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sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Poderemos continuar no Euro?

Muitas pessoas me têm feito esta pergunta. 
Quando, em 2011, a taxa de juro média da dívida pública estava acima dos 20%/ano, parecia  certo que Portugal iria abandonar o Euro e retornar ao Escudo. Falou-se muito na comunicação social desta contingencia que, decorridos apenas 2,5 anos, passou a ser um não-problema porque a taxa de juro média já está nos 2,7%/ano, bastante abaixo dos 4,1% de 2007, ano anterior à Crise do Sub-Prime (calculada para uma maturidade média de 3 anos).
Se com as taxas de juro de 2007, dos impostos que cada um de nós paga, 850€/ano são para juros, com as taxas de agora só teríamos que pagar 600€/ano para juros.
A crise finaneira está completametne ultrapassada. Mas o problema é saber se os fundamentos que deram origem à crise já foram ultrapassados ou se continuam no meio de nós.
Qual foi o problema que o Euro nos colocou? 
Foi acreditarmos que os salários poderiam subir todos os anos como subiam antes de 1995 até se equipararem aos do Luxemburgo.
Este erro levou  o Guterres ao poder para iniciar uma politica de rendimentos e preços totalmente desligados da realidade da nossa economia que nos levou a um endividamento externo insustentável.
O sórates fechou os molhos quando, num curto espaço de tempo, aumentou o Salário Minimo Nacional de 403€/mês para 485€/mês.

Para que serve a moeda própria. 
Um país tem moeda própria para poder ajustar as suas contas com o exterior, medidas pelo défice da Balança Corrente. Se, num período, um país passar a importar mais do que exporta (mais o turismo e as transferências), o país passa a ter défice externo que precisa financiar com endividamento externo. 
O défice externo é difícil de controlar pelos politicos se as pessoas tiverem visão curta pois o endividamento faz o nível de vida melhorar no curto-prazo para o piorar no futuro (será preciso pagar a dívida mais os juros), quando já serão outros a governar. 
É tal qual aquelas pessoas que prejudicam todo o ano (a pagar prestações) porque tiveram uma grande passagem de ano, comendo leitão (em vez de frango) e andando de limusina (em vez de a pé), mas paga a crédito. 

A moeda própria permite equilibrar rapidamente as contas com o exterior.
Se exportamos menos do que o que importamos, desvalorizamos o Escudo face aos nossos parceiros comerciais o que faz diminuir o preço dos nossos produtos (face ao exterior) e aumentar o preços dos bens importados (internamente). Este duplo efeito faz diminuir a importações e aumentar as exportações. Se, pelo contrário, exportamos mais do que o que importamos, valorizamos o Escudo face aos nossos parceiros comerciais o que tem o efeito contrário.
Quando, por exemplo, o governo decretou um aumento dos salário mínimo nacional em 20%, a moeda desvalorizava, a inflação aumentava, e tudo voltava rapidamente ao equilíbrio anterior.
Os salários em Escudos ficariam iguais.
A desvalorização da moeda permite que os salários, as pensões e a despesa pública diminuam (face ao exterior) mas fiquem internamente iguais (em Escudos).
Desta forma, há a ilusão de que os rendimentos aumentam quando, na realidade, o seu poder de compra diminui (por causa do aumento dos preço dos bens e serviços importados).
Em termos psicológicos, as pessoas não penalizam eleitoralmente o governo pelo ajustamento via devalorização.
Desde 2006 passamos a ter um défice externo colossal.
O Guterres e, posteriormente, o Santana Lopes e o Sócrates pensavam que poderiam dar tudo a todos para todo o sempre. O Holland pensava o mesmo e o Seguro ainda o pensa.
Se calhar não pensavam bem isso nem o Seguro o pensa agora. O mais provável é estes políticos pensarem que, enquanto derem tudo a todos, conseguem manter os tachos e, quando o país rebentar, vão-se embora mas com pensões milionárias que o Tribunal Constitucional há-de proteger.
Fig 1 - Enquanto durar, dura e quando rebentar caindo na barriga e no quadril, rebentou. 
O Sean Sullivan é para alegrar as vistas da Sofia Santos.

Entre 1996 e 2010, o endividamento externo foi de 120% do PIB. 
Isto traduz que, nestes 15 anos, cada português se endividou face ao exterior em 20 mil €.
Uma família de 5 pessoas inflamou o seu rendimento com 100mil€ de endividamento externo.
Foram 250€/mês para cada trabalhador.
Este endividamento externo massivo causou um erro na percepção do rendimento disponível das famílias. Agora, os "cortes" que estamos a sentir é o reverso, não são uma verdadeira quebra de rendimento mas apenas o terminar desse endividamento externo.
No tempo do Sócrates endividamo-no sempre acima dos 10% do PIB, todos os anos.
Notar que o Durão Barroso conseguiu em 2 anos reduzir o défice de 10,3% do PIB para 6,5% do PIB mas os do PSD+CDS puseram-lhe os patins e veio o Santana Lopes que aumentou logo o défice para 8,4% do PIB.
Quem foi o ministro da finanças do Santana Lopes? (Veja a solução no fim que nem vai acreditar).

Fig. 2 - Défice da Balança Corrente (1990-2013, tradingeconomics)
Com o Euro, temos que ajustar pelos salários nominais.
Com o Euro, não podemos desvalorizar. Desta forma, o equilíbrio da balança corrente obriga a que os preços do bens e serviços que exportamos diminuam internamente o que apenas é conseguido pela redução dos custos do trabalho em termos nominais (redução dos salários em euros).
Como a queda dos salários induz contracção nominal do PIB, também é preciso reduzir a despesa pública.
Se os salários não diminuírem quando há défice externo, aumula-se dívida o que a prazo obriga a que a currecção seja feita pela subida da taxa de juro e pelo desemprego (como estamos a viver desde Jan2010).

Será que o nosso mercado de trabalho é suficientemente flexível?
Se o nosso mercado laboral não for flexível em baixa, no longo-prazo pertencer à Zona Euro terá um impacto negativo na  nossa taxa de crescimento do PIB.
Então, para podermos continuar na Zona Euro, a resposta a esta questão tem que ser afirmativa.

Tenho muitas dúvidas disso.
As sondagens darem maioria aos socialistas parece indicar que a maioria dos portugueses acredita no "outro caminho", no "caminho do crescimento e do emprego em austeridade", prometido pelos esquerdistas, em que podemos ficar no Euro sem descer salários nem pensões nos períodos de crise.

Mas o Holland dá-me alguma esperança.
Em 2012, o Holland chegou a presidente da França prometendo bater o pé à Sr.a Merkel e iniciar o "outro caminho". Claro que o "outro caminho" é apenas uma miragem pelo que o meia leca teve agora que avançar com o "caminho da austeridade".
Tenho esperança de que a falhada experiência francesa venha a ajudar os portugueses a ver de que há total necessidade de ajustar os nossos salários em baixa.

Bastaram 2 anos para derrotar o "outro caminho".
Na França, o Holland aguentou 2 anos om a conversa do "outro caminho" até que deu o braço a torcer.
No Egipto, a Irmandade Muçulmana também prometia um caminho de leite e mel. Apesar de anos e anos de repressão policial, a cada crise económica, a IM foi-se tornando cada vez mais populares até que, em 2011, a guerra civil parecia inevitável. A solução foi dar-lhes o poder para poderem implementar o prometido "outro caminho". O problema é que, ao fim pouco 2 anitos, o caminho foi tão desastroso que centenas de milhares de pessoas pediram nas ruas um governo militar.
Em Portugal, em 1974/1975 dois anitos de governo de influência comunista foi suficiente para os mandar, até hoje, para um canto da oposição.
Parece que 2 ano é a validae do governo demagógicos mas o Guterres aguentou 7 anos e o Sócrates  6 anos mas o nós temos a desculpa de termo sido enganado pelo crédito fácil (que acabou).
Fig. 3 - Estará o nosso povo, tal como os egipcios, convencido de que o "outro caminho" é um logro?

O ajustamento do salários é um sinal de esperança.
Até finais de 2011, as pessoas resistiram com todas as suas forças contra a descida nominal dos salários mas, finalmente, o mercado está a ajustar. Olhando para as estatísticas da Eurostat, desde 2011 os nossos custos do trabalho diminuíram 10% relativamente aos nossos parceiro da ZE12.
Este ajustamento permite que a nossa inflação seja menor que a da Zona Euro o que tem levado ao aumento das exportações e à diminuição do desemprego.
Fig 4 - Custos do trabalho em Portugal relativamente à Zona Euro 12 (fonte: Eurostat, Business, corrigido da sazonalidade e dos dias de trabalho)


Volto a estar pessimista - o PIB cresce cada vez menos.
Apesar de o nível de vida de um povo depender de múltiplas variáveis, o total de bens e serviços produzidos na economia é a componente mais importante. Todos nós sabemos que não é possível haver qualidade de vida sem acesso a bens materiais e por isso é que toda a gente grita a pedir mais salários e pensões e menos impostos.
O produzido por cada um de nós, em média, é medido pelo PIB per capita.
Então, para o nosso nível de vida melhorar, o PIBpc tem que aumentar. O problema é que o nosso PIBpc está a crescer cada vez mais devagar estando estagnado desde que entramos na Zona Euro.
Desde 2000 que temos crescimento ZERO VÍRGULA ZERO.
Se de 1985 a 2000 crescemos 3,7%/ano, entre 2000 e 2012 estivemos totalmente estagnados.
Tivemos 12 anos seguidos de "políticas de crescimento" liderados pelo Guterres, Santana Lopes e Sócrates, com défices públicos (em 2009 e 2010) e externo acima dos 10% do PIB, mas que resultaram num crescimento ZERO (-0,05%).
Fig. 5 - A taxa de crescimento anual do PIBpc português está há 40 anos a cair e há 12 anos que é zero (dados: Banco Mundial)

E estamos a divergir.
Em 1991 a Alemanha teve que digerir a economia da ex-RA o que lhe coloou sérios problemas. Isso mais a nossa entrada na CEE que actualmente se chama UE, pemitiu que convergissemos um pontos percentual por ano com a Alemanha.
O problema é que desde 2000, mesmo com endiviamento externo massivo, temos estado a divergir 0,5 pontos por ano.
Será que vamos continuar a divergir como no tempo das politicas de crescimento do Sócrates ou vamo quebrar essa tendência?

Fig. 6 - Racio entre o PIBpc português e o alemão.  (dados: Banco Mundial)

E fico ainda mais pessimista.
Muita gente pensa ser provável que, algures no futuro, o António Costa venha a ser primeiro ministro de Portugal. Mas, ao reparar que a Câmara Municipal de Lisboa reduziu os horários dos seus assalariados para 35 horas por semana, ganho a certeza que, nesse hipotético cenário futuro, vamos voltar aos tempos do Guterres+Santana Lopes+Sócrates de dar tudo a todos enquanto não rebentar.
Isto é totalmente demagógico e imoral porque o António Costa, por um lado, é contra o Passos Coelho estar a esmifrar os contribuintes mas, por outro lado, esbanja os nossos impostos para ser popular junto dos assalariados da CML.

Mas não é só lá.
O Magnífico Reitor da minha universidade queixou-se na comunicação social que os cortes  orçamentais para 2014 são intoleráveis porque põem em causa o funcionamento da instituição.
Mas eu recebi um e-mail da comissão de trabalhadores a dizer que o Magnífico aceitou, sem mais, uma redução de 6,25% no horário de trabalho semanal.

Como é possível?
Haver uma Lei da República que obriga a 40h/semana de trabalho para TODA A GENTE e depois cada cacique torpedear isso localmente?
As pessoas são funcionários públicos ou funcionário da "empresa pública XPTO", uma entidade empregadora livre de acordar o horário que lhe der na real gana porque sabe que os salário serão sempre pagos pelo Orçamento de Estado?
No limite, podemos ter funcionários públicos dispensadas de trabalhar.

Vamos Seguro, mostra coragem e manda isto para o Tribunal Constitucional.
 
Como é possível um trabalhador num local, seja uma câmara ou uma universidade, trabalhar 40h/sem e outro trabalhar 35h/sem ganhando ambos pela mesma tabela salarial?
A redução dos salários de alguns funcionários públicos viola totalmente os princípios constitucionais da igualdade (entre funcionários públicos) e da confiança (dos contribuintes de que os governantes usarão os seus impostos com zelo).

Fig. 6 - Essa tem graça mas eu agora vou fazer de morto pelo menos até às europeia.
Re-encaminhar para o Xé Xé Soares.
O que se pode concluir quanto à viabilidade da nossa permanência no Euro?
Não estou certo que, no longo prazo, seja positivo para Portugal pertencer a uma zona monetária que inclui países do centro da Europa cujas culturas e economias são, tudo indica, diferentes da nossa.
As crises económicas de 2002, 2008 e 2010 mostraram que temos muita dificuldade em ajustar e as expansões de 1996 e 2009 foram muito ténues e com elevado endividamento externo.

No longo prazo é preciso responder a 4 questões. 
1) No próximo período de expansão (2014-2015) vamos voltar ao desgoverno de 1995-2010?
2) Como irá ajustar a nossa economia quando aparecer a próxima crise (lá para 2017)?
3) Qual vai ser a taxa de crescimento do PIBpc na próxima década?
4) Conseguiremos inverter a tendência de divergência com a Alemanha?

Continuo pessimista quanto à nossa permanência no Euro.
Só se, em 2015, o povinho português rejeitar a ilusão do "outro caminho" dando o voto ao Passos Coelho é que eu me convencerei que temos algumas chances de continuar no Euro.
Actualmente ainda não acredito que o nosso povo esteja preparado para viver em Escudo.

Fig. 7 - Não compreendo o porquê da pergunta. Fui exactamente eu quem acabou com a "politica da tanga" do Durão Barroso e deu inicio à "politica de crescimento e emprego" que o Sócrates + Teixeira dos Santos apenas copiaram.

Pedro Cosme Costa Vieira.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Não vai haver programa cautelar

Pensemos na situação pré Crise do Sub-prime. 
Em 2007, o ano anterior ao rebentar da Crise do Sub-Prime, o Sócrates estava no seu auge. 
Nessa altura de vacas gordas, o Sócrates aparecia sem barriga, fatos apertados e um cabelo ainda maioritariamente preto. Nos debates era uma autentica máquina de triturar.
Nessa altura a república conseguia-se financiar à taxa de 4,2%/ano e não havia uma única pessoa que dissesse que Portugal precisava de um programa cautelar e, muito menos, de um resgate do FMI e dos nossos parceiros da UE e Zona Euro.

Entretanto, a situação degradou-se e muito. 
A queda do Sócrates começou quando, nos princípios de 2010, as condições de financiamento da república se começaram a degradar o que levou, em princípios de 2011, à demissão do Sócrates mas com as sondagens a darem-lhe nova vitória.
Mas, no dia 20 de Maio de 2010, num debate televisivo o Passos Coelho ao ter sido o primeiro político a derrotar pela argumentação o socratismo, virou o curso da história. 
Depois a situação financeira foi-se degradando cada vez mais até ter atingindo, em finais de 2011, o olho do furação, com taxas de juro acima dos 20%/ano.
No Natal de 2011 tudo indicava que estávamos irremediavelmente no caminho da bancarrota a la grega. 
Recordemos que, em Dezembro de 2011, as obrigações a 10 anos negociavam-se com perdas de 80%. 

Fig.1 - Em 2007 fui muito feliz, até aparecer a crise que foi causada pelos outros. Se o PEC4 tivesse avançado ...

Mas o Gasparzinho acreditou sempre. 
E, lentamente, as taxas de juro lá foram descendo.
Cada acidente de percurso, fosse um chumbo do Tribunal Constitucional, uma manifestação, greve ou demissão, fazia com que os investidores pensassem que íamos a voltar ao tempo do Sócrates ou, dentro do PSD, do Santana Lopes. Mas não e, lentamente, em princípios de 2013 as taxas de juro voltam aos níveis de 2007 e, em princípios de 2014, estão significativamente abaixo do nível de 2007 (ver, Quadro 1). 

Prazo         2anos     3anos      5anos    10anos   Média(3)    Real(3)   Média(5)
2007            4,1%      4,1%       4,1%      4,5%         4,1%        2,1%        4,2%
Máximo     20,0%     22,8%     21,6%    16,4%       20,6%     18,2%       20,2%
Hoje           2,1%       2,8%       4,0%      5,3%         2,6%        0,6%         3,6%
Quadro 1 - Evolução das taxas de juro do mercado secundário (a média é calculada para uma maturidade média de 3 e 5 anos)

Não pode ser.
Hoje (em mercado secundário), a taxa de juro está bastante abaixo das taxas de juro que a república paga nos contractos assinados em 2007. Se Portugal rolar a dívida pública numa maturidade média de 3 anos (precisa colocar no mercado mil milhões € por semana), consegue uma taxa de juro 1,5 pontos percentuais abaixo do que conseguiu em 2007. 
Em 140MM€ que estão fora da Troika, com a taxa de juro de 2007 pagamos 6000 milhões € por ano e com as taxas de juro de hoje só precisávamos pagar 4000 milhões € por ano. 
Relativamente aos contratos feitos no tempo do Sócrates que os esquerdistas do PS não diziam nem dizem que foram ruinosos, hoje o Passos Coelho conseguiria em Mercado fazer muito melhor.

Fig2 - A divida pública a 3 anos está com uma taxa de juro muito inferior à de 2007

E em termos reais 
Parte dos juros é para pagar a inflação (de 2%/ano) e esta parte não traduz, em termos económico, o desembolso de recursos escassos. Desta forma, apenas a parte real traduz que temos que diminuir o nosso rendimento para pagar os juros.
Se retirarmos a taxa de inflação da taxa de juro, com as condições de mercado de 2007, a república tinha que pegar em 3 mil milhões € do nosso rendimento e entregar aos credores enquanto que com as condições actuais só precisaria de entregar 850 milhões €.

Afinal, no futuro em termos reais vamos pagar poucos juros. 
O Estado, para pagar os juros da nossa dívida terá que, nos próximos 50 ou 100 anos, destinar cerca de 0,6% do PIB para pagar os juros aos credores (mantendo a divida em termos reais). 
Não é como os esquerdistas dizem, que é impossível pagarmos a nossa dívida pública.
Afinal, não é grande coisa. 
Impossível é pagar as pensões (que vai nos 9% do PIB e sempre a subir) e os demais "direitos adquiridos".

E o programa cautelar?
Portugal compara-se um ciclista que andava à maluca e que se esbarrou contra uma parede, tendo partido uma perna, um braço e três dentes. 
Entretanto, foi socorrido, esteve no hospital, fez 3 anos de fisioterapia, está mais magro e, aparentemente, está fisicamente melhor do que estava antes do esbarramento. 
Agora, o ciclista precisa voltar a andar de bicicleta e tem todas as condições físicas para isso mas há no ar um nervoso miudinho.

Fig. 3 - Está mesmo a precisar de um programa cautela, uma mãozinha de cada lado, não vá cair e partir outra vez o pulsinho. 

As palavras do Seguro invializam haver um programa cautelar.
O Seguro tem colocado metas que a previsão económica dizem serem impossíveis de atingir (mais 2 anos de prazo, crescimento económico, descida do desemprego, não haver novo resgate, o acesso aos mercados) que, um após o outro, têm sido  conseguidos "por milagre da N.S.a de Fátima" (Maria Cavaco silva) . 
Agora, o Seguro lançou o último tiro de pólvora seca: apenas será uma vitória para o Passos Coelho e para a sua política neo-liberal (e uma derrota para si próprio e para o esquerdismo que representa) se sairmos do plano de resgate sem qualquer programa cautelar. 

Limpinho, limpinho, limpinho.
Um resgate, programa cautelar ou seja o que for não teria qualquer mal para Portugal mas agora, em termos políticos, já não é possível haver nada disto.
Concerteza (como disse o ministro das finanças alemãs Schauble ao Gazparzinho em 2011), em off a Sr.a Merkel vai mexer os cordelinhos junto dos gestores de fundos para haver sempre dinheiro disponível para o rolamento da nossa divida pública mas não vai ficar nada escrito. 

A política também é assumir riscos. 
E hoje o Passos Coelho + Portas apenas podem ganhar as eleições de 2015 se apostarem que Portugal vai,  até às eleições de meados de 2015, viver um período de crescimento económico, descida do desemprego e acesso aos mercados de divida pública a taxas de juro muito mais baixas que as de 2007. 
Agora, eu acredito que vamos conseguir e, desta forma, as sondagens vão castigar o Seguro que, sem discurso, vai entrar num período de grande sofrimento, a levar pancada de todos os lados. 
Se correr mal e as taxas de juro voltarem a disparar, paciência, pede-se então novamente ajuda e o Rui Rio , qual D. Sebastião, que avance.

Pedro Cosme Costa Vieira

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Como o desemprego se liga ao défice externo?

Olhando para os comentários.
Existe a ideia que a economia é um sistema em que tudo está interligado. E, apesar de ser verdade, umas coisas estão mais ligadas que outras.
Em particular, o problema é como o desemprego pode estar ligado à necessidade de equilibrarmos as contas com o exterior (redução da velocidade com que estava a aumentar o endividamento externo).
Numa economia flexível, quando há um choque exógenos que desequilibra um mercado, há variáveis que vão actuar rapidamente no sentido de o mercado se equilibrar com um pequeno impacto nos outros mercados. No caso concreto, o salário (real) ajusta o mercado de trabalho e a taxa de câmbio ajusta as contas com o exterior. Na nossa crise, como não termos moeda própria, o ajustamento é uma onda que se iniciou com o aumento da taxa de juro e propagou-se negativamente para o mercado de trabalho. Com o avançar do processo, os custos do trabalho diminuem, os preços caiem e a taxa de juro volta ao seu nível de equilíbrio.
A onda que varre uma economia desequilibrada com a taxa de juro na crista afoga tanto mais o mercado de trabalho quanto mais rigido for.

A análise parcial. 
A Ciência precisa dividir a complexidade do Mundo em parcelas pequeninas e simples que depois se ligam entre si. Chama-se a essa divisão "análise parcial mantendo tudo o resto constante".
A Ciencia Economica não foge à regra e divide a globalidade do mundo em partes mais pequenas que são denominadas por mercados. Sendo a divisão artificial há sempre ligação entre um mercado e os outros mercados mas as ligações são mais fracas que as ligações dentro de cada mercado.

Vamos ao mercado das batatas  - o sistema de preços.
Vamos supor que o mau tempo reduziu a produção de batatas em 50%. Então, no próximo ano as pessoas apenas vão poder comer metade das batatas que costumavam comer.
Na economia planificada teria que sair um decreto de racionamento a reduzir o consumo de batatas.
Na economia de mercado a informação de que há menos batatas vai passar aos consumidores pelo aumento do preço das batatas.
O impacto do preço da batata na quantidade transaccionada é medido pela elasticidade preço que, se por exemplo for -2, traduz que o aumento de 1% do preço das batatas faz reduzir a quantidade transaccionada em 2%.
Se assim fosse, Q = k.P^-2, para "obrigar" as pessoas a comer menos, o preço das batatas iria aumentar 41.4%.

E os outros mercados?
O aumento do preço das batatas vai influenciar positivamente o mercado do arroz, da massa e de todos os parcialmente substitutos mas em menor magnitude, por exemplo, o aumento de 1% do preço das batatas faz aumentar o consumo de arroz em 0.3%. Neste caso, se o mercado de arroz pudesse responder em quantidades, o consumo de arroz iria aumentar cerca de 15% mas, caso contrário, o preço do arroz também subiria ligeiramente até anular a tendencia de aumento do consumo de arroz. O efeito ir-se-ia propagando a todos os mercados.
Um mercado também pode influenciar no mesmo sentido outros mercados por causa do efeito rendimento. Por exemplo, o aumento do preço das batatas em 1% também vai diminuir o consumo de electricidade em 0.2% porque as pessoas ficam com menos rendimento disponível.
Existem bens que a produção responde rapidamente às variações dos preços (bens elásticos) enquanto outros não (bens inelásticos).
A alteração diária dos milhões de preços individuais dos bens e serviços consegue digerir os choques exógenos que vão acontecendo no sentido de manter uma igualdade entre o que se produz e o que se consome. Por exemplo, se está mau tempo e não se pode pescar, o preço do pescado aumenta o que despoleta o ajustamento das decisões dos consumidores no sentido de comprarem mais frangos (os abates aumentam 3% pela diminuição do tempo de vida dos frangos em 1 dia).
A falha da economia planificada era que construir a folha de racionamento com os milhares de produtos que existem exigia enormes quantidades de informação quanto às possibilidades de produção e quanto aos gostos dos consumidores.
A nível de cada bem ou serviço individual (microeconómica) a igualdade entre produção e consumo é apenas estatística (i.e., em média).

Mas a evidencia parece dizer que os cafés estão vazios.
Todos nós pensamos que os cafés poderiam produzir mais mas de facto assim não é.
Para um café vender mais teria que baixar o preço. E os cafés (e muitos outros produtores) não estão em mercado concorrencial. Os produtores têm "preços concertados" porque, se um descer o preço, todos os outros retaliam descendo também os seus preços.
Vamos imaginar um café que cobra 0.60€/café, tem uma margem de 0.30€/café e vende 200 cafés por dia (margem de 60€/dia, ocupação de 50%) e que, se cobrasse 0.50€/café passava a vender 400 cafés por dia (margem de 80€/dia, ocupação de 100%). O problema é que todos os concorrentes retaliavam descendo o preço para 0.50€/dia e ele passava a vender mais, 250 cafés por dia, mas a margem descia (margem de 50€/dia, ocupação de 62.5%).  
Para haver possibilidade de retaliação, os cafés têm que ter capacidade excedentária. Os cafesistas dizem que precisam de mais clientes porque têm capacidade excedentária mas de facto apenas têm capacidade excedentária para manter uma ameaça aos concorrentes (o equilíbrio de concertação ficar estável).

Fig.1 - O marketing estuda o impacto nas vendas de todas as variáveis "não preço".

Os macro-mercados.
O grau de agregação depende do detalhe com que se pretende compreender os problemas económicos. Na microeconomia o detalhe chega ao comportamento individual (a Teoria dos Jogos) enquanto que na macroeconomia se agregam mercados à escala de um país.
Normalmente a macroeconomia considera 3 mercados agregados.

1) O mercado de trabalho - Salários.
Neste mercado agregam-se todos os contractos de trabalho e o seu preço (salário). Como se consideram qualidades diferentes de trabalho (por exemplo, médicos, advogados, professores de inglês, canalizadores e trabalho indiferenciado), o salário é um índice construído com os diversos salários (por exemplo, o salário médio).
Por ser um macro-mercado, não apanha a dinâmica de mercados de trabalho especializado. Por exemplo, não é certo que o salário médio diminuir vá equilibrar o mercado dos licenciados em arquitectura em que o caminhar para o equilíbrio obriga a uma diminuição do salário específico deste micro-mercado. Se, por exemplo, o salário médio diminuir 5%, não quer dizer que todos o salários diminuam 5% podendo mesmo haver aumento de alguns.
Este mercado considerar como medida do equilíbrio a "taxa de desemprego" (a percentagem de pessoas que diz não ter emprego e que está à procura de emprego).

2) O mercado de bens e serviços - Taxa de Juro.
Neste mercado agregam-se todos os bens e serviços sejam de consumo ou de investimento.
Como já mostrei para o caso das batatas, o preço é a variável por excelência que equilibra cada um dos micro-mercados mas, juntarmos  todos os bens e serviço no mesmo mercado, os preços relativos deixam de ser relevantes no equilíbrio do macro-mercado. Então, em termos macroeconómicos a variável mais forte neste mercado é a taxa de juro.
Pode parecer estranho como a taxa de juro equilibra o mercado de bens e serviços mas temos que pensar que, quando a taxa de juro aumenta, o investimento diminui (a procura diminui) e a poupança aumenta (a procura diminui).
Então, se existe mais procura interna (consumo + investimento) que produção interna (em economia fechada, a diferença é a diminuição dos stocks e o trabalho extraordinário), vai haver tendência para que a taxa de juro suba até a procura ficar igual à produção.

3) O Resto do Mundo - Taxa de Câmbio e Nível Geral de Preços.
O Resto do Mundo faz com que o mercado de bens e serviços possa estar com défice à custa do aumento do endividamento externo. O mercado interno pode estar superavitário pelo aumento constante dos créditos face ao exterior (como acontece com a Alemanha, China, Japão, Arábia Saudita e Kuwait).
Numa economia com moeda própria a variável mais forte que equilibra as contas com o exterior é a taxa de câmbio.
Se há um défice externo, uma desvalorização faz com que os preços face ao exterior (em dólares) diminuam o que aumenta as exportações e os preços das importações (em escudos) aumentem o que diminui as importações. Este duplo efeito equilibra rapidamente as contas com o exterior. Se há um superávite externo, uma valorização promove o equilíbrio mas em sentido contrário.
Se há uma desvalorização de 5%, os preços face ao exterior diminuem instantaneamente 5% mas os salários também diminuem 5% face ao exterior.
Se o país pertencer a uma zona monetária vasta (Zona Euro), não pode desvalorizar pelo que o ajustamento deve ser feito com uma descida do Nível Geral de Preços.

Depois, há  os efeitos cruzados.
A correcção do desequilíbrio de um mercado tem impacto, mas menor, em todos os outros mercados.

Onde liga o desemprego com o défice externo?
Quando uma variável está fixa, no nosso caso a taxa de câmbio,  para anular o défice externo o nível geral de preços tem que cair relativamente aos nossos parceiros comerciais (parceiros da Zona Euro). O problema é que isso não está acontecer (ver, Fig. 2). 

Fig. 2 - Preços em Portugal (INE) relativamente aos da Zona euro (BCE) base 1999.

Entre 1999 (que começaram os câmbios fixos) e 2005, as nossas contas externas desequilibraram-se porque os preços aumentaram 7.3%/ano relativamente aos nossos parceiros da Zona Euro e, desde então, essa diferença mantem-se (ver, Fig. 2).
Os custos do trabalho aumentaram 1%/ano até meados de 2010, altura em que começaram a diminuir cerca de 7%/ano (ver, Fig. 3).
Apesar da redução dos custos do trabalho, ainda não se observa uma redução dos preços relativamente aos nossos parceiros da ZE.

Fig. 3 - Evolução dos custos nominais do trabalho, Business (dados: Eurostat).  

A taxa de juro "atacou primeiro".
Até 2010 tínhamos um défice externo de 10% do PIB que o Sócrates se recusou a corrigir promovendo aumentos do salário mínimo, dos salários dos funcionários públicos e majorou as transferencias sociais.
Como os preços e os salários não foram chamados a corrigir esses défice externo, a taxa de juro começou a entrar em funcionamento. Se inicialmente o Sócrates tentou combater isso baixando as taxas de juro dos Certificados e Aforro e lançando a Dívida Pública no exterior, por fim a taxa de juro libertou-se e em 2010 atacou com toda a força na missão de equilibrar a nossa economia. Se em finais de 2009 tínhamos uma taxa de juro a 10 anos abaixo dos 4.0%/ano, em meados de 2011 já a taxa de juro estáva acima dos 13%/ano.
Com uma taxa de juro tão elevada, as importações, o consumo e o investimento reduziram rapidamente mas com impacto negativo na rentabildiade das empresas (aumento dos custos).
Se os diversos mercados não ajustassem, a taxa de juro teria que ficar sempre alta mas a boa notícia é que os outros mercados já entraram numa dinâmica de ajustamento.

Depois veio o desemprego.
Em 2010 a taxa de desemprego já era elevada o que traduz que o mercado de trabalho já estava desequilibrado. Mas a subida da taxa de juro vem meter grande pressão neste mercado porque a margem das empresas (antes de amortizações e juros) teve que aumentar para pagar os juros.
Um posto de trabalhado que tenha associado 30 mil € de capital amortizável em 10 anos, para uma taxa real de 2%/ano precisa de uma margem de 275€/mês enquanto que quando a taxa de juro real sobe para 11%/ano, a margem tem que subir para 400€/mês (para manter o posto de trabalho, o salário tem que reduzir 125€/mês).
Com a pressão dos juros,  as empresas começam a ir à falência e a despedir (ficam só com os mais produtivos). E este problema soma à necessária reestruturação da economia de bens locais (não transaccionáveis) para bens expostas à concorrência (para substituir importações e aumentar as exportações).

O combate ao desemprego.
Todos os candidatos autárquicos dizem que vão apostar na reabilitação dos centros urbanos porque isso vai criar emprego e atrair pessoas para o centro das cidades. O problema é que essas pessoas já têm casa nas periferias e ninguém diz que vai comprar e demolir essas casas. Estando a população portuguesa a diminuir então, cada nova casa que se construa no centro de uma cidade é uma outra casa que vai ter que ficar vazia na periferia.  
Dizer não sei quem que vai, com novas casas, atrair 50 mil pessoas ao centro do Porto é o mesmo que dizer que vai deixar vazias casas de 50 mil pessoas em Gondomar, Valongo, Matosinhos, Rio Tinto e V.N. Gaia.
Serei eu que estou a ver mal o problema ou estaremos em presença de demagogia massiva?

Depois vêm os salários nominais.
Havendo muitas pessoas desempregadas e com o subsídio de desemprego a diminuir, as pessoas vão-se sujeitar a ganhar menos.
Ainda ontem eu estava a falar com umas colegas e fomos unânimes: se hoje qualquer um de nós fosse despedido, teria dificuldade a arranjar um emprego a ganhar metade do que ganha actualmente. Eu prefiro que me cortem o salário em 10% do que ser atirada uma moeda ao ar e eu ter 5% de probabilidade de ser despedido.

Ainda na crista da onda, aparecem os preços.
Só depois de os custos reduzirem é que os preços podem começar a cair.
Apesar de esse movimento ainda não se ter observado, as últimas estatísticas dizem que em Maio Portugal foi o país com mais baixa taxa de inflação da Zona Euro.
Vamos lá ver se este movimento deflacionista vai acelerar pois é o único passo que falta para o ajustamento.

Voltamos aos juros com a onda a quebrar.
Quando os salário caiem os preços também começam a cair pelo que o mercado externo passa lentamente a ser controlado pelo nível geral de preços podendo a taxa de juro recuar.

Só depois vem o emprego e o crescimento económico.
Só depois dos rpeços cairem é que haverá uma descida da taxa de juro para niveis normais o que anula a pressão financeira sobre as empresas. Desta forma aumenta a margem para que os preços caiam mais rapidamente (o que aumenta as exportações) e que sejam contratadas mais pessoas.
Nesta altura, o desemprego começa a diminuir e, como mais pessoas a trabalhar implica mais produção, o PIB re-começa a crescer.

Finalmente, voltamos aos salários reais de 2010.
Com a redução do desemprego o salário nominal deixará de cair. Juntando a queda dos preços, depois de atingir um mínimo, o poder de compra dos salários aumenta para o seu que tinhamos em 2010. Sob as minhas previsões (a produtividade horaria do trabalho aumenta 1.9%/ano e a correcção dos preços em 7.3% precisa de uma diminuição dos salários reais em 12%), lá para 2020 voltaremos a ter o nivel de salário real de 2010.
São só 10 anitos para recuperar os erros de 15 anos de despesismo.


Fig. 4 - A onda que se iniciou em 2010 vai passar lá para 2020.

Um mercado rígido cava a onda.
Se os nossos mercados de trabalho e de bens e serviços fossem flexíveis, em finais de 2010 os preços e salários já teriam caído 15%  e não teria havido um efeito tão profundo no mercado de trabalho.
É isso que acontece, por exemplo, nos USA, que consegue digerir os choques muito mais rapidamente que a Zona Euro. Não tem nada a ver com a intervenção monetária da FED (como querem fazer crer os esquerdistas) mas tem a ver com o mercado de trabalho ser muito mais flexível que o mercado europeu.
Recordo aos esquerdistas que nos USA um trabalhador pode ser despedido sem pré-aviso e sem ser apresentada qualquer razão. Pura e simplesmente, rua. Quando começou a crise de 2008, 6 milhões de pessoas perderam o emprego  quase instantaneamente, mas essa reacção rápida faz com que a digestão da crise comece quase imediatamente (ver, Fig. 5).

Fig. 5 - Evolução da taxa de desemprego nos USA (dados: BLS)

Mas o problema é o futuro.
Se a nossa economia continuar rigida, cada nova crise que aí venha (e nos próximos 5 anos naturalmente vai aparecer outra), a economia ter+a mais dificuldade a ajustar pelo que o desemprego estrutural (de longo prazo) será cada vez maior e o crescimento cada vez menor.
Vamos rezar para que isso não aconteça mas sabendo que a nossa RTP gasta o dobro do dinheiro que gastava a RT Grega e dizem que aquilo era um buraco sem fundo, vemos que a coisa por cá está preta.

Pedro Cosme Costa Vieira

terça-feira, 4 de junho de 2013

Como pode a nossa situação económica ser boa vista de fora e má vista de dentro?

Dois anos decorridos desde as legislativas de 2011.
A propaganda do Sócrates e demais esquerdistas cada vez grita mais alto que o governo do Pedro Passos Coelho é péssimo mas, estranhamente, todas as instituições estrangeiras dizem que Portugal está a ser um  estrondoso caso de sucesso.
Os esquerdistas dizem que, decorridos 2 anos, em 50 indicadores, o governo falhou totalmente em 48. Falhou largamente no desemprego, no crescimento económico, no investimento público e privado, na receita fiscal, na despesa pública, no défice público, na divida pública, na competitividade, etc., etc., etc. Assim, parece que toda a gente tem que concluir que a performance do Passos Coelho está a ser um fracasso quase total.
Mas depois aparecem os estrangeiros, desde o FMI, o BCE, a Comissão europeia e até o Obama (que há uns 2 anos disse que os USA não eram Portugal),  dizer que somos um exemplo de enorme sucesso porque atingimos nos dois indicadores que verdadeiramente interessam (a balança corrente e a taxa de juro da dívida pública), valores que há 2 anos pareciam impossíveis de atingir.
Será possível a nossa economia (e não o Passos Coelho pois nenhum homem tem essa capacidade) falhar em quase tudo que o cidadão normal observa e, mesmo assim, ser um grande sucesso?

Fig. 1 - As mãozinhas estão a postos para garantir que a Troika nunca mais terá hipóteses de atacar.

A variável do sucesso é a Balança Corrente.
A economia é como uma casa que tem a realidade interna e a realidade vista do exterior.

A realidade interna da nossa casa.
Imaginemos um família vive numa barraca mas tem um Mercedes último modelo, que os seus membros são uns porcos, tendo tudo desarrumado, cheio de pó, louça suja amontoada na cozinha, roupa espalhada pelo chão, o cão morto na varanda, os país batem nos filhos e os filhos dizem palavrões e só vêm televisão e vídeo-jogos. Qualquer assistente social concluiria que estávamos em presença de uma família disfuncional.
Ninguém poderia dizer que esta família era um caso de sucesso, aparentemente.

A realidade externa da nossa casa.
Imaginemos também que o pai se levanta bem cedo, faz a barba e vai trabalhar certinho, nunca faltando e respondendo sempre ao que lhe pedem na fábrica. Os filhos andam na escola e são os melhores alunos. A mãe, todos os sábados, coloca à porta uma banca onde vende produtos hortícolas e roupas que produz durante a semana.
Imaginemos ainda que no passado a mãe ia ao supermercado e comprava coisas muito caras que ficava a dever e que, ultimamente, vai ao supermercado, compra coisas mais económicas que paga a dinheiro e ainda paga os juros sem se endividar mais.

O que dirão os vizinhos sobre esta família?
Que devem ser sarracenos, devem ter uma cultura muito própria. Que dentro de casa são uns porcos onde ninguém pode entrar por causa do entulho e do mau cheiro. Mas que, se até há 2 anos atrás, deviam cada vez mais dinheiro, desde que a paróquia lhes nomeou uma pessoa para os ajudar na gestão doméstica, equilibraram as suas finanças.
Por isso é que na 7.a avaliação, a Troika olhou para derrapagem do défice de 2012 (de 4.5% passou a 5.5% e depois a 6.4%) e disse estar tudo bem.
 
 
Fig. 2 - Na nossa família só somos 4. Os outros 12 da foto são penetras. 

Vamos então ver as contas da nossa família.
Vamos imaginar uma família com 4 pessoas, escalando as variáveis agregadas (de 10.5 milhões) a estas 4 pessoas.
 
A divida - Somando as dividas acumuladas no passado, a família tem uma posição liquida negativa (que deve aos vizinhos) de 76200€ (corresponde ao valor de  40 meses de exportações).
 
O PIB - A família cozinha, trata da casa, e tem um pequeno campo que amanha. Também fazem umas roupas, sapatos e umas peças para automóveis. O sistema de contatibilização interna do que é produzido e consumido indica que o PIB referente às 4 pessoas é de 5400€/mês (12 meses por ano). Este valor não é idêntico ao rendimento de uma família porque tem um certo faz de conta calculado internamente (por exemplo, a mesada que os pais dão aos filhos e o pagamento que os filhos fazem aos pais pelas refeições).
 
A BC crédito - A família consome parte da produção e outra parte vende ao vizinhos. Também fazem trabalham umas horas no exterior. Destas vendas ao exterior, no último ano a família conseguiu, em média, facturar 2540€/mês. Este valor é mais comparável com o rendimento de uma família que o PIB.
 
A BC débito - Como ninguém consegue produzir tudo o que consome, a família compra ao exterior bens e serviços (combustível, água, electricidade, adubos, peles, carne, arroz, etc.) que paga com o dinheiro conseguido pelas vendas ao exterior e, quando há défice, endividando-se. Nos últimos 12 meses a família adquiriu ao exterior, em média, 2570€.
 
 A BC saldo - Nos últimos 12 meses, a família endividou-se 30€/mês. Apesar de a família se estar a endividar, sabendo que até há 2 anos a família se endividava 600€/mês, os vizinhos estão bastante optimistas quanto à situação financeira da família. Além disso, nos últimos 3 meses, não se endividou (ver, Fig. 3).   
 
Fig. 3 - Evolução do endividamento da família (dados: balança corrente, Banco de Portugal, escalado a 4 pessoas)
 
A amortização da dívida - Não existe a certeza que a família já esteja a amortizar a divida mas, dado nos últimos 12 meses a família ter-se endividado apenas 30€ quando pagou 185€/mês em juros, tudo indica que estão a entrar nos eixos. Se olharmos à tendência de evolução da balança corrente (ver, Fig. 3), podemos mesmo afirmar que a família já está a amortizar a divida (a BC está positiva).
O aumento da confiança de que a família consegue pagar o que deve, traduz-se em haver quem esteja disponível a reformar a divida a uma taxa de juro mais baixa (ver, Fig. 4).
 
Fig. 4 - Evolução da taxa de juro soberana a 10 anos (dados: ECB)

Comparemos com os dois 2 anos do pós- crise do sub-prime.
Nos dois anos do  pós-crise do Sub-prime (do Sócrates), continuou tudo normal, com a família a endividar-se 600€/mês face ao exterior (Fig. 3) e a taxa de juro a manter-se constante nos 4%/ano (Fig. 4). O governo nada antecipou e nada procurou fazer pensando que seria sustentável prosseguir ad infinitum com o endividamento externo.
Mas não era sustentável. Motivado pelo acumular da dívida e a bancarrota da Islândia, em princípios de 2010 as taxas de juro começaram a subir rapidamente. Mas, mesmo assim, o endividamento continuou as usual. Parecia que Portugal não conseguia viver sem se endividar.
A crise das dividas soberanas instalou-se em 2010 e o governo do Sócrates rebentou.

O povo penso e decidiu que estava na hora de escolher outro.
Nos últimos 2 anos de governo PSD+PP, o endividamento externo de cada mês foi diminuindo e, desde princípios de 2013, parou (Fig. 3). Incrivelmente, já não nos endividamos face ao exterior e ainda pagamos os juros da dívida assumida no passado (maioritariamente pelos governos socialistas).
O PPC entra com taxas de juro a 10 anos na ordem dos 10%/ano e, não só pela redução do endividamento externo mas também, no último ano a taxa de juro começou a descer rapidamente com tendência a voltar aos níveis anteriores a 2010 (Fig. 4). Ainda não estamos lá, mas tudo indica que para lá caminhamos.
 
Mas somos um sucesso ou não?
Quando os vizinhos pediram à paróquia que arranjasse um gestor familiar, imaginaram que a família apenas conseguiria equilibrar a sua vida se tivesse a casa limpa, o cão enterrado, os filhos a fazer os TPC mas nada disso aconteceu.
No entanto, mesmo mantendo a casa desarrumada e a berraria, a família conseguiu cortar na sua despesa (importações) e aumentar um pouco as suas receitas (exportações) o que permitiu equilibrar as suas contas externas. Agora, a família paga as suas coisas a horas (incluindo os juros da divida que é grande) e não precisa de novo endividamento.
O resultado da balança corrente excedeu largamente o que tinha sido antecipado.
Se pensarmos que o Salazar começou em 1926 (1932 como primeiro-ministro) com uma situação idêntica à nossa de 2011 e que demorou até 1940 para equilibrar as contas, já vemos como o resultado dos 2 anos qeu leva o governo do PPC é francamente positivo.
 
Será grave termos um défice público de 6%?
A Troika está-se borrifando porque esse défice, agora, é financiado internamente. O pai gastar e os filhos pouparem para emprestar ao pai ou o pai poupar e os filhos gastarem é exactamente igual ao litro para quem está a ver do lado de fora.
Apesar de as emissões de divida pública serem compradas maioritariamente por aforradores exteriores como a divida que essas emissões substituem (reformam) também são maioritariamente no exterior, o saldo (novo endividamento) é zero. Pode haver um pouco de aumento do endividamento externo público mas compensado por um pouco de redução do endividamento externo privado.

Será grave termos um desemprego de 20%?
A Troika também se está borrifando porque esse desemprego não se traduz nas contas externas. A mãe cozinhar ou estar a dormir, desde que os filhos não vão comer fora (gastar dinheiro no exterior) vai dar tudo na mesma.

Só uma variável está bem mas, para os credores, vale mais que todas as outras juntas.
Se Portugal conseguir manter a balança corrente a zero, como os juros e dividendos que paga já incluem a inflação, conseguiremos, em 35 anos, diminuir o endividamento externo para metade do que nível actual. Se conseguirmos melhorar a balança corrente para um saldo positivo de 0.75% do PIB, conseguiremos amortizar a totalidade da divida em 60 anos. E conseguir 0.75% não é nada extraordinário se pensarmos que a Alemanha tem desde 2006 um saldo positivo de 6.0% do PIB (ver, Fig. 5).
60 anos parece muito tempo mas, comparando com os 100 anos que demoramos a pagar a bancarrota de 1892, vemos que estamos no bom caminho.
É esta a razão para os últimos 2 anos sermos visto do exterior como um caso de grande sucesso.

Fig. 5 - Balança corrente alemã e quanto precisamos para amortizar a nossa divida externa em 60 anos(tradingeconomics)
 
E como poderíamos melhorar a situação interna?
Deixando a conversa louca dos direitos adquiridos e da defesa do estado social e baixando os salários uns 15%. Os salários já estão a corrigir e vão continuar a diminuir até ajustar o mercado de trabalho. Mas o desemprego poderia reduzir muito mais rapidamente.
Deveríamos deixar a lengalenga da procura interna, do caminho do crescimento baseado no consumo  e demais bull shiit e iniciar o caminho da realidade.

Ontem ouvi no Castle um pensamento interessante.
Chega um momento na vida em que perdemos a ilusão de que o Mundo alguma vez será como o idealizamos. Esse é um momento importante pois só a partir desse instante é que damos conta das muitas oportunidades que o Mundo nos dá de sermos felizes.
 
Pedro Cosme Costa Vieira

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Porque é que a taxa de juro equilibra a economia

Existem 4 grandes variáveis macroeconómicas que equilibram a economia de um país.
Os salários, a taxa de juro, a taxa de câmbio e a emigração. 
Estas variáveis são determinadas pelas forças de mercado não sendo intrumentos de política.
No entanto, os governos podem prejudicar (ou favorecer) a forma como estas variáveis ajustam a economia, por exemplo, proibindo a descida dos salários nominais.

Dos Salários já falei. Ao baixar os salários, por um lado, é mais rentável para o empregador contratar mais pessoas e, por outro lado, menos pessoas querem trabalhar. Então, havendo desemprego, o salário tem que diminuir e, havendo falta de trabalhadores, o salário tem que aumentar.

Fig. 1 - A flexibilidade do mercado de trabalho é muito importante

Hoje vou falar da taxa de juro.

O Robim.
O Robim é um araucano que tem um pouco de terra onde cultiva milho, batata, feijão e hortaliças diversas. Tem ainda umas lamas que pastoreia no monte. A terra mais as lamas são o seu capital produtivo, K.
O Robim trabalha N horas por semana, parte do tempo na terra e parte no pastoreio das lamas.
Leva uma vida simples que vai permitir explicar como a taxa de juro equilibra a economia face ao exterior.

A produção
Com o seu trabalho e o capital, o Robim atinge um determinado nível de produção, Y.
Se o Robin tivesse mais terreno ou mais lamas, com o mesmo trabalho produziria mais.
Se o Robin trabalhasse mais horas, com o mesmo capital também produziria mais.
    Y = a.K + (1 - a).N,  com 0 < a < 1

A poupança
A produção vai ter como destino o consumo, C, mais a poupança, S.
    Y = C + S
Agora vou explicar as variáveis que afectam a Poupança e, simetricamente, o Consumo.


O risco.
Se vier frio, muita chuva ou seca, com o mesmo capital e o mesmo trabalho, a produção do Robim será menor. Para fazer face a este risco, o Robim poupa para consumir quando acontecer uma "crise económica".
Se o risco aumentar, o Robim poupa mais e consume menos.

A taxa de crescimento da economia.
O Robim sabe que daqui a uns anos vai perder capacidade de trabalho, produzindo menos. Então, o Robim tem um incentivo a poupar no presente para ter o que consumir no futuro.
Se o Robim antecipar que vai produzir mais no futuro então, poupa menos no presente.
Se a taxa de crescimento for maior, o Robim irá poupar menos e consumir mais.

A taxa de juro.
A taxa de juro traduz quanto o Robim vai receber a mais no futuro pelo que poupa no presente.
Se o Robim poupar S, para uma taxa de juro R, no futuro vai consumir S.(1 + R).
Se a taxa de juro aumentar, o Robim irá poupar mais e consumir menos.

O desequilíbrio da economia face ao exterior.
A economia está sempre em equilíbrio. A questão está apenas na definição de equilíbrio.
No caso do Robim, a produção, Y, é sempre igual ao consumo, C, mais a poupança, S.
     Y = C + S
A poupança vai ser usada em Investimento, I, Variação de stocks, vS e Empréstimos Correntes ao exterior, a Balança Corrente, BC.
      S = I + vS  + BC
O investimento diminui com a taxa de juro.

A economia está desequilibrada quando a Balança Corrente, BC, está desequilibrada
Quando existe défice na Balança corrente, a economia endivida-se face ao exterior o que implica, no futuro, pagar juros e amortizar a dívida.

A procura interna.
É dada pelo Consumo mais o Investimento mais a variação dos stocks.
      PI = C + I + vS
Como, já referi, o Consumo, o Investimento e os Stocks diminuem com o aumento da taxa de juro, pelo que a Procura Interna, PI, é decrescente com a taxa de juro.
Podemos agora representar num gráfico em que sentido vai evoluir a taxa de juro para equilibrar um défice na Balança Corrente.

1. O "mercado de trabalho" é flexível.
Como a taxa de juro traduz quanto o Robim vai receber a mais no futuro pelo que poupa no presente.
Se o Robim trabalhar hoje N, para uma taxa de juro R, é equivalente a trabalhar no Futuro N.(1 + R).
Então, se o Robim trabalhar mais no presente poderá trabalhar menos no futuro.
Se a taxa de juro aumentar, o Robim vai trabalha mais e a produção vai aumentar.
Como a quantidade de capital é fixa então, a produção por cada hora diminui o que traduz o salário do Robim.
Se a taxa de juro aumentar, o salário por hora diminui mas o salário total aumenta.

A taxa de juro sobe, a produção sobe e a procura interna diminui.
 
Fig. 2 - A Balança Corrente e a taxa de juro com salários flexiveis.

Esta é a razão porque as economias da Zona Euro que têm Défice Corrente elevado pagam taxas de juro elevadas e os países que têm Superávite Corrente pagam taxas de juro baixas.
É  Taxa de Juro a corrigir a BC.

2. O "mercado de trabalho" é inflexível.
O Robim vai querer trabalhar mais mas, como é menos produtivo na horas que quer trabalhar e o salário é fixo então, não vai poder trabalhar mais.
Desta forma, a produção não vai aumentar quando a taxa de juro aumenta.

A taxa de juro sobe muito mais, a produção mantém-se e a procura interna diminui muito mais.

Fig. 3 - A Balança Corrente e a taxa de juro com salários inflexiveis.

Se o salário não poder diminuir, a produção mantém-se constante pelo que a taxa de juro tem que subir muito mais e a procura interna diminuir muito mais para a economia conseguir corriger o défice na Balança Corrente.
Esta é a razão porque a troika pede que Portugal flexibilize o mercado de trabalho.
Parace ser negativo que os salários possam diminuir em termos nominais, que os horaríos possam mudar sem acordo do trabalhador, que se obriguem os trabalhadores a mudar de ocupação. Mas essa flexibilidade permitirá que não se use apenas a taxa de juro para equilibrar a economia face ao exterior.
Permitindo o governo a descida dos salários nominais, a crise será muito menos profunda e as taxas de juro diminuirão.

Fig. 4 - Obrigado

Agradeço em meu nome e do meu amigo Pedro Araujo a todas as pessoas que contribuiram para atingirmos 150000 visitas. Dá muito trabalho manter o blog semrpe vivo que apenas faz sentido se os amigos continuarem a ler e a passar o endereço aos vossos amigos.
Prometemos trabalhar para, na medida da nossa capacidade, enriquecer o vosso conhecimento.
Peço desculpa pelas gralhas.

Pedro Cosme Costa Vieira

sábado, 26 de novembro de 2011

O Cavaco está maluco: o BCE não pode salvar a Itália nem ninguém

Por cada 100€ em depósitos bancários apenas existem 6.50€ em notas e moedas.
A economia europeia, por ser sofisticada, precisa de dinheiro para funcionar. Esse dinheiro são o outside money (notas e moedas), e o inside money (cheques, transferências bancárias e cartões sobre contas bancárias).
Como a moeda circula rapidamente, a quantidade de notas em circulação é muito pequena.
Na Zona Euro existem em circulação apenas 882.1 MM€ em notas e moedas corresponde a 9.36% do PIB (fonte:  BCE, Set2011).
Cada ano o BCE emite mais 50MM€ em notas e moedas.
Como a dívida externa italiana é de uma dimensão muito maior, 1850 MM €, não existe possibilidade de o BCE resgatar a Itália.
O Cavaco precisa urgentemente de uma pessoa competente para fazer umas contas e o aconselhar porque está a entrar no discursos ché-ché do Soares, Otelo e do Emplastro ("o Pinto da Costa é o meu pai").

Fig. 1 - Esta Bella Ragazza propõe-se a oferecer o sut a quem ajudar a pagar a dívida italiana. Ai que vou ter que largar mais uns 500€ para ajudar. Se fosses minha vizinha, derretia o meu ordenado todo a ajudar-te.

Recordando os posts passados
A construção desta minha conclusão tem uma certa sequência que é necessário ver:
1. O governador do BCE veio-me consultar sobre como salvar a Itália - 1
2. O BCE não pode imprimir notas
3. A inflação é um fenómeno puramente monetário


Quando depositamos o nosso carro numa garagem ele fica lá.
Mas quando depositamos dinheiro num banco não.
Em Portugal existem 245 mil milhões de € em depósitos bancários (fonte: Banco de Portugal, Set2011) e existem apenas 16 mil milhões de € de notas e moedas (fonte: BCE, set 2011, cálculo proporcional à ZE).
Agora imagine que tem 50000€ depositados no banco. De facto só lá depositou 3250€ em notas e moedas pois não se trata de um depósito mas de um empréstimo ao banco que o empresta a outra pessoa.

Teoria Quantitativa da Moeda
A quantidade de dinheiro que as pessoas pretendem deter, M, é uma decisão racional que está dependente de várias variáveis.

M é crescente com o PIB nominal
Como o dinheiro é principalmente usado para facilitar as trocas, quanto maior o PIB maior será a quantidade de moeda que as pessoas querem deter.

M é decrescente com a taxa de juro
Se eu, em vez de ter moeda, transferir o valor para um crédito, recebo uma taxa de juro. Então, ter moeda na mão dá-me um prejuízo igual à taxa de juro que perco.
A taxa de juro é igual à taxa de inflação mais a taxa de juro real pago na economia no período em que detenho a moeda (o período futuro).

M é crescente com o risco da economia
A moeda é a unidade de valor pelo que é o referencial sem risco. Quando na economia existe muito risco (nas crises), as pessoas querem entesourar moeda. Aqui sobressai a sua função de reserva de valor.
Podemos então formalizar a quantidade de moeda que as pessoas querem ter na carteira

M = A.(Y.P) - B.(p + r) + C.(risco) +  parte desconhecida
   Y = PIB real
    P = Nível geral de preços
    Y.P = PIB nominal
    p = Inflação esperada = DP
    r  = taxa de juro real
    M = quantidade de Moeda
    A, B e C parâmetros positivos
Podemos calcular os diferenciais (é como as derivadas)
    DM = A.(DY.P+Y.DP) - B.(Dp + Dr) + C.(Drisco)
    DM = A.(DY.P+Y.p) - B.(Dp + Dr) + C.(Drisco)

Agora, como a quantidade oferecida é determinada pelo Banco Central, podemos inverter a igualdade e simplificamos em incrementos relativos para determinar a taxa de inflação.

  p = DM + Dp + Dr - DY.P - C.(Drisco)  

Se o BCE aumentar a quantidade de moeda em circulação, a inflação aumenta proporcionalmente
Se o Banco Central for credível no seu mandato de manter a inflação de longo prazo (Dp + Dr = 0), então os preços aumentam proporcionalmente à quantidade de moeda emitida.
  p = DM  - DY.P - C.(Drisco)  

Por exemplo, se o BCE aumentasse a quantidade de moeda emitida em 10%/ano acima do que costuma fazer, a inflação passaria a ser 12%/ano.

O problema das crises.
O BCE tem a obrigação de manter a inflação nos 2%/ano. Quando a economia está em águas calmas a obrigação do BCE é relativamente simples de cumprir.
Quando se aproxima uma crise sabe-se que, a prazo, o PIB nominal vai diminuir (DY.P < 0 ) pelo que será preciso o BC diminuir a quantidade de moeda em circulação.
No entanto, nas crises há um grande aumento do risco ( C.(Drisco) > 0 ) que mais que compensa a queda do PIB.
Nas crise, em termos globais, é necessário o BCE emitir mais moeda.

Como é difícil adivinhar com certeza o futuro, quanto mais grave a crise mais dificuldade tem o BCE em controlar a taxa de inflação no curto prazo. Podemos ver na Fig. 1 que a crise do Sub-prime descontrolou a taxa de inflação e o mesmo está a acontecer com a crise da dívida soberana. No entanto, apesar da dificuldade e da variabilidade de curto prazo, em média, no período 2007/2011 o BCE conseguiu manter a inflação nos 2%/ano.

Fig. 2 - Evolução da taxa de inflação na Zona Euro, 2000-2012 (fonte: BCE)

O governador, Trichet, é o mesmo pelo que as dificuldades de controle da inflação no período 2007-2011 resultam apenas da severidade das crises.

Agora já podemos olhar para a divida soberana italiana
A divida externa italiana líquida é de 1857 mil milhões€.
Em média terá necessidades de financiamento na ordem dos 250mil milhões€ por ano.
O BCE, para um inflação de 2%/ano, emite por ano cerca de 50 mil milhões€ por ano (um aumento de 5% da massa monetária).
O quantidade máxima de moeda que o BCE consegue emitir são 130 mil milhões€, menos de metade do valor necessário para resgatar a Itália.
Os 130MM€ não dão nem para metade da Itália. Agora somemos a Grécia (50MM€/ano), Portugal (40MM€/ano), a Espanha (200MM€/ano) e temos necessidades de 550MM€ por ano.
O BCE, no máximo, pode salvar 20% da dívida dos PIIGS.

Os 130MM€ implica a Zona Euro passar a ter uma taxa de inflação de 50%/ano.
Os dados empíricos indicam que, quando a inflação é de 2%/ano, a quantidade de moeda detida pela economia é 10% do PIB. Quando a taxa de inflação aumenta para 100%/ano, a quantidade de moeda diminui para 1% do PIB.

     M/(Y.P) = 10% - 0.023 ln(p/2%)

Então, maximizando neste modelo o poder de emissão do BC, temos 1.4% do PIB para uma taxa de inflação de 54%/ano.
No caso da Zona Euro, PIB = 9400MM€ (fonte: BCE), temos um máximo de 130 Mil Milhões€.
Ultrapassando este limite, a taxa de inflação explode para as centenas ou milhares por cento por ano.

Fig. 3. Ajudar esta italiana causa mais inflação que tomar três pastilhas de Viagra.

Alguém acredita num inflação de 54%/ano?
Alguém acredita que a Alemanha, França, Luxemburgo, Holanda, Bélgica, e todos aqueles do Norte ficavam 1 minuto na Zona Euro se a taxa de inflação passasse a ser 54%/ano?
Alguém acredita que Portugal aguentava uma taxa de inflação de 54%/ano em solidariedade à Itália?

Certo dia estava um senhor na borda de uma ponte
Parecia que estava a pensar em se suicidar.
Aí, apareceu um cavalheiro com a barba por fazer e a cheirar mal e disse:
- Meu senhor que estás a pensar fazer uma loucura não o faças porque eu sou a tua fada madrinha. Pede-me um desejo que te será concedido.
- Minha fada madrinha? mas tens tão mau aspecto e és um homem.
- Não conheces a história da maça envenenada pela Fada Bruxa que adormeceu a Branca de Neve? Pois foi o que me aconteceu. Sou uma fada muito bonita e jovem envenenada. Agora, para eu quebrar este feitiço baixa as calças e vira-te de costas.
E assim aconteceu. Passados uns minutos (dizem que bons para um e mau para o outro), disse o suicida.
- Então agora já posso pedir que realizes o meu desejo.
- Meu filho que idade tens?
- 40 anos.
- E ainda acreditas nas fadas madrinhas? Então manda-te abaixo.

A economia discutida no barbeiro
O meu interesse pela economia surgiu no barbeiro. Tanta teoria interessante que surgia da mente daquele homem. O homem tinha solução para quase todos os problemas do mundo.
Desconfiei logo que nada tinha fundamento porque o homem apenas se dizia incapaz de curar os carecas. Então ele não sabia da ciência dele e sabia da ciência do Cavaco?
comecei a estudar economia e conclui que, afinal, o homem sabia tanto como o Cavaco.
Não sabia nada de nada.
Certo só sabia o número do autocarro que o levava para casa.
Nem sabia quanto custava o corte. Marcava no espelho 600$ e umas vezes dizia "deixe lá 400 paus", outras 500 e até me chegou a levar "300 paus porque você está magrinho".


A técnica dos demagógicos é não falar em números.
Ainda no outro dia vi um anúncio "venha fazer exercícios com o Dr. HU que faz bem aos rins, bexiga, figado, pulmões, coração, intestinos, e vigor sexual".
"Esqueceu-se" de dizer quanto bem fazia. Será que fazia melhor que dar uma caminhada? Não.
O Cavaco, Louçã e outros demagógicos também usam essa técnica:
O BCE pode injectar dinheiro na economia logo pode resgatar toda a gente.
Não dizem é que o BCE apenas pode emitir 50MM€/ano com um máximo de 130MM€ e que os PIIGS precisam de 550MM€/ano.
E mesmo a Alemanha só tem um superavit da balança corrente de 120MM€/ano.

Fig. 4. O BCE vai resgatar Portugal. O Pinto da Costa é o meu pai.

A inflação e o IVA
Emitir moeda é equivalente a aumentar os impostos.
Com uma taxa de inflação de 2%/ano, a emissão de moeda corresponde a uma receita de 0.5% do PIB (850M€/ano). Aumentando a inflação para 50%/ano, a receita aumentaria para 1.4% do PIB (2400M€/ano).
O IVA tem uma receita de 13500M€/ano.
Então, em vez de aumentar a inflação para 50%/ano podia-se subir o IVA de 23% para 25.5%.
Tenho a certeza que era melhor aumentar o IVA.

Será melhor a bancarrota ou a inflação?
O estimado leitor, se for esquerdista, comuna, broquista, está a pensar que eu cometi um erro de raciocínio.
Se, por exemplo, a Itália deve 100€, paga 3.5€/ano de cupão (juros) e devolve os 100€ daqui a 10 anos, se a taxa de inflação subisse para 50%/ano, em termos de poder de compra, a divida desvalorizaria para 8.61€.
Em vez da actual dívida de 1857MM€ a Itália passaria a dever apenas 160MM€.
Aí já o BCE poderia resgatar a Itália.

MAS ISTO SERIA UMA FRAUDE.
O que aconteceria é que os credores ficavam sem receber o seu valor.
O povinho que poupou e emprestou dinheiro à Itália (e demais países da Zona Euro) ficava sem 91.39% do seu dinheiro.
Por isso é que a taxa de juro da Grécia está nos 30%/ano, de Portugal nos 12%/ano e da Itália a caminho desses valores.
Os credores antecipam que nós os PIIGS são burlistas.
Entramos na Zona Euro prometendo que nunca mais íamos permitir a inflação e, uma vez apanhadas as poupanças dos incautos, pumba, atacamo-los com inflação.

É melhor a bancarrota.
A bancarrota fará com que o nossa país não tenha mais credibilidade.
É melhor dizermos que não podemos pagar a nossa dívida e desvalorizamo-la.
Por exemplo, se multiplicarmos o prazo da dívida actual por 3 passando a dívida a 10 anos para dívida a 30 anos e pagarmos uma taxa de juro de 2.82%/ano (a taxa de juro alemã a 30 anos), corresponde a "perdoarem-nos" 2/3 da nossa dívida (a taxa de juro portuguesa a 30 anos é de 9.866%_/ano). Fonte: bloomberg.
A dívida a 100 dias passaria a ser 300 dias (à taxa de juro alemã para esse prazo).

Durante muitos e muitos anos o Estado não conseguirá financiamento. Mais nenhum velhinho vai entregar os seus euros aos certificados de aforro.

Ao pagarmos o valor nominal e a taxa de juro.
Em termos morais ficamos mais confortados.
Diremos "Nós não nos recusamos a pagar as nossas dívidas nem burlamos as expectativas quanto à inflação. Apenas não permitimos que os mercados especuladores sugassem o nosso sangue".

A inflação é muito pior.
A bancarrota fará com que o nosso país, durante muitos e muitos anos, não tenha credibilidade.
Mas a inflação tem não só este problema (o Estado não cumpriu a promessa de manter a inflação) como o sistema monetário perde a sua credibilidade.
A bancarrota destroi a credibilidade do Estado mas a inflação destroi isso e a credibilidade do Banco Central.
Nunca mais será possível fazer empréstimos de longo prazo (a taxa prefixada).

Outra maluqice do cavaco - o BCE comprar toda a dívida pública acima de 10%/ano
Outra maluquice do Cavaco é propor que o BCE anunciasse uma taxa de juro máxima para a dívida dos países, por exemplo, 10%/ano, e, caso essa taxa de juro fosse ultrapassada, o BCE comprava a divida toda.
Isto é uma maluquice. Vejamos porquê.
1. Portugal emite 1000M€ e o mercado exige 12%/ano pelo que o BCE compra a 10%/ano.
Passado um ano, Portugal tem que pagar 1100M€ ao BCE.
2. Portugal emite 2000M€ de dívida (paga os 1100MM€ e fica com dinheiro 900M€ fresco) que o BCE  compra a 10%/ano.
3. Portugal emite 3000M€ para pagar a dívida e ter mais dinheiro.
4. Daqui a 100 anos, o BCE ainda não recebeu nenhum e tem que comer pentiuns, resmas, aviões com milhares de  milhões de € de divida pública portuguesa. Seria um google de euros.
5. Para o BCE nos emprestar esse dinheiro, alguém tinha que o por lá: os burros dos alemães.
Nunca a gente iria pagar nada.

O Sócrates ainda lá estaria.

Se o BCE comprasse sempre a nossa dívida, ia ser uma delícia para o Sócrates. E o Oliveira Costa, mesmo de cadeira de rodas, ia ficar no então prospero BPN até morrer. Tinham que o embalsar como fizeram ao Lenine.
Nem o Duarte Lima precisaria de matar, alegadamente, a D. Rosalina pois não lhe faltaria dinheiro.
O Sócrates ia ficar PM até morrer e depois de bater a bota, vinha o neto do Guterres seguido do bisneto do Santana.
Só se os nossos parceiros da Zona Euro fossem burros como o Cavaco é que pensávamos em pagar fosse o que fosse.

Fig. 5. Voltei de Paris rejuvenescido para poder aguentar como PM mais 48 anos.

Finalmente uma curiosidade: no Mundo existe mais ouro que notas e moedas.
Existem no Mundo 168 mil toneladas de Ouro o que dá 24g pessoa. A 55€/g dá 1320€/pessoa.
A quantidade de moeda andará nos 900€/pessoa.
Interessante haver mais valor em ouro que em notas e moedas.

Pedro Cosme Costa Vieira

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