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sexta-feira, 9 de maio de 2014

O mau, o feio e o péssimo

A "espiral recessiva" deu lugar ao "caminho para a estagnação". 
Hoje estive a ouvir o debate na Assembleia de República e achei interessante os do PS atacarem com a ideia de que estamos a caminho da estagnação. 
Mas se antes estávamos na espiral recessiva e agora caminhamos a passos largos para a estagnação então, isto são boas notícias. 
Mas não. Afinal, como por um passe de mágica, os esquerdistas querem passar sobre o facto da economia estar há vários trimestres a crescer como se isso nunca tivesse acontecido. 
Antes estava mau porque a "austeridade de 2012 ia atirarmos para uma espiral recessiva", depois em 2013 ficou feio porque "a austeridade era continuar a escavar o buraco" e, de repente, ficou péssimo porque a austeridade vai levarmos à estagnação.

Será possível haver algo de positivo para os esquerdistas?
Há. Tudo o que aconteceu no tempo do Sócrates.
A estagnação económica, a desorçamentação e o esconder da dívida pública, os contratos com "os amigos do PS" e o casamento gay

Fig. 1 - A questão não é "Passos, pára de escavar o buraco" mas sim "esquerdistas, parem de tentar puxar o peso morto".

Vamos ao desemprego.
Em princípios de 2000 havia 200 mil pessoas desempregadas. 
Depois, em 2002 houve uma crise de que já ninguém se lembra. Nesse tempo governava o Guterres e, como defendem hoje os esquerdistas, na altura deu inicio à segunda fase da "politica do crescimento e do emprego".
Mas o desemprego começou a crescer e cresceu, cresceu, cresceu mas disso os esquerdistas não querem falar. A política dos subsídios e dos direitos adquiridos transformou a nossa economia num peso morto e todos os dias, semana, sábados, domingos e feriados e ainda nas férias, 100 pessoas passou a cair nas estatísticas do desemprego. 
O Sócrates quando entrou havia 400 mil desempregados e o grande anúncio do bicho foi de que iria criar 150 mil postos de trabalho. 

Fig. 2 - É só para recordar.

Mas a realidade é que, quando foi corrido, havia mais 150 mil desempregados. 
E, dizem os esquerdistas, o governo do Passos Coelho perdeu toda a credibilidade porque não cumpriu com as promessas eleitorais.
E o Sócrates, durante esse tempo todo, implementou PECs extraordinários.

Fig. 3 - Evolução do número de desempregados (dados: ine, série de 1998 e de 2011)

O Passos entrou e o desemprego continuou a subir. Nos 2 primeiros anos aumentou o triplo da tendência do socratismo tendo atingido um máximo de 805mil desempregados. Mas também foi preciso cortar no financiamento externo (no défice das nossas contas com o exterior).

Impossível.
Não é que no últimos ano, o desemprego teve uma redução de 140 mil!
Apesar de estarmos a viver a "espiral recessiva", desde há um ano o desemprego está a reduzir 375 pessoa por dia. 
Cada 3 dias, 1000 pessoas e cada mês, 10 mil pessoas deixou o desemprego.
Isto é apenas extraordinário.

Será que os desempregados morreram?
Isso é problema deles pois quando o desemprego aumentou ninguém quis saber de onde vinham essas pessoas. Se se reformaram, evaporaram, imigraram ou retornaram à Ucrânia não nos diz respeito pois o que interessa é que a taxa de desemprego como medida do desequilíbrio do mercado de trabalho está a reduzir muito rapidamente. 

Mas o governo anunciou a "7 revisão do código do trabalho".
Quer reduzir a "contratação colectiva". 
Em teoria o contracto colectivo agrada a toda a gente porque resulta de uma negociação entre empregadores e empregados mas, pelas grandes diferenças que existem entre as empresas e entre os trabalhadores, esses contratos retiram liberdade de negociação aos trabalhadores e aos empresários de produtividade marginal. 
Um contrato colectivo pode ser bom para as empresas grandes e sólidas que existem em Lisboa ou no Porto e para trabalhadores competentes dessas cidades. Mas para uma chafarica que quer existir numa aldeola de Arouca, com trabalhadores meios mancos cuja única alternativa é cavar terra, essas condições mirabolantes não fazem qualquer sentido. 

Ainda hoje estive a ver um projecto de um infantário.
A Lei é tão restritiva, obrigando a ter tanta coisa mais uma educadora e uma ajudante por cada 10 crianças que um infantário tem que cobrar pelo menos 500€/mês por cada criança.
Isso é impossível. Como podem as centenas de milhar de pessoas que ganham um salário inferior a 600€ pagar 500€ para tomarem conta da criança e apenas durante o dia?
A Lei quer proteger tanto os direitos das criançinhas que o povo tem que as botar abaixo. 
Com os trabalhadores passa-se o mesmo. Protege-se tanto que o povo tem que ficar em casa a coça-los.

Fig. 4 - Esta teve que ir abaixo porque eu não tinha os 500€/mês para o infantário

Vamos à produtividade.
A espiral recessiva induzida pela austeridade, dizem os esquerdistas, destruiu a nossa economia.
Se assim foi então, a produtividade deve ter caído. 
Vou então pegar nos dados sobre a produção por trabalhador (do banco mundial) e comparar com o que se passou na Grécia.
Por estranho que pareça, a nossa produtividade tem aumentado 1,5%/ano e, desde 2007, a produtividade tem estado a crescer menos mas não se compara com a forte contracção vivida pela Grécia. 
Afinal os 3 anos de ajustamento não destruíram a capacidade produtiva. 

Fig. 5 - Evolução da produção por trabalhador (dados: Banco Mundial, 100 em 1980)

Vamos à carta (com o 4.º segredo de Fátima).
Como dizem os budistas, a infelicidade da nossa vida resulta de colocarmos metas que pensamos necessárias à nossa realização pessoal. 
Se a meta é atingida, logo pensamos que podíamos ter pensado mais alto e ficamos sem objectivo na vida, Se não atingimos a meta ficamos derrotados porque pensamos sempre que a poderíamos ter atingido.
Com o Seguro tem-se passado exactamente isso. 
Primeiro, falou da espiral recessiva, depois do segundo resgate, por fim meteu todas as cartas na "saída limpinha, limpinha, limpinha".
E agora Seguro para onde vais?
Para a carta.
Tal como o terceiro segredo de Fátima ou o segredo das novelas baratas, agora o Seguro quer ler a carta.

Fig. 6 - Seguro, vai à bruxa que ela lê-te a carta.

Mas afinal o que diz a carta?
Diz que vamos continuar a consolidação orçamental com o fim de atingir em 2018 um défice de 0.5% do PIB.
Diz que o peso do Estado vai reduzir para média da OCDE.
Diz que vamos reestruturar as empresas públicas privatizando as viáveis e fechando as que não têm pernas para andar.
Diz que vamos flexibilizar o mercado de trabalho, reduzindo ao mínimo possível a contratação colectiva e os entraves à contratação e ao despedimento.

Fig. 7 - A carta revela que o Portas é o anti-Cristo e que o Passos é o seu cavalo branco.

Significado de Oposição (ver)
subst. f.
1. contraste: a oposição entre o sonho e a realidade; a oposição entre o branco e o preto
2. acto de estar contra algo ou alguém: a oposição do pai impediu o casamento; uma violenta oposição à mudança
3. grupo político que está contra o governo: os partidos da oposição
"A oposição será sempre popular; é o prato servido à multidão que não logra participar no banquete." - Joaquim Nabuco

Compreende-se então que os esquerdistas tenham que achar tudo mau, feio e péssimo.
"E dizia Jesus: Pai, perdoa-lhes, porque" faz parte da missão deles (Lucas, 23:34).

Pedro Cosme Costa Vieira

sexta-feira, 11 de abril de 2014

O salário minimo deveria desaparecer, ponto.

Não existe qualquer justificação para a existência de salário mínimo.
Durante muitos anos acreditou-se que fazer uma sangria, um defumadouro ou prometer ir a Fátima a pé curava qualquer doença. E se falarmos com as pessoas mais atrasadas, estas crenças ainda existem.
Da mesma forma, há muita gente que acredita que subir o salário mínimo acaba com a pobreza. 
No entanto, não existe nenhuma razão lógica que ligue umas coisas às outras. Nem as sangrias fazem bem à saúde nem o salário mínimo acaba com a pobreza, muito antes pelo contrário.


Imaginemos o Cristiano Ronaldo.
Vamos supor um mundo em que existe o Cristiano, o Messi, o Bale, o Rooney e o Ibraibrovic mas em que só existe um clube, o Real Duarte, que os queira contratar.
Se o clube contratar os 5 jogadores terá um ganho total de 140 milhões € pelo que poderá pagar até 28 milhões € por jogador. No entanto, como na equipa não podem jogar só atacantes, o ganho de contratar mais um jogador decresce com o número de jogadores previamente contratados.
.. Jogadores contratados --- Ganho total ---- Ganho no jogador 
............ 1 ---------------------- 100M€ ----------- 100M€
............ 2 ---------------------- 127M€ ------------ 27M€
............ 3 ---------------------- 136M€ ------------- 9M€
............ 4 ---------------------- 139M€ ------------- 3M€
............ 5 ---------------------- 140M€ ------------- 1M€
O salário pago não vai depender do total que o clube vai ganhar com as contratações mas apenas com o que ganha com o último jogador e com o que os jogadores vão perder se não forem contratados.
Como não existem mais clubes que possam contratar o jogadores (o clube é "monopolista") então o melhor que o clube tem a fazer é contratar os 5 jogadores (mesmo sabendo que apenas 2 ou 3 vão jogar) pagando um salário de 1M€ por jogador. Desta forma o clube fica com um lucro de 135M€.
Se um dos jogadores se recusar a assinar, terá um prejuízo de 1M€ (pois mais ninguém o contrata) e o clube fica na mesma.

Fig. 1 - Com uma sangriazita e uma benzedela, o joelho vai ao sítio num já está.

E se houvesse mais clubes?
Vamos agora supor que existem 10 clubes a disputar os jogadores com o Real Duarte, RD. Agora, o jogador que se recusar a assinar com o RD por 1M€ pode ser contratado por outro clube induzindo nele um ganho de 100M€.
Então, a concorrência vai fazer com que exista apenas um destes jogadores em cada clube e com um salário próximo dos 100M€. 


Esta é a justificação para haver Salário Mínimo.
Sob o pressuposto de que existe apenas um empregador e muitos trabalhadores então, o salário de todos vais ser igual ao ganho da contratação do último trabalhador (a produtividade marginal do trabalho). Nesta situação o "monopolista" vai ter um lucro muito grande "à custa do trabalhador".
Apesar de a economia produzirá na sua máxima capacidade (estará em pleno emprego) esse ganho não vai para os trabalhadores porque a distribuição da riqueza é favorável ao empresário.


Exemplo numérico.
=> Número de trabalhadores na economia = 100
=> n é o número de trabalhadores empregados
=> Produtividade marginal do último trabalhador contratado = 101 - n 
Resulta daqui
=> Nível de desemprego = 0%
=> Produção de pleno emprego = 5050€
=> Salário de pleno emprego = 1€/trabalhador
=> Total de salários de pleno emprego = 100€
=> Rendimento médio dos trabalhadores (contando com os desempregados) = 1€/trabalhador
=> Lucro de pleno emprego do empresário = 4950€


O impacto do salário mínimo.
A imposição de um salário mínimo fará com que o empregador pague um salário mais elevado a cada trabalhador mas também fará com que algumas pessoas fiquem no desemprego. Desta forma, apesar de o total dos salários ficar maior, por haver desemprego, em termos globais na economia haverá menos bens disponíveis. A questão é que esses bens deixarão de estar disponíveis para o "monopolista" e não para os trabalhadores que, globalmente, ficam a viver melhor. 


Exemplo numérico.
Vou agora considerar um salário mínimo de 50€/trabalhador
Resulta daqui
=> Nível de desemprego  = 50% (das 100 pessoas só 50 arranjam trabalho)
=> Produção total = 3775€
=> Total de salários pagos = 50 x 50 = 2500€
=> Rendimento médio dos trabalhadores (contando com os desempregados) = 25€/trabalhador
=> Lucro do empresário = 1275€


Mas existe outra possibilidade: um imposto.
Vamos supor que, em vez do salário mínimo, o governo cria um imposto de 70% sobre os lucros e que esse imposto vai ser distribuído pelos trabalhadores. 
Agora, o "monopolista" continua a pagar 1€/trabalhador e a contratar toda a gente pelo que continuaremos a ter uma situação de pleno emprego. 


Exemplo numérico.
Com o imposto de 70% sobre os rendimento teremos:
=> Nível de desemprego = 0%
=> Produção de pleno emprego = 5050€
=> Salário de pleno emprego = 1€/trabalhador
=> Total de salários de pleno emprego = 100€
=> Lucro de pleno emprego antes de imposto = 4950€

Agora vêm os impostos distributivos
=> Imposto (a distribuir pelos trabalhadores) = 3465€
=> Rendimento médio dos trabalhadores (contando com os desempregados) = 44,65€/trabalhador
=> Lucro livre de impostos = 1485€

O imposto regulariza os rendimentos (o rendimento dos trabalhadores fica maior que com o salário mínimo) e o lucro do empresário também fica maior.

Existem alternativa ao Salário Mínimo => IRS progressivo.
Se o problema é a existência de apenas um empregador, o salário mínimo consegue diminuir a "exploração do trabalhador" mas à custa de desemprego e de perda de riqueza.
Pelo contrário, a existência de impostos progressivos (politicas redistributivas) aumenta o rendimento dos trabalhadores (pobres) sem afectar o emprego nem a produção de riqueza.
Então, a existência de um IRS progressivo é mais eficaz na promoção da justiça social que a imposição de um salário mínimo.
Combater a pobreza passa mais por politicas de apoio ao rendimento (rendimento social para os trabalhadores pobres) do que pelo introdução de estrangulamentos no mercado de trabalho.
Esta conclusão aplica-se a todos os preços: não se combate a pobreza proibindo os preços dos bens issenciais de subir (porque deixarão de existir à venda) mas com politicas de apoio ao rendimento dos pobres. 


Mas a Alemanha acabou de introduzir o Salário Mínimo.
É um erro terrível. Recordo que os alemães não são infalíveis tendo mesmo sido os originários das maiores atrocidades vividas no Séc XX.
O SM alemão vai ser de 8,5€/h o que traduz um encargo para o empregador de 19000€/ano (1864h/ano e TSU de 20%). Este valor corresponde a 57,3% do PIB per capita alemão, maior que o nosso SMN de 485€/mês que corresponde a 53,5% do PIBpc.
Por comparação, nos USA o salário mínimo federal é de 5,35€/h, mais baixo que o alemão quando têm um nível e riqueza que é quase 60% maior.
Em termos relativos o SM dos USA é 26% do PIBpc, menos de metade do nosso e do alemão. 
Para a alemanha ter um salário mínimo do nível dos USA teria que ficar pelos 3,40€/h e nós nos 1,40€/h.

Fig. 2 - Agora, o mínimo são 8,50€ à hora.

Depois chamem o Tarzan.
Depois venham com a lengalenga de que o mercado de trabalho americano ajusta muito mais rapidamente que o europeu e com uma taxa de desemprego mais baixa. Digam que é das intervenções do FED e que o nosso BCE tem que fazer o mesmo. 
Para o nosso salário mínimo ficar ao nível do americano, 26% do PIB pc, terá que descer para 292€/mês.


Além do mais, existem muito empregadores.
A teoria e a evidência económica mostra que, havendo 3 empresas, já não existe poder de monopólio. Por isso é que existem em Portugal 3 operadores de telemóvel e 3 canais de televisão.
E é um facto que, para cada trabalhador, existem mais de 3 potenciais empregadores pelo que não existe "monopólio" no mercado de trabalho.
Então, não existe qualquer justificação para a existencia de um salário mínimo e, mesmo que existisse, um imposto progressivo resolveria o problema de forma muito mais eficiente.


Porque surge agora a questão do aumento do SMN?
Porque temos, por um lado, um Passos Coelho que sabe que a subida do SM é negativo para as pessoas e um Portas que tenta praticar demagogia política ao mais alto nível. Compatibilizar as duas coisas é como caminhar na corda bamba mas a alternativa é entregar o cordeiro aos lobos (i.e., entregar o poder aos esquerdistas).
É o dilema retratado na Lista de Schindler. 1) trato mal as pessoas e exploro-as até à exaustão ou 2) faço de bonzinho com as pessoas e os carrascos matam-nas sem pestanejar.
O salário mínimo deveria acabar de vez mas não existem condições políticas para que isso aconteça. O povinho não está preparado para isso.

Em política
As medidas não são absolutamente certas nem erradas pois dependem do impacto que têm na alternância do poder.
Se o Salário Mínimo aumentar 3,1% para para 500€/mês, é mau mas poderá haver medidas na Concertação Social que anulem o efeito deste aumento. Por exemplo,
=> aumentar o número máximo de horas do Banco de Horas;
=> os contratos a termo certo poderem ser renovados até 8 anos;
=> Introdução de flexibilidade em baixa no salário por acordo individual até o limite máximo de 15% do contrato colectivo de trabalho.
É preferivel o dano dos 3,1% corrigido parcialmente com algumas medidas de flexibilização a voltar aos desvarios socialistas.

Pedro Cosme da Costa Vieira

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

A diminuição do desemprego em recessão

O Neno colocou uma questão muito interessante.
Como é possível haver redução do desemprego quando o investimento está pelas horas da amargura e a economia não dá sinais de crescer?
Realmente, na comunicação social não se para de dizer que o desemprego só começa a diminuir quando o crescimento do PIB estiver acima de 2%/ano ou 3%/ano. E ouvi mesmo de um colega meu, OF, especialistão em questões destas que "o desemprego só começará a diminuir 18 meses depois de o PIB começar a crescer pelo menos 2%/ano".


De onde vem esta ideia?
As aparições de NS de Fátima foi não sei quem que disse que não sei quem lhe tinha dito que ouviu dizer que umas criancinhas tinham dito que outras criancinhas que são filhos de não sei quem tinham visto não sabiam bem o quê, branco. E assim se fez NS pousar em Fátima. Mas isto são questões de acreditar.
No conhecimento científico as coisas têm que vir de um qualquer lado de forma sólida.

A relação entre investimento e emprego.
Na relação entre investimento e emprego parece natural afirmar que é preciso investimento (novas máquinas, instalações e ideias) para haver mas pessoas a trabalhar.
Para ser mais intuitivo, vamos imaginar uma empresa agrícola onde o capital é (principalmente) uma certa porção de terra na qual trabalham 10 pessoas.
Vamos imaginar que esta empresa agrícola produz 100mil€/ano, que 33 mil€/ano é a renda da terra (juros e lucros) e 67mil€/ano são salários (salário de 6700€/ano).
Sendo a empresa bem gerida, a empresa contratar 10 pessoas porque assim maximiza a renda da terra. Então, se a empresa empregar mais uma pessoa, o lucro vai diminuiu em 300€ (vou supor que a produção irá aumentar 6400€/ano).
Desta forma parece evidente que a única forma de aumentar o emprego será aumentar a quantidade de terra (capital) mas não.

O salário tem que diminuir.
No caso do salário diminuir (por exemplo, de 6700€/ano para 6000€/ano como defende o FMI para a Espanha), numa primeira fase, a empresa com 10 trabalhadores passará a ter um lucro de 40mil€/ano mas, agora, a empresa contratando 11 trabalhadores vê o seu lucro aumentar ainda mais 400€/ano.
Mantendo o mesmo nível de capital, o desemprego diminui se o salário  diminuir (os custos do trabalho).

Mas, mesmo assim, o PIB aumentou.
Mas a produção da empresa agrícola aumentou (equivalente ao PIB) de 100000€/ano para 106500€/ano. Quer isto dizer que, globalmente, a redução do salário faz aumentar o PIB porque mais pessoas trabalham. Com mais PIB, as pessoas ficam a viver, em média, melhor.

A relação entre crescimento económico e o emprego.
O PIB cresce principalmente por três razões. Porque aumenta o capital (a terra), o conhecimento tecnológico (as sementes e o saber fazer) e o número de trabalhadores (que foi o caso da empresa agrícola).
Agora tenho que separar o crescimento económico causado pelo trabalho do causado por todos os outros factores. Pegando no PIB desde 1995 e dividindo pelo total de  pessoas empregadas, obtemos o crescimento económico devido a todos os factores que não o trabalho.
Este crescimento é de 0.57%/ano (ver, Fig. 1).
Quer isto dizer que, mantendo-se o nível de emprego, o PIB cresce 0.57%/ano.
Então, para que o PIB cresça acima de 0.57%/ano, é preciso aumentar o número de pessoas que trabalham.

Fig. 1 - Crescimento do PIB por trabalhador (dados: INE e Eurostat)

Isto não tem a ver com o Passos Coelho nem com a Troika.
Os dados são do período 1995/2013 para mostrar que a politica do Guterres e do Sócrates de inundar a economia com divida não é a solução para o nosso problema de baixo crescimento económico.

Mas ainda há a evolução da população activa.
Aos 0.57%/ano temos que acrescentar a evolução da população activa que, no caso português, está a reduzir 0.12%/ano (ver, Fig. 2).

Fig. 2 - Evolução da população activa (dados: Banco Mundial e INE)

Fica um crescimento do PIB potencial de 0.45%/ano.
Pegando nos 0.57%/ano da tendência de aumento do PIB por trabalhador e retirando-lhe os 0.12%/ano da redução na população activa, fica um crescimento potencial do PIB de 0.45%/ano.
A economia portuguesa, no longo prazo, apenas cresce 0.45%/ano.

Não é preciso um crescimento de 3%/ano.
Infelizmente, o crescimento potencial da nossa economia é de apenas 0.45%/ano.
Então, em média, haverá diminuição do desemprego quando o PIB aumentar mais de 0.45%/ano e foi isso que aconteceu nos últimos tempos.
E a redução do desemprego tem sido principalmente pela redução, no semestre trimestre de 2013, da população activa (em 1.8%).

Por este andar.
Se a economia crescer 0.45%/ano, o desemprego para de crescer.
Se quisermos ver o desemprego passar de 17.4% para 6.6% em 12 anos (um aumento de trabalhadores de 1.0%/ano), terá que acontecer um  crescimento económico de 1.5%/ano.
Com um crescimento menor, apenas haverá redução do desemprego pela redução da população activa (saída de imigrantes e aumento dos emigrantes).

Esperemos que tudo corra pelo melhor mas a taxa de juro não vema baixo dos 6.50%/ano o que indica que vem aí o segundo resgate, seja lá isso o que for.

O ficheiro excel está aqui.

Pedro Cosme Costa Vieira

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Estaremos no ponto de viragem?

Acabou a primeira parte do ajustamento.
Em 2011, Portugal viu-se na necessidade de terminar o endividamento do Estado e da sua economia face ao exterior.
O ajustamento da economia face ao exterior já foi conseguido principalmente à custa da redução da importações de automóveis e bens de equipamento. Isto foi importante pelo que podemos dizer que metade do trabalho já está feito.
Mas ainda falta a parte que consome mais tempo de antena, o ajustamento da despesa do Estado às suas receitas (principalmente impostos), que, apesar de importante, é secundário face ao equilíbrio das nossas contas externas.

Qual o impacto do ajustamento no desemprego?
Houve uma quantidade muito grande de actividades económicas que ficaram condenadas ao desaparecimento. Antes de 2011 perdiam-se cerca de 21 mil empregos por mês e, desde o inicio do ajustamento, têm-se perdido 50 mil empregos por mês (dados, INE).
A perda de 50 mil empregos por mês é muito grande, cerca de 1 pessoa em cada 100 perde o emprego a cada mês.

Fig. 1 - Tudo passa por um bom ajustamento

Mas o mercado de trabalho tornou-se mais dinâmico.
Apesar de parecer que está tudo morto, a criação de emprego também aumento muito. Até 2011 criavam-se cerca de 23 mil empregos por mês e, desde que começou o ajustamento, têm-se criado cerca de 45 mil empregos por mês (dados, INE).
Apesar de o número de pessoas que encontra emprego ser menor que o número de pessoas que perde o emprego (5 mil/mês), a dinâmica de criação de emprego dá esperança para que, uma vez terminada a destruição de emprego nas actividades condenadas (construção civil e vendas), o mercado de trabalho consiga absorver os actuais desempregados (cerca de 1 milhão).
Quando alguém disser "o aumento do IVA na restauração vai atirar 100 mil pessoas para o desemprego" temos que relativizar porque, mensalmente, são atiradas 50 mil pessoas para essa situação mas 45 mil arranjam um novo emprego.
 Por isso, não vamos stressar porque, em média, por cada 10 pessoas que todos os meses caiem no desemprego, 9 pessoas encontram um novo emprego.

Fig. 2 - Dinâmica do mercado de trabalho (dados, INE)

Vamos sonhar.
Supondo o milagre de o nível de destruição cair para os 25 mil (valor próximo so anterior a 2011) e que se mantém a formação de emprego nos 45mil/mês, demorará apenas 2 anos a reduzir a taxa de desemprego a 450 mil desempregados (10%).
Mas isto é pedir demais.
Desde Janeiro de 2013 que a taxa de desemprego está a cair. 
Corrigida a sazonalidade, em Janeiro havia 935 mil desempregados e em Junho  já "só" havia 923 mil desempregados (dados, INE). Se considerarmos a tendência (média móvel do último semestre), é o primeiro mês, desde que rebentou a crise do subprime (maior de 2008) que tal não se verificava. Em Junho Inverteu a tendência de aumento do desemprego que durava há 60 meses.

Nunca ninguém está contente.
Em termos numéricos, a diminuição foi de 2400 desempregados por mês. Então, a esta velocidade, para voltar a 10% de taxa de desemprego serão necessários 16.5 anos. Só lá para 2030 é que o desemprego descerá abaixo dos 10% da população activa.
Mas será de acreditar que atingido o máximo da crise, a velocidade de diminuição do desemprego será maior.
Se a digestão do desemprego for ao ritmo de 1985-1990, voltamos em 2020 a uma taxa abaixo dos 10%  enquanto que se o ritmo for o de 1995-2000, só atingiremos esse valor em 2028.

Fig. 3 - Pode ser que entre 2020 e 2025 o desemprego volte a valores normais. Normalmente o desemprego oscila entre 3.6% e 9.6% com uma média de 6.6% da população activa(dados: Eurostat).

Mas vem aí a segunda parte do ajustamento - o Estado.
Vai ser necessário cortar os tais 4700 milhões na despesa pública e, daqui, é que vem a questão mais discutível.

Será que os cortes na despesa pública têm um efeito recessivo?
Não existe nada na Economia que diga com certeza que a diminuição da despesa pública tem um efeito recessivo na economia (ou o contrário).

Os keynesianos dizem que sim, no curto prazo. A redução da despesa pública obriga ao despedimento de trabalhadores nas actividades onde o Estado gasta mais dinheiro e, por existirem problemas nos mecanismos de ajustamento do mercado de trabalho, demora (muito?) tempo a que essas pessoas arrangem emprego. Durante o período de ajustamento, haverá menos pessoas a trabalhar pelo que o PIB será menor.

Mas os novos clássicos dizem que não porque 1) uma grande parte das actividades onde o Estado reduz a despesa (por exemplo, a saúde e o ensino) é substituída por privados e 2) o mercado de trabalho ajusta razoavelmente rápido. 

Todos (quase) reconhecem que, a médio-longo-prazo, a redução da despesa pública melhora a economia.
Há funções que o Estado tem que exercer, por exemplo, a segurança do Estado, mas essas actividades estarão por volta dos 25% do PIB. Entre 20% e 35% aumentar ou diminuir a despesa pública não tem grande impacto no desempenho da economia (é uma decisão politica) mas, acima de 35% de peso do Estado na economia, a diminuição da despesa pública aumenta a eficiencia económica.

Fig. 4 -  NS de Fátima ajuda-me a arranjar forma de cortar os 4700M€ sem afectar os velhinhos, os pensionistas nem os agricultores.

O impacto com financiamento interno é nulo.
Se o Estado tem despesa pública, vai ter que a financiar.
Se o Estado usar os impostos, vai haver uma redução do rendimento disponível das famílias. Então, cada euro de aumento da despesa pública causa uma redução em 1€ nas disponibilidades financeiras das famílias.
Se o Estado usar o endividamento, tem que haver um aumento da poupança das famílias para financiar o Estado (aumenta a taxa de juro). Então, cada euro de aumento da despesa pública causa uma redução em 1€ na parte do rendimento das famílias destinado ao consumo.
Se o Estado não pagar aos fornecedores, estes têm que se endividar junto dos bancos o que obriga ao aumento da poupança das famílias para financiar o Estado (aumenta a taxa de juro). Então, cada euro de aumento da despesa pública causa uma redução em 1€ na parte do rendimento das famílias destinado ao consumo.
Este fenómeno é denominado por crowding out.

Apenas há impacto se houver endividamento externo.
O endividamento externo tem um impacto positivo na actividade económica. Se usarmos os dados do nosso ajustamento, cada euro de redução do endividamento externo tem um impacto de cerca de 0.40€ no PIB (passamos de um endividamento de -10% do PIB para um saldo positivo de +1% do PIB com uma quebra do PIB de cerca de 4.5%).
Se o Estado se financiar no exterior, a diminuição da despesa pública estará associada a uma diminuição da entrada de "dinheiro fresco". Então, a redução de 4700M€ de despesa pública levará a uma quebra no PIB de cerca de 2000M€.
É qualquer coisa mas não é nada do outro mundo.

Mas o Estado não se consegue endividar no exterior.
O impacto positivo é do endividamento externo, seja público ou privado, mas o Estado (e os privados) não se consegue financiar no exterior pelo que o corte na despesa pública não vai estar associado a uma redução da entrada de dinheiro mas a um aumento da disponibilidade de recursos nos privados seja pela redução da carga fiscal (a prazo) seja pela diminuição da captação das poupanças internas (pelo défice).

Quero acreditar.
Que o corte da despesa pública não vai ter um efeito recessivo significativo porque actualmente o défice público é financiado com a poupança interna.
Claro que há pessoas que serão muito penalizadas com os cortes mas outras serão beneficiadas. 
Por isso, quero acreditar que estamos agora no olho do furacão pelo que nos próximos meses o desemprego vai começar a diminuir e o PIB a aumentar de forma sustentada.
Mas a coisa está muito tremida porque a taxa de juro mantém-se muito elevada e com tendencia de se manter nos 6.5%/ano (divida pública a 10Y).


Fig. 5 - 6.5%/ano de taxa de juro coloca em causa o investimento logo, o potencial de crescimento económico

O ficheiro excel com os dados está aqui.
Estão um bocadinho desorganizados mas penso que dá para ver.

 
Pedro Cosme Costa Vieira.

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Como o desemprego se liga ao défice externo?

Olhando para os comentários.
Existe a ideia que a economia é um sistema em que tudo está interligado. E, apesar de ser verdade, umas coisas estão mais ligadas que outras.
Em particular, o problema é como o desemprego pode estar ligado à necessidade de equilibrarmos as contas com o exterior (redução da velocidade com que estava a aumentar o endividamento externo).
Numa economia flexível, quando há um choque exógenos que desequilibra um mercado, há variáveis que vão actuar rapidamente no sentido de o mercado se equilibrar com um pequeno impacto nos outros mercados. No caso concreto, o salário (real) ajusta o mercado de trabalho e a taxa de câmbio ajusta as contas com o exterior. Na nossa crise, como não termos moeda própria, o ajustamento é uma onda que se iniciou com o aumento da taxa de juro e propagou-se negativamente para o mercado de trabalho. Com o avançar do processo, os custos do trabalho diminuem, os preços caiem e a taxa de juro volta ao seu nível de equilíbrio.
A onda que varre uma economia desequilibrada com a taxa de juro na crista afoga tanto mais o mercado de trabalho quanto mais rigido for.

A análise parcial. 
A Ciência precisa dividir a complexidade do Mundo em parcelas pequeninas e simples que depois se ligam entre si. Chama-se a essa divisão "análise parcial mantendo tudo o resto constante".
A Ciencia Economica não foge à regra e divide a globalidade do mundo em partes mais pequenas que são denominadas por mercados. Sendo a divisão artificial há sempre ligação entre um mercado e os outros mercados mas as ligações são mais fracas que as ligações dentro de cada mercado.

Vamos ao mercado das batatas  - o sistema de preços.
Vamos supor que o mau tempo reduziu a produção de batatas em 50%. Então, no próximo ano as pessoas apenas vão poder comer metade das batatas que costumavam comer.
Na economia planificada teria que sair um decreto de racionamento a reduzir o consumo de batatas.
Na economia de mercado a informação de que há menos batatas vai passar aos consumidores pelo aumento do preço das batatas.
O impacto do preço da batata na quantidade transaccionada é medido pela elasticidade preço que, se por exemplo for -2, traduz que o aumento de 1% do preço das batatas faz reduzir a quantidade transaccionada em 2%.
Se assim fosse, Q = k.P^-2, para "obrigar" as pessoas a comer menos, o preço das batatas iria aumentar 41.4%.

E os outros mercados?
O aumento do preço das batatas vai influenciar positivamente o mercado do arroz, da massa e de todos os parcialmente substitutos mas em menor magnitude, por exemplo, o aumento de 1% do preço das batatas faz aumentar o consumo de arroz em 0.3%. Neste caso, se o mercado de arroz pudesse responder em quantidades, o consumo de arroz iria aumentar cerca de 15% mas, caso contrário, o preço do arroz também subiria ligeiramente até anular a tendencia de aumento do consumo de arroz. O efeito ir-se-ia propagando a todos os mercados.
Um mercado também pode influenciar no mesmo sentido outros mercados por causa do efeito rendimento. Por exemplo, o aumento do preço das batatas em 1% também vai diminuir o consumo de electricidade em 0.2% porque as pessoas ficam com menos rendimento disponível.
Existem bens que a produção responde rapidamente às variações dos preços (bens elásticos) enquanto outros não (bens inelásticos).
A alteração diária dos milhões de preços individuais dos bens e serviços consegue digerir os choques exógenos que vão acontecendo no sentido de manter uma igualdade entre o que se produz e o que se consome. Por exemplo, se está mau tempo e não se pode pescar, o preço do pescado aumenta o que despoleta o ajustamento das decisões dos consumidores no sentido de comprarem mais frangos (os abates aumentam 3% pela diminuição do tempo de vida dos frangos em 1 dia).
A falha da economia planificada era que construir a folha de racionamento com os milhares de produtos que existem exigia enormes quantidades de informação quanto às possibilidades de produção e quanto aos gostos dos consumidores.
A nível de cada bem ou serviço individual (microeconómica) a igualdade entre produção e consumo é apenas estatística (i.e., em média).

Mas a evidencia parece dizer que os cafés estão vazios.
Todos nós pensamos que os cafés poderiam produzir mais mas de facto assim não é.
Para um café vender mais teria que baixar o preço. E os cafés (e muitos outros produtores) não estão em mercado concorrencial. Os produtores têm "preços concertados" porque, se um descer o preço, todos os outros retaliam descendo também os seus preços.
Vamos imaginar um café que cobra 0.60€/café, tem uma margem de 0.30€/café e vende 200 cafés por dia (margem de 60€/dia, ocupação de 50%) e que, se cobrasse 0.50€/café passava a vender 400 cafés por dia (margem de 80€/dia, ocupação de 100%). O problema é que todos os concorrentes retaliavam descendo o preço para 0.50€/dia e ele passava a vender mais, 250 cafés por dia, mas a margem descia (margem de 50€/dia, ocupação de 62.5%).  
Para haver possibilidade de retaliação, os cafés têm que ter capacidade excedentária. Os cafesistas dizem que precisam de mais clientes porque têm capacidade excedentária mas de facto apenas têm capacidade excedentária para manter uma ameaça aos concorrentes (o equilíbrio de concertação ficar estável).

Fig.1 - O marketing estuda o impacto nas vendas de todas as variáveis "não preço".

Os macro-mercados.
O grau de agregação depende do detalhe com que se pretende compreender os problemas económicos. Na microeconomia o detalhe chega ao comportamento individual (a Teoria dos Jogos) enquanto que na macroeconomia se agregam mercados à escala de um país.
Normalmente a macroeconomia considera 3 mercados agregados.

1) O mercado de trabalho - Salários.
Neste mercado agregam-se todos os contractos de trabalho e o seu preço (salário). Como se consideram qualidades diferentes de trabalho (por exemplo, médicos, advogados, professores de inglês, canalizadores e trabalho indiferenciado), o salário é um índice construído com os diversos salários (por exemplo, o salário médio).
Por ser um macro-mercado, não apanha a dinâmica de mercados de trabalho especializado. Por exemplo, não é certo que o salário médio diminuir vá equilibrar o mercado dos licenciados em arquitectura em que o caminhar para o equilíbrio obriga a uma diminuição do salário específico deste micro-mercado. Se, por exemplo, o salário médio diminuir 5%, não quer dizer que todos o salários diminuam 5% podendo mesmo haver aumento de alguns.
Este mercado considerar como medida do equilíbrio a "taxa de desemprego" (a percentagem de pessoas que diz não ter emprego e que está à procura de emprego).

2) O mercado de bens e serviços - Taxa de Juro.
Neste mercado agregam-se todos os bens e serviços sejam de consumo ou de investimento.
Como já mostrei para o caso das batatas, o preço é a variável por excelência que equilibra cada um dos micro-mercados mas, juntarmos  todos os bens e serviço no mesmo mercado, os preços relativos deixam de ser relevantes no equilíbrio do macro-mercado. Então, em termos macroeconómicos a variável mais forte neste mercado é a taxa de juro.
Pode parecer estranho como a taxa de juro equilibra o mercado de bens e serviços mas temos que pensar que, quando a taxa de juro aumenta, o investimento diminui (a procura diminui) e a poupança aumenta (a procura diminui).
Então, se existe mais procura interna (consumo + investimento) que produção interna (em economia fechada, a diferença é a diminuição dos stocks e o trabalho extraordinário), vai haver tendência para que a taxa de juro suba até a procura ficar igual à produção.

3) O Resto do Mundo - Taxa de Câmbio e Nível Geral de Preços.
O Resto do Mundo faz com que o mercado de bens e serviços possa estar com défice à custa do aumento do endividamento externo. O mercado interno pode estar superavitário pelo aumento constante dos créditos face ao exterior (como acontece com a Alemanha, China, Japão, Arábia Saudita e Kuwait).
Numa economia com moeda própria a variável mais forte que equilibra as contas com o exterior é a taxa de câmbio.
Se há um défice externo, uma desvalorização faz com que os preços face ao exterior (em dólares) diminuam o que aumenta as exportações e os preços das importações (em escudos) aumentem o que diminui as importações. Este duplo efeito equilibra rapidamente as contas com o exterior. Se há um superávite externo, uma valorização promove o equilíbrio mas em sentido contrário.
Se há uma desvalorização de 5%, os preços face ao exterior diminuem instantaneamente 5% mas os salários também diminuem 5% face ao exterior.
Se o país pertencer a uma zona monetária vasta (Zona Euro), não pode desvalorizar pelo que o ajustamento deve ser feito com uma descida do Nível Geral de Preços.

Depois, há  os efeitos cruzados.
A correcção do desequilíbrio de um mercado tem impacto, mas menor, em todos os outros mercados.

Onde liga o desemprego com o défice externo?
Quando uma variável está fixa, no nosso caso a taxa de câmbio,  para anular o défice externo o nível geral de preços tem que cair relativamente aos nossos parceiros comerciais (parceiros da Zona Euro). O problema é que isso não está acontecer (ver, Fig. 2). 

Fig. 2 - Preços em Portugal (INE) relativamente aos da Zona euro (BCE) base 1999.

Entre 1999 (que começaram os câmbios fixos) e 2005, as nossas contas externas desequilibraram-se porque os preços aumentaram 7.3%/ano relativamente aos nossos parceiros da Zona Euro e, desde então, essa diferença mantem-se (ver, Fig. 2).
Os custos do trabalho aumentaram 1%/ano até meados de 2010, altura em que começaram a diminuir cerca de 7%/ano (ver, Fig. 3).
Apesar da redução dos custos do trabalho, ainda não se observa uma redução dos preços relativamente aos nossos parceiros da ZE.

Fig. 3 - Evolução dos custos nominais do trabalho, Business (dados: Eurostat).  

A taxa de juro "atacou primeiro".
Até 2010 tínhamos um défice externo de 10% do PIB que o Sócrates se recusou a corrigir promovendo aumentos do salário mínimo, dos salários dos funcionários públicos e majorou as transferencias sociais.
Como os preços e os salários não foram chamados a corrigir esses défice externo, a taxa de juro começou a entrar em funcionamento. Se inicialmente o Sócrates tentou combater isso baixando as taxas de juro dos Certificados e Aforro e lançando a Dívida Pública no exterior, por fim a taxa de juro libertou-se e em 2010 atacou com toda a força na missão de equilibrar a nossa economia. Se em finais de 2009 tínhamos uma taxa de juro a 10 anos abaixo dos 4.0%/ano, em meados de 2011 já a taxa de juro estáva acima dos 13%/ano.
Com uma taxa de juro tão elevada, as importações, o consumo e o investimento reduziram rapidamente mas com impacto negativo na rentabildiade das empresas (aumento dos custos).
Se os diversos mercados não ajustassem, a taxa de juro teria que ficar sempre alta mas a boa notícia é que os outros mercados já entraram numa dinâmica de ajustamento.

Depois veio o desemprego.
Em 2010 a taxa de desemprego já era elevada o que traduz que o mercado de trabalho já estava desequilibrado. Mas a subida da taxa de juro vem meter grande pressão neste mercado porque a margem das empresas (antes de amortizações e juros) teve que aumentar para pagar os juros.
Um posto de trabalhado que tenha associado 30 mil € de capital amortizável em 10 anos, para uma taxa real de 2%/ano precisa de uma margem de 275€/mês enquanto que quando a taxa de juro real sobe para 11%/ano, a margem tem que subir para 400€/mês (para manter o posto de trabalho, o salário tem que reduzir 125€/mês).
Com a pressão dos juros,  as empresas começam a ir à falência e a despedir (ficam só com os mais produtivos). E este problema soma à necessária reestruturação da economia de bens locais (não transaccionáveis) para bens expostas à concorrência (para substituir importações e aumentar as exportações).

O combate ao desemprego.
Todos os candidatos autárquicos dizem que vão apostar na reabilitação dos centros urbanos porque isso vai criar emprego e atrair pessoas para o centro das cidades. O problema é que essas pessoas já têm casa nas periferias e ninguém diz que vai comprar e demolir essas casas. Estando a população portuguesa a diminuir então, cada nova casa que se construa no centro de uma cidade é uma outra casa que vai ter que ficar vazia na periferia.  
Dizer não sei quem que vai, com novas casas, atrair 50 mil pessoas ao centro do Porto é o mesmo que dizer que vai deixar vazias casas de 50 mil pessoas em Gondomar, Valongo, Matosinhos, Rio Tinto e V.N. Gaia.
Serei eu que estou a ver mal o problema ou estaremos em presença de demagogia massiva?

Depois vêm os salários nominais.
Havendo muitas pessoas desempregadas e com o subsídio de desemprego a diminuir, as pessoas vão-se sujeitar a ganhar menos.
Ainda ontem eu estava a falar com umas colegas e fomos unânimes: se hoje qualquer um de nós fosse despedido, teria dificuldade a arranjar um emprego a ganhar metade do que ganha actualmente. Eu prefiro que me cortem o salário em 10% do que ser atirada uma moeda ao ar e eu ter 5% de probabilidade de ser despedido.

Ainda na crista da onda, aparecem os preços.
Só depois de os custos reduzirem é que os preços podem começar a cair.
Apesar de esse movimento ainda não se ter observado, as últimas estatísticas dizem que em Maio Portugal foi o país com mais baixa taxa de inflação da Zona Euro.
Vamos lá ver se este movimento deflacionista vai acelerar pois é o único passo que falta para o ajustamento.

Voltamos aos juros com a onda a quebrar.
Quando os salário caiem os preços também começam a cair pelo que o mercado externo passa lentamente a ser controlado pelo nível geral de preços podendo a taxa de juro recuar.

Só depois vem o emprego e o crescimento económico.
Só depois dos rpeços cairem é que haverá uma descida da taxa de juro para niveis normais o que anula a pressão financeira sobre as empresas. Desta forma aumenta a margem para que os preços caiam mais rapidamente (o que aumenta as exportações) e que sejam contratadas mais pessoas.
Nesta altura, o desemprego começa a diminuir e, como mais pessoas a trabalhar implica mais produção, o PIB re-começa a crescer.

Finalmente, voltamos aos salários reais de 2010.
Com a redução do desemprego o salário nominal deixará de cair. Juntando a queda dos preços, depois de atingir um mínimo, o poder de compra dos salários aumenta para o seu que tinhamos em 2010. Sob as minhas previsões (a produtividade horaria do trabalho aumenta 1.9%/ano e a correcção dos preços em 7.3% precisa de uma diminuição dos salários reais em 12%), lá para 2020 voltaremos a ter o nivel de salário real de 2010.
São só 10 anitos para recuperar os erros de 15 anos de despesismo.


Fig. 4 - A onda que se iniciou em 2010 vai passar lá para 2020.

Um mercado rígido cava a onda.
Se os nossos mercados de trabalho e de bens e serviços fossem flexíveis, em finais de 2010 os preços e salários já teriam caído 15%  e não teria havido um efeito tão profundo no mercado de trabalho.
É isso que acontece, por exemplo, nos USA, que consegue digerir os choques muito mais rapidamente que a Zona Euro. Não tem nada a ver com a intervenção monetária da FED (como querem fazer crer os esquerdistas) mas tem a ver com o mercado de trabalho ser muito mais flexível que o mercado europeu.
Recordo aos esquerdistas que nos USA um trabalhador pode ser despedido sem pré-aviso e sem ser apresentada qualquer razão. Pura e simplesmente, rua. Quando começou a crise de 2008, 6 milhões de pessoas perderam o emprego  quase instantaneamente, mas essa reacção rápida faz com que a digestão da crise comece quase imediatamente (ver, Fig. 5).

Fig. 5 - Evolução da taxa de desemprego nos USA (dados: BLS)

Mas o problema é o futuro.
Se a nossa economia continuar rigida, cada nova crise que aí venha (e nos próximos 5 anos naturalmente vai aparecer outra), a economia ter+a mais dificuldade a ajustar pelo que o desemprego estrutural (de longo prazo) será cada vez maior e o crescimento cada vez menor.
Vamos rezar para que isso não aconteça mas sabendo que a nossa RTP gasta o dobro do dinheiro que gastava a RT Grega e dizem que aquilo era um buraco sem fundo, vemos que a coisa por cá está preta.

Pedro Cosme Costa Vieira

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Como balanço de 2012, o desemprego é o maior problema

O desemprego é grave mas 2012 acabou com sinais positivos.
A anulação do défice da Balança Corrente, BC, é mesmo o grande feito dos quase 2 anos de governo do Pedro Passos Coelho.
A BC soma todas as transacções com o exterior (balança comercial,  balança de serviços, juros, lucros e transferências dos emigrantes e da UE). Quando é deficitária traduz que o país se está a endividar face ao exterior.
No tempo do Sócrates, cada português endividava-se 150€/mês (dos quais, 60€/mês eram juros para pagar a divida que se foi acumulando), mais que 10% do PIB.
Quase por milagre, em menos de 2 anos que  leva o governo do PPC, a BC corrigiu (ver Fig. 1). E ainda é mais notável sabendo-se que cada um de nós continua a pagar 60€/mês de juros ao exterior. Assim, se não fossem os juros, teríamos uma BC bastante positiva (cerca de 4% do PIB).

Fig. 1 - Evolução da BC, 2009:2012 (dados: Banco de Portugal)

Naturalmente que a nossa vida piorou.
Se no tempo do Sócrates cada português acrescentava ao seu rendimento 150€/mês que ia pedir emprestado ao exterior, agora que esse dinheiro deixou de entrar, naturalmente que vivemos com mais dificuldades.
150€/mês a menos é muito dinheiro. Uma família de 5 pessoas, hoje tem disponíveis menos 750€/mês que tínha em 2010.

Então, para onde vai o dinheiro da Troika?
O facto da BC estar equilibrada traduz que, de facto, não entra em Portugal nem um euro do dinheiro que a Troika empresta a Portugal, do dinheiro que o governo foi buscar aos "mercados" ou do dinheiro que o BCE empresta aos nossos bancos.
Esses milhares de milhões de euros servem apenas para fazer o rollover da dívida que temos ao exterior e que se vai vencendo.
O défice da balança corrente foi-se acumulando ao longo dos anos do Guterres, Santana Lopes e Sócrates e o Estado, as famílias (via bancos) e as empresas ficaram a dever muito dinheiro a pessoas estrangeiras. Assim que um empréstimo vencia, pedia-se dinheiro a outras pessoas do exterior para o amortizar.
Entretanto, em princípios de 2011, deixamos de conseguir arranjar novas pessoas que nos quisessem emprestar mais dinheiro para gastar e fazer o rollover da dívida tendo sido preciso pedir ajuda aos nossos amigos. Precisamos que a Troika e o BCE nos emprestassem dinheiro mas na condição de o usarmos apenas para pagar as dividas que se vão vencendo.

O burro do Seguro diz que a Troika tem que mandar decisores políticos.
Mas a Troika não nos ofereceu ajuda. Foi o Sócrates + Teixeira dos Santos que foram pedir ajuda à Troika com o chapéu na mão porque estávamos na bancarrota. Se o PS não quer a Troika que diga que, se fosse governo, mandava o plano de ajuda às urtigas.
Se Portugal quiser, é só dizer, e a Troika suspende o programa.
Os burros do PS é que pediram ajuda à Troika e não foi a Troika que se ofereceu para nos ajudar.

Não é como os loucos do PS dizem.
Que se podiam usar os milhares de milhões de euro emprestados pela Troika e pelo BCE para gastar em mais despesa pública, menos impostos e investimento em mais SCUTS e TGV malucos (à moda do Sócrates) dando inicio à uma mítica "política de crescimento".
Nem um euro cá entra.
Esse dinheiro é apenas para ir pagando aos credores externos as dívidas que o Guterres e o Sócrates fizeram nos 10 anos que lá estiveram.
Pagar calotes.

E a contracção do PIB não será um grave problema?
É mas resulta directamente do aumento do desemprego.
Não é o desemprego que resulta de não haver procura mas antes o contrário. O PIB  contrai por há menos pessoas a trabalhar.
Para se produzir é preciso capital (máquinas, instalações, patentes, etc.) e trabalhadores. Se diminue o número de trabalhadores, naturalmente que a quantidade que se produz vem menor.
E é exactamente isso que está a acontecer.
Apesar de o PIB estar a diminuir desde o tempo do Sócrates (3.º trimestre de 2010 até ao 4.º trimestre de 2012 diminuiu 6.8%), essa queda é completamente resultado do aumento do desemprego pois o produto por trabalhador está estável (ver, fig. 2).

 Fig. 2 - Evolução do PIB e do PIB corrigido pelo desemprego (dados: OCDE)

O nosso problema de crescimento nulo desde que entramos no Euro não é a produtividade por trabalhador (que aumentou 16%, cerca de 1.3%/ano) mas do aumento do desemprego (ver, Fig. 3).
A minha previsão (optimista) é que a legislatura acabe em 2015 com uma taxa de desemprego na ordem dos 19% a 20% para depois começar a cair com uma trajectória simétrica à que se tem observado desde 2008. Se assim for, por volta de 2017 ou 2018, o desemprego voltará aos 12.5% de 2010. E se tudo correr bem, em 2022 voltamos aos 8.5% de desemprego de meados da década de 2000.

 Fig. 3 - Evolução do desemprego (dados: OCDE) e a minha previsão

Seria possível termos uma menor taxa de desemprego?
Mantendo-se constante o PIB por trabalhador (ver, Fig. 2), quando o PIB contrai, o desemprego aumenta (ver na Fig. 4 os dados trimestrais anualizados de 2000-2012).

Fig. 4 - Relação empírica entre a contracção do PIB e o aumento do desemprego (dados: OCDE, 2000-2012)

Em fiz uma contas em 2011.
E fiquei muito pessimista porque, comparando com os outros países da UE que em 2009/10 levaram a cabo correcções da BC (Estónia, Irlanda e Roménia), o multiplicador da Balança Corrente no PIB era de 1.8. Então, a correcção do nosso défice das contas externas em 10% do PIB iria causar uma contracção do PIB de 18% e um aumento do desemprego dos 8.5% de 2008 para 25%.
Recordo que a Espanha e a Grécia já estão com taxas de desemprego acima desta minha previsão,  26.5% da população activa.
Pelas minhas contas, é notável termos conseguido corrigir a BC com um aumento da taxa de desemprego de 8.5% para "apenas" 16.9%, metade do incremento do desemprego conseguido em 2009/10 no ajustamento da Estónia, Irlanda e Roménia (e da Grécia e Espanha actualmente).  Se conseguirmos manter a taxa de desemprego abaixo dos 20%, será um ajustamento positivo.

Custa muito viver 9 trimestres seguidos de contracção do PIB (desde o 4.ºT de 2010) e haver um desempregado em cada 6 trabalhadores mas, comparando com outros países, a correcção da BC poderia ter sido acompanhada por uma contracção muito maior do PIB.

E porque o PIB contrai e o desemprego aumenta?
O comentadores que aparecem nos media têm uma visão keynesiana pelo que explicam o desemprego pela redução da procura interna não compensada pelas exportações (procura externa).

Mas o problema não é esse. O problema está do lado da produção.
Acontece que produziam-se bens e serviços que actualmente mais ninguém precisa de comprar (por exemplo, casas e auto-estradas) e outros bens e serviços intermédios que eram adquiridos pelo Estado e que não o pode fazer em tão grande quantidade por não ter dinheiro para os pagar.
Também uma grande parte da nossa economia se baseava nas vendas de bens importados pagos a crédito, por exemplo, automóveis e equipamentos. As restrições de crédito externo levaram à impossibilidade de importar esses equipamentos que pôs em crise o sector das vendas.

Nós produzíamos menos do que o que consumíamos.
Havia um grande défice  da balança comercial (as importações eram muito maiores que as exportações). Se produzíamos menos que o que consumíamos então, a redução do PIB não resulta da redução da procura interna mas antes da desadequação da capacidade produtiva (construção civil e vendas) às nossas actuais necessidades de consumo.


Depois, há o efeito multiplicador.
Por cada emprego que se perde nos sectores em crise (a construção civil e importações que eram financiados pelo endividamento externo), perde-se um consumidor no sector não transaccionável da economia (cafés, restaurantes, cinemas, cabeleireiro, etc.). Esta perda secundária traduz o efeito multiplicador do desemprego.
Se se perderam directamente 150 mil postos de trabalho na construção civil, perderam-se indirectamente mais 300 mil postos de trabalho no sector dos serviços.

As empresas não são flexíveis.
Uma empresa que produz um tipo de bens não tem capacidade para, observando a procura a reduzir, passar a produzir outro tipo de bens. Por exemplo, temos os Estaleiros Navais de Viana do Castelo há vários anos sem fazer qualquer navio ou reparação e nunca lhes passou pela cabeça fazer frigoríficos, máquinas de lavar, bicicletas, peças para automóveis ou outras construções metálica. Nem pensar.
Há máquinas, instalações, saber fazer que não se consegue alterar.

Os salários não são flexíveis.
A única forma de aumentar as vendas é reduzir o preço. Por exemplo, se um restaurante observa menos clientes, tem que baixar o preço das refeições.
Mas, uma empresa apenas pode reduzir o preço se houver uma redução dos custos de produção.
Como os salários não podem diminuir, as empresas têm que diminuir a actividade despedindo pessoas.

Fig. 5 - Mesmo com as reduções da Função Pública, os custos do trabalho ainda estão acima dos valores anteriores à crise do Sub-prime (dados: OCDE e BP)

E as exportações não podem substituir a procura interna.
Porque a procura interna era de construção civil e vendas e isso não serve para exportar.
Como para produzir mais bens exportáveis é preciso alterar a estrutura produtiva, o que leva tempo, as exportações não podem crescer mais que uma certa taxa por ano. Depois de algum tempo a crescer muito para recuperar a quebra de 2009, agora as exportaçõess voltaram à tendência de crescimento de 1.8%/ano (ver, Fig. 6).

Fig. 6 - As exportações voltaram à tendência (dados: www.ine.pt)

Fig. 7 - As exportações para a UE têm sido menos dinâmicas (dados, www.ine.pt)

E o futuro? Será que o desemprego vai diminuir e o PIB crescer?
Depende tudo da evolução dos custos do trabalho.
Para haver investimento no sector exportador, os nossas produções têm que ser competitivas face ao resto do mundo o que obriga a haver uma desvalorização dos custos do trabalho.
De 2010 para 2012, os custos do trabalho diminuíram 3.9% (ver, Fig. 5) e se caírem mais, o desemprego vai estancar. Era preciso haver, pelo menos, um congelamento em termos nominais dos salários para que a inflação pudesse desvalorizar os custos do trabalho.


Fig. 8 - Mesmo quando a coisa está preta, pode ser das boas.

Pedro Cosme Costa Vieira



domingo, 18 de novembro de 2012

Será a tal política de crescimento o BCE deixar de controlar a inflação? - I

Se o desemprego diminuir, naturalmente que o PIB aumenta.
Isto é um facto porque a produção, PIB, é conseguida com trabalho e capital. Então, quando mais pessoas trabalham (o desemprego diminuir), mais o PIB aumenta.
Ninguém tem dúvida nesta relação porque cada um de nós em nossa casa observa que se não trabalhar, nada aparece feito. Nem a comida se cozinha sozinha nem a louça vai para a máquina de lavar pelo seu pé.
Eu tenho as covinhas à volta do tendão-de-Aquiles pretas porque os pés ficam muito longe das mãos e eu tenho preguiça de os esfregar. Já experimentei deixá-los de molho mas não resolveu.

Fig. 1 - Ai que vergonha. Não olhe para os meus pezinhos que estão sujos.

O crescimento do PIB por trabalhador.
Motivado pela forma como o PIB é calculado, a inovação tecnológica (fazer os mesmos produtos com menor custo ou melhores produtos com o mesmo custo dos antigos) faz com que haja uma tendência para o PIB por cada trabalhador (a produtividade) crescer ao longo do tempo.
Pegando em dados da OCDE do PIB e divididindo pelo número de pessoas a trabalhar, (1-taxa de desemprego), vemos que o PIB por trabalhador português a trabalhar estava a aumentar 1.6%/ano mas teve uma quebra de tendência com a crise do sub-prime (ver, Fig. 2).

Fig. 2 -Evolução do PIB por trabalhador português (dados: OCDE, cálculos meus)

Então, a contracção o PIB que temos observado nos últimos anos (em no final de 2012 acumulará -6%), tem sido causado pelo aumento do desemprego e, apesar do processo de ajustamento, continua a haver melhoramentos nos processos produtivos (crescimento da produtividade de 0.40%/ano).

Esta evidência é muito importante.
Porque traduz que a consolidação orçamental não está a destruir o "processo produtivo".
Então, no processo de ajustamento do mercado de trabalho para a taxa de desemprego natural (uma redução dos 16.5% de 2013 para os desejados 5% de 2001-2002), o PIB terá um aumento de 83.5 para 95 (+14%). Se o ajustamento durar 5 anos, só pelo efeito da redução do desemprego haverá um crescimento potencial do PIB de 2.6%/ano (mais os 0.4%/ano da produtividade, dá 3.0%/ano).

E como estará a evoluir a Grécia?
É um processo ligeiramente diferente pois, desde que aderiu à Zona Euro, a produtividade aumentou muito rapidamente  e, depois de 2008, está em contracção 0.8%/ano (ver, Fig. 3).

 Fig. 3 - Evolução do PIB por trabalhador grego (dados: OCDE, cálculos meus)

E como estará a evoluir a Alemanha?
É um processo idêntico ao português mas ligeiramente pior. A produtividade aumentava ligeiramente menos que em Portugal e, depois de 2008, está estagnada (ver, Fig. 4).

 Fig. 4 - Evolução do PIB por trabalhador alemão (dados: OCDE, cálculos meus)

Se compararmos Portugal com a Alemanha, pertencer à Zona Euro tem sido, em termos de produtividade, mais positivo para a Portugal que para a Alemanha (ver, Fig. 5). O nosso único problema (e dos gregos que tiveram um desempenho extraordinário entre 2000 e 2008) é o desemprego no pós crise do sub-prime (ver, Fig. 6).

 Fig. 5 - Evolução da produtividade grega, portuguesa e alemã (dados: OCDE, cálculos meus)

E porque será que o desemprego na Alemanha diminuiu e em Portugal e na Grécia aumentou?

Fig. 6 - Evolução da taxa de desemprego grega, portuguesa e alemã (dados: OCDE, cálculos meus)

Até 2008, as taxas de desemprego em Portugal eram menores que na Alemanha. Nessa altura o Cavaco disse "apanhasse a Alemanha estar como nós" e com alguma razão. Mas desde então, as coisas alteraram-se.
Porque será?

Desde há 50 anos que há quem pense que a inflação resolve  o problema do desemprego.
Os autores clássicos (e.g., Adam Smith) pensavam que os governantes se deveriam preocupar com as questão de Estado (a guerra e a paz) e que a economia deveria ser deixada, com toda a liberdade, aos cidadãos.
Era o Liberalismo condensado na máxima de Adam Smith "Deixar Fazer, Deixar Passar".
Com a crise de 1929, surgiu Keynes que pensou, em 1936, que se o Estado aumentasse o investimento (e a despesa pública) durante as crises económicas, então evitava-se, em grande parte, a severidade da crise. A esta corrente dá-se o nome de keynesianismo.

Mas logo na altura surgiu o Hayek com uma critica que destruiu Keynes.
Para o Estado gastar mais tem que ir buscar esses recursos às famílias e às empresas com impostos ou endividamento, reduzindo o rendimento disponível das famílias e das empresas na exacta medida do seu aumento de despesa (ou investimento público). Para o Estado aumentar a despesa em 100€, as famílias e empresas têm que diminuir a sua despesa em exactamente 100€.
Então, os agentes privados vão contrair a procura na exacta medida que o Estado aumenta a sua procura sendo nulo o resultado final agregado.

É o Crowding-out.
Como o Estado é menos eficiente na afectação dos recursos escassos que os privados (porque não tem informação quanto aos gostos e preferência dos indivíduos), a intervenção do Estado leva (quase) sempre à perda de bem-estar.
Por exemplo.
No Sábado passado o Ricardo Reis disse no Dinheiro Vivo que seria positivo para os portugueses que as autarquias cobrassem mais impostos para subsidiar as obras nos centros urbanos mas isso é comunismo.
Se as obras não avançam é porque as pessoas não vêm que esse investimento aumente, em termos individuais, o seu bem-estar. Como não existe uma falha de mercado no sentido de Coase, as pessoas ficariam globalmente pior se essa medida avançasse.

Só deve haver impostos.
Para financiar actividades que esteja provado sem qualquer margem de dúvida que os privados não têm incentivos para as realizar e que sejam imprescindiveis para a sociedade.
Financiar parques públicos, na medida em que não é possível um privado sentir-se recompensado, é positivo (mas na medida certa).
Financiar transportes públicos ou portos é um erro total que apenas diminui o nosso nível de vida.

Cagan surgiu com a ideia de expandir a massa monetária.
Os keynesianos já estavam derrotados quando o Cagan veio em 1954 criar a ilusão  que, se o Estado financiar o aumento da despesa pública com a emissão de moeda, aparentemente não vai cobrar mais impostos nem endividar-se. Então, como aparentemente o rendimento disponível dos agentes privados não vai diminuir, a emissão de moeda leva, à primeira vista, a um aumento da procura agregada que faz aumentar a produção e diminuir o desemprego (o puxão keynesiano).

Como é o mecanismo de Cagan.
O Governo aumenta a quantidade de notas em circulação em 10% (correspondente a 1% do PIB).
Então, as encomendas do Estado aumentam em 1% do PIB. Como o rendimento das pessoas mantém-se, a procura agregada aumenta o que faz aumentar os preços qualquer coisinha, por exemplo, 1%.
Agora aqui está a questão fulcral. Como os trabalhadores não vão dar conta da subida dos preços, vão manter os salários . Então, o poder de compra dos seus salários fica diminuído. Alto que já está aqui a aparecer a redução do rendimento as famílias pela redução do poder aquisitivo dos salários.
Mas, a redução do salário real (o seu poder de compra) faz com que se altere as decisões de produção no sentido de serem contratados mais trabalhadores.
E mais contratações de trabalhadores, leva à diminuição da taxa de desemprego e a um aumento do PIB.

Mas é um erro.
O problema é que isto apenas aconteceria se as pessoas não soubessem que a quantidade de notas (e os preços) tinha aumentado. Seria necessário que os trabalhadores se deixassem enganar, reduzindo o seu salário real, para que o desemprego diminuísse e o PIB aumentasse.
É a ilusão monetária.

E se os trabalhadores não se deixarem enganar pela inflação?
Aí, provou o Muth em 1961 com o conceito de expectativas racionais, que o efeito do aumento da quantidade de notas em circulação é apenas um aumento dos preços (existe um crowding out total).
Mantém-se o nível de desemprego e do PIB.
Em particular, Kyndland e Prescott provaram em 1977 que o Banco Central é incapaz de controlar a economia (o desemprego e o PIB) usando variáveis nominais (a taxa de inflação).
Se os salários aumentarem 1%, o desemprego não vai diminuir nem o PIB vai aumentar pelo que, no final, os preços vão aumentar 10% (o aumento da quantidade de notas em circulação).

Os do PS e demais comunas.
Continuam a pensar que o povinho é mais burro do que eles e que, por isso, se a inflação aumentasse, todos os nossos problemas  económico ficariam resolvidos.
Já haveria dinheiro com fartura para essas empresas públicas que dão milhares de milhões de euros de prejuízo por ano e para as autarquias e Madeira gastar à tripa forra em tudo que não presta.
O PIB recomeçava a crescer, o desemprego acabava e voltávamos ao tempo do oásis.
Felizmente que nós não somos tão burros assim pelo que a inflação não resolve nada e só piora a situação.

Penso ter ficado claro
Que a inflação apenas resolveria o problema do nosso desemprego se os portugueses se deixassem enganar ficando com um salário baixo pensando que era alto.
Então, apenas nesse caso seria produtivo o BCE abandonar o seu objectivo de manter a inflação nos 2%/ano.
No próximo poste vou explorar as implicações de o BCE deixar de controlar a inflação (nos 2.0%/ano) e passar a controlar a taxa de crescimento do PIB nos 5.0%/ano.


Pedro Cosme Costa Vieira

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