (1+4%)^10 x (25% x 8.7% + 100% x 92.3%) = (1+3.3%)^10

Em 23/3/2011, quando o Sócrates se demitiu, a taxa de juro portuguesa estava nos 7%/ano que comparava com  3.35%/ano para a Alemanha. Nesta altura, a probabilidade de Portugal falir estava avaliada em 39.1%.

Em 30/3/2012, já depois da "fortes quedas", a taxa de juro esteve nos 11.53%/ano que comparava com  1.80%/ano para a Alemanha. A probabilidade de Portugal falir está avaliada em 80.0%.
Quando o Sócrates teve que partir, a taxa estava nos 7%/ano e agora está nos 11.53%/ano. Se isto é demonstrativo do bom desempenho do Governo do Passos Coelho, eu vou ali e já volto.
Fig. 2 - Evolução da Taxa de Juro implícita da dívida Pública Portuguesa a 10 anos
(dados: Bloomberg)
A tendência
O conceito de ME diz não ser possível prever que, para o futuro, a taxa de juro terá uma tendência de subida. Se hoje a taxa de juro a 10 anos está nos 11.53%/ano então, o melhor que podemos dizer é que vai-se manter assim nos próximos 10 anos (que é o período de vigência do contrato).
Mas vamos supor que o podemos dizer sobre o passado e que a tendência verificada entre o inicio da "Crise", 1/1/2010, e o dia da demissão do Sócrates, 23/3/2011, se iria prolongar no tempo se o Sócrates e demais entulho governativo lá se tivessem mantido. Então, extrapolando essa tendência até ao dia de hoje, o mandato do Passos Coelho esteve sempre acima da tendência, o que é negativo, e apenas agora convergiu com a linha de Sócrates, o bancarrotador.

Sendo certo que o Sócrates encabeçou o pior governo que Portugal teve nos últimos 90 anos,
o Passos Coelho gaba-se quando ainda não conseguiu fazer melhor.
A taxa de juro estava nos 7%/ano e está nos 11.53%/ano, 4.53 pontos percentuais acima do que estava no dia da derrocada do socratismo.
O risco de bancarrota nos próximos 10 anos passou de 40% para 80%.
No melhor dos cenários, o Passos Coelho consegue estar na "previsível" tendência de degradação da situação economia nacional que aconteceria se ainda estivéssemos a ser desgovernados pelo Sócrates.
Se recordarmos que nesse dia 23/3/2012 se vivia um ambiente de cortar à faca, agora estamos  o dobro pior.

Nós vamos ao mercado em meados de 2013.
E tenho fé que vai chover muito ainda antes disso.
A afirmação de que vamos encontrar pessoas que, em meados de 2013, voluntariamente nos vão emprestam dinheiro não tem qualquer fundamento. É uma tontearia total.
Com a taxa de juro actual, 11.53%/ano, uma obrigação de 100€ a 10 anos equiparada a uma alemã (1.80%/ano), está a ser transaccionada por 43.80€.
Acreditando no Gaspar, que a taxa de juro estará nos 6%/ano, se alguém investir hoje 100€ em divida pública portuguesa a 10 anos, em meados de 2013, terá recebido 4.10€ em juros e as obrigações valerão 165.40€.

Fig. 3 - Em meados de 2013 Portugal já poderá ir aos mercados, comprar hortaliça.

Num prazo de 1 ano e 3 meses, será um ganho de 70%.
E sem qualquer risco, a menos que o Gaspar esteja enganado.
Eu, e toda a mais gente, considero as palavras do Gaspar equiparadas às do Sócrates quando dizia que "está tudo bem para não dizer que está óptimo". Pensamos nós e pensa ele pois, se acreditasse no que diz, estava cheínho de dívida pública portuguesa e, tanto quanto conste, não tem nem um euro emprestado ao Estado Português.
Tal como os administradores das empresas cotadas, deveria ser obrigatório que os membros do governo publicassem quanto têm de dívida pública na sua carteira de activos.

Qual é a taxa de juro sustentável para Portugal?
 Para simular o plano de pagamento vou ter que estimar certas grandezas.
H1) A divida é de 125% do PIB (pública e externa);
H2) Vamos reduzir a dívida a 60% do PIB em 30 anos;
H3) A taxa de inflação, se nos mantivermos no euro, será de 2%/ano (garante a Alemanha);
H4) A taxa de crescimento do PIB nos próximos 30 anos será de 1%/anos.

Fig. 4 - Estimativa para a taxa de crescimento do PIB nos próximos 30 anos
(dados: Banco Mundial, previsão do autor)

H5) Como o nosso défice público anda muito ligado ao défice comercial, o máximo que poderemos aspirar  de superávite para as contas do estado será o superávite conseguido pela Alemanha e pela China na década de 2000 para o seu saldo comercial: + 4.5% do PIB.

Fig. 5 - Balança comercial da China e da Alemanha, % do PIB (Dados: Banco Mundial)

Já posso fazer a simulação.
Dá uma taxa de juro limite de 5.5%/ano.

Isto é muito difícil para não dizer que é impossível.
As hipóteses consideradas têm risco.

Primeiro, é muito difícil que alguém alguma vez volte a emprestar-nos, a longo-prazo, dinheiro à taxa de 5.5%/ano.

Segundo, é muito difícil termos um superávite primário das contas públicas (e da balança comercial) de 4.5% do PIB. E mais num país habituado a défices enormes.
Passar de umas contas publicas com um saldo de -4% (sem juros) para + 4.5% é uma pancada de 15 mil milhões de euros que obriga a reduzir a despesa em 10% e aumentar os impostos em 15%.

Terceiro, o crescimento médio do PIB nos 13 anos de 2000 a 2012 ficou-se pelos 0.4%/ano pelo que não é certo que no período de consolidação consigamos um crescimento do PIB de 1%/ano.
Até podemos sonhar que vamos voltar a crescer 7%/ano como no ante-1974 mas isso é apenas um sonho lindo. Um sonho de quando éramos crianças e brincávamos às dívidas públicas.

Quarto, nos próximos 30 anos hão-de vir pelo menos mais quatro ou cinco crises tão graves como a actual. Olhando para os últimos 30 anos, o superávite comercial médio da China ficou-se pelos 2.1% do PIB e o da Alemanha pelos 1.1% do PIB (ver Fig. 5, linhas a tracejado).

Concluindo.
As taxas de juros implícitas de longo prazo da dívida pública estão proibitivamente elevadas.
11.53% é muito pior que o verificado no tempo do Sócrates o que indica que estamos numa situação muito pior que estávamos no dia em que o Sócrates se demitiu.
E ninguém no seu perfeito juizo pode garantir que as taxas vão diminuir nos próximos 10 anos.
Ninguém, a menos que alguém fale com Deus.
Podemos apresentar muitas desculpas e muitas histórias para justificar que os "7% do Sócrates" eram muito piores que os "11.53% do Passos Coelho" mas não passam de uma cantilena para adormecer o boi.
Como pode o Gaspar dizer que estamos no bom caminho se não indica minimamente como se podem arranjar os 15 mil milhões de euros em falta?
Vai ser impossível pagarmos o que devemos.

Mas ainda há notícias positivas.
A minha amiga Manuela perdeu o seu gatinho cujo corpo foi para debaixo da árvore e a alma para o céu.
Mas está praticamente com a sua tese de doutoramento concluída.
Claro que está uma pilha de nervos porque "os últimos dias" são os que custam mais a ponto de haver a Nossa Senhora dos Últimos Dias e a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias.
Mas passam depressa.

Fig. 6 - Estou mortinho que a Manuela entregue a tese porque prometeu que, depois, vai trazer esta mulher para almoçarmos juntos. Vamos a isso rápido.

Pedro Cosme Costa Vieira

sexta-feira, 23 de março de 2012

Estive na Universidade de Aveiro - Parte I - a bancarrota

O NEEC-AAUAv convidou-me para dar uma comunicação sobre a saída do Euro.
"Tratou-se de um gesto de confiança dos Portugueses que muito me honra. Senti, naturalmente, o peso desta responsabilidade histórica." (retirado do tal prefácio do Cavaco). 
Aceitei e lá fui com toda a alegria.
Tinha que estar lá às 16h00 e, como saí um pouco atrasado da FEP (às 15h12), fui pela auto-estrada à velocidade supersónica de 120km/h. Nem sabia que a minha máquina dava tamanha velocidade. Estacionei a minha nave espacial (sim, move-se no espaço) em frente à reitoria às 16h03 e ainda tive que correr a toda a velocidade, sempre a perguntar onde ficaria o edifício de Economia, para chegar à hora, mais ou menos.
    - É lá ao fundo, depois daquela curva. 

Mamã, porque será que o Moisés andou 40 anos perdido?
Em pequenino fiz esta pergunta à minha mãe. Sendo o a Península do Sinai  um território relativamente  pequeno (200km de largura e 350km de altura) e sem rios nem montanhas, parecia-me impossível o Moisés ter andado por lá perdido 40 anos. Ainda mais estranho é, logo a seguir à sua morte, a viúva ter  descoberto como se saía dali.
   - Meu filhinho, o Moisés era como o papá que, por mais perdido que esteja, nunca pergunta o caminho.
Dizem historiadores que os pastores que por lá andavam viam aquele povo a caminhar de um lado para o outro sem tino mas pensavam que eram de uma dessas provas de "ultra-maratonas no deserto".
Quando perguntavam ao Moisés "que destino devemos tomar?" respondia como os nossos políticos: "a culpa é de Deus que me confunde os caminhos" (actualmente Deus dá pelo nome de "Santa Crise Internacional").
Mas não, a razão está nos homens não procurarem, em diálogo com os outros, um rumo.
   - Mal o Moisés morreu, a viúva, que era uma Etíope habituada ao deserto, fez uma perguntas aos pastores e passada meia hora já estavam a cruzar o Jordão.

O povo da organização já estava aflito.
Às 14h07 cheguei a um local onde estava uma pequena multidão. Pensei que estivessem alí por ser intervalo das aulas mas não. Por estranho que pareça, estavam ali para me ouvir.
Foi uma demonstração do extraordinário dinamismo das raparigas do NEEC. Mandaram e-mails, afixaram cartazes, intersectaram o povo na rua e, assim, conseguiram arregimentar cerca de 100 pessoas para me ouvir (87 assinaram a folha de presenças).
Foi um recorde para o meu guinness.
A primeira coisa que notei é que o departamente de Economia fica num sítio muito bonito, dando directamente para a Ria de Aveiro.

Fig. 1 - Saindo do edifício de Economia da UA, tirei esta fotografia.

Estará na hora de Portugal sair da Zona Euro?
Foi este o título da comunicação e o pensei para seu objectivo que "está na hora de tomar  uma decisão" (sair ou tentar ficar) mas para isso "precisamos de informação".
A minha comunicação iria apresentar toda a informação "objectiva" necessária à tomada de decisão quanto à saída do Euro.
Prometi não haver nenhum enviesamento a favor da saída mas apenas informação. Apesar de a objectividade ser muito difícil de alcançar, temos que fazer um esforço e, no caso de não o conseguirmos, devemos explicitar que temos uma certa queda para um dos lado.
Se nós estamos certos, se temos confiança no que afirmamos então, a objectividade indicará a nossa opinião. Se temos que esconder alguma coisa, é sinal de que estamos errados.

Então, será preciso saber o que é necessário fazer para nos podermos manter no Euro.
Não basta dizer que queremos ficar, que temos que ficar ou que será uma tragédia sair.
Para podermos ficar temos que fazer coisas e é preciso saber que coisas são essas.
Eu pensava que iria expor o meu caso em 30 minutos mas não consegui.
Falei como uma picareta durante 90 minutos. É obra o povo ter aguentado. Por ser tão extensa, vou dividi-la em 2 postes. No primeiro, este, vou falar como chegamos à bancarrota e na segunda parte, a fazer qualquer dia, vou explicar como vamos sair da camisa de forças em que nos metemos.

PARTE I - Como chegamos à bancarrota

A Teoria das Zonas Monetárias
A Moeda serve principalmente para que exista um preço nominal para cada bem e serviço transaccionado na economia. Sem moeda, havendo 1000 bens e serviços, seria preciso que houvesse 999 preço para cada bem e serviço da economia. Isso daria 499500 preços relativos.
Com moeda (como unidade de preço relativo), só será preciso haver 1000 preços porque com os preços nominais é possível obter qualquer um dos 499500 preços relativos.
Por exemplo, se temos milho = 0.15€/kg e galinha = 1.65€/kg, então calculam que 1 kg de galinha = 13 kg de milho.

Se uma zona monetária for maior, haverá vantagens.
Em termos financeiros é evidente que:
   1. Diminuem os custos de câmbio das moedas;
   2. Diminui o risco cambial (nos contratos que prevêem pagamentos futuros em moeda estrangeira).

Estas vantagens têm implicações económicas positivas:
   3. Aumenta o comércio entre os países o que favorece a exploração das vantagens comparativas;
   4. Abre novas oportunidades de investimento transfronteiriços o que favorece o crescimento;
   5. Aumenta a mobilidade dos factores de produção o que favorece a convergência real.

Mas a evidência histórica diz que cada país tende a ter a sua moeda.
Tirando o exemplo da Zona Euro (que dura há apenas 13 anos e, prevejo, não durará muito mais), as zonas monetárias com mais que um país têm um país grande (por exemplo, a Índia) e um pequeno (por exemplo, o Nepal).
Pegando nos países (que representam as zonas monetárias) e regredindo o PIBpc contra a dimensão do país em termos de população, não vemos nenhuma tendência de aumento do PIBpc com a dimensão da zona monetária (ver Fig. 2).

Fig. 2 - Relação entre PIBpc e dimensão das zonas Monetárias

Apesar de não ser um resultado estatístico forte, os dados (Fig 2) parecem indicar haver uma dimensão óptima para a ZM que estará entre os 35 e os 100 milhões de habitantes. Na Europa, 65% das pessoas vive em países com esta dimensão "óptima" o que não deve ser só coincidência.

Porque falham as Zonas Monetárias multi-país?
Como a teoria parece indicar que uma zona monetária maior é mais eficiente e isso não se verifica, tem que haver razões teóricas para esse "fracasso".

As vantagens são pequenas.
Os custos de câmbio reduziram-se a quase zero.
Actualmente, com os meios electrónicos de pagamento é possível fazer pagamentos automático (com Visa ou Maestro) com um câmbio instantanêo que tem reduzidíssimos custos. É apenas um conta feita por um computador e meia dúzia de bits por um canal de Internet.
Tem menor custos de produção que pagar a portagem numa ex-SCUT em que se passa por um pórtico, a câmara capta a nossa matricula, o computador vai a uma base de dados e lança lá um movimento a débito. Já está.
Se há pórticos que cobram 0.25€, naturalmente que os custos de cobrança são extremamente baixos, menores que 0.05€/transacção.
Num movimento de 100€, são 0.05%.
Isto não é suficiente para ser considerada uma vantagem.

O risco cambial pode ser coberto com instrumentos financeiros (swaps de divisas).
Supondo um contrato de fornecimento de um navio que será pago daqui a 5 anos em Dólares Americanos, USD, o fornecedor pode fazer hoje um contrato de troca entre USD por Euros a executar daqui a 5 anos a um cambio previamente acordado.
Assim, mesmo vendendo em USD, com o contrato de troca tenho o meu preço em Euros. Então, consigo cobrir o risco cambial.
Tem custos mas, como são movimentos electrónico, são diminutos, os tais 0.05%.

As desvantagens
Os ciclos económicos são desfasados
Ao longo do tempo a economia oscila entre períodos de "vacas magras" e de "vacas gordas". Faz parte da realidade económica e não há nada a fazer. É mesmo assim. É como no Verão fazer calor.

Fig. 3 - Evolução do PIBpc ao longo do tempo (fonte: Banco Mundial)

O ciclo económico não está perfeitamente em fase em toda a parte do mundo. Quanto mais distante em termos económicos estiverem dois países, menor é a correlação entre os seus ciclos económicos. Em termos de correlação linear entre o PIBpc temos, por exemplo (1970-2010, fonte: Banco Mundial):

     Portugal / Espanha             0.704
     Portugal / Alemanha           0.569
     Portugal / Coreia do Sul     0.233
     Portugal / Paquistão          -0.122

Como os países não estão na mesma posição do ciclo económico então, as políticas macroeconómicas de estabilização das condições económicas médias da Zona Monetária irão instabilizar os países pequenos e periféricos.
Mais instabilidade implica ajustamentos mais violentos que apenas serão possíveis de fazer se as economias forem muito flexíveis (se houver a possibilidade de, nos períodos de "vacas magras",  ocorrerem descidas nominais nos salários e nos preços).

A evolução da economia portuguesa, grega e alemã no contexto europeu
É repetidamente afirmado que
  Q1. A entrada na União europeia e na Zona Euro foram positivas para Portugal e para a Grécia;
  Q2. O país que mais ganhou foi a Alemanha.
Mas isto é senso comum que precisa ser avaliado com os dados.
Então, peguei no PIB por cada pessoa em idade activa (com idade entre 15 anos e 65 anos, fonte: Banco Mundial) e fiz um gráfico da sua evolução em Portugal e Grécia (os países em bancarrota) e a Alemanha (o tal país que alegadamente nos suga).
Para avaliarmos o dinamismo económico de um país penso ser importante retirar da análise as pessoas sem capacidade de trabalhar (os menores que 16 anos e os maiores que 65 anos).

Fig.4 - Evolução do PIBpcia 1960-2010 (fonte: Banco Mundial, cálculo meu)

O choque petrolífero.
Antes do choque petrolífero de 1973, Portugal e Grécia cresceram à taxa de 7.5%/ano enquanto que a Alemanha cresceu à taxa de 1.8%/ano.
Se tivéssemos continuado a crescer assim, atingiríamos o estado de desenvolvimento da Alemanha em 1985. Mas tal não aconteceu.
Mas, depois de 1973, o nosso crescimento reduziu-se a 0.85%/ano.
O crescimento da Alemanha parece pouco mas é equiparado ao dos USA e leva à duplicação da riqueza produzida por cada pessoa em idade activa a cada 40 anos.

A Entrada na União Europeia
Portugal, com o Cavaco, aumentou o crescimento para 3.3%/ano. E a Alemanha continuou serena no seu "lento" crescimento de 1.8%/ano.
Mais grave para Portugal foi que, depois da nossa entrada na Zona Euro, o crescimento caiu para (considerando 2011) 0.4%/ano.
Apesar das arrancadas, no período 1973-2010, o nosso crescimento foi exactamente igual ao da Alemanha, 1.64%/ano.
Apenas de no período pós-Choque Petrolífero de 1973 a taxa de crescimento da Alemanha ter diminuído,  manteve-se estável nos 1.64%/ano. E a entrada na Zona Euro não teve qualquer efeito positivo perceptível.

A evolução relativa.
Como a Alemanha manteve o seu crescimento lento mas certo, no final acabou por ganhar muito terreno à Grécia (que passou de 68% do PIBpcia alemão em 1973 para 50% em 2013) e manteve-se taco a taco com Portugal (que passou de 48% para 55% mas que vai voltar em 2013 para os 48%).
Faz lembrar a história da lebre e da tartaruga. A gente adormeceu.
Fig. 5 - Em relação à Alemanha, em 2013 voltamos ao nível de 1973 (fonte: Banco Mundial, cálculo meu) 

Conclusão
    Q1. NÃO. Em termos económicos, a entrada na Zona Euro não foram positivas para Portugal nem para a Grécia (ver Fig. 5). Para a Grécia a entrada na União Europeia foi muito negativa e a entrada no Euro foi inicialmente positiva mas foi sol de pouca dura (foi devido ao endividamento).
    Q2. NÃO. E a Alemanha continuou o seu "lento" caminho, não parecendo ter aumentado nem diminuído a taxa de crescimento da sua economia com a entrada no Euro (ver Fig. 4).

Por que diminuiu tanto o crescimento de Portugal e da Grécia em 1973?
Atingimos a fronteira tecnológica ou fizemos de conta que sim.
Os países menos desenvolvidos podem aproveitar a tecnologia dos países ricos para se desenvolverem por imitação. Para isso têm que se deixar os sonhos do Choque Tecnológico, a maluqueira do Sócrates de nos transformarmos nos líderes mundiais das energias alternativas, e procurarmos tecnologia adequadas ao nosso nível de desenvolvimento e que estejam disponíveis a preço de saldo.

As eólicas
Agora os esquerdistas (onde se encontram os que assinaram os contratos com as eólicas e a co-geração) querem que o Passos rasgue os contratos. Eu já tinha avisado em 2006 que a energia "alternativa" era cara (ver, Nuclear reduziria em 50% factura da electricidade). Chamaram-me maluco. Que metesse o reactor em minha casa.
Agora berram que a electricidade é cara. Já me sinto como o Cavaco ("eu bem tinha avisado").

A importação da tecnologia automóvel.
O projecto de um automóvel e o desenvolvimento das prensas e robôs que fazem automóveis demorou dezenas de anos e custou milhares de milhões de euros às contrutoras pelo que não seriamos capazes de o fazer. O Cavaco, aproveitando os fundos estruturais, negociou a instalação em Portugal da fábrica de automóveis da AutoEuropa em Palmela (1991) e a expansão da Peugeot-Citroen de Mangualde (por volta da mesma data). Hoje, Portugal exporta quase tantos automóveis e peças (5.4MM€) como Têxteis e Vestuário (4.1MM€) mais Sapatos (1.5MM€).
A partir de 1973, apesar de termos um nível de rendimento na ordem da metade do da Alemanha, passamo-nos a comportar como se fossemos ricos (apareceram as férias, os subsídios de férias e Natal, houve a redução do horário de trabalho das 48h/s para 40h/s, o aumento da proporção do PIB afecto a salários e a redução da poupança).
 - Também temos direito
Então, ficamos pobres porque faltam factores de produção (falta investimento físico e escolaridade).

Por "coincidência", em 1973 o Japão igualou os USA.
Foi exactamente em 1973 que o Japão deixou de crescer como um país atrasado (+7.3%) e passou a crescer como um país na fronteira tecnológica (+1.7%/ano). A partir desse ponto, o país já não consegue crescer por imitação pelo que se passou a comportar como as economias mais desenvolvidas.
Notar que o Brasil nunca teve o crescimento próprio de uma economia em desenvolvimento tendo, no máximo, atingido um crescimento do PIBpcia de 4%/ano.
Para digerir a tecnologia importada a preço de saldo, o povo não pode classificar as ideias do exterior como "colonização" mas antes como "ajuda ao seu desenvolvimento".

Fig. 6 - Em 1973, o Japão atingiu o PIBpcia dos USA (fonte: Banco Mundial, cálculo meu)

Os preços aumentaram.
A entrada na Zona Euro iniciou um processo de alteração dos preços relativos. Alguns países acumularam inflações mais elevadas que a média (os que estão agora em dificuldades) e outros ficaram abaixo da média
      Alemanha   119.1
      Portugal      134,0       +11.1%
      Ireland         136,9      +13.0%
      Spain            139,4      +14.6%
      Greece         146,7      +18.8%
(2010, 100 em 1998, fonte: Banco Mundial)

Os salários aumentaram (e o horário de trabalho diminuiu).
Desde que entramos no Euro, a redução do horário de trabalho (de 45h/s para 40h/s) induziu um aumento dos custos do trabalho em 12.5%. Acresce que, por exemplo, o Salário Mínimo Nacional aumentou no período 2005-2010 15% acima dos aumentos da produtividade.

Fig. 7 - Comparação entre a evolução do PIBpcia e o Salário Mínimo Nacional

O Dólar Americano desvalorizou significativamente
Relativamente à cotação média do USD no período 2000/2002 (0.90USD/Euro), o USD desvalorizou um máximo de 42% em finais de 2008 (para 1.55USD/Euro) estando actualmente em 1.35USD/Euro que representa uma desvalorização de 33% relativamente à data da nossa entrada no Euro.
Esta desvalorização prejudica as nossas exportações denominadas em USD e representa uma concorrência acrescida nos mercados denominados em Euros.

Fig. 8 - Evolução da contação do USD/Euro (fonte: FED)


A Balança Corrente desequilíbrou-se
O aumento dos preços, dos custos do trabalho e a desvalorização do USD criaram dificuldades acrescidas às nossas exportações e tornaram mais atractivos os produtos importados.
Naturalmente, as nossas contas com o exterior desequilibraram-se.
Importarmos mais que exportamos aumenta a nossa qualidade de vida mas ficamos endividados.

Fig. 9 - Evolução da balança corrente portuguesa (Fonte: Banco Mundial e Banco de Portugal)

Os desequilíbrios externos persistiram e foram-se acumulando ao longo dos anos atirando-nos para a zona de "perigo de bancarrota" juntamente com a Grécia. ficamos mesmo encostadinhos um ao outro.

Fig. 10 - Défice Corrente acumulado nos países da Zona Euro (Fonte: Banco Mundial)

No espaço de 13 anos, Portugal e a Grécia acumularam (acumulamos) um défice corrente próximo de 120% do PIB e nos últimos 3 anos (a resposta à crise do "subprime" tivemos défices próximos dos 12% do PIB por ano).

Não há mal que sempre dure nem bem que nunca acabe.
Com um Défice Corrente persistente de 10% do PIB (rever Fig. 8) algum dia iríamos ficar sem crédito.
Nunca nenhum país, em tempo de paz, conseguiu a proeza de acumular um défice corrente de 120% do PIB em tão curto espaço de tempo.
Nós, juntamente com os gregos, somos povos pioneiros da grande calotice. Vamos para o Guinness por esta proeza.
Mas algum dia isto iria acabar. E acabou em Janeiro de 2010.
Nessa altura, as taxas de juro dispararam dos 4%/ano para os actuais astronómicos 13.5%/ano
Agora, apenas temos algum dinheiro porque os países nossos amigos nos estão a ajudar.

Fig. 11 - Evolução das taxas de juro a 10Y (implícitas) da dívida pública.

Pedro Cosme Costa Vieira

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