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segunda-feira, 13 de maio de 2013

A moeda, o crédito, o financiamento e o juro - parte 2 - O sistema de preços

Na tentativa de explicar que o sistema monetário não tem nada a ver com o sistema bancário (a poupança e o endividamento), descrevi no primeiro poste o funcionamento do crédito, financiamento e juro e de como o sistema bancário pode existir sem haver moeda. Para isso considerei uma economia em que apenas existe poupança de galinhas.
Mas na economia onde vivemos, por um lado, são produzidos milhões de diferentes bens e serviços e, por outro lado, cada pessoa trabalha numa empresa que produz um pequeno número de B&S. Como as pessoas querem emprestar e pedir emprestado uma grande multiplicidade de B&S (que torna o sistema muito complexo) e também cada individuo quer consumir B&S que não produz então, é necessário que existam trocas entre as pessoas. Mas para que isso seja possível é preciso que exista um sistema de preços.
Podemos pensar que o sistema bancário apenas funciona com galinhas mas que as pessoas que têm outros bens, trocam-nos por galinhas que depositam no banco e quem quiser pedir emprestado sapatos, pede emprestadas galinhas ao banco que depois troca por sapatos.

O sistema de preços.
Imaginemos que uma pessoa trabalha numa fábrica de sapatos. Naturalmente que a única coisa que pode receber como pagamento do seu trabalho são sapatos, 30 pares por mês. Mas o trabalhador não precisa de tantos sapatos querendo, pelo contrário, electricidade, roupa, pão, transportes, telecomunicações, etc. Então, tem que haver um sistema de trocas em que o sapateiro possa trocar os sapatos que recebe por outras coisas que quer ter e não recebe.

A relação de troca.
Se eu quero trocar sapatos por pães, eu tenho que saber quantos pães eu obtenho por cada par de sapatos, por exemplo, 300 pães por cada par de sapatos. Esta relação de 1:300 é a relação de troca entre sapatos e pães.
Também haverá uma relação de troca entre sapatos e camisas, sapatos e chamadas telefónicas, etc. e também entre camisas e pães, pães e chamadas telefónicas, etc.
Se houver 10 mil B&S na economia, haverá quase 50 milhões de diferentes relações de troca  mas parcialmente relacionadas. Por exemplo, com as relação de troca sapatos:pães e sapatos:camisas posso calcular a relação de troca pães:camisas.

Simplifica se tivermos uma referência de valor.
Haver relacionamento entre as relações de troca indica que, em termos de informação, podemos condensar todas as relações de troca a 9999 relações de troca de cada B&S a um determinado bem referencia, por exemplo, gramas de ouro. Agora, vou chamar Preço à relações de troca do Ouro com o B&S.
          1 par de sapatos  -> 10.31 kg de galinha
          1 pão                   ->    0.03 kg de galinha
          1 camisa              ->    3.17 kg de galinha
          ...
Agora, tendo na economia em que vivemos 10000 bens e serviços, em vez de 50 milhões de relações de troca já só preciso ter 10000 preços (relações de troca com a galinha).
Agora, o meu trabalho que resultava em 30 pares de sapatos, também tem um preço :
          1 mês de trabalho do sapateiro -> 309.10 kg de galinha

A galinha é um bem como outro qualquer.
A referencia para o preços dos B&S poderia ser uma coisa qualquer. historicamente, surgiu o Ouro que tem a vantagem de parecer um bocadinho de Sol (a fonte da vida), não se deteriorar com o tempo, ser difícil de falsificar e ser de difícil multiplicação (não se pode criar).

Ainda não existe confusão entre B&S e moeda.
Apesar de eu referir todos os preços a galinhas, não é preciso eu trazer galinhas no bolso. Basta eu ter essa referencia, por exemplo, a memoria das pessoas ou numa tabuleta colocado à porta do "cantineiro" (como acontece com a cotação de activos transccionados na bolsa de valores mobiliários) onde se afixam os 9999 preços referentes a todos os bens e serviços produzidos e trocados na economia.
O sistema de contabilização pode ser apenas um caderninho centralizado no "cantineiro" onde vão sendo lançadas todas as transacções, a dinheiro ou a crédito e calculado o saldo de cada pessoa (que funciona como o dinheiro no bolso).

Mas o preço absoluto é indeterminado.
Dos 10000 B&S eu consigo ter 9999 preços relativos às galinhas e o preço da galinha é unitário (o preço de 1kg de galinha é 1 kg de galinha).
Se os preços forem

          1 par de sapatos  -> 10.31 kg de galinha
          1 pão                   ->    0.03 kg de galinha
resulta que 1 par de sapatos é equivalente a 343.7 pães. Mas se os preços fossem antes

          1 par de sapatos  -> 1031 kg de galinha
          1 pão                   ->       3 kg de galinha
continuava a resultar que 1 par de sapatos é equivalente a 343.7 pães.
Então, o "meu" sistema de preços consegue registar o preço relativo entre quaisquer 2 bens mas não consegue um valor absoluto para os preços.
Como será que esta indeterminação pode ser "levantada"?

Fig. 1 - Se conseguires manter isso estável, mesmo que não saibas cozinhar, caso já contigo.

O Ouro como moeda.
Vou agora pedir que, em vez de galinhas, passemos a usar o Ouro como moeda porque a quantidade é praticamente fixa. No Mundo existe na forma de metal cerca de 170 mil toneladas de ouro (24 g por cada humano) e esta quantidade aumenta 1.5%/ano principalmente por causa da África do Sul, Austrália e USA (somam 40% da mineração mundial).
Fixemos na nossa mente que a quantidade de ouro aumenta 1.5%/ano.

A moeda como reserva de valor.
Se a moeda não tiver existência física, seja na forma de moedas ou de um registo num livro, as transacções têm que se feitas em simultâneo e em valor equivalente. Por exemplo, se os preços relativos permitem que eu troque um par de sapatos por 50 pães, 500 chamadas telefónicas e uma camisa, eu tenho que arranjar forma de a troca entre o meu bem e os outros 3 bens se realizar em simultâneo. Naturalmente que isto cria muitos problemas pois é impossível que a mesma pessoa queira um par de sapatos (do número que eu tenho) e que tenha disponíveis para troca os 3 bens que eu pretendo.
Para resolver este problema vou ter que cortar as trocas usando a moeda como intermédio das trocas.

A moeda como reserva de valor permite pagamentos diferidos no tempo.
Agora cada troca vai ser dividida numa venda e numa compra.
A venda será eu trocar o meu par de sapatos por 1.031g de Ouro que guardo até realizar as compras dos pães (a uma pessoa), das chamadas telefónicas (a outra pessoa) e da camisa (a uma terceira pessoa) a quem entrego o Ouro onde eu tinha "guardado" o preço do meu par de sapatos.
Eu posso "guardar" valor nas moedas para pagar compras que vou fazer no futuro. Ao deter moedas (mesmo que isso seja apenas um registo num livro), vou "guardar" recursos para o futuro podendo assim fazer pagamentos diferidos no tempo.

Agora começa a confusão entre bens e moeda.
Eu recebo 30 g de Ouro pelo meu trabalho de 1 mês porque o meu patrão vende sapatos (em troca de Ouro) e consegue pagar as peles e demais factores de produção e ainda ficar com 30 g de Ouro para pagar o meu salário.
Com os 30 g de Ouro eu vou comprar, ao longo do mês, B&S que vou consumindo.
Se eu comprar B&S de forma constante ao longo do mês, em média vou ter 15 g de Ouro no bolso.

Os preços absolutos - a restrição de liquidez.
Agora já estamos preparados para compreender porque os preços têm um determinado valor em termos absolutos.
É que a quantidade de Ouro é fixa, 24 g de ouro por pessoa, crescendo 1.5%/ano.
Como as pessoas precisam ter na sua carteira moedas para poderem separar o momento em que realizam as vendas do momento em que realizam as compras, o nível de preços vai compatibilizar a necessidade das pessoas terem moeda em termos de capacidade de comprar B&S (valor real) com a quantidade física de moeda que existe (valor nominal).
A quantidade em termos de valor real que as pessoas precisam ter, m, vai ser igual ao valor nominal de moeda que existe (kg de Ouro), M, a dividir pelo nível geral de preços, P.

    m = M / P

O nível geram de preços é o preço médio de todos os B&S transaccionados na economia e dá o preço do Ouro relativamente à média dos preços (o preço da moeda é o inverso do nível geral dos preços, P).
A quantidade de moeda em termos real que eu preciso ter na carteira é proporcional ao meu rendimento. Então, vou ter uma igualdade em que, de um lado tenho a quantidade m de moeda e, do outro lado, tenho as necessidades de moeda como uma percentagem do PIB. Por convenção representa-se essa percentagem como 1/V em que V é a velocidade de circulação da moeda (quantas transacções são feitas com a mesma moeda num ano)

    m = PIB / V

É a teoria quantitativa da moeda.
Igualando a quantidade de moeda que existe com a quantidade de moeda que é precisa, obtemos uma relação que determina o nível geral dos preços em função da quantidade física de moeda que existe, M, de quantas transacções uma moeda faz por ano, V, e do valor do PIB: 

       M / P = PIB / V    =>      P = M x V / PIB 

Se a velocidade de circulação, V, diminuir porque as pessoas passam a guardar as moedas  mais tempo ou se o PIB aumentar ou a quantidade de moeda M diminuir, o nível geral de preços, P, vai diminuir (haverá deflação) e vice-versa.
Em particular, se a quantidade de moeda, M, aumentar, o nível geral de preços, P, vai aumentar (haverá inflação).
Estando, desde há 40 anos, o PIB mundial a crescer 3.0%/ano (ver, Fig. 2) e a quantidade de ouro 1.5%/ano então, os preços (em ouro) têm tendência a cair 1.5%/ano (o Ouro aumenta o seu poder de compra por kg em 1.5%/ano).

Fig. 2 - Crescimento do PIB mundial, 1961-2011 (dados: Banco Mundial)

Vamos ver a velocidade de circulação do ouro.
O PIB mundial são 70 mil milhares de milhões de dólares americanos.
A cotação do ouro é de 50 dólares americanos por grama e existem cerca de 175 mil toneladas de ouro. Estas relações traduzem que a velocidade de circulação do ouro é 8 vezes por ano. Em média, ao longo de uma ano, uma moeda de ouro é usada para intermediar 8 compras/vendas. Entre cada duas transacções, a moeda de ouro fica parada 45 dias.

A quantidade de moeda não tem efeito real.
O Ouro não são bens e serviços mas apenas um sistema contabilístico que regista o saldo de todas as compras e vendas de bens e serviços que cada pessoa fez no passado. Se eu vendi coisas mais valiosas que as coisas que eu comprei então, tenho saldo positivo que posso usar em compras futuras. Se eu vendi menos coisas que as que comprei então, tenho saldo negativo que tenho que compensar com vendas a realizar no futuro.
 Haver mais ou menos kilos de ouro em nada influencia o PIB. A única coisa que vai acontecer é que, quando a quantidade de moeda aumenta (mais kg de ouro), os preços aumentam (o ouro desvaloriza) e vice-versa.
Por exemplo, se, de um dia para o outro, fosse descoberto um tesouro com 175000 toneladas de ouro, duplicando a quantidade existente no Mundo, os preços em termos de ouro duplicariam ( => a cotação do ouro desceria para metade).


Fig. 3 - Os meus colegas ensinarem que mais inflação leva a mais crescimento económico (e menos desemprego) é um crime do calibre de ensinarem em medicina que uma sangria diminui o colesterol, digo eu que não sei nada de economia (dados: Banco Mundial, médias 2005:2011, 180 países, ponderado pela população).

Moeda Fixa e crescimento do PIB => deflação.
Apesar de os comentadores dizerem repetidamente que a deflação é algo nunca visto, de facto, durante todo o tempo de duração do Império Romano foi exactamente isso que se observou. Na Europa não existiam jazidas significativas de ouro pelo que a quantidade era praticamente fixa. Como o PIB crescia e a quantidade de moeda, Ouro, era fixa, os preços tinham que cair para se manter constante a relação M/P.

A velocidade de circulação é estável no longo-prazo mas variável no curto-prazo.
No passado (antes de 1950), os governos pouco se importavam em estabilizar os preços.
Havia uma determinada quantidade de moeda em circulação e, quando as pessoas queriam ter mais moeda, os preços caiam (deflação => a moeda física valorizava) e quando queriam menos moeda, os preços subiam (inflação => a moeda física desvalorizava). As pessoas tinham sempre os mesmos kilos de ouro que umas vezes valia mais (havia deflação) e outras vezes valia menos (havia inflação).
Só depois da WWII, os governos começaram-se a preocupar com a estabilização dos preços porque deu-se conta que as oscilações criavam dificuldade no ajustamento da economia.

Como se pode variar a quantidade de moeda em circulação?
Vamos supor que o governo quer manter os preços estáveis (inflação nos 0%/ano). Para um crescimento económico de 3%/ano, a quantidade de moeda em circulação tem que aumentar 3%/ano.
Apesar de o Japão tem como política a manutenção do nível geral de preços, política que a China também manteve entre 1996 e 2003, o aceite actualmente como bom é manter a inflação em torno dos 2%/ano (ver Fig. 4). Mas se for outra taxa qualquer, também não vem grande mal ao mundo (ver, Fig. 3).

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Fig. 4 - Evolução do nível geral de preços, 1995:2011 (dados: Banco Mundial)

A estabilidade de preços no longo-prazo.
Se a moeda fosse o ouro que cresce apenas 1.5%/ano, como o PIB mundial cresce 3.0%/ano, no longo-prazo haveria uma tendência de queda dos preços (deflação de -1.5%). Mas para a nossa análise não nos interessa qual o nível que o governo determina qual deve ser a taxa de inflação de longo-prazo. Vamos supor que a quantidade de ouro aumenta exactamente 3.0%/ano de forma a que a inflação seja 0%/ano.

A estabilidade de preços no curto-prazo.
Mas, no curto prazo, as necessidades de moeda variam muito (a velocidade de circulação da moeda diminui nos períodos de crise) pelo que o governo que quer manter o nível geral de preços estável tem que ter à mão formas de aumentar rapidamente a quantidade de moeda em circulação quando os preços têm tendência a cair e vice-versa.
Agora, existem várias formas de o fazer.

O uso do sistema orçamental no controle da inflação.
É um sistema conceptualmente muito simples e a mãe de todos os outros sistemas. Neste sistema não existe taxa de juro mas apenas o saldo do Orçamento do Estado.
Vamos supor que existem em Portugal 400t de ouro em circulação (correspondente a 8.3% do PIB, 40 g por pessoa) e que o governo tem, adicionalmente, 100t de ouro em reservas monetárias (2% do PIB) que vai usar para manter a inflação estável.

Quando a inflação estiver abaixo do objectivo,  -1%/ano do objectivo, o governo vai ter que usar parte das reservas cambiais para aumentar a quantidade de moeda em circulação em 1% (+4t de ouro) o que consegue aumentando o défice público no valor correspondente às 4 t de ouro (140 milhões€) pelo aumento da despesa pública ou pela redução dos impostos. O governo vai financiar o aumento do défice com as reservas monetárias.

Quando a inflação estiver acima do objectivo, -1%/ano do objectivo, o governo tem que reduzir a quantidade de ouro em circulação em 1%, 4t, aumentando as reservas monetárias. Agora, o governo vai ter que ter superávite de 140 milhões €. Vai ter que reduzir rapidamente a despesa pública ou aumentar os impostos. O governo vai retirar moeda de circulação guardando parte dos impostos (em ouro).

Este sistema é perfeitamente adequado para controlar a taxa de inflação. No entanto, o governo tem que ser capaz de manter sólidas contas públicas e completamente "escravas" do objectivo de control da inflação. E, reparando como funcionam os nossos governos, isso é muito difícil de conseguir.

Fig. 5 - É possível ser feito mas ouvindo os ex-governantes que se tornaram comentadores de economia, é muito difícil que se consiga fazer.

Sob o padrão ouro (a quantidade de moeda é fixa), quando um governo queria "politicas fiscais expansionistas" durante muito tempo, esgotava as reservas de ouro deixando de poder controlar a inflação. As politicas monetárias expansionistas não têm qualquer efeito no PIB (rever, Fig. 3).

O sistema orçamental não confunde com o sistema bancário mas confunde com o Orçamento de Estado.
Este sistema de controle da inflação não tem qualquer intersecção com o sistema bancário (o credito, débito e o juro) mas confunde o conceito de umas contas públicas equilibradas  com uma politica monetária expansionista.
Este sistema tem a vantagem de ser um sistema intrinsecamente estável.
Quando há crises, as pessoas querem deter mais moeda (a velocidade de circulação diminui) havendo necessidade de aumentar a quantidade de moeda em circulação. Se nada for feito, há deflação.
Por acaso, quando há crises, a receita fiscal diminui e a despesa pública aumenta (há défice público). Financiando o défice com as reservas monetárias, há uma correcção da deflação e consegue-se financiamento para o défice público.
Nos períodos de expansão, o mecanismo funciona em sentido contrário.

Acabo por aqui mesmo.
Agora que já consegui ter um sistema de preços sobre um sistema monetário em que se consegue controlar o nível geral de preços sem usar qualquer taxa de juro, penso que posso parar por aqui.

Podia falar um pouco da actualidade política.
O FCPorto já estava morto havia várias semanas e cheirava mal. Não foi num domingo, ao 3.º dias por 5-0, mas apenas ao 91.º minuto de um dia de Sabatt.
Aleluia que o bicho ressuscitou.

Passou-se o mesmo com um fulano búlgaro.
O primeiro-ministro búlgaro, Boyko Borisov, demitiu-se em Fevereiro de 2013 porque toda a gente protestava nas ruas contra a austeridade.
Agora, vamos-nos benzer. Não é que Domingo houve eleições na Bulgária e o homem ganhou-as?
Por isso, Passos aguenta-te que, mesmo com os do teu partido contra, sem 2015 vais ganhar.
Depois de medidas tão duras, o silêncio da rua demonstra que o nosso povo sabe que vamos no bom caminho.
É que já nem os fulanos da CP fazem greve.
Devias era ter a coragem de permitir que, nos privados, os salários desçam e o horário de trabalho aumentem, voluntariamente.

Pedro Cosme Costa Vieira

quinta-feira, 9 de maio de 2013

A moeda, o crédito, o financiamento e o juro - parte I - O sistema bancário

Moeda não é crédito nem financiamento.
Estas coisas são totalmente distintas  mas, na mente das pessoas comuns, parecem a mesma coisa.
Haver confusão na mente das pessoas apenas indica que a Economia não é senso comum mas que tem conceitos complexos e de difícil compreensão sem um estudo aprofundado. 
A Economia trata com uma realidade tão complexa e longe do senso comum que, mesmo nas pessoas com formação em economia, existe bastante dificuldade em compreender os conceitos "básicos".
No caso da moeda, que não existe na natureza não humana (é uma criação da humanidade), existe no senso comum uma confusão total com outras realidades como, no caso, o crédito e o financiamento.
Eu já escrevi muito sobre isto (que agreguei num índice - O sistema monetário) mas, como o Ricardo Mendes me voltou a colocar esta questão com a convicção de que estava certo e eu errado apresentando mesmo um vídeo com dois homens a falar que não têm a mais pequena noção do que estão a dizer, vou ter que me aplicar a fundo para tentar que o amigo leitor fique com um pouco mais de luz.

Fig. 1 - Por falar em Luz, no Sábado vão apanhar para aí uns 5-0 do Dragão, penso eu de que.

No entanto, o pior dos cegos é aquele que não vê porque não quer ver.  Pensando no que diz o Gordon Ramsay repetidamente (do Hell's Kitchen), enquanto estivermos em negação, nunca conseguiremos ver a verdade.
Então, se o amigo leitor quer acreditar com toda a força que moeda, crédito e financiamento são a mesma coisa, se quer continuar a ver o sistema financeiro como a mesma coisa que o sistema monetário e que ambos são criações do diabo, muito dificilmente poderá ver a verdade.
Não é fácil tomar consciência que a Terra anda à volta do Sol ou que o homem teve origem no macaco, mas temos que acreditar que, com esforço, é possível derrotar a ignorância.
Não podemos ficar como as testemunhas de Jeová (ou os católicos) que não querem ver que, se nós temos defeitos, Deus também tem efeitos (diz na Bíblia : "E criou Deus o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou."  Gen 1:27).
Para não ficar um texto muito pesado, neste poste vou apenas tratar do crédito, financiamento e taxa de juro e no próximo poste (Parte 2 - O sistema de preços.) vou tratar do sistema monetário e, finalmente, vou fazer a ligação entre os dois sistemas.

O que é o crédito e o financiamento.
O crédito e o financiamento são as duas faces da mesma faca.
Se eu empresto uma galinha ao meu vizinho, eu concedo um crédito (de uma galinha) passando a ser credor e ele aceita um financiamento (de uma galinha) passando a ser devedor.
Não pode haver financiamento sem crédito nem pode haver crédito sem financiamento e as suas quantidades são exactamente iguais.
Se o total de crédito concedido na economia são 100 galinhas, 3 porcos, 2 vacas e 100 alqueires de milho, o financiamento na economia são exactamente 100 galinhas, 3 porcos, 2 vacas e 100 alqueires de milho.

Fig.2 - A faca não pode existir com apenas um dos lados.

O juro.
Se eu concedo ao meu vizinho o crédito de 10 galinha, ele obtém um financiamento de 10 galinhas.
O meu problema é que se o meu vizinho for à bancarrota (por exemplo, vier uma seca), eu fico sem as minhas 10 galinhas. Então, eu quero que ele faça um "seguro de crédito" junto de uma seguradora que lhe cobra  um determinado quantitativo (o prémio do seguro), 1 galinha. 
Eu empresto 10 galinhas e, passado um determinado tempo, se tudo correr bem, o meu vizinho paga 10 galinhas a mim e 1 galinha à seguradora. Se tudo correr mal, o meu vizinho não paga nada mas a seguradora paga-me as 10 galinhas. Então, a seguradora assume o risco do crédito podendo ter um  um prejuízo de 10 galinhas (com a probabilidade p) ou um lucro de 1 galinha (com a probabilidade 1-p). Em termos esperados, a seguradora exige 1 galinha porque antecipa um risco de 9.091% de bancarrota total:
       1 x (1 - p) -10 x p = 0   => p = 9.091% (equivalência que faz o lucro esperado nulo).

Agora sou eu, o credor, a seguradora.
A ser assim, tendo emprestado 10 galinhas, se tudo correr bem, vou receber (como diz no contracto) 11 galinhas. Então, vou receber o capital (10 galinha) mais 1 galinha de juro.
Mas essa galinha não é nenhuma exploração do devedor pois pode pedir as galinhas a outro qualquer. O juro é apenas o prémio que a seguradora levava para assumir o risco. Agora, O risco fica por minha conta, se o devedor for à bancarrota, eu não recebo nada.
Em termos económicos, naturalmente que os devedores com mais risco terão que pagar uma taxa de juro maior senão, os devedores adoptarão estratégias demasiadamente arriscadas.

Haverá casos de juros exagerados (usura)?
Quando nós estamos a nadar no mar e começamos a afogar, se quem nos for salvar nos exigir uma avultada soma de dinheiro, nós somos obrigados a pagar para não morrermos. Parece que, se não conseguíssemos pagar uma pipa de massa, morreríamos afogados.
Mas não é isso que aconteceria.
Primeiro, tomávamos mais cuidado. Apenas nadávamos em dias de águas calmas, com bóias e próximo da costa -> não assumíamos tantos riscos.
Segundo, se morrêssemos, o socorrista não receberia nada. É o problema do monopolista que, apesar de querer cobrar um preço muito alto, vai ter que moderar o preço porque tem que vender para ter lucro.
Terceiro, apareceriam muitos nadadores-salvadores. Como a profissão de nadador-salvador seria muito lucrativa, apareceriam mais pessoas, em concorrência, capazes de socorrer os náufragos o que diminuiria o "preço" de sermos socorridos.

Quarto, íamos nadar onde houvesse maios salvadores. Como havendo concorrência, conseguíamos um salvamento mais barato, os banhistas juntavam-se onde houvesse mais nadadores e os nadadores juntavam-se onde houvesse mais pessoas: o mercado aglomerava-se em multidões de náufragos e de salvadores, todos em concorrência.

Fig. 3 - As mulheres boas aproveitam-se da situação de necessidade dos homens.
Mas se não houvesse preços diferenciados, as mulheres não se tratavam e as putas feias e gordas não tinham saida nenhuma.

No crédito/financiamento passa-me algo semelhante - É a taxa de juro real.
Se houver no mercado poucas pessoas a querer emprestar galinhas e muitas pessoas a precisar de pedir galinhas emprestadas, o juro virá superior ao prémio do seguro de risco, juro > 1/(1-p).
Se, pelo contrário, houver no mercado muitas pessoas a querer emprestar galinhas e poucas pessoas a precisar de pedir galinhas emprestadas, o juro virá inferior do prémio do seguro de risco, juro < 1/(1-p).
Esta diferença é a taxa de juro real, aquela que, sem risco, traduz um ganho (se for positivo) ou perda (se for negativo) patrimonial de quem concede o crédito com uma contrapartida em quem pede emprestado. Cada galinha que o emprestador perde, é uma galinha que o devedor ganha e vice-versa.
Não existe qualquer perda para a sociedade por a taxa de juro real ser alta ou baixa pois o ganho de uns é sempre a perda de outros. É apenas uma questão de re-distribuição.

É importante que a taxa de juro real varie ao longo o ciclo económico.
Vamos supor que a produção oscila ao longo dos anos (igualmente para todas as pessoas) e que não é possível constituir stocks (a arca frigorífica está avariada). No ano bom cada pessoa produz 600 galinhas e no ano mau produz apenas 130 galinhas.
Como as pessoas querem comer sempre o mesmo (1 galinhas por dia) e não podem constituir stocks, vão querer emprestar 235 galinhas no ano bom para terem 365 galinhas (130+235) no ano mau.
O problema é que no ano bom toda a gente quer emprestar galinhas e ninguém quer pedir galinhas empestadas e, no ano mau, ninguém tem galinhas em excesso para pagar o financiamento obtido no ano bom.
Então, a taxa de juro real do ano bom tem que ser muito inferior à taxa de juro do ano mau.
Por exemplo, vou fazer um contracto em que emprestando 10 galinhas no ano bom, vou receber 3 galinhas no ano mau (uma taxa de juro de -70%). Outro contrato pode dizer que, se eu emprestar 10 galinhas no ano mau, vou receber 30 galinhas no ano bom (um juro de 300%).
Se a taxa de juro fosse sempre igual, por exemplo, 0%/ano, o mercado de crédito/financiamento deixava de existir pois era muito elevado (não haveria devedores potenciais) nos anos bons e muito baixo nos anos maus (não haveria credores potenciais).

E qual é o objectivo dos bancos comerciais?
O seu objectivo é apenas comprar e vender galinhas mas a crédito/débito e fazer seguros de crédito.
Eu não quero risco pelo que, querendo emprestar uma galinha, vou ao banco e deposito-a.
Outra pessoa quer pedir uma galinha emprestada, vai ao banco e, mediante o pagamento do "prémio do seguro de crédito" (um juro que é crescente com o risco de bancarrota do devedor), o banco empresta-lhe a galinha.
Repito que eu podia emprestar a galinha directamente à pessoa que a quer emprestada e fazer eu o seguro (cobrar o juro). Mas, como o banco tem muito movimento, consegue diversificar o risco do negócio.

Vamos supor que 9% dos devedores vão à bancarrota.
Se eu empresto 10 galinhas, tenho 9% de probabilidade de o meu devedor ir à bancarrota e eu ficar sem nada.
Se 100 pessoas depositarem cada uma 10 galinhas no banco (juro zero) e o banco emprestar 10 galinhas a 100 clientes diferentes (um total de 1000 galinhas) cobrando um juro de 10% então, se 9 pessoas bancarrotarem (os tais 9%), o banco recebe 1001 galinhas podendo devolver 10 galinhas a cada depositante (o banco tem 1 galinha de despesas administrativas).
O depositante das galinhas recebe apenas 10 galinhas mas recebe-as sempre.
Se os devedores não pagarem ao banco, é o capital dos seus donos que responde pela perda. Mas também se pagarem todos, o lucro vai para o banqueiro.

Será preciso crédito para haver crescimento económico?
Afirmar isto é uma loucura semelhante à afirmação do Sócrates de que "produzir electricidade com o vento não custa dinheiro ao país" para depois fazer contractos em que enfia pipas de massa no bolso dos gajos dos vira-ventos. Se não custava nada, não era preciso fazer contracto que agora nos obrigam a pagar milhões todos os dias.

Vamos então ao crédito para o investimento.
Para haver crescimento económico tem que haver mais trabalho (mais pessoas e mais horas por pessoa) e mais capital.
Se eu sou agricultor, para produzir mais nas 70h/semana que trabalho, tenho que melhorar o meu sistema de rega e fazer socalcos que consigo investindo parte do meu tempo de trabalho nestas coisas.
A necessidade do crédito/financiamento deriva de a maior parte das pessoas não querer assumir riscos. Quer ser empregado por conta de outro com um ordenado fixo ao fim do mês e quer que as galinhas que emprestam voltem com certeza quando chegar a hora.
Por exemplo, eu podia ter uma empresa com 100 trabalhadores com 5000 galinhas de capital sem qualquer financiamento se cada um dos trabalhadores fosse dono de 1% do capital (cada trabalhador metia 50 galinhas na empresa). Mas isso tinha risco.
Como a grande maioria das pessoas quer um rendimento fixo, arranja um emprego (tenta) e deposita as suas galinhas num banco. Depois, há um empresário que pede as galinhas emprestadas ao banco, paga um juro que cobre o seu risco de bancarrota, e fica ele dono de 100% da empresa.

Vejamos os exemplos da privatização da TAP (dos ENVA ou da RTP).
Quando o Eframovich disse que dava 20 milhões € ao Estado, os 12 mil trabalhadores que vieram dizer que o preço era baixo, que a TAP era muito lucrativa, blá, blá, blá, blá e que o Passos estava a vender uma fortuna por tostões deveriam ter dito:
 - Nós damos esse dinheiro e a TAP fica nossa. Afinal só calha 1650€ a cada um.
O problema é que os salários passavam a ser variáveis: se a TAP desse prejuízo (como vai continuar a dar), eram eles que entravam na madeira e não nós contribuintes.
Repito a pergunta que fiz há uns meses àqueles comentadores que disseram que a TAP era muito lucrativa (onde se inclui o meu ex-amigo de não sei que universidade americana).
A TAP devolveu aqueles 100 milhões de euros ao Tesouro "necessários apenas porque estava no processo de privatização"? Não me parece.

Para haver crédito aos investidores, tem que haver poupança das famílias.
E não há. Ainda se acrescenta o facto da balança corrente estar equilibrada (não estou a dizer que isso é mau).
Não haver poupança das famílias é o problema mais grave da nossa economia (ver, Fig. 4). Como todos os anos parte do capital se torna obsoleto (estimado pelo WB em 18% do PIB) e a nossa poupança é de apenas 11% do PIB então, cada dia que passa o nosso trabalho torna-se menos produtivo porque os equipamentos ficam envelhecidos.
É bonito os esquerdistas virem para a televisão apregoar que "os salários têm que aumentar para aumentar o consumo" mas depois não há poupança, sem poupança não há investimento, sem investimento a produtividade do trabalho diminui e, conclui-se pela necessidade de os salários terem que diminuir. Não diminuem e o povo vai para casa ver os esquerdistas na televisão a apregoar que os salários têm que aumentar.

Fig. 4 - A poupança em Portugal está muito baixa (a depreciação do capital é de 18% do PIB e a poupança bruta é de 11% do PIB, dados: Banco Mundial)

Como se equilibra o mercado de crédito/financiamento?
A situação neutra é ter uma taxa de juro (sem risco) nula e a taxa de juro ser uma compensação pelo risco de bancarrota de cada devedor. Os devedores com mais risco terão que pagar mais juros (pelo menos é o que diz o contracto pois, em caso de bancarrotarem, não pagam nada) e os com menos risco terão que pagar menos juros.
No entanto, se houver muita poupança das famílias e poucas ideias de negócio (pouca propensão a investir), a taxa de juro desce abaixo de zero.
É esta a situação que vivemos actualmente e deve-se ao facto das famílias asiáticas, principalmente as chinesas, pouparem muito e o PIB da China estar a crescer muito (um PIB maior faz com que a poupança da china, em termos mundiais, fique maior). Então,  existe uma quantidade crescente de crédito disponível com origem na Ásia e nos países ocidentais (onde a poupança está historicamente baixa) não existem ideias para novos investimentos.
Somando a poupança do Japão com a da China e da Índia (que ainda é uma pequena economia mas está a crescer), entre 1980 e 2000 a poupança esteve estável em 15 PIBs portugueses ( a China subiu mas o Japão desceu) mas, desde 2000, a poupança destes 3 países duplicou para 30 PIBs portugueses (ver, fig. 5).

Fig. 5 - A poupança do Japão + China + Índia em PIBs portugueses (dados: Banco mundial)

O que precisa de muito capital é a indústria. Como na Europa não existem projectos industriais de monta, as oportunidades de investimento na Europa são poucas. Então, a tendência é uma diminuição da taxa de juro sem risco que, em termos reais, já está negativa independentemente de estarem dentro (a Alemanha) ou fora do Euro (o Reino Unido), ver Fig. 6.

Fig. 6 - Na Europa os juros (sem risco e sem inflação) estão negativos e o que Portugal paga é risco de bancarrota (dados, EUROSTAT)

Concluindo?
Tal como foi difícil meter na cabeça que o Sol não andava à volta da Terra porque era isso que se via todos os dias e meter na cabeça que a humanidade vem do macaco e não de Deus, também é difícil separar a da moeda da questão do crédito e financiamento.
Mas por ser difícil não quer dizer que quem confunde os conceitos está  está certo.
Neste poste não falei de nada que fizesse lembrar euros para verem que não são necessários para termos a economia a funcionar.
Se não falei de euros então, o sistema monetário (os euros) não tem nada a ver com o sistema bancário.
Nada, absolutamente nada. Antes de a humanidade ter inventado a moeda já existiam bancos (intermediários entre quem precisa poupar e quem precisa de pedir emprestado galinhas).

Os esquerdistas.
Tal como o vendedor da banha da cobra que explica como a banha consegue curar todas as maleitas, também existem Batistas da Silva, Sócrates e Galambas que explicam como funciona a economia mas que não percebem nada do assunto.
Quem sofre de uma doença terminal quer acreditar que a banha da cobra o vai corar mas não vai. Também quem vê o seu rendimento ameaçado quer acreditar que a culpa é do Passos Coelho e que o Seguro vai por outro caminho qualquer e que ficamos logo safos.
Mas como diz repetiamente o Gordon Ramsay,
 - Where did you get this fucking idea of "the other way"? That is bullshit, it looks like a crushed dick with dry bullshit on the top where you just pissed in the middle of fucking nowhere.

Fig. 7 - Vamos focalizar e concentrar porque, 6 anos de aplicação dessas teorias alucinadas e a conversa do "outro caminho" levaram o país à bancarrota.

Temos que meter as galinhas na cabeça.
Para compreendermos o crédito/financiamento e como funciona este mercado (em que o preço é a taxa de juro) temos que esquecer que existe dinheiro ou que o preço das coisas é em unidades monetárias.
Só depois de libertos das unidades monetárias é que nasce uma pequena esperança de que estes conceitos complexos e que não são do senso comum possam entrar na dick's head dos esquerdistas.

Fig. 8 - Nós somos esquerdistas e acreditamos que o PEC IV do Sócrates nos tinha salvo  e que quando o Seguro mandar, vai terminar com a austeridade e dar  inicio ao "outro caminho" que nos vai tornar a maior potência económica do Mundo.

Ver a Parte 2 - O sistema de preços.


 
Pedro Cosme Costa Vieira.

domingo, 1 de abril de 2012

Bancos de costas voltadas para a economia

A questão é pertinente. Os spreads dispararam, a corrida ao BCE por parte dos nossos bancos, para ir buscar liquidez a 1%, é um fartote e os depósitos dos bancos europeus (não se sabe em que medida dos nossos) é frequente, pese embora esse dinheiro depositado no BCE chegue a ser remunerado abaixo de 1% ao ano. E este dinheiro depositado no BCE fazia falta à nossa economia real (das empresas). Há empresas com spreads de 5% ou mais, isto quando conseguem algum crédito bancário depois de prestarem garantias colossais.


Efeito boomerang: empréstimos-depósitos no BCE

O financiamento do Banco Central Europeu à banca portuguesa aumentou em Fevereiro pelo quarto mês consecutivo, atingindo uma soma de 47,55 mil milhões de euros. O BCE injectou, no final de fevereiro de 2012, cerca de meio bilião de euros no mercado bancário de forma a reactivar o crédito aos particulares e às empresas na zona euro, mas esta operação teve um efeito boomerang, pois o dinheiro voltou em força aos cofres da instituição de Frankfurt. No dia 1 de março, 24 horas depois da operação de liquidez, os bancos efectuaram um recorde de 776,941 mil milhões de euros nos cofres do BCE, em depósitos diários, em detrimento de depositarem noutras instituições financeiras. O BCE permite que os bancos depositem o dinheiro a troco de um juro de 0,25%. Fazendo as contas, se o banco central vendeu o mesmo dinheiro a 1% no dia anterior, é evidente que a banca perde dinheiro com esta operação.

Vítor Constâncio para Mario Draghi: "Bem, sabes como os portugueses são... e vocês, italianos, ainda são mais mãos
de vaca para emprestar dinheiro. Se eu tivesse reparado no BPN há uns anos, esta balbúrdia não seria tão grave. 
Mas não desgosto do clima de Frankfurt"

BCP é o campeão no BCE

Repare-se atentamente nos dois gráficos seguintes. Só o BCP foi buscar ao BCE cerca de 15 mil milhões de euros (antes do último grande leilão). Colocando o problema do ponto de vista da percentagem dos ativos financiados pelo BCE, o BCP é imbatível. O BCE são dinheiros públicos, assim como as injeções de capital no setor feitas nos últimos anos. 

Quanto dinheiro cada banco já foi buscar ao BCE
Quanto dinheiro cada banco foi buscar ao BCE, em % dos ativos financiados

FONTE: UBS citada pelo Financial Times em: 

Euro system names n’ numbers



Banca está mal e o contribuinte é que paga

Os contribuintes portugueses já perderam 3,1 mil milhões de euros com o programa de apoio aos bancos, criado depois do início da crise financeira, em 2007. Um valor que já representa quase cinco vezes aquilo que o Governo planeia gastar com o programa de emergência social (640 milhões de euros). Estas perdas dizem respeito a injeções de capital público nos bancos, juros e garantias acionadas. Os números, publicados há dias pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), mostram que metade do valor é da responsabilidade do BPN que, só em 2010, custou 1,8 mil milhões ao Estado (ver mais aqui).

Aproveito para reproduzir a seguir um artigo meu publicado no último sábado no JN e site Dinheiro Vivo e que ilustra um pouco do que a banca tem andado a fazer (ver original aqui).

Exportadores do Norte com menos crédito na banca

Os dados do Banco de Portugal mostram que o Norte, região responsável por 37% das exportações em 2011 (15,7 mil milhões euros), capta apenas 26% do crédito bancário para empresas (30,2 mil milhões de euros), contra 42% da região de  Lisboa (48,7 mil milhões de euros). Cruzando esses dados com o número de empresas exportadoras , (7208 a Norte e 6077 em Lisboa), bem como os valores das saídas por região, conclui-se quem mais vende ao exterior menos beneficiado tem sido na concessão de crédito.
Embora vários banqueiros reconheçam que as restrições ao crédito aumentaram, dando prioridade agora às sociedades exportadoras, a verdade é que o panorama  no final de 2011 ainda revelava desequilíbrios. As restrições da banca no crédito às empresas são frequentemente justificadas com o custo do financiamento dos próprios bancos.
"Relativamente aos cinco maiores bancos, a redução do custo de funding é bem significativa de 2007 para 2010 - 236 pontos base (pb) - e de 2010 para 2011 (projetado com base no primeiro semestre) o custo do funding poderá aumentar quando muito 31 pb", afirma Meira Fernandes, ex-gestor bancário e membro da tertúlia JN, Universidade Católica e Associação Comercial do Porto.

FONTE: Gráfico elaborado pelo economista e ex-gestor bancário Meira Fernandes, citado neste artigo,
e que já foi publicado duas vezes pelo JN até esta data

"Curiosamente, o Banco de Portugal teve uma intervenção ativa, limitativa, no funcionamento do mercado financeiro na ótica do 'preço da matéria-prima' para os bancos, quando impôs, no Outono passado, um limite máximo de 3% acima da euribor na captação de recursos [depósitos]. Mas nada fez para limitar o 'preço da matéria prima' para os utilizadores de crédito. Há crédito ao consumo a 33% e não há limites para taxas a cobrar nos empréstimos", considera o economista Meira Fernandes. "Quanto ao crédito às empresas, sob a forma de descobertos, as taxas praticadas aproximam-se em média dos 15%", acrescenta.

No ano passado, e com base nos cinco maiores bancos,  o juro cobrado pelos bancos situou-se nos 4,67%, mas o juro pago pela banca para se financiar a si própria ficou-se pelos 3,15%, um fosso que tem aumentado.

A UBS calculou os montantes que diferentes bancos europeus pediram emprestado ao Banco Central Europeu (BCE) a três anos com 1% de juro. BCP, BES e BPI conseguiram à volta de 26 mil milhões de euros através destes empréstimos.  O BCP tem à volta de 17% dos seus ativos financiados pelo BCE, colocando-se à frente nesse rácio dos maiores bancos espanhóis, irlandeses ou italianos. O BES surge em quarto lugar (15%).

Pedro Palha Araújo

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