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quinta-feira, 9 de maio de 2013

A moeda, o crédito, o financiamento e o juro - parte I - O sistema bancário

Moeda não é crédito nem financiamento.
Estas coisas são totalmente distintas  mas, na mente das pessoas comuns, parecem a mesma coisa.
Haver confusão na mente das pessoas apenas indica que a Economia não é senso comum mas que tem conceitos complexos e de difícil compreensão sem um estudo aprofundado. 
A Economia trata com uma realidade tão complexa e longe do senso comum que, mesmo nas pessoas com formação em economia, existe bastante dificuldade em compreender os conceitos "básicos".
No caso da moeda, que não existe na natureza não humana (é uma criação da humanidade), existe no senso comum uma confusão total com outras realidades como, no caso, o crédito e o financiamento.
Eu já escrevi muito sobre isto (que agreguei num índice - O sistema monetário) mas, como o Ricardo Mendes me voltou a colocar esta questão com a convicção de que estava certo e eu errado apresentando mesmo um vídeo com dois homens a falar que não têm a mais pequena noção do que estão a dizer, vou ter que me aplicar a fundo para tentar que o amigo leitor fique com um pouco mais de luz.

Fig. 1 - Por falar em Luz, no Sábado vão apanhar para aí uns 5-0 do Dragão, penso eu de que.

No entanto, o pior dos cegos é aquele que não vê porque não quer ver.  Pensando no que diz o Gordon Ramsay repetidamente (do Hell's Kitchen), enquanto estivermos em negação, nunca conseguiremos ver a verdade.
Então, se o amigo leitor quer acreditar com toda a força que moeda, crédito e financiamento são a mesma coisa, se quer continuar a ver o sistema financeiro como a mesma coisa que o sistema monetário e que ambos são criações do diabo, muito dificilmente poderá ver a verdade.
Não é fácil tomar consciência que a Terra anda à volta do Sol ou que o homem teve origem no macaco, mas temos que acreditar que, com esforço, é possível derrotar a ignorância.
Não podemos ficar como as testemunhas de Jeová (ou os católicos) que não querem ver que, se nós temos defeitos, Deus também tem efeitos (diz na Bíblia : "E criou Deus o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou."  Gen 1:27).
Para não ficar um texto muito pesado, neste poste vou apenas tratar do crédito, financiamento e taxa de juro e no próximo poste (Parte 2 - O sistema de preços.) vou tratar do sistema monetário e, finalmente, vou fazer a ligação entre os dois sistemas.

O que é o crédito e o financiamento.
O crédito e o financiamento são as duas faces da mesma faca.
Se eu empresto uma galinha ao meu vizinho, eu concedo um crédito (de uma galinha) passando a ser credor e ele aceita um financiamento (de uma galinha) passando a ser devedor.
Não pode haver financiamento sem crédito nem pode haver crédito sem financiamento e as suas quantidades são exactamente iguais.
Se o total de crédito concedido na economia são 100 galinhas, 3 porcos, 2 vacas e 100 alqueires de milho, o financiamento na economia são exactamente 100 galinhas, 3 porcos, 2 vacas e 100 alqueires de milho.

Fig.2 - A faca não pode existir com apenas um dos lados.

O juro.
Se eu concedo ao meu vizinho o crédito de 10 galinha, ele obtém um financiamento de 10 galinhas.
O meu problema é que se o meu vizinho for à bancarrota (por exemplo, vier uma seca), eu fico sem as minhas 10 galinhas. Então, eu quero que ele faça um "seguro de crédito" junto de uma seguradora que lhe cobra  um determinado quantitativo (o prémio do seguro), 1 galinha. 
Eu empresto 10 galinhas e, passado um determinado tempo, se tudo correr bem, o meu vizinho paga 10 galinhas a mim e 1 galinha à seguradora. Se tudo correr mal, o meu vizinho não paga nada mas a seguradora paga-me as 10 galinhas. Então, a seguradora assume o risco do crédito podendo ter um  um prejuízo de 10 galinhas (com a probabilidade p) ou um lucro de 1 galinha (com a probabilidade 1-p). Em termos esperados, a seguradora exige 1 galinha porque antecipa um risco de 9.091% de bancarrota total:
       1 x (1 - p) -10 x p = 0   => p = 9.091% (equivalência que faz o lucro esperado nulo).

Agora sou eu, o credor, a seguradora.
A ser assim, tendo emprestado 10 galinhas, se tudo correr bem, vou receber (como diz no contracto) 11 galinhas. Então, vou receber o capital (10 galinha) mais 1 galinha de juro.
Mas essa galinha não é nenhuma exploração do devedor pois pode pedir as galinhas a outro qualquer. O juro é apenas o prémio que a seguradora levava para assumir o risco. Agora, O risco fica por minha conta, se o devedor for à bancarrota, eu não recebo nada.
Em termos económicos, naturalmente que os devedores com mais risco terão que pagar uma taxa de juro maior senão, os devedores adoptarão estratégias demasiadamente arriscadas.

Haverá casos de juros exagerados (usura)?
Quando nós estamos a nadar no mar e começamos a afogar, se quem nos for salvar nos exigir uma avultada soma de dinheiro, nós somos obrigados a pagar para não morrermos. Parece que, se não conseguíssemos pagar uma pipa de massa, morreríamos afogados.
Mas não é isso que aconteceria.
Primeiro, tomávamos mais cuidado. Apenas nadávamos em dias de águas calmas, com bóias e próximo da costa -> não assumíamos tantos riscos.
Segundo, se morrêssemos, o socorrista não receberia nada. É o problema do monopolista que, apesar de querer cobrar um preço muito alto, vai ter que moderar o preço porque tem que vender para ter lucro.
Terceiro, apareceriam muitos nadadores-salvadores. Como a profissão de nadador-salvador seria muito lucrativa, apareceriam mais pessoas, em concorrência, capazes de socorrer os náufragos o que diminuiria o "preço" de sermos socorridos.

Quarto, íamos nadar onde houvesse maios salvadores. Como havendo concorrência, conseguíamos um salvamento mais barato, os banhistas juntavam-se onde houvesse mais nadadores e os nadadores juntavam-se onde houvesse mais pessoas: o mercado aglomerava-se em multidões de náufragos e de salvadores, todos em concorrência.

Fig. 3 - As mulheres boas aproveitam-se da situação de necessidade dos homens.
Mas se não houvesse preços diferenciados, as mulheres não se tratavam e as putas feias e gordas não tinham saida nenhuma.

No crédito/financiamento passa-me algo semelhante - É a taxa de juro real.
Se houver no mercado poucas pessoas a querer emprestar galinhas e muitas pessoas a precisar de pedir galinhas emprestadas, o juro virá superior ao prémio do seguro de risco, juro > 1/(1-p).
Se, pelo contrário, houver no mercado muitas pessoas a querer emprestar galinhas e poucas pessoas a precisar de pedir galinhas emprestadas, o juro virá inferior do prémio do seguro de risco, juro < 1/(1-p).
Esta diferença é a taxa de juro real, aquela que, sem risco, traduz um ganho (se for positivo) ou perda (se for negativo) patrimonial de quem concede o crédito com uma contrapartida em quem pede emprestado. Cada galinha que o emprestador perde, é uma galinha que o devedor ganha e vice-versa.
Não existe qualquer perda para a sociedade por a taxa de juro real ser alta ou baixa pois o ganho de uns é sempre a perda de outros. É apenas uma questão de re-distribuição.

É importante que a taxa de juro real varie ao longo o ciclo económico.
Vamos supor que a produção oscila ao longo dos anos (igualmente para todas as pessoas) e que não é possível constituir stocks (a arca frigorífica está avariada). No ano bom cada pessoa produz 600 galinhas e no ano mau produz apenas 130 galinhas.
Como as pessoas querem comer sempre o mesmo (1 galinhas por dia) e não podem constituir stocks, vão querer emprestar 235 galinhas no ano bom para terem 365 galinhas (130+235) no ano mau.
O problema é que no ano bom toda a gente quer emprestar galinhas e ninguém quer pedir galinhas empestadas e, no ano mau, ninguém tem galinhas em excesso para pagar o financiamento obtido no ano bom.
Então, a taxa de juro real do ano bom tem que ser muito inferior à taxa de juro do ano mau.
Por exemplo, vou fazer um contracto em que emprestando 10 galinhas no ano bom, vou receber 3 galinhas no ano mau (uma taxa de juro de -70%). Outro contrato pode dizer que, se eu emprestar 10 galinhas no ano mau, vou receber 30 galinhas no ano bom (um juro de 300%).
Se a taxa de juro fosse sempre igual, por exemplo, 0%/ano, o mercado de crédito/financiamento deixava de existir pois era muito elevado (não haveria devedores potenciais) nos anos bons e muito baixo nos anos maus (não haveria credores potenciais).

E qual é o objectivo dos bancos comerciais?
O seu objectivo é apenas comprar e vender galinhas mas a crédito/débito e fazer seguros de crédito.
Eu não quero risco pelo que, querendo emprestar uma galinha, vou ao banco e deposito-a.
Outra pessoa quer pedir uma galinha emprestada, vai ao banco e, mediante o pagamento do "prémio do seguro de crédito" (um juro que é crescente com o risco de bancarrota do devedor), o banco empresta-lhe a galinha.
Repito que eu podia emprestar a galinha directamente à pessoa que a quer emprestada e fazer eu o seguro (cobrar o juro). Mas, como o banco tem muito movimento, consegue diversificar o risco do negócio.

Vamos supor que 9% dos devedores vão à bancarrota.
Se eu empresto 10 galinhas, tenho 9% de probabilidade de o meu devedor ir à bancarrota e eu ficar sem nada.
Se 100 pessoas depositarem cada uma 10 galinhas no banco (juro zero) e o banco emprestar 10 galinhas a 100 clientes diferentes (um total de 1000 galinhas) cobrando um juro de 10% então, se 9 pessoas bancarrotarem (os tais 9%), o banco recebe 1001 galinhas podendo devolver 10 galinhas a cada depositante (o banco tem 1 galinha de despesas administrativas).
O depositante das galinhas recebe apenas 10 galinhas mas recebe-as sempre.
Se os devedores não pagarem ao banco, é o capital dos seus donos que responde pela perda. Mas também se pagarem todos, o lucro vai para o banqueiro.

Será preciso crédito para haver crescimento económico?
Afirmar isto é uma loucura semelhante à afirmação do Sócrates de que "produzir electricidade com o vento não custa dinheiro ao país" para depois fazer contractos em que enfia pipas de massa no bolso dos gajos dos vira-ventos. Se não custava nada, não era preciso fazer contracto que agora nos obrigam a pagar milhões todos os dias.

Vamos então ao crédito para o investimento.
Para haver crescimento económico tem que haver mais trabalho (mais pessoas e mais horas por pessoa) e mais capital.
Se eu sou agricultor, para produzir mais nas 70h/semana que trabalho, tenho que melhorar o meu sistema de rega e fazer socalcos que consigo investindo parte do meu tempo de trabalho nestas coisas.
A necessidade do crédito/financiamento deriva de a maior parte das pessoas não querer assumir riscos. Quer ser empregado por conta de outro com um ordenado fixo ao fim do mês e quer que as galinhas que emprestam voltem com certeza quando chegar a hora.
Por exemplo, eu podia ter uma empresa com 100 trabalhadores com 5000 galinhas de capital sem qualquer financiamento se cada um dos trabalhadores fosse dono de 1% do capital (cada trabalhador metia 50 galinhas na empresa). Mas isso tinha risco.
Como a grande maioria das pessoas quer um rendimento fixo, arranja um emprego (tenta) e deposita as suas galinhas num banco. Depois, há um empresário que pede as galinhas emprestadas ao banco, paga um juro que cobre o seu risco de bancarrota, e fica ele dono de 100% da empresa.

Vejamos os exemplos da privatização da TAP (dos ENVA ou da RTP).
Quando o Eframovich disse que dava 20 milhões € ao Estado, os 12 mil trabalhadores que vieram dizer que o preço era baixo, que a TAP era muito lucrativa, blá, blá, blá, blá e que o Passos estava a vender uma fortuna por tostões deveriam ter dito:
 - Nós damos esse dinheiro e a TAP fica nossa. Afinal só calha 1650€ a cada um.
O problema é que os salários passavam a ser variáveis: se a TAP desse prejuízo (como vai continuar a dar), eram eles que entravam na madeira e não nós contribuintes.
Repito a pergunta que fiz há uns meses àqueles comentadores que disseram que a TAP era muito lucrativa (onde se inclui o meu ex-amigo de não sei que universidade americana).
A TAP devolveu aqueles 100 milhões de euros ao Tesouro "necessários apenas porque estava no processo de privatização"? Não me parece.

Para haver crédito aos investidores, tem que haver poupança das famílias.
E não há. Ainda se acrescenta o facto da balança corrente estar equilibrada (não estou a dizer que isso é mau).
Não haver poupança das famílias é o problema mais grave da nossa economia (ver, Fig. 4). Como todos os anos parte do capital se torna obsoleto (estimado pelo WB em 18% do PIB) e a nossa poupança é de apenas 11% do PIB então, cada dia que passa o nosso trabalho torna-se menos produtivo porque os equipamentos ficam envelhecidos.
É bonito os esquerdistas virem para a televisão apregoar que "os salários têm que aumentar para aumentar o consumo" mas depois não há poupança, sem poupança não há investimento, sem investimento a produtividade do trabalho diminui e, conclui-se pela necessidade de os salários terem que diminuir. Não diminuem e o povo vai para casa ver os esquerdistas na televisão a apregoar que os salários têm que aumentar.

Fig. 4 - A poupança em Portugal está muito baixa (a depreciação do capital é de 18% do PIB e a poupança bruta é de 11% do PIB, dados: Banco Mundial)

Como se equilibra o mercado de crédito/financiamento?
A situação neutra é ter uma taxa de juro (sem risco) nula e a taxa de juro ser uma compensação pelo risco de bancarrota de cada devedor. Os devedores com mais risco terão que pagar mais juros (pelo menos é o que diz o contracto pois, em caso de bancarrotarem, não pagam nada) e os com menos risco terão que pagar menos juros.
No entanto, se houver muita poupança das famílias e poucas ideias de negócio (pouca propensão a investir), a taxa de juro desce abaixo de zero.
É esta a situação que vivemos actualmente e deve-se ao facto das famílias asiáticas, principalmente as chinesas, pouparem muito e o PIB da China estar a crescer muito (um PIB maior faz com que a poupança da china, em termos mundiais, fique maior). Então,  existe uma quantidade crescente de crédito disponível com origem na Ásia e nos países ocidentais (onde a poupança está historicamente baixa) não existem ideias para novos investimentos.
Somando a poupança do Japão com a da China e da Índia (que ainda é uma pequena economia mas está a crescer), entre 1980 e 2000 a poupança esteve estável em 15 PIBs portugueses ( a China subiu mas o Japão desceu) mas, desde 2000, a poupança destes 3 países duplicou para 30 PIBs portugueses (ver, fig. 5).

Fig. 5 - A poupança do Japão + China + Índia em PIBs portugueses (dados: Banco mundial)

O que precisa de muito capital é a indústria. Como na Europa não existem projectos industriais de monta, as oportunidades de investimento na Europa são poucas. Então, a tendência é uma diminuição da taxa de juro sem risco que, em termos reais, já está negativa independentemente de estarem dentro (a Alemanha) ou fora do Euro (o Reino Unido), ver Fig. 6.

Fig. 6 - Na Europa os juros (sem risco e sem inflação) estão negativos e o que Portugal paga é risco de bancarrota (dados, EUROSTAT)

Concluindo?
Tal como foi difícil meter na cabeça que o Sol não andava à volta da Terra porque era isso que se via todos os dias e meter na cabeça que a humanidade vem do macaco e não de Deus, também é difícil separar a da moeda da questão do crédito e financiamento.
Mas por ser difícil não quer dizer que quem confunde os conceitos está  está certo.
Neste poste não falei de nada que fizesse lembrar euros para verem que não são necessários para termos a economia a funcionar.
Se não falei de euros então, o sistema monetário (os euros) não tem nada a ver com o sistema bancário.
Nada, absolutamente nada. Antes de a humanidade ter inventado a moeda já existiam bancos (intermediários entre quem precisa poupar e quem precisa de pedir emprestado galinhas).

Os esquerdistas.
Tal como o vendedor da banha da cobra que explica como a banha consegue curar todas as maleitas, também existem Batistas da Silva, Sócrates e Galambas que explicam como funciona a economia mas que não percebem nada do assunto.
Quem sofre de uma doença terminal quer acreditar que a banha da cobra o vai corar mas não vai. Também quem vê o seu rendimento ameaçado quer acreditar que a culpa é do Passos Coelho e que o Seguro vai por outro caminho qualquer e que ficamos logo safos.
Mas como diz repetiamente o Gordon Ramsay,
 - Where did you get this fucking idea of "the other way"? That is bullshit, it looks like a crushed dick with dry bullshit on the top where you just pissed in the middle of fucking nowhere.

Fig. 7 - Vamos focalizar e concentrar porque, 6 anos de aplicação dessas teorias alucinadas e a conversa do "outro caminho" levaram o país à bancarrota.

Temos que meter as galinhas na cabeça.
Para compreendermos o crédito/financiamento e como funciona este mercado (em que o preço é a taxa de juro) temos que esquecer que existe dinheiro ou que o preço das coisas é em unidades monetárias.
Só depois de libertos das unidades monetárias é que nasce uma pequena esperança de que estes conceitos complexos e que não são do senso comum possam entrar na dick's head dos esquerdistas.

Fig. 8 - Nós somos esquerdistas e acreditamos que o PEC IV do Sócrates nos tinha salvo  e que quando o Seguro mandar, vai terminar com a austeridade e dar  inicio ao "outro caminho" que nos vai tornar a maior potência económica do Mundo.

Ver a Parte 2 - O sistema de preços.


 
Pedro Cosme Costa Vieira.

terça-feira, 19 de março de 2013

O contributo dos expatriados no resgate de Chipre

A nossa comunicação social é maioritariamente esquerdista pelo que as pessoas que lá aparecem são contra a Economia de Mercado que, normalmente, lhe chamam capitalismo.
Os esquerdistas sempre defenderam que os bancos não deveriam ser resgatados e ir à falência. Sistematicamente, esqueceram-se de dizer que neste caso os depositantes perderiam as suas poupanças.
Isso já aconteceu, em parte, na Islandia e os esquerdistas acharam muito bem porque os penalizados foram apenas os ingleses. 
Agora que, isso vai acontecer, em parte, no Chipre, estão contra talvez porque, no meio dos penalizados, estão expatriados russos.
É estar contra o velho ir em cima do burro e ir a pé.

Fig. 1 - Qualquer que seja a política, para os esquerdistas, está sempre errada.

O que se está a passar em Chipre?
Chipre tem uma dimensão de 10% de Portugal. Tem 1.1M de habitantes (nós temos 10.6M) e um PIB de 17MM€ (nós temos 170MM€).
A diferença é que Chipre, de forma semelhante à Irlanda, é uma "praça financeira" tendo em depósitos bancários 400% do PIB (e nós temos 150%).
A Irlanda estava muito exposta aos EUA pelo que foi muito penalizada com a crise do sub-prime.
Chipre estava muito exposto à dívida pública grega. Quando foi "acordado" que haveria bancarrota parcial da divida pública grega, todo o sistema financeiro cipriota entrou no vermelho.

Fig. 2 - Chipre tem boas praias

Estará a economia de Chipre melhor que a nossa?
Também não está nada famosa mas, ainda assim, desde 1995, tem mostrado uma saúde melhor que a nossa.
A média do défice da balança corrente cipriota foi de 4.5% do PIB (o nosso foi de 7.9% do PIB) e do crescimento cipriota foi de 2.5%/ano (o nosso foi de 1.25%/ano).
Por isso, a bancarrota cipriota, numa proporção bastante maior que a nossa, é uma consequencia directa da bancarrota grega.


Fig. 3 - Défice esterno de Chipre e de Portual (dados: Banco Mundial, alisados pelo autor)

Vamos agora à solução do resgate.
Quando a Argentina "saiu" da Zona Dólar e desvalorizou o peso, os depósitos bancários perderam 75% do seu valor relativamente ao USD.
Quando a Islândia "atacou" a sua crise financeira com a desvalorização da coroa, os depósitos bancários perderam 50% do seu valor relativamente ao Euro.
Agora, o Estado cobrar 10% sobre os depósitos bancários, é uma brincadeira de crianças.

Porque aplicar o imposto?
Em termos legais, as pessoas não vão perder os seus depósitos nem ser vítimas de um confisco. Apenas haverá um imposto (como a nossa contribuição Especial de Solidariedade) que vai incidir sobre os valores depositados nos bancos.
O nosso Miguel Cadilhe defendeu que houvesse uma taxa de 4% sobre todo o património imobiliário e os esquerdistas não foram contra porque antecipavam que apenas os "ricos" iriam pagar.
Reforço que os depositantes não vão perder um euro dos seus depositos mas o Estado é que vai cobrar um imposto sobre a riqueza das pessoas.
O imposto poderia ser sobre outra coisa qualquer como, por exemplo, o IVA ou o IRS..

Mas assim, vão ser chamados os expatriados.
Uma parte importante dos depósitos bancários são de expatriados que, por não serem tributados, não são responsáveis pelas garantias que o Estado presta junto dos credores.
Como o dinheiro é para resgatar as perdas gregas acumuladas no sistema financeiro, se não houver resgate os bancos abrem falência e os depositantes perdem parte do seu dinheiro.
Se Chipre fizer como a Islândia (que não aplicou aos expatriados na garantia dos depósitos bancário), os expatriados irão perder os seus depósitos.
Desta forma, é uma solução de compromisso em que os expatriados contribuem com 10% do seu depósito para resolver o problema.
Se fosse aplicado a Portugal, seria  cerca de 20MM€. Só a capitalização bolsista do BCP, com a crise perderam mais que este valor, i.e., os seus accionistas perderam.

Porque os bancos cipriotas estão encerrados?
Não tem nada a ver com o imposto.
Decidindo o governo aplicar um imposto sobre o saldo bancário às 0h do dia 17 de Março, perguntava aos bancos a lista dos titulares e, no fim do mês, mandava uma nota de cobrança com o valor a pagar. Assim como vamos receber o IMI para pagar.
O problema é que os bancos ficaram sem notas e não têm activos bons para materializar as ordens de transferencia para bancos exteriores.

Eu já tratei num post o processo que se iniciou.
1) Os saldos bancários das pessoas são materializados por activos de maturidade longa localizados principalmente no Chipre e na Grécia.
2) As pessoas querem levantar notas ou transferir o saldo bancário para bancos no exterior.
3.1) Os bancos cipriotas não têm activos aceitáveis para transferir para os bancos do exterior como contraparte dos saldos bancários pelo que os bancos exteriores não aceitam as tranferencias.
3.2) os bancos, em média, têm apenas 5% dos saldos em notas no cofre (3.5MM€ para depósitos de 70MM€), pelo que ficaram rapidamente sem notas.
4) Apenas não possíveis transferencias entre bancos igualmente falidos (entre os bancos cipriotas).

Agora o processo vai seguir o seu caminho e vai terminar de uma de duas formas.

A) A Troika garante as transferencias.
Todas as transferencias para o exterior são garantidas pela Troika pelo que, em caso dos activos cipriotas não corresponderem ao valor nominal, assumimos todos com os nossos impostos as perdas cipriotas de forma solidária (que são as perdas gregas).
Mesmo neste caso, o risco de novo imposto vai fazer com que os depósitos diminuam mais de 50% mas o sistema vai estabilizar.
Parte dos depósitos vão ser garantidos pelos russos (como o reino Unido fez com a Islândia e depois perdeu o dinheiro) para terem uma base naval no mediterraneo pois a única que têm, a da Síria, está condenada a desaparecer.

B) Chipre quer seguir o seu caminho.
Nunca mais será possível o levantamento ou a transferencia para o exterior dos saldos bancários. Vai ser tipo o BPN mas à escala de um país (pequeno).
Acaba a mobilidade de capitais (pois o estado pode apropriar-se dele) e a economia vai funcionar com transferencias electrónicas internas. 
Num prazo de alguns meses, vai surgir uma nova moeda e o Chipre sai da Zona Euro.
Recordo que imprimir notas demora pelo menos 1 mês.
Será escusado dizer que o câmbio vai fazer com que as pessoas recebam muito menos que os 90% que se discute agora.

É o problema dos vasos comunicantes.
A economia é uma toalha curta que cobre uma mesa.
A técnica dos esquerdistas (que foi a mesma do Hítler) é convencer as pessoas de que tudo é independente de tudo.
É possível o Estado aumentar despesa, diminuir os impostos e ficar sem défice.
É possível as empresas aumentar os salários, diminuir os preços e aumentar os lucros.
É possível os devedores bancarrotarem e, mesmo assim, os credores receberem o seu dinheiro.
É possível uma mulher emagrecer aumentando ao mesmo tempo as mamas.
Mas não é.
Os comunas querem fazer querer que o BCE e a Troika são coisas que vêm do inferno para darem cabo da felicidade dos países intervencionados mas, cada euro que eles perdoam a um país acaba por ser mais um euro que temos que pagar de impostos.
Puxa-se a toalha de um lado para tapar o nosso lugarzinho, destapa-se de outro lado.
Puxa-se a toalha para perdoar parte da dívida aos gregos, carrega-se os cipriotas com perdas dos depósitos bancários.
Perdoa-se aos cipriotas, carrega-se nos nossos impostos.

É este o "outro caminho" do PS.
Olhem ao que eu vos aviso.
Podem não gostar do Passos coelho porque hoje vivemos pior que vivíamos no tempo do Sócrates. Mas aquilo era falso baseando-se num endividamento externo insustentável.
O caminho que nos apontam os do PS, mais despesa, mais salários, menos impostos, abaixo a Troika, é o caminho de Chipre.
Estou a rezar ao Santo Padre para que os do Chipre não aceitem as condições da Troika pois isso vai permitir que abandonemos a demagogia esquerdista e nos salvemos.

Já que falei no Santo Padre.
Os comentaristas papais que aparecem na televisão são a coisa mais burra que eu alguma vez vi.
Até a minha mãe, nos seus 82 anos e com a cabeça queimada da hemodiálise e diabetes, acha uma bestice total.
Não interessa se o Papa é gordo, magro, feio, bonito, simpático ou preto. Interessa é que ele responda às perguntas da Igreja, dos fieis da Igreja.
Vou recordar 10 perguntas que o Papa tem que responder porque as nossas sociedades já as aceitaram com toda a naturalidade:

     A) O  casamento dos padres é para avançar?
     B) A democratização da governação das paróquias é para avançar?
     C) Os divorciados continuam ex-comungados?
     D) As mulheres podem aspirar à ordenação?
     E) Os métodos anti-concepcionais são pecado?
     F) Os sexo como actividade recreativa continua pecado mortal?
     G) Os gays continuam excomungados?
     H) O aborto continua pecado mortal?
     I) E a eutanásia?
     J) Passarão as outras religiões a ser caminhos válidos para a salvação?

Se não responder afirmativamente pelo menos a uma destas questões, será uma perda de tempo termos mais este papa. Se o pontificado vai ficar reduzido a comentários sobre a cor dos sapatos, se a janela do papamóvel está aberta ou fechada, se ele fala italiano ou espanhol, mais valia terem lá o nosso Jorge Nuno Pinto da Costa.

Pedro Cosme Costa Vieira

domingo, 1 de abril de 2012

Bancos de costas voltadas para a economia

A questão é pertinente. Os spreads dispararam, a corrida ao BCE por parte dos nossos bancos, para ir buscar liquidez a 1%, é um fartote e os depósitos dos bancos europeus (não se sabe em que medida dos nossos) é frequente, pese embora esse dinheiro depositado no BCE chegue a ser remunerado abaixo de 1% ao ano. E este dinheiro depositado no BCE fazia falta à nossa economia real (das empresas). Há empresas com spreads de 5% ou mais, isto quando conseguem algum crédito bancário depois de prestarem garantias colossais.


Efeito boomerang: empréstimos-depósitos no BCE

O financiamento do Banco Central Europeu à banca portuguesa aumentou em Fevereiro pelo quarto mês consecutivo, atingindo uma soma de 47,55 mil milhões de euros. O BCE injectou, no final de fevereiro de 2012, cerca de meio bilião de euros no mercado bancário de forma a reactivar o crédito aos particulares e às empresas na zona euro, mas esta operação teve um efeito boomerang, pois o dinheiro voltou em força aos cofres da instituição de Frankfurt. No dia 1 de março, 24 horas depois da operação de liquidez, os bancos efectuaram um recorde de 776,941 mil milhões de euros nos cofres do BCE, em depósitos diários, em detrimento de depositarem noutras instituições financeiras. O BCE permite que os bancos depositem o dinheiro a troco de um juro de 0,25%. Fazendo as contas, se o banco central vendeu o mesmo dinheiro a 1% no dia anterior, é evidente que a banca perde dinheiro com esta operação.

Vítor Constâncio para Mario Draghi: "Bem, sabes como os portugueses são... e vocês, italianos, ainda são mais mãos
de vaca para emprestar dinheiro. Se eu tivesse reparado no BPN há uns anos, esta balbúrdia não seria tão grave. 
Mas não desgosto do clima de Frankfurt"

BCP é o campeão no BCE

Repare-se atentamente nos dois gráficos seguintes. Só o BCP foi buscar ao BCE cerca de 15 mil milhões de euros (antes do último grande leilão). Colocando o problema do ponto de vista da percentagem dos ativos financiados pelo BCE, o BCP é imbatível. O BCE são dinheiros públicos, assim como as injeções de capital no setor feitas nos últimos anos. 

Quanto dinheiro cada banco já foi buscar ao BCE
Quanto dinheiro cada banco foi buscar ao BCE, em % dos ativos financiados

FONTE: UBS citada pelo Financial Times em: 

Euro system names n’ numbers



Banca está mal e o contribuinte é que paga

Os contribuintes portugueses já perderam 3,1 mil milhões de euros com o programa de apoio aos bancos, criado depois do início da crise financeira, em 2007. Um valor que já representa quase cinco vezes aquilo que o Governo planeia gastar com o programa de emergência social (640 milhões de euros). Estas perdas dizem respeito a injeções de capital público nos bancos, juros e garantias acionadas. Os números, publicados há dias pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), mostram que metade do valor é da responsabilidade do BPN que, só em 2010, custou 1,8 mil milhões ao Estado (ver mais aqui).

Aproveito para reproduzir a seguir um artigo meu publicado no último sábado no JN e site Dinheiro Vivo e que ilustra um pouco do que a banca tem andado a fazer (ver original aqui).

Exportadores do Norte com menos crédito na banca

Os dados do Banco de Portugal mostram que o Norte, região responsável por 37% das exportações em 2011 (15,7 mil milhões euros), capta apenas 26% do crédito bancário para empresas (30,2 mil milhões de euros), contra 42% da região de  Lisboa (48,7 mil milhões de euros). Cruzando esses dados com o número de empresas exportadoras , (7208 a Norte e 6077 em Lisboa), bem como os valores das saídas por região, conclui-se quem mais vende ao exterior menos beneficiado tem sido na concessão de crédito.
Embora vários banqueiros reconheçam que as restrições ao crédito aumentaram, dando prioridade agora às sociedades exportadoras, a verdade é que o panorama  no final de 2011 ainda revelava desequilíbrios. As restrições da banca no crédito às empresas são frequentemente justificadas com o custo do financiamento dos próprios bancos.
"Relativamente aos cinco maiores bancos, a redução do custo de funding é bem significativa de 2007 para 2010 - 236 pontos base (pb) - e de 2010 para 2011 (projetado com base no primeiro semestre) o custo do funding poderá aumentar quando muito 31 pb", afirma Meira Fernandes, ex-gestor bancário e membro da tertúlia JN, Universidade Católica e Associação Comercial do Porto.

FONTE: Gráfico elaborado pelo economista e ex-gestor bancário Meira Fernandes, citado neste artigo,
e que já foi publicado duas vezes pelo JN até esta data

"Curiosamente, o Banco de Portugal teve uma intervenção ativa, limitativa, no funcionamento do mercado financeiro na ótica do 'preço da matéria-prima' para os bancos, quando impôs, no Outono passado, um limite máximo de 3% acima da euribor na captação de recursos [depósitos]. Mas nada fez para limitar o 'preço da matéria prima' para os utilizadores de crédito. Há crédito ao consumo a 33% e não há limites para taxas a cobrar nos empréstimos", considera o economista Meira Fernandes. "Quanto ao crédito às empresas, sob a forma de descobertos, as taxas praticadas aproximam-se em média dos 15%", acrescenta.

No ano passado, e com base nos cinco maiores bancos,  o juro cobrado pelos bancos situou-se nos 4,67%, mas o juro pago pela banca para se financiar a si própria ficou-se pelos 3,15%, um fosso que tem aumentado.

A UBS calculou os montantes que diferentes bancos europeus pediram emprestado ao Banco Central Europeu (BCE) a três anos com 1% de juro. BCP, BES e BPI conseguiram à volta de 26 mil milhões de euros através destes empréstimos.  O BCP tem à volta de 17% dos seus ativos financiados pelo BCE, colocando-se à frente nesse rácio dos maiores bancos espanhóis, irlandeses ou italianos. O BES surge em quarto lugar (15%).

Pedro Palha Araújo

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